sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O drama do universitário (ii)

Escrito por Afonso Botelho






O culto do diploma

1. «(…) A Universidade confirma hoje as situações mais rendosas do País e também, o que é mais grave, as situações dos remediados e menos que remediados, visto que, para os lugares de privilégio e para o sustento da classe média, é exigido o beneplácito dos professores universitários através dos diplomas de acesso. Esta sujeição constitucional duma pátria a uma instituição, contribui primordialmente para a adulteração do princípio de finalidade na convivência dos portugueses».

2. «A classe dos Professores Universitários não é renovadora da Universidade, mas a cada momento confirma o seu comprometimento no declínio progressivo e efectivo da instituição e de tudo o que ela representa».

3. «A relação paterna, protectora, e iniciadora na sabedoria da Natureza e da Família, fica inteiramente negada na Universidade, onde o aluno, é determinado, pela lei e pela mentalidade universitária dominante, como elemento do mundo dos seres da Matemática, como algo morto e estático, que não se move, não sofre e não opera. Para o professor universitário, que ordena a Universidade, a acção estudantil é o oposto da noção de enteléquia, é o contrário de obra e de fim. Torna-se por isso contraditório que o estudante possa ter um fim próprio a atingir ou uma obra pessoal a realizar. A única operação que se lhe atribui é a da adição, através do dever de somar os valores necessários à obtenção do diploma».

4. «O monopólio do trabalho ou do diploma, que é a autorização de trabalhar, intensificou-se cada vez mais nas mãos das Faculdades, animicamente agonizantes – até matar, em alguns casos, a última réstea da liberdade de estudo».

Catedratismo

1. «O catedratismo é uma doença generalizada entre nós, em todos os meios e em todas as instituições. Porém, a sua origem permanente e genérica está na Universidade».

2. «Os dois sintomas que apresenta, na vida social – o imobilismo e a eminência – são exactamente a reprodução dos aspectos mais salientes da posição catedrática. De resto, o catedratismo social define-se também como posição, nunca como situação. A situação é o lugar de relações passivas e concretas, a posição (social) é lugar de expressões unilaterais e abstractas. O catedratismo é realmente a ilusão endémica da posse duma cátedra, isto é, a manifestação puramente subjectiva dos sentimentos e volições que alguém pode ter numa posição separada dos outros e mais alta do que eles. E por ser ilusão e abstracção é que o catedratismo pode existir em todos os meios sociais, em todas as profissões, desde a de catedrático propriamente dito, passando pela de chefe político, até à de contínuo, à de merceeiro ou barbeiro».
3. «(…) o catedratismo universitário não é tão ilusivo porque se fundamenta numa estrutura social e numa construção jurídica. O catedrático universitário usufrui, dentro e fora da Universidade, da mais alta consideração social e dos mais seguros privilégios. Basta pensar que ao catedrático está reservada, com total exclusivismo, pelo menos, uma das pastas do governo».

4. «Só no plano pedagógico, naquele que lhe é próprio, é que o catedrático universitário representa a mais ilusória, senão a mais contraditória das realidades. Com efeito, a posição separada e superior do catedrático contradiz a natureza psicológica do jovem estudante e a essência da comunidade».

5. «(…) na Universidade portuguesa actual, o catedrático (…) é o sujeito principal, para não dizer único, da vida universitária; governa a instituição e os estudantes, com total exclusivismo; conduz as aulas e distribui ou nega os diplomas; escolhe e elabora os programas, etc., etc.. (…) A posição do catedrático é, portanto, pedagogicamente errada e tende naturalmente a transformar-se num erro social e político – o catedratismo. Os professores universitários, por melhor intencionados que sejam, por vezes mesmo inconscientemente, sofrem a atracção do catedratismo – do erro pedagógico e social resultante duma posição humanamente falsa».

6. «Esta posição é também consequente, no campo da doutrina, onde se projecta dum modo talvez ainda mais grave, pois, dominando a cultura aparente duma época, torna-se universal e universaliza os seus erros e desvios».

7. «A sociedade portuguesa actual sobrevaloriza apenas o professor imóvel e catedratizado e quase desconhece a missão condutora ou educadora do professor convivente».

