terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O testemunho de Álvaro Ribeiro

Entrevista a Álvaro Ribeiro

«A historiografia do tomismo português foi interesse maior de António Alberto de Andrade, mediante dois estudos: A Sorte de S. Tomás de Aquino na Filosofia Portuguesa, e S. Tomás de Aquino no Período Áureo da Filosofia Portuguesa.

No primeiro estudo, Andrade considerou dois grandes períodos: até Pombal, e depois, o advento do neotomismo, seguindo um tanto o esquema de Ferreira Deusdado, pese embora o facto de algumas discordâncias, entre elas, a de não aceitar que os Cistercienses fossem de Portugal a Paris, ouvir as lições de S. Tomás. A documentação comentada é de molde a evidenciar maior actividade tomística nos Dominicanos do que noutras Ordens, e a mostrar a decadência da filosofia perene depois de 1772, com importantes sinais de recuperação na modernidade, mediante as obras de Alfredo Pimenta e de João Ameal. A tese de uma demora maior na introdução do tomismo em Portugal foi retomada pelo autor no segundo ensaio, em que sublinhou como, até 1280, o tomismo português teve menor significado em face da prevalência do augustinismo. Mesmo os séculos XIV e XV mostrariam ainda pouco aprofundamento tomista, embora no século XVI ele fosse notável, mediante actuação da Companhia de Jesus e das actividades contra-reformistas.

Importa assinalar que o Centro de Estudos Escolásticos se opunha também ao ideário da "filosofia portuguesa", proposto em 1943 por Álvaro Ribeiro, na forma pelo qual ressaltava da polémica na imprensa. Afinal, Álvaro Ribeiro retraía a fundação da filosofia portuguesa para Sampaio Bruno, com um canal de desenvolvimento por via Leonardo Coimbra, o que não era de todo simpático ao pensamento católico integrista. Na verdade, o autor de A Razão Animada reivindicava a presença activa das três escolásticas peninsulares (hebraica, cristã e árabe), o que não era aceite pelos escolásticos católicos, alguns dos quais mostraram dificuldade em admitir o pensamento de Álvaro Ribeiro que, não obstante, chegou a colaborar na revista Filosofia, mas com uma prevenção redactorial, aos leitores da mesma.

A redacção da revista mostrou-se obediente ao ensino ortodoxo da Igreja, testemunho do qual foi inserido mais de uma vez na publicação. Citam-se a transcrição do discurso de Pio XII ao IV Congresso Internacional Tomista (1955), sobre o tema "escolástica e ciência"; e, logo, a exposição de Honorato Rosa sobre as relações do magistério da Igreja com a Filosofia (1955). Não era à "filosofia portuguesa" que Honorato Rosa visava quando, numa correcta expressão crítica, afirmava que não se pode arrogar o título de filósofo cristão o que não respeita o tomismo, dado que a "filosofia portuguesa", se bem que não reivindique um tomismo como factor exclusivo e unicista, não se tem por completa sem o recurso às três tradições escolásticas hispânicas, em que o tomismo se inclui. O primado de Aristóteles, requerido pela chamada "filosofia portuguesa" teria de incluir o posterior recurso aos comentadores, isto é, a Maimónides, a Averróis e a Tomás. A revista possuía boas relações com centros escolásticos estrangeiros, o que se documenta na colaboração de autores de outros países, e de que nos apraz citar o contributo de José Abbá sobre o tomismo e o pensamento católico.

A investigação dos valores tomísticos portugueses prevaleceu no Centro, quase todos os colaboradores tendo assinado obra de pesquisa histórica, no domínio da filosofia. Sinal positivo foi, no contexto, o descobrimento do notável tomista Frei João de São Tomás, cuja personalidade tinha sido um tanto publicitada na Europa por Jacques Maritain, que, em 1940, apresentara uma comunicação ao Congresso do Mundo Português».

Pinharanda Gomes (in «A Filosofia Tomista em Portugal»).


1940: Comemoração do Duplo Centenário da Independência (1140) e da Restauração (1640). 

«Todos concordamos, comentando, que convém dar ao aristotelismo actual expressão técnica, científica e metafísica. O problema que aflige tradutores e comentadores dos textos aristotélicos consiste em responder satisfatoriamente a quantos negam a compatibilidade dos conceitos de Aristóteles com os conceitos da cultura contemporânea. Tal problema tem sido enunciado diversamente nas várias épocas históricas. A argumentação anti-aristotélica própria do nosso tempo encontra-se distribuída ao longo da obra polémica que Luís Rougier publicou em 1925 com o título de La Scolastique et le Thomisme, obra que deu motivo a réplicas notabilíssimas nos meios eclesiásticos e escolásticos. Um livro com mais de oitocentas páginas, recheadas de afirmações hauridas em boas fontes bibliográficas, um livro de erudição, poderá talvez parecer um requisitório incontestável; com critério selectivo de argumentos, demonstra apenas que nem sempre os escolásticos foram fiéis aos preceitos da metodologia científica de Aristóteles. Nada prova o livro contra a perenidade do aristotelismo. Se considerarmos o progresso das ciências nos séculos XIX e XX, se soubermos distinguir técnica, ciência e metafísica, não estranharemos que pensadores e filósofos continuem a julgar compatível com a cultura contemporânea a obra de Aristóteles. Em França, apesar da vida oficial do cartesianismo, reagiram contra a filosofia "moderna" pensadores aristotélicos tão célebres como Ravaisson, Boutroux, Duhem, Hamelin e Bergson. Se dissermos que as obras destes autores nutriam o pensamento de muitos estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, abriremos caminho para a interpretação do aristotelismo de Leonardo Coimbra. O génio deste filósofo superior, visionando a harmoniosa conciliação do realismo com o criacionismo, permitiu dar uma solução portuguesa ao problema escolástico, ante a qual se inclinam respeitosos os admiradores e os discípulos».

Álvaro Ribeiro («Aristóteles e a Tradição Portuguesa»).


«O tema solicita um discernimento prévio acerca do termo, "Filosofia Portuguesa". A sua extensão parece ampla, mas, na realidade, ele designa, indica e compreende apenas uma tradição filosófica específica. Este discernimento é necessário, em virtude da equivocidade ou ambiguidade do termo, uma vez que ele é peculiar e próprio de um movimento, que se baptizou, ou foi baptizado, com o nome de "Filosofia Portuguesa", o qual se apresenta como uma gnose esotérica, de transmissão convivencial e extra-institucional. Consideramos que esta gnose supõe o primado do pensamento pensante, sem prejuízo da consideração do pensamento pensado, que é também um pensamento situado, por força da intervenção da cultura na dinâmica do saber a construir; e com obediência à regra de que nem todo o saber depende da filosofia aquisitiva, por a toda a criatura ser dado um saber revelado, tanto na ordem natural como na ordem sobrenatural.

[...] Regra de ouro da "Filosofia Portuguesa" é a de não haver Filosofia sem Teologia, nem Filosofia substante sem Teologia que a justifique. E a Teologia fundada em Filosofia transpira para além do sermo teológico; pode exprimir-se melhor na Poesia. De onde a verificação de que a Teologia portuguesa atinge maior índice de encanto nos místicos e nos poetas do que nos teólogos propriamente ditos. O simbolismo especial da Teologia apela à mais alta relação do saber divino, mediante o saber poético.

Do ponto de vista da herança cultural, a "Filosofia Portuguesa" admite a presença interactiva de uma ordem trilógica, toda ela de oriente monoteísta e de formulação escolástica: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Do ponto de vista institucional o movimento requer um afastamento equidistante do positivismo agnóstico, do catolicismo ortodoxo e do ensino das instituições públicas, não obrigando a que a pessoa em que o filósofo reside faça profissão de inconfessionalidade. Mas o movimento apresenta analogia das suas nomenclaturas com as nomenclaturas da herança católica. O silente meditativo que é Álvaro Ribeiro advertiu-nos do segredo. Ele está plenamente convencido da compatibilidade entre "Filosofia Portuguesa" e "Filosofia Católica", e demonstrou-nos a continuidade de uma escola de apologia desde Pedro Hispano a Leonardo Coimbra. Por fim, garantiu que, apesar de tudo, o catolicismo de Guerra Junqueiro, de Sampaio Bruno e de Leonardo Coimbra, não oferece dúvidas, nem mesmo naqueles escritos que a disciplina eclesiástica considera negativos, heterodoxos, mesmo heréticos.


A tensão religiosa é predicativo da "Filosofia Portuguesa", que tem revelado uma infusão espiritual, com oriente em Aristóteles, Maimónidas, em Averroes e em Francisco de Assis, de onde o que se entende ser a vocação colombina dos pensadores de algum modo identificados com esta gnose, de carácter contemplativo, e especulativo, simbológico e aponoico, e oposta à escola material, por radicação na escola formal.

É num cenário de indecisão, na terra mais antifilosófica do planeta (a imagem é de Leonardo Coimbra) que o mundo se envolve na 2.ª Grande Guerra, em que o mesmo Portugal, optando por uma "neutralidade colaborante" emite certa indecisa sombra. Há, porém, uma atmosfera de valoração dos avatares atlânticos que, nalguns momentos, quase se concebem como antinómicos dos avatares germânicos. A inadequação da filosofia alemã à alma portuguesa já fora apontada por Leonardo Coimbra, quando ensinou que o "germanismo abafa sob o disfarce da cultura clássica" [Leonardo Coimbra, "A Insubsistência dos Valores Germânicos", in Atlântida, n.º 18, Lx.ª, 1917, pp. 434-439. Compilado in Dispersos, II, Filosofia e Ciência, Lx.ª, Ed. Verbo, 1987, pp. 103-109]. Sendo, por isso, uma filosofia insubsistente, destinada a uma constante sobreposição do naturalismo antigo e das mitogonias mátrias ao humanismo integral e à religião universal. Na época, "todos os discípulos de Leonardo Coimbra ficaram fiéis ao mestre no modo de conceber a filosofia como obra de antropologia, todos procuram defender o humanismo criacionista". António Ferro, adentro da sua "política de espírito", fundara a revista Atlântico, cujo secretário de Redacção era um escritor devotado à cultura popular e à psicologia nacional, José Osório de Oliveira.

