quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A Arte de Continuar Português (iv)

Escrito por António Quadros








Nesse dia [25 de Abril] do ano de 1974, um golpe de Estado militar alterava pois drasticamente o rumo histórico nacional, tomando o poder com o duplo objectivo expresso (Programa do MFA) de restaurar a democracia e de promover a auto-determinação do Ultramar português.

Mas em 28 de Setembro do mesmo ano, com a resignação de Spínola e com a ascensão do sector revolucionário e marxista do Movimento das Forças Armadas, principiava a desfiguração daquele Programa inicial e começava a eliminação pessoal dos partidários da auto-determinação referendada e da democracia pluralista, lançando-se ao mesmo tempo uma operação de lavagem ao cérebro do povo português ou de agressão ideológica maciça, de proporções entre nós nunca vistas.

Em 11 de Março do ano seguinte, no seguimento de uma estratégia já experimentada com êxitos noutros lugares, como a Checoslováquia e a Hungria, o mesmo grupo em fusão, assenhoreando-se dos postos-chaves do Governo, das Forças Armadas e dos Meios de Comunicação Social, estabelecia os fundamentos da Revolução comunista e do Estado totalitário, criando uma força policial-militar de repressão, o Copcon, encerrando os Partidos e os jornais sumariamente classificados de reaccionários e fascistas, efectuando prisões em massa sem culpa formada, realizando vertiginosamente a nacionalização de toda a Banca e das principais empresas e unidades industriais, precipitando ocupações de terras no Alentejo, criando unidades colectivas no modelo dos Kolkozes russos, organizando por todo o lado sovietes ou comissões de trabalhadores, de moradores, de soldados, de marinheiros, etc., ao mesmo tempo que lançava uma ofensiva de grande estilo contra a democracia «burguesa», aconselhava ostensivamente o voto em branco nas prometidas eleições para a Assembleia Constituinte e mais tarde deixava que os deputados fossem sequestrados dentro da própria Assembleia, por uma multidão manipulada e bem enquadrada.

Tudo isto foi possível devido à erosão do regime anterior, como já sublinhei, nomeadamente devido à despolitização, à impreparação e à inocência intelectual da maioria dos portugueses, ao que é preciso acrescentar os complexos de culpa, o oportunismo e o medo de muitos dirigentes políticos e militares que, não sendo comunistas, fizeram contudo o jogo comunista, tornando-se assim cumplíces conscientes ou inconscientes de uma tentativa totalitária que ia destruindo completamente o país e cujos efeitos foram de qualquer modo catastróficos. Efectivamente, numerosos foram os socialistas liberais, os sociais-democratas, os tecnocratas, os funcionários públicos, os cristãos-progressistas e os oficiais da Forças Armadas ontem conservadores, liberais ou patriotas, que aceitaram de braços cruzados ou até sancionaram uma política de terra queimada destinada patentemente à colectivização do país, à instauração de uma ditadura do proletariado e a uma descolonização sem referendo, sem garantia dos interesses portugueses e sem quaisquer concessões aos nossos colonos e assimilados, esses que mais tarde foram compelidos a fugir em massa das terras que desbravaram, das plantações que semearam e das cidades que edificaram, num dos êxodos mais pungentes e aviltantes da história contemporânea (ob. cit., pp. 30-32).


(...) de um 25 de Abril sem consenso geral

Fui dos que saudaram no 25 de Abril a devolução do país à liberdade democrática, depois da ilusão absolutista que muitos com sinceridade julgaram salvadora; e dos que, em plena fogueira da tresloucada tentativa totalitária gonçalvista, procuraram guardar a cabeça objectiva, distinguindo o trigo do joio, isto é, a libertação real, da nova ameaça à liberdade que a queria usar. Testemunha-o inequivocamente o livro que escrevi no verão de 1975 e que só pôde ser publicado nos princípios de 1976.






