quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Filosofia como valor e filosofia como utilidade (i)

Escrito por José Marinho







Há ou não filosofia em Portugal? Esta ingénua pergunta tem sido muitas vezes formulada e obtém resposta de sim ou não. Os propensos a negar consideram naturalmente encerrado o debate e crêem possível seguir adiante como se tudo estivesse decidido. Mas a querela mais ou menos surdamente se renova e prossegue, sinal, como sempre, de que existe ao fundo alguma coisa de sério a atender.

Estranho se afigura admitir, sem mais exame, que os homens que em Portugal no amor da verdade essencial e permanentemente viveram, tenham andado iludidos, enquanto aqueles para os quais a filosofia não passa de mera curiosidade ocasional, saibam bastante bem o que filosofia seja para desmentirem a ilusão dos primeiros.

Não podemos dispensar a filosofia e dormir satisfeitos sobre o gesto. Não o podemos por isso mesmo que na filosofia, e só nela, está posto o problema do ser, da verdade e do destino. Pela filosofia, todo o ser e saber buscam seu fundamento, por ela todas as criações e todas as disciplinas humanas procuram a exacta consciência e juízo de si, de uma ou de outra maneira, a religião e a arte, as ciências e a política, a moral e o direito, sempre buscaram pela filosofia o seu fundamento: sempre o buscaram e buscam mesmo quando o não sabem.

Seria, finalmente, adequado ao reflexivo intento admitir, e de uma vez por todas, que a filosofia, arte, religião, não são aleatórios atributos. Onde está o homem, elas estão com ele. O problema, e não pequeno, está em saber como estão: em que forma ou formas? em que grau? em que momento? com que conteúdo ou expressão?

Decisivo será saber quais as razões da específica forma que, sob vários matizes, assume a filosofia em Portugal, com suas profundas implicações estéticas e religiosas, sua exclusão tão peculiarmente marcada das exigências cientistas ou positivistas. Para isso bem parece urgente determinar as profundas e não extrínsecas ou convencionais razões por que a filosofia portuguesa se emancipa mais tardiamente e lentamente da teologia e da dogmática, determinar por que motivo os nossos pensadores ou se detêm subitamente a meio de uma promissora carreira especulativa, ou regressam às mesmas formas de ortodoxia das quais o pensamento se libertara.

Torna-se cada vez mais urgente averiguar se foi, como em geral se julga, por insuficiência, receio ou crédula obstinação que os nossos pensadores, como os da vizinha Espanha, se mantiveram perplexos e até renitentes perante os caminhos da filosofia moderna, ou se, pelo contrário, se aperceberam da unilateralidade, hoje patente, em que na linha cartesiana ou baconiana a filosofia europeia se começara desenvolvendo. Notamos, por um lado, que a história não está por inteiro contada, propendemos, por outro lado, a admitir, e cada vez com mais implacável firmeza, que se a causa da verdadeira filosofia não foi assegurada por uma escolástica de inspiração divina e teológica, ela não é também assegurada pela nova escolástica de inspiração humanística e científica.



Renato Descartes



A causa da filosofia não é a daquele céu, mas não é também a desta terra. Importa primordialmente aprendê-lo. A partir disso será compreendida e valorizada a filosofia que temos e tivemos.

Visando ao mais fundo, impõe-se, entretanto, ao intérprete a exigência de mais modesto início.

Muitos foram os homens que em Portugal, desde a época pombalina como já antes do século XVIII, mostraram interesses filosóficos. Admira até como em tão pragmático ambiente tantos tivemos. E se alguns se limitaram, como talentosos ou menos dotados imitadores, a seguir servilmente caminhos já traçados na prestigiosa Europa, outros, abertos ao sentido do autónomo valor do saber e do conhecimento, atingiram e exprimiram, nas precárias e adversas circunstâncias, concepções originais.

O pensador que vamos estudar aparece estreitamente ligado - quer pelos temas que tratou, quer pela orientação especulativa, quer pelas muito reveladoras interpretações das respectivas obras de pensamento - a Antero de Quental e Sampaio Bruno. Nessa linha cumpre, portanto, considerá-lo.

