domingo, 13 de fevereiro de 2011

Górgias ou da retórica (i)

Escrito por Platão





(...) Querefonte

Pois bem, diz-me então qual é a arte exercida por Górgias e qual o nome que, consequentemente, lhe devemos atribuir.

Polo

Querefonte, muitas são as artes cultivadas pelos homens, que as descobriram experimentalmente através de experiências. Na realidade, é a experiência que orienta a vida do homem segundo as regras da arte, ao passo que a inexperiência a faz caminhar ao acaso. Perante estas variadas artes, uns declaram-se por umas, outros por outras, e os melhores escolhem as melhores. Górgias pertence ao número destes últimos, e a arte que cultiva é a mais bela de todas.

Sócrates

Tenho a impressão, Górgias, de que Polo está muito bem equipado em matéria de discursos, mas não me parece que esteja a cumprir a promessa que fez a Querefonte.

Górgias

Explica-te melhor, Sócrates.

Sócrates

Acho que ele ainda não respondeu ao que se lhe perguntou.

Górgias

Pergunta-lhe então tu, se preferes.

Sócrates

Não, gostaria muito mais de te interrogar a ti, no caso, evidentemente, de estares disposto a responder-me. Do que acabo de ouvir a Polo deduzo que ele se tem dedicado mais à chamada retórica do que à dialéctica.

Polo

Porquê, Sócrates?

Sócrates

Porque Querefonte te perguntou qual era a arte cultivada por Górgias, e tu, em vez de dizeres qual é, limitaste-te a elogiá-la, como se alguém a estivesse a atacar.

Polo

Não respondi eu que era a mais bela das artes?

Sócrates

Respondeste, mas ninguém te perguntou quais eram as qualidades da arte de Górgias: perguntaram-te apenas que arte era e qual o nome que convém atribuir a Górgias. Relativamente aos exemplos que há pouco te apresentou Querefonte, respondeste com justeza e concisão. Diz agora da mesma maneira qual é a arte de Górgias e como devemos designá-lo. Ou antes, Górgias, diz-nos tu próprio como devemos chamar-te em função da arte que exerces.

Górgias

A minha arte é a retórica, Sócrates.

Sócrates

Devemos então chamar-te orador?

Górgias

E bom orador, Sócrates, se me queres chamar aquilo que «me glorifico de ser», como diz Homero.

Sócrates

Sem dúvida que quero.






Górgias

Chama-me então assim.

Sócrates

E poderemos dizer que és capaz de formar outros oradores?

Górgias

Essa é a profissão que exerço, não apenas aqui, mas em toda a parte.

Sócrates

Estarias tu disposto, Górgias, a continuar o nosso diálogo como até aqui, com perguntas e respostas, deixando para outra altura os longos discursos com que Polo começou? Mas, por favor, não faltes à promessa, responde sempre com brevidade ao que eu te perguntar.

Górgias

Há respostas, Sócrates, que não podem deixar de ter longos desenvolvimentos. Esforçar-me-ei, no entanto, por usar da maior brevidade. Esta é afinal uma das coisas de que me orgulho, a de que ninguém é capaz de dizer o mesmo que eu em menos palavras.

Sócrates

É exactamente aquilo de que eu preciso, Górgias. Faz-me agora uma demonstração de brevidade, deixando para outra altura a abundância.

Górgias

Com todo o gosto, e hás-de convir que nunca encontraste ninguém que falasse mais concisamente.

Muito bem. Ora, uma vez que te apresentas como alguém versado na arte da retórica e capaz de formar outros oradores, diz-me qual é o objecto da retórica. A tecelagem, por exemplo, trata da fabricação do vestuário, não é verdade?

Górgias

Trata.

Sócrates

E o objecto da música é a composição de melodias?

Górgias

É.

Sócrates

Por Hera, Górgias, admiro as tuas respostas, que mais breves não podiam ser.

Górgias

Também creio, Sócrates, que não me saio disto nada mal.

Sócrates

Tens razão. Diz-me então da mesma maneira a respeito da retórica qual é o objecto de que ela é ciência.

Górgias

Os discursos.

Sócrates

Que discursos, Górgias? Aqueles que indicam aos doentes o regime que devem observar para se restabelecerem?

Górgias

Não.