Álvaro Ribeiro, que se transferira do Porto para Lisboa, tinha-se como portador do ideário da "Renascença Portuguesa", da herança leonardina e da problemática lusíada, tantas vezes suscitada por Sampaio (Bruno) e, enfim, da "Escola Portuense". Na mente de Álvaro Ribeiro estava a necessidade de influenciar a cultura do Estado Novo, a urgência de reformar a Universidade, e a convicção das vantagens de enunciar o problema da filosofia portuguesa. Otto Maria Carpeaux acabara de analisar as incidências do pensamento alemão em Antero de Quental e rejeitara a filiação anteriana ao idealismo alemão, sugerindo que Antero deve ser ligado a uma tradição portuguesa, porventura esquecida [O. M. Carpeaux, "Antero de Quental e o Pensamento Alemão", in Atlântico, 1.ª série, 3, pp. 38-41]. A tese do austro-brasileiro ajustava-se às políticas de António Ferro sobre o ideário português e o património cultural, mas ao sentimento do ideário não correspondia um adequado pensamento de razão. José Osório de Oliveira animou-se a envolver as novas gerações pensantes, e avançou com a ideia de um inquérito sobre a vida nacional. Álvaro Ribeiro, um cidadão marginal, discípulo de Leonardo Coimbra, sentiu-se desafiado, corria o ano de 1943, e respondeu ao inquérito de José Osório de Oliveira e postula: que a alma é uma garantia de liberdade, que pode enganar-se, que carece da luz da razão, e que urge que os portugueses pensem como portugueses. Propõe linhas de estudo: a identificação das constantes psíquicas, a determinação de uma filosofia da história, destinado a revelar o próprio português, e, por fim, a reformulação filosófica da Universidade como Estudo Geral, fonte de todas as ciências. A resposta de Álvaro Ribeiro estava apoiada no segredo que mantinha, e que era o de se encontrar a redigir um opúsculo em que se propunha abordar a questão capital da vida portuguesa, qual fosse a questão do ensino da filosofia nas escolas. Na ideia de Álvaro Ribeiro brilhava a imagem de uma "filosofia bárbara", portuguesa que seria, marítima, mas de todos os continentes. Bárbara por partir do zero, na medida do possível e por, em vez das nomenclaturas oficiais, exercer o direito de pensar em português, unindo Filologia e Filosofia».

Pinharanda Gomes («A "Escola Portuense"»).





«Encontra-se, por enquanto, desfigurada e desprestigiada a filologia. Não existe, em Portugal, uma Faculdade especificamente de Filologia. Há apenas Faculdades de Letras aglomerando estudos vários que reciprocamente se adulteram: - a filologia, a filosofia, a história e até a geografia, ao lado de outros estudos que, embora subsidiários e coadjuvantes, aspiram ao título, hoje facilmente concedido, de ciências autónomas.

"Letras são tretas", diz-se vulgarmente; e este dito teve já a consagração do escol, quando alguns escritores, ou letrados, compreendendo bem a anomalia universitária, se opuseram à multiplicação excessiva dessas escolas heterogéneas.

É sintoma alarmante de debilidade mental entre os portugueses o facto de se tolerar, contudo, a inexpressiva designação de letras para indeterminados estudos e actividades, quando se cobre de desdém ou de ridículo a filologia e os seus verdadeiros cultores.

[...] A conciliadora verdade é que a filologia não se define no estudo analítico da língua. A filologia percorre todas as expressões orais, escritas, ou de outro modo figuradas, em que se afirma o espírito de cada povo. O filólogo estuda a arqueologia, as artes plásticas, o culto, as instituições políticas, as ciências, a filosofia; o filólogo pretende compreender o logos, caminha do particular para o total, ou, melhor, para o universal».

Álvaro Ribeiro («Faculdade de Filologia»).


«Kant é vítima da sua idolatria científica, do deslumbramento duma ciência, quente da chama de glória newtoniana.

O seu caso é o mais notável da história, pelo seu génio, pela sua lealdade de pensamento, pela seriedade profunda da sua alma religiosa.

Mas é um prolongamento do cientismo exclusivista e absorvente, de que é vítima, embora na atitude já de prevenção e defesa.

O que já vimos para a filosofia contemporânea - o esforço de salvação das nossas liberdades aparentemente esmagadas pelos determinismos científicos - é já a ordem moral do pensamento de Kant: limitar a ciência para salvar a fé, riscar os horizontes do determinismo no fenómeno para salvar a liberdade no númeno.

De Kant dimana todo o construtivismo, por vezes até diluído em puro psicologismo, do pensamento posterior. Kant marca o ponto central do pensamento moderno e contemporâneo, é, pode dizer-se, a origem das coordenadas filosóficas do mundo moderno. O seu declínio é, no século XX, o declínio do mundo moderno numa perspectiva de insatisfação sem remédio, ou de reintegração da vida na catolicidade dum homem total: corpo, alma e espírito».

Leonardo Coimbra («A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre»).



«A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre é o mais significativo dos escritos extensos do período de transmutação. Obra vária e por vezes complexa, não é sempre fácil seguir através dela o essencial pensamento. A primeira parte é, especulativamente, do mais alto interesse; consiste a segunda numa aplicação e comentário da primeira.

"A tragédia do homem - começa o autor - está na ignorância de si e do Universo em que vive, ou antes, convive. A sua vida é uma relação, antes, um sistema de relações com esse Universo. A felicidade seria o acordo e a harmonia dessas relações, de modo que ao crescimento do homem em conhecimento e amor correspondesse o alargamento totalizante dessas relações e o seu aprofundamento significativo".

Todas as formas de pensamento pelas quais o homem pretende conhecer-se e estabelecer ligações com o Universo, podem receber a designação de "humanismo", visto que, antes de alguma coisa exprimirem, exprimem ao próprio homem e à sua situação cósmica e religiosa. O autor classifica as várias formas de humanismo sob as seguintes designações: humanismo idealista, humanismo cristão, humanismo antropolátrico, humanismo exaustivo.

O primeiro, que com Platão e Aristóteles precede o humanismo cristão, é apresentado no seu alto valor especulativo, mas também nos seus limites para a redenção eficaz e total. O humanismo antropolátrico e o humanismo exaustivo são apresentados, respectivamente, como consequência do cristianismo e como sua degenerescência.

O humanismo exaustivo é o último estádio do antropolátrico, estádio que o homem europeu está actualmente atingindo. Nele se encontram ténues e quase obliteradas as relações entre Deus e o homem e, consequentemente, entre o homem e a autêntica natureza. Já o filósofo não vê nesta, como via na forma anterior, o homem em suas profundas relações, deificando-se a si mesmo e aos seus mais altos atributos, mas exaurindo suas relações cósmicas e religiosas, deificando a mais extrínseca forma do seu ser, da sua acção e das suas obras. "Este humanismo de conquista, exaustivo de tudo o que não é o homem ou humano serviço, é a forma de vontade do cientismo técnico, como o foi do homem essencialmente mágico".

A segunda parte do livro, mais complexa, apresenta-nos a Rússia contemporânea como extrema e apocalíptica realização do humanismo exaustivo com suas titânicas seduções. Para esta realização se encontrava a Rússia mais predisposta por virtude de uma concepção transcendentalista vaga e pouco eficaz da religião. - O estudo do pensamento e da literatura profética russa vem a seguir como confirmativo da visão anterior. Profundamente atento às implicações metafísicas e religiosas que sempre a política supõe, Leonardo Coimbra mostra como a pequena influência da religião cristã na visão e no conceito de natureza, como também no direito e nas instituições sociais da Rússia, condiciona a dessacratização da natureza e do homem da estepe, sobre os quais, em sua desqualificada nudez, vai agir, com ingenuidade heróica e sombria, a técnica política cujo originário condicionalismo, por um grandioso paradoxo, como já dissera no livro sobre S. Francisco de Assis, Visão Franciscana da Vida, fora ainda o amor cristão.

O autor conclui, mostrando que as minoradas virtudes do homem social e o cientismo técnico jamais poderão constituir substituto eficaz da "caridade, que é o verdadeiro coração da justiça" e que o unanimismo social e a estatolatria jamais poderão constituir fim final para o homem».

José Marinho («O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra»).


Benozzo Gozzoli: Pregação de São Francisco aos animais e aos homens, 1452. Convento de São Fortunato, Montefalco.


O TESTEMUNHO DE ÁLVARO RIBEIRO

Introdução: o filósofo e o homem

Há meses, uma publicação francesa de nível universitário quis obter a colaboração de um filósofo português. Dirigiu-se à Universidade de Coimbra, pedindo o endereço do escritor. Dirigiu-se ao Instituto Francês de Lisboa. Dirigiu-se ao Ministério da Educação Nacional. Não obteve resposta de nenhuma destas entidades. A última carta foi parar à redacção de um jornal da tarde de Lisboa. Só assim a revista «Études Philosophiques», conseguiu entrar em contacto com Álvaro Ribeiro, que pôde então enviar os artigos e ensaios de filosofia que lhe pediam. Eis aqui uma anedota, infelizmente verdadeira, que simboliza com fidelidade a situação da cultura portuguesa em Portugal. De entre a plêiade de pensadores, já da sua geração já das gerações mais novas que, cada um a seu modo e segundo as linhas da sua problemática própria, estão criando em termos de actualidade a moderna filosofia portuguesa, Álvaro Ribeiro é sem dúvida alguma um dos que tem maior obra publicada. Esta obra não é constituída por artigos de revistas transformados em separatas, por recensões históricas em que as páginas de bibliografia são mais numerosas do que o contexto, por trabalhos de divulgação, crítica ou comentário ao labor alheio. Esta obra é uma obra de criação filosófica, de tal forma original, que não encontra equivalente na filosofia europeia contemporânea.

