quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Górgias ou da retórica (iii)

Escrito por Platão




Sócrates



Sócrates

E no início desta discussão, Górgias, afirmou-se que a retórica tem por objecto não os discursos relativos ao par e ao ímpar, mas aqueles que se referem ao justo e ao injusto. Estou a dizer bem?

Górgias

Estás.

Sócrates

Ao ouvir-te falar como falaste, supus que a retórica nunca poderia ser uma coisa injusta, dado que o objecto dos seus discursos é a justiça. Mas quando, pouco depois, disseste que o orador podia também fazer um uso injusto da retórica, surpreendido com tais palavras que me pareciam encerrar uma contradição, observei que se, como eu, achasses que só há vantagem em ser refutado, valia a pena continuar a nossa conversa, de outro modo o melhor era ficar por ali. No prosseguimento da nossa conversa, vês que afinal se chegou à conclusão de que o orador é incapaz de fazer um uso injusto da retórica e de querer praticar a injustiça. Pelo cão, Górgias, não será uma breve conversa que nos permitirá ver claro em matéria tão complexa.

Polo

Que quer isto dizer, Sócrates? A tua opinião sobre a retórica é, de facto, aquela que as tuas palavras dão a entender? Ou julgas que, lá porque Górgias se envergonhou de não concordar com a tua afirmação de que o orador conhece o justo, o belo e o bom e está em condições de ensinar estas coisas a quem o procura sem as ter aprendido antes, donde resultou talvez uma certa contradição nas suas palavras - coisa que tu muito aprecias, ao arrastar as pessoas a questões deste género. Claro que ninguém vai dizer que não conhece o que é justo e que não é capaz de o ensinar aos outros! Uma autêntica falta de educação é o que revela essa maneira de conversar.

Sócrates

Meu caro Polo, é exactamente para isto que nós devemos querer os amigos e os filhos, para, quando, já velhos, nos acontece dar algum passo em falso, corrigirem os nossos actos e as nossas palavras. Agora, por exemplo, se porventura eu e Górgias errámos nos nossos raciocínios, estás tu presente para nos corrigir. Tens obrigação de o fazer. Pela minha parte, se te parece sem fundamento a concordância a que chegámos em relação a algum dos pontos tratados, di-lo e voltaremos a esse ponto. Ponho apenas uma condição.

Polo

Qual?

Sócrates

Terás de refrear a tua tendência para os longos discursos, que já exemplificaste no início da discussão.

Polo

Como! Não poderei dizer tudo aquilo que me apetecer?

Sócrates

Grande infelicidade seria a tua, caro amigo, se viesses a Atenas, o lugar da Grécia em que é maior a liberdade de expressão, para seres o único a não gozar desse privilégio. Mas considera agora a outra face da questão: se te puseres a falar longamente, sem querer responder às minhas perguntas, não serei eu o infeliz se não me for permitido partir sem te escutar? Mas se te interessa a discussão aqui travada e queres rectificar alguma coisa, volta, como te disse, ao ponto que quiseres, interrogando e respondendo, como eu e Górgias fizemos, refutando e deixando-te refutar. Pretendes saber nesta matéria o mesmo que Górgias, não é verdade?



Athena


Polo

Exactamente.

Sócrates

Convidas, portanto, quem quer que seja a fazer-te as perguntas que quiser e estás convencido de que és capaz de responder.

Polo

Absolutamente.

Sócrates

Escolhe então o que preferes: pergunta ou responde.

Polo

Já escolhi. Responde-me, Sócrates: uma vez que Górgias te parece embaraçado com a definição de retórica, diz tu o que pensas que ela seja.

Sócrates

Perguntas-me que espécie de arte é, em minha opinião, a retórica?

Polo

Exacto.

Sócrates

Para te ser franco, Polo, não considero a retórica uma arte.

Polo

O que é então para ti a retórica?

Sócrates

Uma coisa que, num tratado que há pouco li, declaras ter convertido em arte.

Polo

Que queres dizer com isso?

Sócrates

Uma forma de actividade empírica.

Polo

Achas que a retórica é uma actividade empírica?