8. «A cátedra, vista unicamente como pertença da colectividade burguesa dos nossos dias, perdeu também a riqueza do seu simbolismo, quer esotérico, quer exotérico».

9. «A cátedra do nosso tempo desceu ainda mais (enquanto ironicamente subiu no conceito social), porque deixou de ter qualquer relação com o símbolo – manifestação e incentivo do saber ascendente. Perdeu também a ordenação ao mundo das significações espirituais, aliás como a profissão e até o professar, ambos com a mesma raiz de professor».

10. «O professor que usa socialmente os favores da cátedra já não pode fugir ao seu império, gravitando em torno da sua imobilidade, aspirando sobretudo a conservá-la e a conservar-se nela. Deste modo se ordena o superior ao inferior e a cátedra, não podendo ser sede de sabedoria, é fulcro material da inferioridade dos que a ela se candidatam (de desejos e ambições, intrigas e malevolências), ponto de encontro de relações sociais vazias».




11. «A relação pessoal com a Verdade também o catedrático a tem prejudicada pelo condicionalismo da sua situação. Não encontrando nela nenhum motivo de liberdade, nem individual nem colectivo, o professor catedrático não se move no mundo da Verdade mas no mundo das verdades, não expõe um saber de si próprio mas dos outros, isto é, não podendo saber o que sabe, apenas expõe o que expõe – é um mero expositor».

12. «A perturbar o comprometimento natural do homem surge sempre o comprometimento social do catedrático, e só excepcionalmente, contra a sua situação, ele consegue comprometer-se com alguém. Quer dizer, a categoria do professor universitário é uma categoria social falsa, porque não recebe em si, não se amolda à humanidade de quem nela se integra».

13. «Houve portanto uma sucessiva degradação nos tipos de Professor Universitário, desde o primitivo e genuíno lente, para quem a cátedra era suporte duma leitura esotérica, passando pelo professor propriamente dito, cuja missão era declarar exotericamente o seu saber, até ao catedrático de hoje que cumpre o mero encargo de expor saber alheio».

Estado

1. «A autonomia deveria ser uma realidade indiscutida e indiscutível na Universidade».

2. «(…) o Estado, perante uma Universidade que não se impõe, nem revela vida própria, julga-se na obrigação (e com a facilidade) de prefixar juridicamente a vida de professores e alunos, metendo-se assim entre uns e outros, impossibilitando cada vez mais a corporação universitária».

3. «A educação não pertence primordialmente ao Estado, mas apenas subsidiariamente».

4. «O Estado não tem direito actual de transformar uma instituição sem atender ao fim para que foi criada e ao lógico envolver histórico dos seus interesses e atributos».

5. «A Universidade não é uma construção mecânica e intemporal que, em qualquer momento, possa ser virada de um lado para o outro e cuja vida dependa dum plano abstractamente concebido e exclusivamente elaborado por entidades, por força do seu cargo, estranhas à mesma construção».

6. «A Universidade não é um regulamento que se substitua por outros regulamentos, é antes de mais a vida orgânica dos estudantes, historicamente iniciada há séculos, com o sentido social e cultural marcado por uma missão que transcende, em muitos aspectos, a própria missão do Estado. (…) Reformá-la, com o mesmo direito com que se altera o horário do funcionalismo ou a orgânica de uma direcção-geral, seria desconhecer a própria razão histórica da Universidade…».

7. «O Estado que sonega o poder espiritual das suas universidades governa um povo, incompleto para a continuidade tradicional, por lhe faltar uma das suas melhores garantias, e aberto a influências culturais que o impedem de tomar o lugar que lhe cabia no desenrolar da História».


Cientismo

1. «(…) o culto da Ciência é o fruto duma transposição abusiva do pensamento. (…) Nas nossas universidades esse culto reedita-se constantemente (…) na adaptação vulgarizada do profissionalismo e do tecnicismo».

2. «O profissionalismo é a adaptação social desse culto. (…) O tecnicismo é a consequência imediata da ausência de hierarquia entre as ciências universitárias e a expressão elucidativa da falta de universalidade na sua interpretação – o que equivale à inexistência dum elemento indispensável ao simples conceito de Universidade e à sobrevalorização do útil, na Ciência aplicada».