Bem certo que a filosofia de Álvaro Ribeiro surge como que encadeada a uma evolução do pensamento português, a partir de Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra e Fernando Pessoa. Bem certo que estabelece diálogo com as ideias de Aristóteles, Hegel e Bergson, de que colhe elementos e inspiração. Bem certo que aparece em Portugal nestes anos de meio século com estatura de algum modo semelhante à de um A. N. Whitehead na Inglaterra e de um Karl Jaspers na Alemanha, com eles formando, quanto a nós, a tríade dos pensadores actuais que mais longe levaram uma tomada de consciência filosófica anti-positivista e anti-metafísica e ao mesmo tempo mais empenhadamente mergulhado numa síntese trivalente das ciências antropológicas, cosmológicas e transcendentes.

Desde 1943 a 1957, desde «O Problema da Filosofia Portuguesa» até à «Razão Animada», Álvaro Ribeiro não penas amadureceu um método filosófico próprio, rigorosamente deduzido e apoiado numa extraordinária precisão semântica, como encontrou aquilo que tem faltado aos puros racionalistas de herança kantiana: os campos de aplicação do método. Tal como para Jaspers, para Álvaro Ribeiro a filosofia passa a ser, a partir de um dado momento lógico, isto é, da posse lógica de um método (este momento completa-se em A. R. com «A Arte de Filosofar»), a filosofia passa a ser a leitura de uma cifra. A história dos homens, a evolução da natureza e a manifestação da divindade, eis as linguagens cifradas, de que o homem comum apenas conhece a mentira exterior e que só o filósofo, tenso de cultura, de inteligência e de intuição, é capaz de interpretar com um pouco mais de largueza e de profundidade. Em vez dos intermináveis circunlóquios sobre o Ser, que constituíram a espinha dorsal da escolástica medieval e da metafísica alemã, a interpretação do Ser revelado, porém do Ser concreto ao alcance das faculdades de conhecimento do filósofo no seu ambiente, na sua circunstância ou em situação específica.

Pois bem: este filósofo que, sem ser um universitário de «prestígio» nem um escritor de fama, se vê hoje rodeado de discípulos atentos, vindos de todos os lados, estudantes de Direito, de Ciências, de Letras, de Medicina ou de Agronomia, escritores e artistas, que encontram nesta figura de intelectual modesto e quase tímido o que não lhes soube dar nem a Universidade nem a Cultura autodidáctica, este filósofo que ganha obscuramente a sua vida, - e a vida da sua família - como funcionário subalterno, mas ergueu já uma obra que, atravessando o seu momento de maior pujança, longe está ainda de concluída, é desconhecido dos funcionários do ensino superior ou professores universitários portugueses, que não ensinam a sua filosofia, que não citam o seu nome, que encobrem mesmo a sua obra.




Como é possível expandir a cultura portuguesa no Ultramar, no Brasil, no Estrangeiro, ignorando os maiores valores dessa cultura actual? Como é possível o «prestígio» de uma Universidade, quando ela está por completo desligada das fontes da nossa cultura moderna? Como é possível afirmar a autonomia cultural da nação, quando se divulga cultura unicamente passadista ou estrangeira? O que se passa com Álvaro Ribeiro, passa-se também com José Marinho, com um Manuel Maia Pinto, de que neste número de «57» publicamos colaborações inéditas. E passou-se com Domingos Tarroso, Silvestre Pinheiro Ferreira, Amorim Viana, Cunha Seixas, Sampaio Bruno e muitos outros. Quem pense portuguêsmente, quem ouse ter ideias próprias e não imitadas dos pensadores estrangeiros, assina desde logo um atestado de condenação social. Sem o ler, sem o considerar, sem o conhecer, a Universidade esconde-o e a Crítica repudia-o. Este é, com certeza, um dos mais graves problemas da cultura portuguesa no seu desejo de progresso e de afirmação autónoma. Assim ainda há poucos meses, a uma instituição cultural foi negado a autorização para realizar um ciclo de conferências sobre filosofia portuguesa!... Assim o nosso pensamento, julgado internacionalmente pelo nível das correntes positivistas e universitárias que aqui são ainda vigentes e aplaudidas, é sistematicamente desconsiderado e negado nos meios cultos da Europa, como na recente obra de Michele Frederico Sciacca, que depois de ter estado em Portugal onde foi recebido com todas as honras e onde frequentou meios universitários, se limitou a dedicar cinco linhas de ignorância e desprezo à nossa cultura nas novecentas e tantas páginas de texto de uma obra de fôlego!

Quando, em todo o mundo, se assiste a um vasto movimento filosófico, voltando a filosofia a conquistar aquele prestígio e aquela imprescindibilidade que anteriormente tinha tido sobre as demais correntes literárias, ao ponto de as mais correntes literárias europeias radicarem hoje numa criação filosófica correspondente - caso do existencialismo nas suas numerosas formas nacionais ou individuais - em Portugal combate-se ferozmente a produção de obras de filosofia que não sejam de mera apologética, de compêndio ou de história do pensamento alheio. A todos os intelectuais estrangeiros que nos visitam, a Universidade e a Crítica mostram desde logo o aviso: AQUI NÃO SE PENSA.

Aconteceu com Ortega y Gasset. Aconteceu com Julian Marias. Aconteceu com Gabriel Marcel. Quem são e onde estão os filósofos desta terra? Não há, respondem os cicerones: aqui não se pensa. Ainda há pouco, em artigo de fundo das páginas de Artes e Letras do «Diário Popular», o conhecido historiador inimigo da filosofia e de tudo quanto no plano da razão é português, Dr. João Gaspar Simões, se regozijava em termos de baixo humorismo, do facto de no suplemento literário do «Times», em ensaio sobre a cultura portuguesa actual, provavelmente escrito ou inspirado por portugueses, não haver a mínima referência à nossa filosofia ou, sequer a qualquer ideia original susceptível de dar carácter ou personalidade à nossa cultura. É com vaidade, com orgulho, com suficiência, com verdadeira alegria, que muitos escritores, críticos e professores, dizem aos quatro ventos, espalham constantemente pelo mundo em artigos, conferências ou entrevistas: aqui não se pensa. Aqui não há quem faça pensar.

A pressão, obsidiante, feroz, contínua, pesa sobre os ombros dos raros que não obedecem à injunção.

Álvaro Ribeiro tem-na sofrido em silêncio, porém caminhando sempre através de uma floresta de palavras ameaçadoras, de impedimentos de todos os géneros, de hostilidades dia a dia renovadas. Não faz sombra a ninguém. Não ataca ninguém. Nunca teve uma palavra de enfado para com os que lhe pretendem destruir a obra, como os historiadores Joel Serrão e Eduardo Lourenço, ambos no «Comércio do Porto». Afirma assim em acto um dos seus princípios intelectuais: reconhecer a todos os direitos da livre crítica. Mas a pressão não deixa de causar estragos, tanto morais como culturais. Entre muitos outros, o autor de «Apologia e Filosofia» contou-nos este caso, porque é dos que não se esquecem: durante quinze anos fez a sua compra de livros estrangeiros numa livraria que também é editora. Convencido de que merecia o respeito dessa firma comercial, propôs-lhe a edição do seu último livro. Foi-lhe respondido negativamente, não por motivos económicos, o que seria falso mas admissível, mas em termos de desprezo pelo seu labor mental. «Não interessa a esta casa editora os trabalhos de V. Ex.ª».


Saragago e Eduardo Lourenço

A desfiguração do seu pensamento por quantos pretendem diminuir o alcance da sua obra, pôr-lhe um rótulo desprestigiante e por assim dizer, «proibir» a sua leitura aos jovens a quem por esta forma se nega o acesso a formas superiores de cultura, é porém elemento mais grave ainda, neste processo desleal contra a filosofia. Assim a «Seara Nova» em Setembro de 1944, a propósito de um dos seus primeiros opúsculos, julgava deste modo um leitor e comentador de Hegel e Bergson, pensadores da actualidade: «O Senhor Álvaro Ribeiro passou por alto cinco séculos de história do pensamento humano, motivo por que o seu livro resulta necessariamente retrógrado». É através destas opiniões preconcebidas, aceites muitas vezes por ingenuidade, que nem sequer se procura comprovar com o estudo individual dos textos correspondentes, que em Portugal se abafam todos os sistemas livres de pensamento. Católico de fachada! Reaccionário! Fascista! Comunista! Anarquista! Ateu! O método não é exclusivo de qualquer campo. Infelizmente ele está divulgado entre nós em todos os sectores partidários sem distinção: sectores políticos, literários, religiosos ou até filosóficos. Assim se cortam as asas ao pensamento puro e livre, assim se pretende reduzir os homens superiores, ao nível do fanatismo ou do interesse.

No caso de Álvaro Ribeiro, como pode ser acusado de reaccionário um homem que tanto acredita na educação e na acção das gerações futuras? Como será reaccionário um filósofo que, nos seus escritos vem combatendo a pena de morte, a pena de prisão e todos os limites da liberdade humana? Que significado tomam as palavras excessivamente sobrecarregadas de sentimento e paixão, quando usadas em detrimento da dignidade da linguagem? Numa sociedade em que as palavras são de tal forma aviltadas e degradadas, dir-se-ia que as forças inferiores têm a primazia, dir-se-ia que o homem fica agarrado a um destino amargurado e trágico, na ilusão de que bastará resolver uma problemática económica ou social, para a conquista da felicidade. Mas uma das grandes lições de Álvaro Ribeiro, lição que os seus adversários particularmente gostam de escarnecer, é a do optimismo quanto às vicissitudes humanas, é a esperança nos homens, em especial da esperança no homem português e na filosofia portuguesa, cuja cinemática não é a da ontologia trágica, como sucede ao pensamento grego e germânico, mas a da antropologia epopeica, tendo como ponto de partida a encarnação do espírito e como fim superior a redenção dos homens no processo milenário do domínio livre do espírito sobre a alma e o corpo. Por que o caminho para o Bem não é possível - traduzindo-se actualmente Bem por dignidade económica, paz social, compreensão mútua e amável - quando os seus sulcos não coincidem com o caminho da verdade, através de todas as vias tradicionais, entendidas como ascensões nunca completadas, sempre prenhes de futuro, transformando-se incessantemente, unicamente válidas quando adaptadas do ponto de vista da liberdade individual, que são as ciências filosóficas, as artes e outras formas cifradas de conhecimento e de expressão.

