segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Shihan Fumio Demura

Escrito por Miguel Bruno Duarte





















Shihan (1) Fumio Demura nasceu em 1938, mais particularmente em Yokohama, Japão.

Começou os estudos de Kendo com apenas oito anos de idade, tendo inclusivamente treinado sob a direcção do lendário Nakamura Taisaboro Sensei. Também estudou Kendo e Karaté Ryusho no Dojo de Sakagami Sensei, então sediado no distrito Tsurumi, em Yokohama. Entretanto, foi igualmente iniciado no Kobudo sob a supervisão de Taira Shinken Sensei, tornando-se rapidamente num perito em armas de Okinawa.

Fumio Demura introduziu o Karaté Shito-Ryu nos Estados Unidos, corria o ano de 1965. Com o Karaté levou também o Kobudo enquanto extensão do mesmo. Escolheu a Califórnia para ensinar, tornando-se no primeiro profissional do mundo em demonstrações de Karaté, nomeadamente no Las Vegas Hilton, onde, durante dois anos consecutivos, apresentou diariamente um espectáculo inolvidável. Em 1974, entrou na indústria cinematográfica de Hong Kong e, em 1975, na de Hollywood. Participou em vários filmes, entre os quais The Island of Dr. Moreau, Red Sun, com Charles Bronson, Alain Delon e Toshiro Mifune, a que se seguiu a quadrilogia do Karate Kid (ver trailer de 1984), – onde representou algumas das cenas de acção atribuídas ao actor Pat Morita (“Mr. Miyagi”) -, além da sua não menos significativa participação na série Walker Texas Ranger, protagonizada por Chuck Norris.

Por outro lado, Sensei Demura (9.º Dan Shito-Ryu) foi e continua sendo uma inspiração e um exemplo para figuras distintas como Chuck Norris, Mike Stone, Richard Norton, Steven Seagal, Sho Kosugi e até para o já falecido Bruce Lee. Além disso, é presentemente o director e o Chefe-Instrutor do Shito-Ryu Genbu-Kai International, uma organização inspirada nos ensinamentos de Kenwa Mabuni (2) bem como nos de Mestre Shinken Taira.

Em Portugal, o maior professor e Mestre do Karaté Shito-Ryu é Elmano Jorge Caleiro. Com ele veio igualmente a prática do Kobudo através de estágios comparticipados por mestres japoneses, como Sensei Kenyu Chinen, ou tecnicamente assistidos na pessoa de Juan Bish Lorenzo. O percurso de Elmano Caleiro é, sem dúvida, um dos mais distintos e impressionantes, a ponto de os japoneses ligados ao mundo do Karaté-Do perguntarem sempre, quando na presença de portugueses, pela pessoa que notórias e relevantes provas prestou sob a égide de Soke Teruo Hayashi, o único professor e Mestre japonês que, como chegou a dizer, o deixou – a ele, Elmano Caleiro – realmente convencido entre os inúmeros mestres que conheceu ao longo dos seus mais de 40 anos de Karateka (3).



Elmano Jorge Caleiro




Elmano Caleiro, actualmente 7.º Dan em Karaté Shito-Ryu e 6.º Dan em Kobudo – com exames públicos sancionados e aprovados no Japão -, iniciou a sua vida de Karateka em meados de 1964, quando já então se falava na Academia de Budo, onde Pires de Lima, depois de estagiar em França, introduzira, em 1963, o Karaté-Do, ainda que ministrado sob a forma de aulas de “Goshin-Jitsu" (4). Partindo para África em fins de 1964, onde cumpriu serviço militar como oficial da 7.ª Companhia de Comandos, em Angola e Moçambique, Elmano Caleiro retomaria, em 1969, a prática do Karaté, especialmente no âmbito do Shukokai (5) em Lourenço Marques. De notar fica ainda o facto de essa prática ter sido aí centrada na figura de Fernando Cruz (1.º Dan de Karaté Shukokai), de modo que, ao regressar a Salisbury (Rodésia), onde estava radicado, foi Elmano Caleiro escolhido como futuro instrutor, embora na condição de ir estagiar Karaté Shukokai para Salisbury com Sensei Shigeru Kimura, 6.º Dan do respectivo estilo e seguidor da via Shito-Ryu/Shukokai liderada no Japão por Sensei Chojiro Tani, na altura 8.º Dan Kyoshi.