Impõe-se uma referência preliminar a Antero. O sentimento do que há de significativo na sua personalidade e na sua obra, muitos o tiveram; tiveram-no ou têm-no todos quantos em Portugal pensaram ou pensam. Mas esse sentimento parece ter sido mais indeciso até Bruno, tanto a grandeza do poeta obscurecia o valor do pensador. O autor das Tendências é um dos mais estimados de entre os homens superiores de Portugal e o único estudado, até agora, dos nossos especulativos. Compreende-se, aliás, que seja estudado. Só não se compreende tão bem que o seja no esquecimento de Silvestre Pinheiro Ferreira, Cunha Seixas, Domingos Tarroso, Ferreira Deusdado, para citar aqui apenas alguns de diferente e desigual mas inegável merecimento, alguns daqueles que a ignorância e o desdém dos seus patrícios ocultou à nossa grata memória, ao nosso interesse e possibilidade de compreensão.

É Antero um dos precursores: diferente dos homens de intento meramente culturalista, seja Verney, seja Herculano (1), teve ele o sentido da verdadeira actividade do espírito, aquela de que a filosofia não é uma peça, como a de um relógio, mas o conceito e a expressão universal.






Assim, ao pretendermos situar a actividade de Leonardo Coimbra e a sua obra na corrente de pensamento premente neste país, não teremos em conta indiferentemente as várias obras realizadas em Portugal desde o século XVIII, inspiradas de filosófico propósito ou com aspecto de obras de filosofia. E, se não consideramos o trabalho de Verney no seu Verdadeiro Método de Estudar, ou os de outros autores de restrito interesse cultural, pedagógico ou histórico, isso procede de a filosofia não ter assumido em tais autores soberano e decisivo valor, aparecendo ainda posta ao serviço da cultura ou da acção, quando não nos surge, noutros menores, como pretexto ou ornamento erudito.

A filosofia não é, em tais casos, processo de conhecer ou compreender, realizado com propósito autonómico num espírito inquietado pela origem e pelo fim do homem, pela sua condição e seu destino, mas uma destas duas coisas: ou ramo de saber entre vários ramos de saber, ou disciplina do saber e da acção revestindo forma histórica ou didáctica. Atribui-se-lhe, então, não valor mas simplesmente fecundidade ou até utilidade, não se aprecia pelo que é, mas pelo que pode dar ou render, pela aptidão que pode conferir ao intelecto para tratar outras disciplinas: a crítica e a história, a pedagogia e a política.

Não pretendemos negar a fecundidade da filosofia como formação espiritual para compreender, com maior penetração ou amplitude, os vários domínios do saber. Não a negamos também como propedêutica da actividade humana no sentido mais geral. O cientista, o crítico, o historiador, o pedagogista, o jurista, carecem indubitavelmente dela e mais do que estão, em geral, supondo. Dela carecem os artistas ainda e, num pólo oposto, os próprios homens políticos. Mas aqui cabe uma reflexão: neste sentido, a filosofia é insubstituível; nada, todavia, mais oposto aos seus mais altos fins do que considerá-la apenas actividade fecunda ou fecundante, nada mais desviado da sua essência activa do que atribuir-se-lhe valor, não por ela mesma mas pelas aplicações possíveis. Ideia falsa, essa, pois resulta de uma incompreensão do que seja valor (2).




No domínio do saber, em geral, está convencida a maioria dos homens «cultos» de que aquele se pode importar como se importam livros e com os mesmos livros. Disso resulta certa superstição e idolatria de cultura e um cientismo de pormenores ou ninharias. E quando o propósito de investigação surge, pretendem então os chamados sábios e os chamados cultos, ou empregar um método, fruto de simples transposição, no estudo das coisas portuguesas, ou, noutros casos, realizar uma adaptação das conclusões obtidas por verdadeiros pensadores e investigadores. Supõem eles, ingenuamente, aumentar a ciência ou ampliar seus domínios, pois tudo neles se avalia quantitativa e não qualitativamente. Conseguem apenas, afinal, «saber mais», como se isso tivesse valor de conhecimento, ou contentam-se de aplicar em estreito sentido local e nacional o verdadeiro saber, ao qual não fazem adiantar um passo. O mesmo acontece para a filosofia, por estranha e mais gritante aberração, desde Verney a Bruno - Bruno que contra tal preconceito ergueu a sua crítica, embora, neste caso, com brevidade excessiva e sem fidelidade bastante ou, pelo menos, bastante explícita, à sua própria descoberta. Ler filósofos, resumi-los, citá-los e até, de certo modo, comentá-los, representa, entretanto, muito pouco, e pode nada ter comum com filosofar.