Sócrates

Acho, a menos que tu sejas de outra opinião.

Polo

Actividade empírica destinada a quê?

Sócrates

A produzir um certo agrado e prazer.

Polo

Mas então não te parece que a retórica é uma coisa bela, ao ser capaz de dar prazer aos homens?

Sócrates

Vejamos, Polo. Julgas que conheces já o meu pensamento sobre aquilo que a retórica é, para agora me perguntares se não a acho bela?









Polo

Não disseste que a retórica é uma actividade empírica?

Sócrates

Já que gostas de dar prazer aos outros, não te importas de me fazer um pequeno favor?

Polo

Às tuas ordens.

Sócrates

Pergunta-me então que espécie de arte é para mim a cozinha?

Polo

Está bem: que espécie de arte é a cozinha?

Sócrates

Não é arte nenhuma, Polo. Pergunta-me agora: «o que é então?»

Polo

Seja essa a pergunta.

Sócrates

Uma forma de actividade empírica. Pergunta-me ainda: «Destinada a quê?»

Polo

Admitamos que faço essa pergunta.

Sócrates

A produzir agrado e prazer, Polo.

Polo

Então cozinha e retórica são uma e a mesma coisa?

Sócrates

De modo nenhum, mas cada uma delas é um ramo diferente da mesma profissão.

Polo

Que profissão?

Sócrates

Talvez a verdade seja um pouco dura de ouvir... Custa-me dizê-lo, em atenção a Górgias, não vá ele pensar que quero ridicularizar a sua profissão. Se a retórica que Górgias professa é aquilo que eu penso, não sei. A discussão anterior não deixou bem claro o seu pensamento a este respeito. Mas aquilo a que eu chamo retórica é parte de um todo que não pertence ao número das coisas belas.

Górgias

Parte de quê, Sócrates? Fala, sem receio de me ofender.

Sócrates

Penso, Górgias, num género de ocupação que nada tem de científico e que exige um espírito intuitivo e empreendedor, por natureza apto para o convívio com as pessoas. Dou-lhe o nome geral de «adulação». Nela distingo diversas partes, uma das quais é a cozinha, que, sendo no consenso geral uma arte, a meu ver não o é, mas sim uma actividade empírica e uma rotina. Partes da mesma adulação são para mim também a retórica, a toilette e a sofística, portanto, quatro ramos com objectos específicos.

Se Polo quer continuar a interrogar-me, que o faça, porque eu ainda não lhe expliquei que parte da adulação é, segundo o meu ponto de vista, a retórica. Ele parece, no entanto, não ter compreendido isto e, assim, antes de eu acabar a minha resposta, já me está a perguntar se não considero a retórica uma coisa bela. Mas eu não lhe responderei se a acho bela ou feia, antes de ter respondido à pergunta sobre aquilo que ela é. É uma questão de método, Polo! Se queres saber que parte da adulação é, a meu ver, a retórica, pergunta.

Polo

Está bem, pergunto. Diz lá então que parte é.






Aquiles combatendo



Corpo de Heitor levado de volta para Tróia



Sócrates

Entenderás bem a minha resposta? Na minha interpretação, a retórica é um simulacro de uma parte da política.

Polo

Que significa isso? Queres dizer que é bela ou feia?

Sócrates

Acho que feia, visto que considero feio tudo o que é mau. Pelos vistos, tenho de te responder como se já soubesses o que estou a tentar dizer-te.

Górgias

Por Zeus, Sócrates, não entendo nada do que dizes.

Sócrates

É natural, Górgias. Ainda não me expliquei claramente, mas Polo é jovem e impetuoso.

Górgias

Deixa-o lá então e explica-me a mim a tua afirmação de que a retórica é o simulacro de uma parte da política.

Sócrates

Vou tentar esclarecer-te sobre o meu conceito de retórica. Se não for exacto o que eu disser, Polo refutar-me-á. Não há uma coisa a que chamas corpo e outra a que chamas alma?

Górgias

É evidente que sim.

Sócrates

Não achas que, para cada uma delas, há um estado que se designa por «saúde»?