Por fim, é no contexto da descolonização abrilesca, dita "exemplar", que Elmano Caleiro acompanha a transmigração da prática do Karaté de África para a Europa, na qual o Shito-Ryu já se encontrava fortemente implantado em Inglaterra, França, Bélgica e Espanha mediante japoneses como Nambu, Kimura, Suzuki, Ishimi, Nino Satoru e, numa fase posterior, por via de Nakahashi, Mitsuya, Omi, Iwaza e discípulos afins de mestres japoneses altamente conceituados como Teruo Hayashi, Mabuni Ken, Tsujikawa, Tani, Abe, Sakagami, enfim, todos eles, de uma forma ou doutra, ligados ao desenvolvimento do Karaté em Portugal por via da colaboração directa ou indirecta com Elmano Caleiro em estágios nacionais ou internacionais. De facto, não obstante grandes figuras do Karaté português - como Raul Cerveira ou Vilaça Pinto -, Elmano Caleiro destaca-se como o vulto mais representativo de uma geração que, para além de figuras mais ecléticas, como a do já falecido Ruy de Mendonça, trouxera a Portugal o Karaté de pleno contacto tal como era, efectivamente, praticado nos anos 60 e 70.

No mais, Fumio Demura é sobretudo a personificação do espírito de sacrifício e abnegação pessoais, num estilo que certamente nos é comum. Por outras palavras, Shihan Demura é a figura exemplar do permanente alternar da contracção e seu contrário – à imagem do goju-ryu (6) - num movimento que vai desde uma série de esquivas e um mínimo de blocos (8) ao keage japonês traduzido num bate-rápido pontual e não-telegráfico por via da rotação do quadril. Enfim, uma forma de estar e de viver que nos dias de hoje surge como mais uma manifestação típica do Império do Sol Nascente (7).


Notas:

(1) Shihan significa Mestre, honorável professor.

(2) O fundador do estilo Shito-Ryu, inicialmente designado por Hanko-Ryu (1928). Shito reúne os caracteres que representam os nomes dos mestres de Mabuni: Itosu (Shi-Ito) e Higaonna (to-Higa).

(3) Muitas foram as personalidades estrangeiras ilustres que tentaram assistir aos combates de Sumo, no Japão, sem, no entanto, jamais o conseguirem por virtude do carácter estritamente reservado dos japoneses em tudo o que diga respeito às suas tradições sagradas. Elmano Caleiro foi, porém, a excepção à regra.




Hironori Otsuka


(4) É neste contexto que mestres japoneses, como Suzuki e Hironori Otsuka, este último fundador do estilo Wado-Ryu («O Caminho da Paz»), vêm fazer demonstrações em Lisboa, no Judo Clube de Portugal. Neste Clube se distinguiram, aliás, personalidades nacionais e estrangeiras, como Hugo d’Assunção, Bastos Nunes e Kiyoshi Kobayashi.

(5) O Shukokai foi fundado em 1958 por Chojiro Tani, depois de ter praticado Shito-Ryu sob a égide de Kenwa Mabuni. Caracterizado por posições altas, o Shukokai significa o «Caminho para todos».

