segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Juízo Final (iv)

Entrevista a Franco Nogueira






As duas questões que se seguem, no decurso de uma entrevista feita a Franco Nogueira em Londres (1976) e publicada no jornal Expresso, foram formuladas pela jornalista Maria João Avilez.

- Como definiu as grandes linhas que orientaram a sua política? Disse-me uma vez que, no que dizia respeito ao Ultramar português, as vicissitudes eram as mesmas, apenas a nomenclatura ou os pretextos mudavam, segundo as épocas e as ópticas?

-Desde que Portugal sentiu necessidade, para sobreviver, de procurar pontos de apoio para além do continente europeu, e a partir do momento em que perdeu a sua força militar para manter exclusivamente através dela esses pontos de apoio, e quando outras nações europeias se lançaram também na expansão ultramarina, Portugal passou a ser, ciclicamente e através dos séculos, vítima de ataques. Esses ataques eram sempre cobertos por uma ideologia que justificava os imperialismos das outras potências em relação aos territórios portugueses. Chamou-se em primeiro lugar a liberdade dos mares; depois vieram as doutrinas do anti-esclavagismo (repare que não estou a defender o esclavagismo, aliás praticado por todos e não só por Portugal, mas a dizer que, por detrás de uma posição, evidentemente sã, manobravam grandes interesses políticos e materiais), das esferas de influência, dos mandatos, da autodeterminação, etc. Em todos os momentos, fomos atacados. Sempre com o mesmo motivo: Portugal em África era um embaraço à política alevantadamente idealista das grandes potências. Tudo foi sempre a capa ideológica e a concepção doutrinária que permitiu mascarar a intervenção das grandes forças internacionais e dos grandes impérios para restabelecerem, à custa dos mais fracos, um equilíbrio que dificilmente encontram entre eles próprios. E é evidente que, dada a importância e a posição dos territórios ultramarinos portugueses, as cobiças por eles suscitadas eram imensas, e não poderiam ficar imunes à planificação que esses próprios impérios faziam dos seus objectivos mundiais. E era desta realidade que a mim me parecia importante que os Portugueses se tivessem apercebido. Tratava-se de mais um ciclo de ataques e de críticas como nos séculos passados. A História não muda tanto como se pensa. Creio que já alguém disse que o que muda são as perguntas que nós fazemos à História.

- Não considera então que a descolonização feita pelo 25 de Abril pode, de algum modo, ter sido um efeito, uma consequência de nada estar preparado, de nunca se haver avançado um passo, de sempre se terem defendido as mesmas ideias, e da mesmíssima maneira? (1)

- Preparado - Como? Avançado um passo - em que sentido? Era esse o erro: haver em alguns a ideia de que se poderia avançar um passo ou dois, e depois parar quando se quisesse. Bem vê: se na conjuntura que era a da época se avançasse um passo, só poderia ser no sentido do que os interesses alheios pretendiam. Pensa que eles se contentavam com um passo apenas? Suponha que se declarava que ia ser dada independência a Angola e a Moçambique dentro de dez anos, ou mesmo dentro de cinco. Diga-me uma coisa; acha que as Nações Unidas, a União Soviética, os Afro-Asiáticos, iam cessar os ataques e ficar silenciosos e quietos durante esses anos? Sinceramente, alguém pode achar isso? Não vê que a pressão feita para que se declarasse a independência seria transferida para o encurtamento do prazo? E não se vê que o simples anúncio de uma nova política cria logo a velocidade dessa mesma política? Bem sei: alegavam-se os ventos da história, os exemplos inglês ou francês, os novos Brasis que se poderiam fazer de Angola ou Moçambique, etc. Em relação ao primeiro ponto, há que ter em atenção não haver qualquer analogia entre a situação portuguesa e a da França e da Inglaterra. Porque a França e a Inglaterra são grandes potências, com grandes recursos financeiros, económicos, técnicos, científicos, industriais e militares. O que lhes permitiu realizar uma descolonização em nome da autodeterminação, que foi apenas uma tentativa de reconversão da soberania própria. Reconversão que incidiu sobre dois pontos: o primeiro foi que, pela sua capacidade económica, técnica, militar, etc., a França e a Inglaterra estavam em posição de descolonizar e poder continuar a ser, para esses povos, centros de atracção como eram anteriormente. E essa mesma capacidade política, e essa força de que dispunham os dois países, permitiam-lhes evitar que terceiros se substituíssem à França ou à Inglaterra na influência dos territórios. Portugal não era a França nem a Inglaterra. E era muito claro que uma vez quebrados ou enfraquecidos os laços políticos, todos os outros laços desapareceriam. Muitos pensavam que se poderia fazer uma descolonização mantendo os laços económicos e financeiros e culturais. Como se as grandes forças internacionais que nos atacavam estivessem interessadas, graciosamente, em permitir a Portugal que mantivesse esses laços económicos e financeiros, e outros interesses, aliás legítimos, nos antigos territórios ultramarinos. Era uma pura ilusão. Quanto ao segundo ponto: a ideia de que Angola e Moçambique eram semelhantes ao Brasil. Por que não fazer destes territórios novos Brasis? Esquecia-se este pormenor: a independência do Brasil tinha sido feita pelos colonizadores, a independência de Angola e de Moçambique só seria legítima no plano internacional quando feita exclusivamente pelos colonizados. Ou então teria de se dizer que a independência de Angola e de Moçambique deveria ser dada aos brancos, fazendo daí duas Rodésias. Parece que não era isso também que a comunidade internacional desejaria. Nem essa solução estava na linha ideológica da política seguida: a construção de sociedades multirraciais não era uma ideia vã, nem artificial (in Juízo Final, p. 21).






(1) Entre esta pergunta e a anterior, foram feitas pela jornalista numerosas outras. Quem o desejar pode ler o texto integral da entrevista no (...) volume Entre Palavras.

Continua


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