A entrevista que oferecemos aos leitores de «57» não pretende sondar e expor a filosofia de Álvaro Ribeiro, porque o lugar próprio para tal indagação seria o livro e não o jornal de cultura, mas tão só perscrutar alguns dos principais métodos de acção que este escritor preconiza para que a potencialidade espiritual portuguesa ascenda à fase superior, a de acto, aquela de que, segundo Fernando Pessoa, os descobrimentos não foram senão um primeiro sinal. Mais do que a homenagem do «57» a um filósofo português, estas páginas representam um efectivo contributo para a nossa campanha de valorização e enriquecimento espiritual da cultura portuguesa.

O texto que a seguir se publica baseia-se nas notas tomadas pelo entrevistador durante a longa conversa que teve com Álvaro Ribeiro. Este texto foi revisto pelo entrevistado, que autorizou a sua publicação em «57».


A ENTREVISTA




Procurei Álvaro Ribeiro no escritório onde, durante as horas regulamentares, é um burocrata assíduo e cumpridor. Entre nós, os filósofos não têm categoria profissional adequada, como acontece com os historiadores, que podem viver a expensas de instituições. Quando não vivem de explicações para o liceu, como José Marinho, quando não arrastam uma existência de miséria, como Raul Leal, quando não se arvoram em empresários teatrais ou técnicos de cinema, como Orlando Vitorino, quando não procuram um emprego que teimosamente a sorte lhes nega, como António Telmo, gastam e perdem o seu tempo em repartições burocráticas, onde, quase sempre, as suas virtudes criadoras são desaproveitadas. Mas este é já um velho anátema, pensava eu ao lembrar-me do catalogador Raul Proença, enquanto aguardava o bater pontual das cinco horas para acompanhar Álvaro Ribeiro a uma esplanada da Avenida. Descemos a pé através das ruas íngremes desta cidade de todos os contrastes, até o dos altos e dos baixos, própria para a meditação do vazio, do irregular, do paradoxal, que constitui uma das características do moderno pensamento do concreto, contrário às generalizações e esquemas abstractos dos filósofos de um ciclo em vias de esgotamento. E a conversa nasceu espontânea, quase sem premeditação.


O ensino e a justiça

- Depois de «A Razão Animada», que parece fechar um ciclo, os seus leitores perguntam, Dr. Álvaro Ribeiro, qual possa ser o seu futuro livro. Eles têm notado, disse-lhe, dois aspectos na sua actividade de escritor: um mais directamente mergulhado no fluir dos acontecimentos e das instituições e o outro mais puramente especulativo. Dir-se-ia que exerce uma actividade propositadamente bipartida...

- Julgo que a minha acção é com efeito dupla, confirmou Álvaro Ribeiro com um sorriso: é pedagógica, por um lado; filosófica pelo outro. Toda a vida me preocupei com os sistemas de ensino, porque a todos considero obstáculos ao livre desenvolvimento do espírito humano...

- Todos são obstáculos?

- Inevitavelmente, porque o espírito é infinito, de essência individual, irredutível e os didactas pretendem reduzi-lo a um nivelamento que, de certo modo, o limita ou diminui. Mas com todos os seus defeitos, os sistemas de ensino são necessários dentro da orgânica social e por isso o grande problema para o pedagogista consiste em descobrir, ou em teorizar aquele sistema que faça menos mal, transformando os obstáculos em estímulos, em provas a vencer.

Ia a exprimir a minha concordância, quando Álvaro Ribeiro se deteve e, veemente, prosseguiu:

- Dos sistemas de ensino é que eu deduzo, com a mediação do tempo, os consequentes sistemas políticos e, além disso, a organização do mal que os homens fazem uns aos outros, por pensamentos, palavras e obras...

- Quer dizer: a injustiça, não é certo?

E, como Álvaro Ribeiro se calasse, disse, quase que só para mim:

- A justiça dependeria então do ensino... Um bom sistema de ensino prepararia homens mais justos, enquanto um mau sistema de ensino, isto é, um sistema que não procurasse limitar o mal...

Álvaro Ribeiro cortou a divagação:

- Bem vê, a Justiça não está ligada a um pragmatismo, mas directamente à verdade, porque ela é o conjunto das leis divinas. Deus verte sobre os homens a verdade, que por isso se diz universal. De Deus uno - e, é preciso não esquecê-lo, trino, - emana constantemente, incessantemente, a doutrina ou luz cujos raios ou razões os homens dizem não ver.


António Quadros


- Os homens bem procuram, Sr. Dr. ...

Numa transposição simbólica, Álvaro Ribeiro teve palavras de acusação, infelizmente verdadeiras no mundo contemporâneo:

- Porque erguem então os homens de hoje edifícios com o mínimo de portas e janelas, para que neles domine a treva, ou, pelo menos, a sombra? Esses edifícios limitam ou negam a luz. São os templos onde se diz a missa negra, essas casas onde se instalam a imprensa, a rádio, o cinema, a televisão, processos maquinais de limitar a verdade, antes de a transmitir; laboratórios de divulgação de verdades parciais, que equivalem a falsidades...

Tínhamos chegado a uma esplanada da Avenida. Em nossa volta discutia-se o futebol, a política, os negócios. Os criados andavam de mesa em mesa, sem expressão. O fluxo dos automóveis, pelos quais hoje se trabalha, vive e morre, marcava a presença da máquina. Só as copas das árvores e uma nesga de céu azul logravam transmitir uma sensação de pureza. A missa negra! As palavras de Álvaro Ribeiro, veladas, simbólicas, desconcertantes, soavam-me ainda aos ouvidos e pareceu-me então que estávamos rodeados de uma multidão de drogados. O futebol, a política, os negócios... Ao longe viam-se os cartazes berrantes de um cinema: «O grande bluff», com Eddie Constantine. A verdade, o bluff, quem se importa já em fazer a destrinça?

Sentámo-nos e a paragem na continuidade da conversa deu-lhe insensivelmente um outro rumo. Um assunto na ordem do dia, depois da polémica amável entre José Régio e José-Augusto França, depois do «57» e das tempestades que em sua volta se levantaram, é o dilema - falso dilema , quer-me parecer - entre o nacional e o universal. Pergunto a Álvaro Ribeiro, entre dois golos de um refresco:


A contradição do universalismo abstracto

- Um dos grandes argumentos - recentemente invocado em afirmações culturais de diversa origem contra a existência das filosofias nacionais e, consequentemente da filosofia portuguesa, é o de que o pensamento é universal... O que diz o Sr. Dr. sobre este tema?

- Compreendo e respeito o ponto de vista, mas não me é possível perfilhá-lo. A simples experiência quotidiana ensina que o universal é recebido pelo espaço e pelo tempo. Além dessas limitações naturais, históricas e geográficas, existem hoje limitações técnicas, artificiais, como o falso ideal de um absurdo humanitarismo abstracto, que alguns querem impor pela força, para substituir o ideal da fraternidade universal. Ora repare que até os irmãos são diferentes.

- E quem diz irmãos...

- ... diz raças. Para os que perfilham um abstracto universalismo, será uma contradição existirem as raças humanas e as raças serem diferentes umas das outras, o que implica necessariamente uma distinção entre superiores e inferiores ou, o que é o mesmo, mais atrasadas e mais adiantadas. E dentro das raças há os povos, com as suas características étnicas. Sabe qual é o melhor processo de combater a resistência das raças e dos povos, em vista a um qualquer totalitarismo?

- Diga, Sr. Dr. ...

- É negar-lhes o direito à existência, negar que verdadeiramente existam, negar a evidência. Ora a verdade é diferente deste paradoxo. Existem a etnografia, a etnologia e a antropologia cultural a confirmar uma verdade que resiste a todas as revoluções.


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E daqui passamos naturalmente à mais ousada e mais discutida das afirmações culturais de Álvaro Ribeiro.

- Quanto ao povo português, sei que a sua opinião desconcerta e perturba os sociologistas, que se baseiam sempre nos elementos mais aparentes e mais superficiais para extrair conclusões não apenas pessimistas quanto ao presente, mas ainda quanto ao futuro. Crê que ele tem simplesmente o direito de existir autonomamente ou vai mais longe?

- Vou mais longe, como sabe. Estudos etnológicos me levaram à convicção da superioridade do povo português... Alberto Sampaio, Martins Sarmento, João Bonança, José Leite Vasconcelos, Mendes Correia...

- Mas os sociologistas...

- Bem sei que a observação empírica não é favorável à minha tese. Que miséria fisiológica, a da nossa população!... Isto é hoje. Mas pelo estudo da genética e das ciências afins, cheguei a estar convencido de que, com a educação apropriada, o nosso povo revelaria muito depressa a sua congénita superioridade.

- Superioridade que, embora não sendo evidente, não é pois um mero arroubo lírico de filósofo messiânico...

- A este respeito, penso como Bruno, Fernando Pessoa, Pascoais... Mas quer uma prova dos malefícios do sistema educativo? Tenho observado que o aldeão é mais inteligente do que o cidadão, a mulher do que o homem, a criança do que o adulto, o analfabeto do que o diplomado com o curso superior. Porquê? Porque os pedagogistas ignoram a realidade dos sexos, porque o nosso sistema de ensino, composto por humilhações, exames e concursos, apenas estimula certo espírito de astúcia, reprime as tendências reveladoras de virtudes latentes na alma do povo. Latentes quer dizer que podem esperar até séculos pela revelação, como os grãos de trigo conservados nas múmias do Egipto.

A propósito da abundância de poetas líricos, disse-me várias vezes Leonardo Coimbra que o nosso sistema escolar faz cessar a evolução mental do português aos quinze anos. É verdade. Basta fazer a análise lógica dos compêndios escolares. Depois dos quinze anos tudo é ensinado a martelo, na intenção de reconduzir as novas e mais complexas noções aos esquemas da mentalidade pueril. Outrora, na Idade Média, o povo português atingiu o nível mental dos setenta anos, a tradicional sabedoria das barbas brancas. Estão as provas do que afirmo no folclore e na literatura.


Leonardo, Bruno e a Renascença Portuguesa

Os nomes citados levaram-me a pedir um esclarecimento:

- Muitas pessoas o consideram um discípulo de Leonardo Coimbra, que o Sr. Dr. há pouco citou...