3. «A Universidade não se reduz a uma fábrica de ciência, nem se basta com o significado dum rótulo igual ao de «Ensino Superior» porque, tanto pela sua génese, como pela categoria institucional que lhe está na base, é, sobretudo, um núcleo humano dirigido a um fim e agregado por ele. Mas é um núcleo humano, e o fim a que se dirige encontra-se radicado ainda na própria natureza humana, no homem considerado na sua totalidade».





4. «Vem muito a propósito citar o seguinte passo da «Missão da Universidade» de Ortega y Gasset: «A Ciência é o maior prodígio do Homem; simplesmente, por cima e acima da Ciência está a própria vida que a torna possível…».

5. «(…) educação científica é uma expressão absolutamente contraditória. Educação significa sempre um caminhar para a realização integral do Homem, e nunca pode esse título autêntico de homem realizar-se com o que a ciência lhe fornece. A Ciência é feita para o servir, ou no domínio da natureza que o rodeia ou no progressivo conhecimento da sua própria natureza. Só por abusiva transposição o próprio criador da Ciência passa a servi-la, ou antes, passa a supor que a serve porque, quando a Ciência está no topo dos valores de uma época, não é na realidade ela que está, mas a prova de que o Homem se esqueceu de metade de si próprio».

6. «A Universidade, que pelo seu curriculum nega ao aluno a reflexão, impondo-lhe exclusivamente ciência experimental e relacional, pelo magistério opõe-se à sua evolução para o sobrenatural. Com efeito, usando categorias estrangeiras, a Universidade intercepta a natural marcha do pensamento português, que, começando em realidades imaginadas, ascende naturalmente às imagens realizadas, às imagens do culto».

7. «(…) o Positivismo «é mais uma corrente de opinião do que uma escola filosófica». O ambiente da cultura vigente nos países onde o Positivismo fez carreira (e estão nesse caso Portugal e o Brasil) é propício à formação, em cada uma das sucessivas gerações, dum espírito ou dum critério a que corresponde uma força social».

8. «Ambos obrigam o modo de pensar a exteriorizar-se, chamando o sujeito do pensamento à integração no mundo exterior, da História das ideias como factos, da religião social. O real, a que o Positivismo vincula toda a realidade exterior ou interior ao homem (transcendente ou imanente), representa o máximo da exteriorização, pois atinge os aspectos antropológico, cosmológico e teológico do saber humano e, dum modo efectivo, já que é uma corrente de opinião constituída em força social».

9. «O Positivismo, sendo uma corrente de opinião, penetrou as ideias e ideais da nossa época pela sua raiz social, igualando-as nos seus efeitos e significados às instituições e às entidades político-sociais. O progresso da exteriorização do modo de pensar chegou aqui ao seu máximo limite – que é também o limite da contradição implícita no seu sentido. O termo exteriorização já não serve. O modo de pensar extroverte-se, pois já não é no pensamento que encontra o fim perseguido, mas num verdadeiro mundo de obediências, compromissos e vinculações sociais. O real, ainda aferente da realidade, tem agora um qualificativo que exprime o afastamento da Natureza e de Deus; o real é positivo. Positivas têm que ser as ideias, os actos, os sentimentos, a vida enfim, para que valham na cultura vigente em Portugal, e ainda influente na convivência internacional».

10. «O Positivismo estabeleceu-se, portanto, como critério de ortodoxia, que pouco a pouco se transmuda em modo de pensar. Em todos os planos, quer no intelectual, quer no social, quer no cultural, o pensamento espontâneo encontra o mundo de artifício positivista. E do mesmo modo por que o candidato às colocações estáveis, ou aos graus universitários, tem de submeter-se a exames e concursos para os quais se faz, se forma, (disformando a sua livre personalidade) – as ideias fazem-se para o pensamento social vigente e dominante. A factibilidade das ideias é a primeira exigência da sociedade positivista. E as outras seguem-se, levando os valores espirituais à integral subordinação do real positivo, exterior ao homem concreto, a Deus Pessoal, à Natureza intacta, exterior ao que fundamentalmente determina o pensamento espontâneo do português».




11. «Os comentadores continuadores, relacionadores do pensamento genial, são entre nós, na sua quase totalidade, dominados pelo espírito positivo, ou, pelo menos, por categorias de pensamento invisuais para o nosso modo de pensar».

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