Não é possível contudo esquecer que a intenção democrática do 25 de Abril de 1974 foi interrompida desde que Vasco Gonçalves substituiu Palma Carlos e depois de Costa Gomes ter tomado o lugar de Spínola, só vindo a ser retomada a 25 de Novembro de 1975 e confirmada pela tomada de posse, em 1976, do Presidente da República e do Governo Constitucional, livremente eleitos pelo povo. Fundamentais foram estas rectificações, redimindo in partibus muito do que entre nós se fez de criminosamente anti-português após o 28 de Setembro e sobretudo após o 11 de Março. Mas não se esqueça que, se homens do 25 do Abril emendaram a mão, outros homens do 25 de Abril, e em nome do 25 de Abril, fizeram uma descolonização irresponsável, levaram a guerra civil a Angola e a Timor, propiciaram a entrega de Angola, Moçambique e Guiné ao domínio dos cubanos e dos soviéticos, bloqueando deste modo o que poderia ter sido (e será, estamos certos) uma continuidade lusa em África em moldes não-colonialistas, destruíram a nossa economia, desbarataram as reservas, desacreditaram o Estado, comprometeram a vida de quase um milhão de desalojados das suas casas, dos seus meios de subsistência e das terras onde muitos deles nasceram, e acabaram por criar entre nós um clima de guerra social e permanente e de bloqueamento político-económico que continua a pesar esmagadoramente sobre as tentativas do actual Governo, do Presidente da República e dos Partidos democráticos, para restaurar a saúde do país.

Quem indicou o 25 de Abril para novo Dia de Portugal não poderia nem deveria ter-se alheado do reverso da medalha!

É que demasiados problemas arrastamos connosco e nos estão a destruir, herdados desse outro 25 de Abril, do lado falso e falsificado da moeda; é que demasiadas chagas estão ainda abertas; é que demasiados sofrimentos continuam a afligir, não poucos, mas milhões de portugueses - sofrimentos físicos, psicológicos e morais, que não seria de bom augúrio ignorar ou desprezar; é que, numa palavra, não há um consenso geral acerca do 25 de Abril, e seria isso o bastante para desaconselhar a sua escolha para a data de um ritual cívico dedicado a todos os portugueses. Estas palavras são desagradáveis e parecerão importunas. Mas digo-as de um ponto de vista não só patriótico, como também democrático. O Dia de Portugal terá de ser o dia de todos os portugueses e não só de alguns. Podia sê-lo o 10 de Junho; não o é contudo o 25 de Abril.

Quais foram na verdade, para muitos, as consequências da «Revolução dos Cravos»?

A instauração da liberdade e da justiça, o que se está em vias de obter mau grado os incidentes do percurso, dirão os seus defensores incondicionais.

Não falta no entanto quem - e até intelectuais responsáveis - considere ter sido o 25 de Abril uma data catastrófica da história portuguesa, senão aquela que veio colocar o país num lugar de parente subalterno da Ibéria ou da Europa.






Para o malogrado e insuspeito Amorim de Carvalho, por exemplo, ela trouxe o fim histórico de Portugal, título do seu livro póstumo, recentemente publicado; o mesmo parece pensar Jaime Nogueira Pinto, no seu «Portugal, os anos do fim», ao escrever que «a grandeza parece ter-se perdido de vez, neste suicídio colectivo que hoje começamos a compreender»; pensa por seu turno Orlando Vitorino, embora por razões diferentes, na sua «Refutação da Filosofia Triunfante», que «o povo onde tudo isto aconteceu pode dar-se, com o que aconteceu, por dissolvido em sua existência histórica».

Quanto aos iberistas, a principiar por Oliveira Marques, que o vem repetindo insistentemente, só o Ultramar permitia ainda a independência portuguesa. «Com os seus 89.000 Km2, situado nos confins da Europa», pode ler-se no «Manifesto ao País», da Liga Iberista Portuguesa, divulgado em 1976, «Portugal deixou de ser um Estado visível no mundo civilizado moderno».

Será preciso continuar a fazer citações no mesmo sentido? «Portugal acabou», «Portugal está dissolvido», «Portugal não é viável»: a falta de consenso sobre o significado histórico do 25 de Abril, de tão flagrante, nem careceria aliás de demonstração (ob. cit., pp. 166-168).


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