Álvaro Ribeiro sorri e explica:

- É certo que fui aluno de Leonardo Coimbra, e também discípulo, como outros que em seus escritos prestaram homenagem de admiração pelo Mestre. O que me distingue deles e tornou possível o sentido da minha obra, foi o ensinamento suplementar de Aarão de Lacerda, com quem estudei arqueologia e história da arte, e o de José Teixeira Rego, com quem estudei filologia portuguesa e literatura portuguesa. A este Mestre devo a tendência para relacionar a filologia com a filosofia e o encontro com os últimos livros de Sampaio Bruno.

Comentamos:

- E de Bruno a Pascoais e a Pessoa...

- Sim, foi grande a influência do filósofo portuense sobre os poetas da Renascença Portuguesa...




Detenho-me no tema, que me é grato por ter sido pouco ou nada estudado:

- Tão grande que o pensamento e a poesia de Junqueiro, de Pascoais, e de Pessoa se tornam incompreensíveis ou, pelo menos sibilinos sem o estudo de Bruno. Para quem não saiba descobrir a influência da filosofia em toda a grande poesia - como a maioria dos nossos críticos literários, formalistas e sentimentalistas até à cegueira - bastaria consultar a este respeito o número que em 1915 «A Águia» dedicou ao autor de «A Ideia de Deus». Recordo-me das palavras que a seu respeito, quase religiosamente, escreveu Pascoais, dizendo que a sabedoria foi a qualidade suprema de Bruno (1). Quanto a Fernando Pessoa, a sua influência foi ainda mais profunda, não é verdade? Sabemos que há duas cartas, inéditas até à data, em que o poeta se dirige ao filósofo, pedindo-lhe conselhos de leitura, indicações bibliográficas e esclarecimentos quanto à sua filosofia messiânica. Estas cartas, ao que parece, serão incluídas num volume de cartas dirigidas por várias figuras da época a Bruno. Lembremo-nos, também, que Junqueiro dedicou a «Pátria» a Bruno, assim consignando a influência que os seus poemas deixam entrever.

Faço uma pausa e continuo:

- Bruno teve pois muitos continuadores, grandes poetas, escritores, filósofos como o Sr. Dr., que lhe retomaram as teses e as ampliaram, por sobre aqueles vinte e tal anos de indiferença pela filosofia e, portanto, pela verdade, que mediaram entre as duas guerras mundiais e foram dominados pela estética sem conteúdo da «Presença». A figura de Leonardo Coimbra, embora prematuramente desaparecida em 1936, salva esse período infeliz da nossa cultura. E os seus continuadores...

Álvaro Ribeiro corta-me agora a palavra, que eu aliás lhe usurpara:

- Não há, a bem dizer, um continuador da obra de Leonardo Coimbra. A sua eloquência foi fascinante, os seus livros são inimitáveis, o seu pensamento complexo, inconstante, transcendente.

Álvaro Ribeiro cala-se, absorto talvez na saudade, e eu recordo a obra dos mais conhecidos discípulos de Leonardo, um Eugénio Aresta, um Augusto Saraiva, um Sant'Anna Dionísio, um Adolfo Casais Ribeiro, um Delfim Santos, um José Marinho. Na verdade, enquanto alguns se desviaram da filosofia para a crítica literária, como Casais Monteiro, enquanto outros se deixaram seduzir pela miragem universitária, passando a historiadores e a expositores, como Delfim Santos, aquele de quem os condiscípulos e os contemporâneos mais esperavam o desenvolvimento das teses de Leonardo, José Marinho, depois de interpretar numa notabilíssima síntese o pensamento do Mestre, está a construir uma ontologia de tal forma original e autónoma, que de continuação não se pode em boa justiça falar. Digo:

- Tem razão. Mas afinal um Bruno, um Leonardo, um Pascoais, um Pessoa, isto é, o grupo da «Renascença Portuguesa» não constituirão excepções num ambiente que não os aceita na mensagem mais profunda do seu pensamento, que os repudia, que prefere citar com vaidade os nomes de escritores e filósofos estrangeiros, como possuidores, esses, da ciência que por completo nos falta, que age e pensa como se a verdade houvesse sido já encontrada, medida, pesada e exposta nos alambiques de Paris, Berlim ou Londres?

Álvaro Ribeiro replica com veemência:

- É minha convicção que pode dizer-se fechado ou concluído em 1950, o ciclo de desnacionalização começado em 1870. Toda a gente entende hoje que a independência política pressupõe a autonomia cultural. Se algumas pessoas repetem ainda as teses derrotistas da inaptidão dos portugueses para as actividades superiores da cultura e da vida do Espírito, tais pessoas mais não fazem do que repetir sem frescura e sem renovação o que está refutado, exercendo, não a razão, mas a vontade. Só os ignorantes ou os ressentidos repetem o passado...




- Mas do neo-realismo não se pode dizer que...


A geração neo-realista

Álvaro Ribeiro compreende o meu pensamento e esclarece:

- Trata-se na verdade de uma geração que valoriza o povo, crê e confia nele. Não é possível deixar de considerar uma acção que, através de revistas como «O Diabo», «Sol Nascente», «Mundo Literário», «Vértice» ou «Ler», ou de obras como a «História da Cultura», de António José Saraiva, «A História da Literatura» de Óscar Lopes e muitas outras, vale pelo que contradiz o pessimismo dos «Vencidos da Vida» até à «Presença». Somente não poderei deixar de objectar em todo este movimento, já o sectarismo por omissão de outros valores, já o seu nível filosófico, que o não deixa ultrapassar os problemas materiais e lhe impede, portanto, o caminho para a Verdade, em nome do Bem encarado como um absoluto.

- No entanto, o acontecimento cultural mais notável do nosso século foi a problemática da filosofia portuguesa e aos escritores que antes de 1940 negaram a sua existência custar-lhes-á fazer o desmentido. É certo que, tanto no século XIX como no século XX, se publicaram livros, se fundaram escolas, se deram outros acontecimentos relevantes. Mas, partindo do primado da filosofia dentro do complexo cultural, o instante decisivo é aquele em que surge a questão de saber se ao pensamento nacional corresponde ou não uma filosofia nacional... Infelizmente, um grande número dos nossos professores universitários, historiadores da filosofia, críticos e escritores negam «a priori» esta relação...


A irradiação da filosofia portuguesa no mundo

Álvaro Ribeiro responde, com um sorriso de tristeza:

- É certo, mas quem nega, não apenas a irradiação da filosofia portuguesa no mundo, como até a sua existência e valor, demonstra que não estudou o problema, que se limitou a repetir o que os outros disseram.

Insisto:

- Mas como se explica esta ignorância ou esta indiferença, da parte de pessoas que são ou deviam ser responsáveis?

Álvaro Ribeiro olha em sua volta, fixa os olhos por instantes nas árvores que generosamente dão a sua sombra às mesas, a esta hora da tarde e volta a olhar-me:

- Quando andaram no liceu, nunca ninguém lhes falou dos portugueses Pedro Hispano, Leão Hebreu, Pascoal Martins, cujas obras ainda não estão traduzidas em português. O efeito do liceu é decisivo. Nos três últimos anos do Liceu forma-se, reforma-se ou deforma-se a mentalidade. Uma vez admitidos nas escolas superiores, não mais pensaram senão em estudar as matérias para exame. Também nunca ouviram falar no Abade Faria e, se sabem que ele existe, foi porque leram «O Conde de Monte Cristo», de Alexandre Dumas.

Observo:

- A culpa não lhes pertence inteiramente...

- Inteiramente, não. No sexto e sétimo ano dos liceus não há curso de filosofia, ordenação sistemática de noções ou estudo de textos, mediante antologia. Não há, nem está publicada, uma antologia da filosofia portuguesa...

Trago ao tema a minha experiência pessoal:

- Pois se eu, nos cinco anos em que frequentei o Curso de Filosóficas, nunca ouvi, sequer, mencionado, o nome de Pascoal Martins, o fundador do martinismo, essa escola de pensamento que dominou a França e a Europa cultas... Pois se o nome de Pascoal Martins, citado por António Telmo no segundo número do «57» a propósito da influência da cultura portuguesa no romance francês, em Balzac, Dumas, Hugo ou Nerval, parece ter caído entre os leitores com uma surpresa e um espanto...

Álvaro Ribeiro afirma:

- A influência do português Pascoal Martins e do martinismo em todo o mundo culto deveria ser um tópico de meditação para os estudantes de filosofia.




Iluminismo, positivismo, hegelismo

- Além de tudo o mais porque, do martinismo para o iluminismo...

- Sim, o martinismo está relacionado com o iluminismo. Mas nem sempre se tem entendido o que verdadeiramente significa o iluminismo na sua mais alta expressão. É com a obra de Hegel, a meu ver, que ele atinge a sua maior pureza e profundidade filosófica.

Socraticamente procuro estimular o desenrolar desta ideia:

- É esse o motivo, sem dúvida, por que o Sr. Dr. em várias ocasiões tem afirmado que o estudo de Hegel é benéfico para a filosofia portuguesa?

Álvaro Ribeiro não hesita:

- Exactamente. Sou um estudioso de Hegel, o que não quer dizer que seja hegelista, ou hegeliano, como para aí repetem. Não está na índole do pensamento português, - da nossa lógica, aceitar as antinomias de Kant ou a dialéctica de Fichte, da qual derivou o marxismo. O pensamento sintético de Hegel é já de ordem superior. Simplesmente, em vez da oposição entre o ser e o não ser, nós, Portugueses, aceitamos a oposição, ou a relação da potência com o acto. A categoria da potência é a categoria do possível. De aí, o futurismo, o profetismo e o messianismo da nossa Idade Moderna. Desde o reinado de D. João V até ao reinado de D. Luís I, verifica-se o iluminismo da filosofia portuguesa. Em 1870 começa o positivismo, que é o seu contrário.

- Estou a lembrar-me da aproximação que o Sr. Dr. costuma estabelecer entre o iluminismo e aquilo a que chama, contra o significado corrente, capitalismo.