Górgias

Claro que acho.

Sócrates

Mas vejamos: não pode essa saúde ser apenas aparente em vez de real? Darei um exemplo: muitas pessoas parecem gozar de boa saúde e ninguém, a não ser um médico ou um professor de ginástica, poderá facilmente ver que não é assim.

Górgias

Dizes bem.

Sócrates

Afirmo, pois, que no corpo e na alma há algo que lhes concede aparência de saúde, embora, de facto, não a tenham.

Górgias

Tens razão.

Sócrates

Pois bem, vamos a ver se consigo exprimir com mais clareza o meu pensamento. Digo que há duas realidades diferentes a que correspondem duas artes: à arte que se refere à alma chamo política; à que se refere ao corpo não posso atribuir uma designação só, mas, embora a cultura do corpo constitua uma unidade, distingo nela duas partes, a ginástica e a medicina. O que na política corresponde à ginástica é a legislação, o que nela corresponde à medicina é a justiça. Há, portanto, dois grupos de artes que se definem pelo seu objecto, de um lado a medicina e a ginástica, do outro a justiça e a legislação. Mas os elementos de cada grupo acusam também diferenças entre si.

Da existência destas quatro artes, que visam o maior bem do corpo ou da alma, se apercebeu a adulação, não por meio de um conhecimento raciocinado, mas por via da conjectura, e, dividindo-se então em quatro partes e insinuando cada uma delas sob a arte correspondente, fez-se passar pela arte cujo disfarce adoptou. Não tem o mínimo interesse em procurar o que seja o melhor, mas, sempre por intermédio de prazer, persegue e ludibria os insensatos, que convence do seu altíssimo valor. É assim que a cozinha toma a aparência da medicina, fingindo conhecer os alimentos que são melhores para o corpo, de tal maneira que, se coubesse a crianças, ou a homens tão pouco razoáveis como as crianças, decidir qual dos dois, médico ou cozinheiro, conhece melhor a qualidade boa ou má dos alimentos, o médico acabaria por morrer de fome.

A isto chamo eu adulação, que considero uma coisa vergonhosa, Polo (é a ti que neste momento me dirijo), porque visa o agradável sem a preocupação do melhor. E sustento que ela não é uma arte, mas uma actividade empírica, porque não tem na sua base um princípio racional que permita justificar as várias formas do seu procedimento no que respeita à sua natureza e às suas causas. Ora, eu não chamo arte a uma actividade que não esteja fundada na razão. Se tens algo a objectar ao que afirmo, estou pronto a fornecer explicações suplementares.

Portanto, repito, a cozinha é a adulação disfarçada de medicina. Da mesma maneira, à ginástica corresponde a toilette, prática malfazeja e enganadora, vil e indigna de um homem livre, que ilude com aparências, cores, cuidados da pele e vestuário, a tal ponto que, interessadas em exibir uma beleza artificial, as pessoas descuram a beleza natural, proporcionada pela ginástica.




Resumindo, dir-te-ei, em linguagem matemática (talvez assim me compreendas melhor), que a toilette está para a ginástica como a sofística para a legislação, e a cozinha para a medicina como a retórica para a justiça. Estas actividades, já o disse, distinguem-se pela sua natureza. Dada, porém, a estreita relação que existe entre elas, sofistas e oradores confundem-se, ao realizar o seu trabalho no mesmo domínio, sobre os mesmos assuntos, sem conhecerem exactamente a natureza das suas funções e com idêntica ignorância a seu respeito por parte dos outros homens. Efectivamente, se, em vez de ser a alma a comandar o corpo, fosse este a comandar-se a si próprio: se a alma não submetesse a realidade à sua apreciação, distinguindo a cozinha da medicina, e fosse o corpo a fazer essa distinção, com base apenas no critério do prazer que retira destas coisas, então, meu caro Polo, teriam aqui inteira aplicação aquelas palavras de Anaxágoras que tu conheces muito bem: «Todas as coisas se misturariam e confundiriam», e a medicina e a saúde não se distinguiriam da cozinha... (460e-465d).


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