(6) Go, neste caso, significa «dureza», ao passo que ju significa «suavidade». Daí o estilo de Karaté Goju-Ryu, fundado por Chojun Miyagi, que foi, por seu turno, discípulo de Higaonna, um dos mestres, como já vimos, de Kenwa Mabuni, fundador do Shito-Ryu. Chojun Miyagi combinou as flexíveis técnicas chinesas, tiradas do jun fa, com os pujantes métodos de luta de Okinawa. Paralelamente, o kata Seienchin, habitualmente praticado por Fumio Demura, representa uma forma que, caracterizada pela respiração ventral sonora e a movimentação dos pés em semi-círculos, foi também ela inspirada nas posturas fortes e estáticas do Naha-te (uma das três cidades principais de Okinawa, a par de Shuri e Tomari), isto é, oriundas dos estilos do sul da China e praticadas por Higaonna, que as transmitiu a Kenwa Mabuni.


(7) Curiosamente, Yoshinao Nambu, conhecendo, por intermédio de Sensei Tani e de Sensei Tanaka, o Karaté Shito-Ryu após ter praticado Judo e Kendo, diria - na sequência de uma iluminação que o levara, em 1970, a criar o Sankukai (um novo estilo de Karaté inspirado nos movimentos e nas esquivas circulares do Aikido) - «qu’il n’y a pas de blocages». Nesse sentido, afastava-se dos estilos e métodos tradicionais de Karaté, mantendo, no entanto, as múltiplas vertentes do mesmo, ora física ora espiritualmente consideradas. Yoshinao Nambu foi também o responsável pela criação, em França, da primeira Federação de Kendo, assim como o treinador, durante três anos, da equipa francesa de Karaté, onde se fez valer o notável e admirável Dominique Valéra.

(8) Note-se que o Karaté é uma criação de Okinawa e não do Japão propriamente dito. Tal pode e deve ser compreendido à luz da história do Extremo Oriente, a saber:

1. A influência chinesa em Okinawa, no que respeita ao to-de («as artes de mão»);

2. As guerras entre os clãs Taira e Minamoto do Japão, com o primeiro deles a refugiar-se em Okinawa e, por conseguinte, a influir no sistema nativo de luta;

3. O controlo feudal de Okinawa por parte da China (1372), durante o qual se desenvolve um intercâmbio cultural entre famílias, mercadores, diplomatas, militares chineses e nativos de Okinawa, acrescido da complexa transição do Shaolin chun fa (em japonês Shorinji Kempo) para o Okinawa-te (a mão de Okinawa);




4. A unificação feita, em 1429, pelo rei Sho Hashi, que ordenou a confiscação de todas as armas de Okinawa a ponto de contribuir, ainda que por via indirecta, para o enriquecimento marcial local através do intercâmbio de várias e diferentes técnicas vindas da Coreia, Malásia, Indonésia, Tailândia, etc.;

5. A invasão de Okinawa, no período Togugawa, pelo clã japonês dos Satsuma, que renovou a proibição de uso das armas e levou ao secreto desenvolvimento do te de Okinawa e ao uso de instrumentos agrários para fins marciais (Kobudo);

6. A imposição do Japão a Okinawa de um sistema legislativo, governamental e educacional (1871), de que resultou a rebelião, a matança e, por fim, o aprisionamento do rei de Okinawa em Tóquio;

7. O aparecimento do «Kara-te», cujo significado oscilava entre «mãos chinesas» e «mãos vazias», tudo dependendo do caractere empregue relativo a «kara»; A opção de Gishin Funakoshi - o fundador do Shotokan e o pai do Karaté-Do – pelo Karaté como «mão vazias» (1933), na intenção, aliás, de não ferir a susceptibilidade patriótica dos japoneses, que começaram a importar o «Karaté» na sequência de uma demonstração do próprio Funakoshi no Japão (1922), a convite do então Ministro da Educação, o fundador do Judo, Jigoro Kano.











Steve McQueen, Bruce Lee e Fumio Demura
























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2 comentários:

  1. Muito interessante ... historia, factos e verdade.

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  2. Caro, é com tristeza que vejo o professor Elmano fora dos circulos mediaticos de karaté em Portugal. O Karaté é na sua maioria praticado sobre supervisão de instrutores sem curriculum.

    Façam a devida vénia a este mestre.

    bem hajam

    Mestris

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