Com um sorriso, bem disposto, Álvaro Ribeiro desenvolve:

- A sua observação vem a propósito. O iluminismo tem por tese a possibilidade infinita do conhecimento humano. O positivismo, em qualquer das suas expressões, representa a antítese, denominando ou descrevendo os limites do conhecimento e a desistência do saber. Ora o capitalismo significa o primado da cabeça, da ciência e da inteligência nas actividades sociais ou, por outras palavras, o prémio concedido à actividade mental. Veja o simbolismo da coroa, do diadema, do chapéu, - de todas as formas e de todas as matérias, - significando a transição dos poderes mentais, e lembre-se das respectivas cerimónias.

Atento à simbologia, calo-me por momentos, procurando desenvolver e esclarecer perante mim o alcance desta verdadeira lição de filosofia portuguesa, antes de objectar:

- Mas não é essa a definição do capitalismo que podemos encontrar em Karl Marx, em Walther Rathenau ou em Werner Sombart e que hoje é mais corrente...

- António Quadros, uma das grandes preocupações do filósofo está em não se deixar induzir em erro pelas alterações semânticas. Passaram os historiadores a chamar «capital» ao dinheiro e aos instrumentos da produção e, consequentemente, chamaram capitalismo ao fenómeno da baixa ou alta plutocracia. Todavia a distinção permanece. A nossa legislação, que defende a iniciativa particular, está longe de condenar o capitalismo. Eis por que me parece ridículo, quem fala de conflitos entre o capital e o trabalho, ou da luta de classes, eis por que acho mal formulado o problema da respectiva conciliação. É falar fora do domínio dos conceitos, apenas com palavras, para oratória fácil em frente de assembleias adormecidas.

Ver aqui

- Eu diria drogadas...

E Álvaro Ribeiro continuou:

- O positivismo, combatendo o iluminismo, fez passar a chefia da cabeça para as mãos. Estabeleceu o domínio do mando, concentrou os poderes, preparou o socialismo. Veja o simbolismo das luvas férreas ou dos punhos de renda...

A cultura católica

Levantámo-nos. Era tempo de eu ir à Brasileira do Rossio, pois precisava de falar com alguns colaboradores do «57». Pedi a Álvaro Ribeiro que me acompanhasse. O crepúsculo começava a dar às folhas das árvores uma tonalidade acastanhada e melancólica. Os néons principiavam mais uma noite de artificial brilho e de falsa alegria. Caminhámos silenciosos durante alguns instantes. Já que falávamos de filosofia não podíamos deixar de fazer uma referência à cultura católica. Por isso deixando o resto da frase em suspenso.

- Quanto à cultura católica...

Álvaro Ribeiro respondeu, concentrado:

- A cultura católica faz-se em Portugal através de traduções. O exemplo típico é dado pela biblioteca «Filosofia e Religião», editado pela Livraria Tavares Martins, do Porto. Não nego o valor doutrinal das obras publicadas nessa colecção, mas observo que elas desviam a atenção dos leitores para problemas que não estão radicados na nossa cultura, ou omitem a respectiva problematização portuguesa. Considero esta desnacionalização nociva para os fins da apologética, isto é, para as relações da filosofia com a religião, ou, concretamente, para as relações da filosofia portuguesa com a religião católica.

- Mas diz-se que essa colecção foi fundada por Leonardo Coimbra...

O nosso entrevistado sorriu, encolheu os ombros e negou-se a responder...

Faço um reparo:

- Em Portugal existem, pelo menos, três revistas católicas de filosofia. Também elas, e não apenas os livros ou melhor, as traduções, são fautoras de cultura...

- É certo. Em todas elas, porém, se nota a falta de estudos portugueses. Ao menos por lealdade para com os leitores, para os informar devidamente, não deveriam omitir referências ao que se passa em Portugal: recensões de livros, notícias de centenários, exposições e congressos.

- De todas, qual lhe parece a melhor?

- Não falando na revista «Itinerarium», a excelente publicação cultural franciscana, que não pode ser considerada especificamente filosófica, ainda a melhor é a «Revista Portuguesa de Filosofia», de Braga. Insere, de vez em quando, recensões de livros de autores portugueses e já publicou números especiais sobre Pedro Hispano e Pedro da Fonseca. Diz-se que vai dedicar o seu próximo fascículo a Sampaio Bruno, cujo centenário do nascimento se celebrou a 30 de Novembro.

- Espero que o projecto não se perca...

- Álvaro Ribeiro comenta:

- Quer um exemplo de como a relação com a cultura portuguesa está ainda pouco arraigada no espírito dos nossos escritores? No fascículo dedicado por esta revista a Vladimiro Soloviev não há um único artigo sobre a influência do filósofo russo em Portugal, o que seria a justificação da homenagem. E no entanto a influência dele foi tão grande, que se nota nas obras de Bruno e Leonardo, como se verá quando um dia for publicada a tradução já feita, do livro de Soloviev sobre o amor.


Passámos em frente da Igreja de S. Domingos com a sua cruz mais alta do que os prédios pombalinos do Rossio. Que mundo de recordações!... Uma multidão agitada e apressada comprime-se no largo passeio, entregue a preocupações urgentes e imediatas. A entrevista está longe de findar, pois quero debater ainda com Álvaro Ribeiro alguns pontos importantes. Chegámos e eu pergunto:

- Entramos?

Vamos instalar-nos numa mesa do fundo, por sinal a mesma onde Fernando Pessoa teve uma das suas tertúlias e onde Pascoais e Leonardo Coimbra o iam procurar, quando vinham a Lisboa. Sentamo-nos. e eu desfecho, logo a seguir:

- E a renovação do tomismo?

- Do tomismo, ou da Escolástica?

- Do tomismo, repito.

- É um engano. Efectivamente, o magistério eclesiástico impõe aos professores dos seminários a obrigação de ensinar o tomismo e a obra de S. Tomás, que os clérigos se esforçarão por transmitir aos leigos. Mas o tomismo é uma filosofia do século XIII e da Europa Central muito diferente do nosso aristotelismo arábico e judeu -, que por isso mesmo, não pode ser assimilado pelos pensadores do nosso tempo e do nosso país.

Mando vir dois cafés, enquanto ao nosso lado continua a zumbir o eterno tema, o futebol. E Álvaro Ribeiro prossegue:

- Que acontece, então? Há uns intérpretes que se dedicam a mostrar a concordância de S. Tomás com uma filosofia perene, que vai de Aristóteles a Heidegger. Em vez de citar os filósofos que produziram as doutrinas, cita-se a sua tradução tomista, se possível em latim. É uma questão de fontes ou de citações. Tomista é, em suma, aquele que cita S. Tomás de Aquino.

- Em Portugal...

- Em Portugal nem sequer há tábuas de concordância. O nosso tomismo é franco-belga, um tomismo vergado ao preconceito da razão pura, mais próprio para cartesianos do que para aristótelicos, enfim, um tomismo sem filiação em Santo Alberto Magno. Não houve até agora um sacerdote ilustre que se desse ao trabalho de criticar, interpretar e traduzir, do ponto de vista tomista, a filosofia portuguesa, de Pedro Hispano a Leonardo Coimbra. Tal acontecerá, porém, dentro de alguns anos, a julgar por certos sintomas de interesse que não enganam.

- Sim, tenho lido alguns - bem raros, já sei - artigos de pensadores católicos em que começa a notar-se a referência à filosofia portuguesa, embora sobretudo com carácter histórico...

- Não há dúvida. Mas teria interesse e seria oportuna a publicação de um livro que fosse para hoje o que foi para 1924 a tão discutida obra de D. Manuel Gonçalves Cerejeira, «A Igreja e o Pensamento Contemporâneo». A apologética católica tem hoje aspectos muito diferentes em todos os países do mundo, mas em Portugal deram-se acontecimentos culturais que obrigam a uma revisão da doutrina. Depois do positivismo de Augusto Comte e dos seus sequazes franceses, divulgou-se entre nós o positivismo de Kant, Feuerbach e Marx, que alguns estudantes julgam ser materialismo dialéctico, e divulgou-se também o positivismo alemão de Husserl, mera teoria da descrição dos efeitos, com as suas consequências existencialistas. Três formas de positivismo em referência às quais teve de reagir a filosofia portuguesa. Haverá um sacerdote português, suficientemente culto, que possa escrever o livro da resposta à inquietação das novas gerações? Um livro que resolva enfim os problemas da nossa apologética? Um livro intitulado «À Igreja Católica pela Filosofia Portuguesa»?...




Do idealismo à personalidade de António Sérgio

A interrogação morre no ar e eu contemplo por momentos, pensativo, os espelhos e os ornamentos românticos deste velho e encantador café «fim do século». É a altura de regressar à cultura laica:

- E o idealismo, com as suas formas metafísicas? Não estará ainda vivo em Portugal? Um António Sérgio, por exemplo...

- António Sérgio por várias vezes declarou não ser um filósofo: talvez por modéstia, talvez para se livrar das responsabilidades de ter discípulos.

Interrompo:

- Por modéstia?

- Sim. Há muitas pessoas para as quais filósofo só pode ser um Platão, um Descartes ou um Kant, como se na Grécia, em França ou na Alemanha todos os pensadores fossem dessa nomeada.

- Compreendo a razão por que um António Sérgio recusa a qualidade de filósofo a um Junqueiro, a um Pascoais, a um Pessoa. Desculpe a interrupção.

- A figura de António Sérgio é muito respeitável, e tem sido respeitada por várias gerações. Pedagogista bem intencionado e crítico muito lúcido, tem denunciado muitos erros das nossas instituições, e especialmente do ensino público. Mas para além das instituições, ou antes das instituições, há o povo, as características étnicas que devemos respeitar, as preferências ideológicas e as tendências sentimentais, etc. Esta é que é a base tanto da pedagogia como da política. Ora neste campo, foram vários os erros de António Sérgio: minimizou muitas figuras da História de Portugal, desde D. Sebastião a Guerra Junqueiro, depreciou o romantismo, considerou vícios os reversos das nossas virtudes; não tomou a sério a psicanálise e o estudo do inconsciente, combateu o tradicionalismo e a tradição.

- Explica-se assim que tenha tido mais admiradores do que discípulos e sequazes; muitos, descontentes com o ensino e depois com o idealismo, passaram para o materialismo dialéctico.