Sócrates

Nesse caso, a retórica não se ocupa de toda a espécie de discursos.

Górgias

Claro que não.

Sócrates

Mas tu tornas os teus discípulos hábeis em discursos.






Górgias

Exacto.

Sócrates

E também os ensinas, certamente, a pensar sobre aquilo que dizem.

Górgias

Evidente.

Sócrates

Mas não é verdade que a medicina, de que tratávamos há pouco, também ensina a pensar e a falar sobre os males dos doentes?

Górgias

Necessariamente.

Sócrates

Então a medicina, segundo parece, também tem discursos por objecto.

Górgias

Sim.

Sócrates

Os discursos relativos às doenças.

Górgias

Precisamente.

Sócrates

E o objecto da ginástica não são os discursos referentes à boa ou má disposição dos corpos?

Górgias

Absolutamente.

Sócrates

E assim por diante com todas as outras artes: cada qual tem por objecto os discursos relativos aos assuntos que lhe são específicos.

Górgias

Assim parece.

Sócrates

Então porque não chamas tu retórica às outras artes, também relativas a discursos, uma vez que chamas retórica a uma arte cujo objecto são os discursos?

Górgias

É que todas as outras artes se ocupam praticamente apenas de operações manuais e coisas dos mesmo género, ao passo que a retórica não tem nada que ver com esses aspectos, pelo contrário, toda a sua acção e eficácia se realizam através da palavra. É por isso que eu digo que a retórica é a arte dos discursos e estou convencido de que digo bem.

Sócrates

Estarei eu a compreender bem o carácter desta arte que, em tua opinião, se deve chamar «retórica»? Em breve o verei mais claramente. Ora responde: existem artes, não é verdade?

Górgias

Existem.

Sócrates

Entre todas as artes, umas atribuem, creio eu, um papel fundamental à acção, necessitando de muito poucas palavras; algumas prescindem inteiramente do discurso, podendo realizar toda a sua obra em silêncio, como é o caso da pintura, da escultura e muitas outras. Suponho que é destas que dizes que nâo têm relação nenhuma com a retórica. Não será?

Górgias

A tua suposição está perfeitamente certa, Sócrates.

Há, pelo contrário, outras artes que realizam todos os seus objectivos pela palavra e não carecem praticamente de nenhuma ou quase nenhuma acção. É o caso da aritmética, do cálculo, da geometria e, certamente, também do jogo do tabuleiro e de muitas outras artes em que o discurso desempenha, por vezes, um papel quase igual ao dos actos materiais e, na maioria dos casos, um papel superior, dado que toda a actuação e eficácia se verificam nestas artes através da palavra. É do número destas últimas que suponho dizes pertencer a retórica.

Górgias

É exactamente assim.

Sócrates

Não creio, que tu quisesses dar o nome de retórica a nenhuma destas artes e, no entanto, a tomar à letra a tua afirmação de que a retórica concentra toda a sua virtude no discurso, poderia alguém, interessado em jogar com as palavras, perguntar-te: «Será, Górgias, que dás o nome de retórica à aritmética?» Não estou, claro, a pensar que tu chamas retórica à aritmética ou à geometria.









Górgias

Ainda bem, Sócrates; estás a pensar como deve ser.

Sócrates

Acaba então agora de responder à minha pergunta. Uma vez que a retórica é uma arte que faz largo emprego do discurso e que muitas outras estão no mesmo caso, procura explicar-me qual é o objecto específico desta arte, actuante pela palavra, a que chamas retórica. Se, por exemplo, referindo-se a uma das artes que acabo de mencionar, alguém me perguntasse: «Sócrates, o que é a aritmética?», responder-lhe-ia, como tu fizeste há pouco, que é uma das artes que se realizam pelo discurso. E se a mesma pessoa depois me perguntasse: «Relativamente a que objecto?», diria que o seu objecto era o conhecimento do par e do ímpar nas suas respectivas grandezas». Da mesma maneira, se me perguntassem: «Que entendes por cálculo?», diria que é também uma das artes que assenta na palavra. E se insistissem: «Qual é o seu objecto?», responderia, nos termos dos que redigem os decretos, que quanto ao resto, não há diferença entre a aritmética e o cálculo, que se ocupam igualmente do par e do ímpar. Diferem, no entanto, em que o cálculo considera a grandeza do par e do ímpar, não só em relação a cada um deles em particular, mas também nas relações entre si. E se me interrogassem sobre a astronomia e eu dissesse que também ela realiza todos os seus objectivos por meio da palavra e depois acrescentassem: «Mas a que se referem os discursos da astronomia?», responderia que se referem à velocidade relativa do movimento das estrelas, do Sol e da Lua.