A filosofia não tem seu início no contacto com os livros; ela tem seu início no sentido do enigma que é o homem para si mesmo. E não é a ciência aprendida nem a erudição livresca quem o sente, mas o espírito íntimo e solitário.

Nem há outro caminho de verdade senão o do pensamento, e a chamada cultura (cujo conceito é tão equívoco) suporá e implicará pensamento autónomo ou a caminho da autonomia: e nada será o pensamento se não for autónomo ou se à autonomia não buscar. Como é difícil a verdadeira autonomia! Como é difícil a verdadeira liberdade! Só o não sabe quem desdenhou conquistá-las e espera, em vão, o dador.




Há muitos homens que têm buscado a verdade. E enquanto uns a não atingem por lassidão de ânimo, outros a não conseguem por ambição precipitada. Difícil resignar-se a pensar de início menos bem, depurando o pensamento sem empobrecê-lo, intuindo e verificando, aprofundando e esclarecendo, compreendendo e explicando, cada vez mais e melhor. A quem começa pela preocupação de pensar desde logo com clareza e coerência satisfeitas de si, a esse espera um saber de acidentes, pragmatismo cultural, bom senso, ou judiciosa insensatez: tal como espera a vulgar e egoísta honestidade e honradez a quem começa por querer o bem fácil, ou se resigna a ele. Não há pior suficiência do que a da razão pretensamente lógica ou crítica: porque a suficiência moral ou política traz sempre o volver da vida, insofismável e, por vezes, tempestuoso desmentido, enquanto, na ordem do intelecto, a suficiência com seus sofismas pode viver-se, sem íntimo abalo, uma vida inteira. «Aprendamos a pensar bem; é esse o começo da (própria) moral». Isso é muito diferente de dizer: «Comecemos por pensar bem...» Coisa esta, é claro, que Pascal não disse, nem, por certo, pensou.

Contradição curiosa! Ninguém supõe que um homem possa pedir a outrem para amar em nome dele mesmo, todos, pelo contrário, consideram o amor experiência própria e pessoal; ninguém pede a outrem que por si jogue o futebol ou pratique o remo, desenvolvendo assim, por estranha participação, que se manifesta na gregária turba das bancadas, a própria musculatura e a destreza própria. Muitos, porém, como que reputam difícil pensar, julgar, conhecer e compreender, sem o adequado e pessoal exercício. Ora, assim como a quem não ama não consideraremos amoroso ou amante, nem por verdadeiramente desportivo se aceitará a quem não ousa e pratica, assim também não diremos que filosofa quem não pensa. Nada de essencial pode compreender da filosofia, quem não possua pensamento com origem autónoma e desenvolvimento autónomo. Desta maneira, muitos são excluídos que os bem pensantes aplaudem, e outros, que repudiam, aceitos (in O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra, Livraria Figueirinhas, Porto, 1945, pp. 15-21).


Notas:

(1) Não foi ainda estabelecida nítida distinção entre filosofia e propedêutica de cultura. Daqui procede que Verney ou Herculano, propedeutas de cultura, não sejam compreendidos segundo o que verdadeiramente realizaram. A distinção é capital. Ela permite determinar os limites da obra de Verney e Herculano, e ainda os de Antero, na medida em que este não pôde ou não soube permanecer fiel à sua vocação de poeta e pensador e adoptou a ingénua e moderna atitude religioso-cultural, ou religioso-política, de salvar a pátria, a cultura, a dignidade das letras.




(2) Neste capítulo (...) teremos presente a distinção adequada entre três noções: a de valor, a de fecundidade e a de utilidade. O valor tem como origem o espírito, e o seu mundo é o do espírito: nele se origina toda a criação e toda a especulação que provêm do mais íntimo ser do homem e não de motivos circunstanciais. A fecundidade tem como origem o espírito mas na sua relação com a ambiência vital ou social: como quando dizemos ter determinada obra ou acção influído da maneira tal ou tal: a chamada cultura e a crítica pertencem a esta esfera média. A utilidade tem como apreendida origem e finalidade a simples consciência do existir: daqui provém que toda a utilidade seja determinada como política, social, jurídica, económica, etc.

Continua


Nenhum comentário:

Postar um comentário