- Entre os meus contemporâneos houve muitos admiradores do límpido racionalismo de António Sérgio, e alguns discípulos do seu idealismo de modelo matemático, mecânico e físico. A pouco e pouco fomos vendo, porém, que o racionalismo cartesiano limitava a liberdade, a liberdade infinita do iluminismo, do romantismo e do capitalismo, enfim, a liberdade atlântica da tradição portuguesa. Limitar a liberdade em nome da razão, da experiência, ou da autoridade pode ser uma condição política. Em filosofia, porém, a liberdade está garantida pelo futuro, e por isso dizemos que ela é infinita.

- No entanto, na obra de António Sérgio...

Álvaro Ribeiro antecipa-se e diz:

- A colaboração de António Sérgio em «A Águia», «Pela Grey» e «Seara Nova», bem como a colecção dos volumes de Ensaios, formam documentos indispensáveis a quem quiser estudar a actualidade cultural portuguesa e até mesmo a actualidade política. António Sérgio foi um mestre de gerações universitárias, superior a António Sardinha ou a Alfredo Pimenta...


- Está o Sr. Dr. a desvalorizar o «Integralismo Lusitano» pelo menos como obra cultural.

- Deixemos aos integralistas as suas ilusões de precursores e preparadores. O estudo da história um dia as dissipará. Aliás, já por demais tem sido feito o cotejo entre o classicismo de António Sérgio e o de Charles Maurras.

- Mas a filiação destes pensadores metafísicos em Kant parece garantir-lhes um primado no domínio racionalista.

- É que a razão pura e o racionalismo de tipo clássico, perderam precisamente a vigência depois de Kant. Não esqueço que no nosso tempo Edmundo Husserl pretendeu restaurar o ideal da fenomenologia pura, da filosofia pura e da razão pura, numa infeliz crítica aos pensadores britânicos. É ilusório pretender dissociar a razão, da alma e da fala; foi ineficaz a posição contrária ao psicologismo e ao gramaticalismo, ou filologismo. Sempre ressurge, vitorioso, Aristóteles. Vimos assim que a fenomenologia husserliana se dissolveu no neo-positivismo da Escola de Viena e no existencialismo de Scheller e Heidegger.


O existencialismo

- E quanto ao existencialismo, Sr. Dr.? Li o seu prefácio ao «Banquete» de Kierkegaard, onde se pronunciava sobre esta nova escola filosófica. Como sabe, pessoalmente tenho procurado desenvolver a relação do existencialismo com a filosofia portuguesa, particularmente através do estudo de filósofos como Unamuno, Ortega, Camus e sobretudo Karl Jaspers. Interessa-me especialmente, pois, a sua opinião.

- Do ponto de vista português, do modo por que foi acolhido, recebido e compreendido em Portugal, o existencialismo vale como um positivismo do sentimento a opor ao positivismo do pensamento. Abrir a filosofia à experiência do desespero, da angústia e do medo equivale a abrir nova era na arte de filosofar. Simplesmente nós, portugueses, já tínhamos um iluminismo aberto às noções de aventura, viagem e amor. A nossa melhor filosofia está nas nossas obras literárias. Muito devo aos estudos de «História da Literatura Portuguesa» que fiz sob a direcção do Professor José Teixeira Rego. Agora, os estudantes de filosofia nas Faculdades de Letras já não cursam História da Literatura Portuguesa!

Depois, o autor de «A Razão Animada» esclareceu:

- Concorre o existencialismo com a psicanálise e com a psicossomática para uma útil actualização da cultura portuguesa.

- Mas do sentimento, partem os filósofos existencialistas para conceitos mais abstractos...

- No seu aspecto trivial -, de gramática, retórica e dialéctica, o existencialismo obriga os pensadores portugueses a distinguirem os verbos ser, estar e existir. Isto afigura-se-me muito importante para a análise do juízo, que é um capítulo da lógica, aliás já tratado escolasticamente pelo Professor Miranda Barbosa. Quanto a mim, porém, aqueles três verbos determinam muito mais as zonas da teologia dogmática do que propriamente as da filosofia, e permitem a formulação de antíteses, numa discussão sem fim. Lembre-se do Não Ser de Hegel, do Nada de Heidegger, e do Néant de Sartre. A arte de filosofar opera com verbos activos, consciente de que na realidade não há contrários. Quanto mais concreta for a significação do verbo, mais alta será a filosofia.

Do iluminismo e do positivismo até ao existencialismo percorreramos um longo caminho. Podíamos agora retomar o tema apenas esboçado no início da conversa: a educação, os sistemas de ensino, a escolaridade em relação com o seu objecto, isto é, a cultura. Entretanto tinham chegado alguns dos rapazes do «57», frequentadores também deste café: o Orlando Vitorino, os olhos negros a brilharem-lhe de inteligência, vivacidade, uma ironia pronta ao sarcasmo, mas sempre prestes a transmudar-se na mais original visão das ideias ou dos acontecimentos; o Avelino Abrantes, com a sua camisola de gola alta, com a sua persistência alentejana, com os seus silêncios prudentes de quem só fala naquilo em que meditou, desfrutando umas curtas férias do seu serviço militar; o António Telmo, os olhos translúcidos de místico ou profeta, sempre corajoso no arrojo das suas opiniões; o Ernesto Palma, eternamente preocupado com a expressão política de um pensamento que não poderá aliar-se nem com a esquerda nem com a direita, mas antes pairar acima desse dualismo; o Chico Sottomayor, reservado e obstinado, estudioso e procurando captar o diálogo entre as ciências antropológicas e a filosofia; o Fernando Morgado, sereno e sorridente e calado, sempre com as mãos bem plasmadas na matéria arquitectónica, mas sempre a querer espiritualizá-la; o Afonso Botelho, examinando os problemas por todos os seus ângulos, a expressão aparentemente calma, mas o espírito sempre em processo de movimento e ânsia... Foi já com este público atento e silencioso, que a entrevista continuou:


Cultura e Escolaridade

- De que forma opina o Sr. Dr. que a Escola exprima a Cultura?

Álvaro Ribeiro replicou ao seu jeito de imprimir bem as suas palavras com a voz, com as mãos, com a expressão dos olhos, por detrás dos óculos, olhando agora para todos estes escritores de geração nova, já de posse de uma individualidade criadora em processo de afirmação ou de evolução.

- Não devemos confundir cultura com escolaridade e muito menos acreditar que só pela escola se realiza a educação nacional. É um erro tornar os cursos cada vez mais longos, e causa dó saber que há estudantes universitários com mais de vinte e três anos! Pouco me interessa averiguar por quantos exames um homem passou ou quantas certidões pode apresentar. Além da escolaridade, mais importantes processos de educação nacional me parecem ser a imprensa, a rádio, a televisão e por fim os desportos, que também são para ver de longe. Sim. A Direcção Geral dos Desportos bem poderia ser absorvida pela Inspecção Geral dos Espectáculos. Que museus, que bibliotecas, que arquivos frequenta o nosso povo? Como estão organizados estes serviços culturais nos municípios da metrópole e do ultramar? Haverá em cada casa algo que corresponda ao museu, à biblioteca, ao arquivo de família? As instituições de cultura estimulam ou dificultam as actividades espontâneas da grei? Este é que é o problema vivo, aquele que mais interessa e que se resolve pela observação das artes, desde as raízes étnicas até aos frutos mais elevados, quer dizer, desde o folclore até às obras dos homens superiores.

Digo por minha vez:

- Mas o nosso sistema educativo precisa de ser reformado, não é verdade? As próprias entidades superiores, desde Ministros a Directores Gerais, desde Reitores a professores o reconhecem e o têm afirmado em declarações públicas. Creio que a dificuldade está em encontrar as soluções ideais. É aqui que surgem as divergências. Os nossos leitores gostariam de conhecer a sua contribuição, que aliás está já implícita nos seus livros.


A reforma do liceu e da universidade

Álvaro Ribeiro não se fez rogado:

- Nos meus livros e em artigos que venho publicando sempre que posso. O último número de «57» transcrevia parte de um artigo meu sobre a reforma dos liceus...

- Mesmo assim, agradecia-lhe que...

- Já sabe: a entrada seria aos catorze anos e o liceu deveria ser fundamentalmente um curso de filosofia e de ciências auxiliares da filosofia. Duraria três ou quatro anos, mas pelo seu carácter propedêutico tornaria possível encurtar os cursos superiores.

Penso em voz alta:

- Quer dizer, eliminar-se-iam todas aquelas ciências chamadas enciclopédicas, relegando-se as de iniciação técnica para uma instrução primária ampliada. O liceu seria o grande momento para fazer desabrochar os espíritos, entregando-os apenas ao pensamento, encaminhando-os para a verdade. É bem certo que o liceu ensina o lirismo e, portanto, o egoísmo. Este é afinal a forma de desabafo e de protesto dos antigos alunos do liceu, sem cultura epopeica. E quais seriam as disciplinas fundamentais do liceu?

O autor de «A Arte de Filosofar» não hesita:

- A antropologia, a cosmologia e a teologia. Essa directriz seria ainda acompanhada das disciplinas indispensáveis à arte de ser português: língua, literatura, história, etnografia, direito. Enfim, um verdadeiro Colégio das Artes. Creio que, com esta habilitação, o estudante entraria já na escola superior com uma mentalidade livre, independente e criadora.

Comento por minha vez:

- Seria uma reforma completa - mas creio bem que estamos ainda longe de a conseguir, já que se inspira numa pedagogia derivada da filosofia portuguesa, que não obteve ainda infelizmente projecção social. Foi pensando nas dificuldades práticas de uma reforma tão profunda, que eu lancei a ideia de uma solução transitória, de um compromisso, o Instituto Central de Cultura Superior, centro de cultura português dentro da cidade universitária. Mas os verdadeiros filósofos não podem adoptar compromissos ou plataformas, como eu, que sou apenas um crítico e um escritor com preocupações filosóficas.