Górgias

Terias respondido muito bem, Sócrates.

Sócrates

É a tua altura de responder, Górgias. É exacto que a retórica seja uma das artes que tudo executam e acabam por meio do discurso?

Górgias

Perfeitamente exacto.

Sócrates

Diz-me então agora sobre que versam os discursos da retórica. Qual é das realidades existentes aquela que constitui o objecto dos discursos de que a retórica se serve?

Górgias

São as maiores e as melhores coisas humanas, Sócrates.

Sócrates

Mas, Górgias, o que acabas de dizer é não só discutível como bastante vago. Suponho que já ouviste cantar em festins aquela canção-de-mesa onde se enumeram os bens da vida, dizendo-se que o primeiro de todos é a saúde, o segundo a beleza e o terceiro ser rico sem fraude, na expressão do autor.

Górgias

Claro que já ouvi; mas a que propósito vem isso?

Sócrates

A propósito de dizer que, se estivessem aqui presentes os artífices destes bens elogiados pelo autor da canção, ou seja, o médico, o professor de ginástica e o financeiro, observaria em primeiro lugar o médico: «Górgias está a enganar-te, Sócrates. Não é a arte dele que se ocupa do maior bem do homem, mas a minha». E se eu lhe perguntasse: «Mas quem és tu para falar dessa maneira?», responderia, creio eu, que era médico. «Que estás tu a dizer? Que o maior bem de todos é produto da tua arte?» A isto replicaria certamente: «Tens dúvidas a este respeito, sabendo que a minha arte produz a saúde? Que bem há mais precioso para o homem do que a saúde?».

Seria depois a vez do professor de ginástica: «Também eu me espantaria, Sócrates, se Górgias conseguisse demonstrar-te que da sua arte deriva um bem maior do que da minha». Eu perguntar-lhe-ia: «Quem és tu e a que trabalho te dedicas?» «Sou professor de ginástica - diria ele -, e dedico-me a tornar belos e fortes os corpos dos homens».

Finalmente, viria o financeiro que, cheio de desprezo por todos os outros, falaria mais ou menos deste modo: «Vê Sócrates, se junto de Górgias ou de qualquer outra pessoa podes achar algum bem maior do que a riqueza» «O quê? - dir-lhe-ia -, és um artífice de riqueza?» «Sou». «Na realidade de quê?» «Na de financeiro». Quer dizer, na tua opinião a riqueza é para o homem o maior dos bens». «Sem a menor dúvida». «No entanto - acrescentaria eu -, Górgias, aqui presente, sustenta que a sua arte produz um bem maior do que a tua». É evidente que nesta altura ele me perguntaria: «Mas que bem é esse? Cabe a Górgias explicá-lo».

Imagina, Górgias, que estás portanto a ser interrogado por eles e por mim e explica-nos que coisa é essa que dizes ser o maior bem para o homem e de que te consideras criador.

Górgias

É a que, na realidade, constitui o maior de todos os bens, proporcionando a quem a possui ao mesmo tempo liberdade para si próprio e domínio sobre os outros na cidade.

Sócrates

Mas, insisto em perguntar, que coisa é essa?

GórgiasÉ a capacidade de persuadir pela palavra os juízes no Tribunal, os senadores no Conselho, o povo na Assembleia, enfim, os participantes de qualquer espécie de reunião política. Com este poder farás teus escravos o médico e o professor de ginástica, e até o grande financeiro chegará à conclusão de que arranjou o dinheiro não para ele, mas para ti, que sabes falar e que persuades a multidão.




Sócrates

Agora é que me parece, Górgias, que definiste, com a possível exactidão, a espécie de arte que é a retórica e, se te compreendi bem, afirmas que ela é obreira de persuasão, que tal é o objectivo e a essência de toda a sua actividade. Ou pensas que a retórica tende a mais do que a fazer nascer a persuasão na alma dos ouvintes.

Górgias

De modo nenhum, Sócrates, acho que a definiste perfeitamente: essa é com efeito a sua característica fundamental.

Sócrates

Escuta, Górgias. Se há pessoas que, quando conversam, desejam saber exactamente qual é o tema da conversa, podes estar certo de que eu pertenço a esse número, e o mesmo creio que se passa contigo.

Górgias

Está bem; e depois, Sócrates?

Sócrates

Já vais saber. A questão é que eu não entendo claramente que espécie de persuasão é essa que tu dizes que a retórica produz e qual o objecto sobre que se exerce. Tenho, evidentemente, uma ideia do que tu pensas a este respeito. Gostaria, no entanto, de te perguntar qual é, em tua opinião, a natureza dessa persuasão que nasce da retórica e a que objecto se aplica. Mas, fazendo eu uma ideia do teu pensamento, porque te interrogo, em vez de apresentar simplesmente as minhas conjecturas? Não é, certamente, para te pôr à prova, mas apenas em atenção à conversa, que desejo se processe de maneira a ficar perfeitamente claro o assunto de que tratamos. Vê tu próprio se tenho ou não razão para te interrogar deste modo. Se, por acaso, eu te tivesse perguntado que espécie de pintor era Zêuxis e tu me respondesses que era um pintor de figuras, não era natural que eu quisesse saber o género de figuras que ele pintava? Não concordas com isto?

Górgias

Absolutamente.

Sócrates

E a razão não está em que há outros pintores que pintam também figuras?

Górgias

Exacto.

Sócrates

Claro que, se Zêuxis fosse o único a pintá-las, a tua resposta teria sido correcta.

Górgias

É evidente.

Sócrates

Pois bem, diz-me agora a respeito da retórica: pensas que é a única arte capaz de produzir persuasão ou que há outras artes que fazem o mesmo? O que quero dizer é o seguinte: aquele que ensina alguma coisa persuade ou não os outros daquilo que ensina?

Górgias

Fá-lo no mais alto grau, Sócrates.

Sócrates

Regressemos àquelas artes de que falávamos há pouco. A aritmética e aquele que é entendido na aritmética não nos ensinam tudo o que diz respeito ao número?

Górgias

Claro que ensinam.

Sócrates

Logo, também persuadem.

Górgias

Também.

Sócrates

A aritmética é, pois, também ela, obreira de persuasão.

Górgias

Assim parece.

Sócrates

E, se nos perguntarem a natureza e o objecto desta persuasão, responderemos certamente que se trata duma persuasão didáctica relativa à série completa dos números pares e ímpares. Poderíamos, do mesmo modo, demonstrar que todas as outras artes que há pouco citámos são obreiras de persuasão e indicar o carácter e o objecto desta persuasão. Não será assim?

Górgias

É

Sócrates

Portanto, a retórica não é a única obreira de persuasão.

Górgias

Dizes bem.


Scuola di Atene, de Rafael

Sócrates

Mas se ela não é a única a produzir este efeito, havendo outras artes nas mesmas condições, parece justo que façamos uma pergunta idêntica à que fizemos há pouco a propósito do pintor: De que persuasão é a retórica a arte e sobre que incide esta persuasão? Não achas razoável esta pergunta?

Górgias

Acho.

Sócrates

Responde então, Górgias, já que essa é a tua opinião.

Górgias

Entendo que a persuasão em causa é a que se realiza nos tribunais e em outras assembleias, como há pouco afirmei, e que o seu objecto é o justo e o injusto.

Sócrates

Já suspeitava, Górgias, que era dessa persuasão e desse tipo de objectos que falavas, mas, mesmo assim, fiz a pergunta para não te admirares se, daqui a pouco, te interrogar sobre coisas que parecem evidentes e que, no entanto, me obrigam a interrogar-te de novo. Se assim procedo, é, repito, para conduzir de forma coerente a discussão, não por qualquer espécie de má vontade pessoal. Penso que não nos devemos habituar a adivinhar-nos mutuamente o pensamento, antecipando as palavras que ainda estão por proferir; importa que tu desenvolvas livremente os teus raciocínios segundo os princípios que tu próprio estabeleceste.

Górgias

Parece-me esse um método excelente, Sócrates (in Górgias, Edições 70, 1997, 448b-454c).

Continua


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