Álvaro Ribeiro sorri-se, tem com a cabeça um simpático gesto de negação e toma a iniciativa de continuar:

- Quando entrasse para a escola superior, já o estudante estava habilitado com algumas noções sobre a organização do respectivo curso e a deontologia profissional. Assim, nas Faculdades de Letras e de Ciências, como na de Direito, o aluno escolheria logo no primeiro ano o assunto da sua dissertação sobre problemas portugueses, trabalho a realizar durante o curso, e a publicar depois de aprovado. A lista de problemas nacionais ainda por resolver iria diminuindo de ano para ano, graças à contribuição de todos os estudantes universitários.

- Mas isso implicaria a redução das disciplinas universitárias, a par com uma maior liberdade cultural para o aluno...

- Certamente. A cada curso corresponderia um número mínimo de disciplinas, umas designadas por lei, e portanto obrigatórias, as outras escolhidas pelo estudante, de harmonia com os seus interesses, as suas tendências e as suas vocações.

Particularizo:

- Na Faculdade de Letras, a antropologia...

- ...corresponderia à autognose. Se a evolução da humanidade, o seu aperfeiçoamento e a sua redenção, não repercutem na Natureza e no Cosmos, então é falso o cristianismo. Eis porque a antropologia deve ser completada pela cosmologia...

- Mas dizem que a cosmologia se estuda nas Faculdades de Ciências...

- Deixe-os dizer. Uma antropologia sem uma cosmologia complementar seria um modo de negar as verdades inscritas no Novo Testamento.

- Então a teologia...

- Sem a teologia na Faculdade de Letras, não é possível entender as palavras e os símbolos da arte portuguesa. Mais valerá então, omitir as disciplinas da arte, tanto das artes da palavra como das artes plásticas, umas e outras simbólicas.

Respiro fundo e visiono a educação escolar que Portugal poderá vir a ter, para melhor aproveitamento das suas virtualidades espirituais. Recordo também um discutido artigo publicado pelo autor de «Os «Positivistas» sobre Associações Académicas no «Diário Popular», em 24 de Maio de 1956. Poucas pessoas souberam ler, mas apresentava vantajosas soluções para os estudantes portugueses. Mas nem só a escolaridade é educação, disse há pouco Álvaro Ribeiro. A conversa evolui sem quebra de continuidade.

- Há muitas formas de expansão cultural além da escola...

Álvaro Ribeiro compreende o alcance da observação:

- Sim, e todas elas, tanto as instituições de formação, constituição e criação, como as instituições de difusão e de divulgação deveriam estar subordinadas aos princípios da filosofia portuguesa, que é uma filosofia superior... À frente destas instituições, pensadores, escritores e artistas, em vez de burocratas estéreis ou estilizados pela passagem em tantos exames e concursos. Quanto ao critério da sua nomeação, depende do legislador estabelecer-lhe as condições.


A situação do escritor português e a acção cultural dos editores


Ver aqui


Daqui passa-se naturalmente para a situação do escritor português que tem sido objecto de uma sistemática campanha desenvolvida em «57» por vários dos seus redactores.

- Tem seguido os artigos do «57» sobre a situação social do escritor português, Sr. Dr.? Creio que, no que diz respeito por exemplo aos prémios literários, a sua opinião segue outro rumo?

Nesta altura chegou-se à nossa mesa um cauteleiro a oferecer lotaria. Passou-me pela cabeça uma observação de um camarada: «Portugal é o único país onde a lotaria não tem publicidade comercial, o que prova o optimismo e a esperança do nosso povo». Mas Álvaro Ribeiro falava já e eu tinha o maior interesse na resposta:

- Como sabe, há autores portugueses e editores, que se habituam a requerer aos ministérios a compra, para distribuição pelas respectivas bibliotecas públicas, de algumas centenas de exemplares dos livros que não conseguem vender. Por vezes, mediante a informação favorável, o ministro autoriza a compra do livro, e assim se concede um prémio literário, sem grandes aparatos de publicidade.

- Quer dizer que...

- Quero dizer que o verdadeiro prémio literário é a compra de exemplares do livro, tanto para benefício do editor e do escritor, como para valorização pública da obra.

Discordo da concessão de cinco, dez ou vinte contos a uma pessoa pela razão de publicar um livro óptimo, que permanece nas estantes da livraria com desespero do editor. Muito mais discordo que, essa pequena quantia de dinheiro seja concedida só a quem a pedir por requerimento humilhante, num antipático espírito de competição com os outros escritores.

Mudo de foco e aponto para os editores e a sua responsabilidade cultural, que nem sempre cumprem.

- Como solucionar a ausência dos editores na génese da cultura portuguesa?

- É triste reconhecer que o Estado deva intervir nestes assuntos, mas é verdade que muitas vezes temos ouvido dizer a editores que «só por um decreto» fariam isto ou aquilo, quer dizer, cumpririam a sua função cultural. E como «não há decreto que os obrigue a», procedem apenas em obediência aos seus interesses comerciais. Ignorando que determinadas obras possam ter procura, limitam-se a editar o que é de venda certa e rápida. É ou não verdade, António Quadros?

- Infelizmente, embora haja honrosas excepções.

- Estão inteiramente esquecidas, ou inteiramente desconhecidas, as convenções internacionais quanto às artes gráficas e à indústria do livro. Em Portugal não se cumprem, por falta de regulamentação. O próprio decreto n.º 13.725 de 3 de Junho de 1927, tão impreciso nos seus artigos essenciais, porque omite prazos e não designa os agentes, necessita de ser substituído por outro que corresponda à actualidade cultural portuguesa.

Todos nós, escritores, desta vez sem excepção, temos as nossas experiências editoriais, todos nós conhecemos as dificuldades de editar um livro original português, já que para as traduções o caso é diferente. É dessas experiências que parto, para dizer:

- Por outro lado, não está organizada a propaganda e, depois da propaganda, a divulgação do livro português por todo o mundo que o deseje, incluindo Portugal, o Brasil e os núcleos portugueses, que constituem oitenta milhões de possíveis leitores...


Álvaro Ribeiro


Álvaro Ribeiro afirma, em resposta:

- Isso é verdade, mas esse factor da inoperância dos editores, tratado com justiça no último número do «57» não é dos que mais me preocupam no aspecto da defesa da dignidade do escritor e da expansão da cultura.

- Diga, Sr. Dr...

- Mais me preocupa a tendência dos editores para publicarem escritos que não paguem: reedições, traduções, prefácios, etc... Nunca o Estado, quanto a mim, deveria reconhecer o não-pagamento dos direitos de autor, presumindo sempre a prévia existência de um contrato comercial.

Sorrio-me:

- Ah, um contrato entre editores e escritores... Quando o conseguiremos? É sem dúvida um ideal a atingir. Mas exponha-me as suas ideias a esse respeito, Sr. Dr., pois comprometo-me a levantar o assunto numa das próximas reuniões da Direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores, de que, como sabe, faço parte.

- É problema essencial, na verdade, o estabelecimento da obrigatoriedade do contrato escrito entre editor e autor, com expedição de uma cópia - e nunca de um requerimento -, ao Registo de Propriedade Literária. O selo fiscal, receita para o Estado, significaria o valor do acto comercial.

- E quanto às colaborações dos escritores na imprensa periódica?

- O mesmo critério, com uma única diferença: a substituição das cópias dos contratos singulares por mapas mensais, para facilidades técnicas de escrituração comercial.

- Levanto um problema final, pois a entrevista já vai longa:

- Que pensa da protecção aos originais portugueses, em face da invasão sempre crescente das traduções de livros estrangeiros, muitos dos quais sem nível cultural, sequer?

Álvaro Ribeiro é claro e decidido:

- Não me parece haver outro critério, senão o de exigir a reciprocidade, livro por livro, artigo por artigo. Não me compete dizer qual seria a entidade, o serviço ou o orgão que deverão verificar essa reciprocidade. Se os estrangeiros procuram, mediante a tradução em língua portuguesa, influir num público potencial de oitenta milhões de leitores, compete aos nacionais exigir que os outros povos conheçam e respeitem os verdadeiros preceitos do intercâmbio cultural.

- Mas qual a base dessa reciprocidade?

- Não falo evidentemente de igualdade, mas sim de uma percentagem a estabelecer. É este um dos preceitos sem a realização dos quais a cultura portuguesa não deixará nunca de ser dominada por outras culturas mais fortes ou mais bem organizadas, não iniciará nunca a fase de expansão que já merece e se pode radicar num bem visível movimento renovador de que «57», com a juventude dos seus colaboradores, quase todos da novíssima geração e muitos só agora nas suas páginas revelados, se nos afigura ser a mais moderna expressão e o mais forte arauto.

Agradeço em nome dos meus camaradas, as palavras finais de Álvaro Ribeiro. Efectivamente, à cultura portuguesa nos devotámos sem interesses e sem partidarismos. Será impossível encontrar no «57» o vestígio de qualquer compromisso de ordem social ou política. Outro título de glória não queremos, senão o de servir com sinceridade e devoção as causas da espiritualidade e da pátria, que para nós se confundem. Por isso é com júbilo que publicamos esta entrevista com Álvaro Ribeiro, que tanto valoriza o nosso presente número. Ela é, aceitem ou não todas as suas ousadas perspectivas, uma notabilíssima contribuição para a dinâmica progressiva de nossa cultura. Assim pensa, pelo menos, o entrevistador (Resposta a um Inquérito aos Pensadores Portugueses. Introdução e entrevista conduzida por António Quadros. In 57, Ano I, números 3-4, Lx.ª, Dezembro de 1957, pp. 6-9).

Novembro de 1957

ANTÓNIO QUADROS


Sampaio Bruno


(1) «Sampaio Bruno não tem nada com a Maioria. É um ser à parte, pelo que trouxe de alma e sabedoria ao nosso meio. Digo sabedoria e não ciência. Esta aprende-se facilmente nos livros; quanto àquela, poucos têm o segredo de a receber directamente das coisas e da vida. É um dom essencial que põe o indivíduo em íntima confidência com as verdades superiores escondidas na mentira das aparências. A sabedoria foi a qualidade suprema de Bruno, que se torna assim numa figura quase religiosa, intérprete dos sonhos do homem, enviada à nossa dolorosíssima ansiedade». «A Águia» - N.º 48 - Dezembro de 1915.