segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Conde de Cagliostro (ii)

Escrito por Camilo Castelo Branco




Conde de Cagliostro


Admitido assim aos mistérios da seita, não deixou, em todo o tempo que residiu em Londres, de frequentar aquelas diversas lojas; porém, antes de sair dali, comprou a um livreiro alguns manuscritos que diziam ou pareciam ser de um tal Jorge Cofton, por ele inteiramente desconhecido. Viu que tratavam da maçonaria egipciana, mas com um sistema que tinha muito de mágico e supersticioso.

Propôs-se então o nosso Cagliostro criar, debaixo destes traços, um novo rito de maçonaria, tirando-lhe, porém, (disse ele), quanto tinha de mau, que vinha a ser a superstição e a mágica. Com efeito, levou a bom termo o seu desígnio, e o rito por ele fundado e propagado em tantas partes do mundo grandemente contribuiu para a sua celebridade. Disse-se noutra parte qual o impulso desta sua determinação, que foi abrir uma fonte copiosa de contribuições, já em dinheiro, já em jóias e roupas. Quem já nada cria em matéria de fé, que temor podia ter no meio da multiplicidade das seitas maçónicas? Pensou unicamente em realizar, à sombra desta novidade, mais estrondosas extorsões.

Para que se possa compreender tudo o que no decurso de tantos anos e de tantos lugares obrou nesta matéria, é necessário expor o plano do sistema, ou rito egipciano, por ele instituído, cotejando-o fielmente com o livro que ele compôs, e que apresentou como um código completo. Indo-se buscar a sua casa, solenemente o reconheceu e confessou que por ele sempre se tinha regido no exercício da maçonaria; que este mesmo livro lhe serviu de norma às iniciações que fizera em diversas lojas, e que vários exemplares deixara nas Lojas-Madres que fundou em diferentes cidades, como veremos.

Os leitores distinguirão bem, sem a ajuda das nossas reflexões, qual e quanta seja a malícia do seu autor, e a fraude que esconde debaixo das mentirosas divisas de piedade, de caridade e de subordinação às leis. Estes são os caracteres da sua impiedade infalivelmente superior e do mais detestável de todos os sistemas maçónicos. O livro, escrito em francês, tem o ressaibo de seu idioma. Cagliostro seria capaz de tanto? Certamente que não. É certo, pelo que consta, que ele inventou e forneceu matéria, porém, para escrever, serviu-se de pessoa de talento, não menos cega que ele em coisas de fé, animada dos encantos de sua vaidade, de seus discursos e operações.

Prometeu ensinar a seus sequazes o sistema e conduzi-los à perfeição por meio da regeneração física e moral, e assim fazer-lhes encontrar a matéria-prima ou a pedra filosofal, e a inocência, que consolidam no homem as forças da mais sã mocidade, tornando-o imortal; mais uma vez de posse disto, o homem adquire um Pentágono que o restitui ao estado de inocência primitiva, perdido pelo pecado original.

Finge Cagliostro que a maçonaria egipciana foi iniciada por Enoch e Elias, que a propagaram por diversas partes do mundo, e que, devido ao giro dos anos, se tinha degradado muito da sua primitiva pureza e esplendor. Aquela já tinha sido reduzida pelos homens a uma simples murmuração, e a outra pelas mulheres a uma total destruição, por não terem ordinariamente lugar na comum maçonaria. Enfim, o zelo do Grão-Copta (nome próprio dos sumos sacerdotes egipcianos) propunha restituir ao seu primitivo lustre a maçonaria, num e noutro sexo.

Expõem depois os estatutos os requisitos que devem exigir-se aos que querem ser admitidos aos três distintos graus, funções e catecismo dos aprendizes, companheiros e mestres, e o número de que comporá cada classe; os sinais distintivos com que se devem reconhecer entre si; os oficiais a quem cabe presidir e convocar a sociedade; o tempo de suas respectivas reuniões; a criação de um tribunal encarregado de julgar as questões que possam ocorrer entre lojas e as faltas de seus respectivos membros; aquele estreito vínculo de união com que são obrigados a proteger-se os irmãos em particular, e todas as lojas em geral, e as muitas cerimónias que se devem observar rigorosamente, assim na admissão dos indivíduos a cada um dos três graus indicados, como nas celebrações das lojas.




Em tudo isto há seu tanto ou quanto do sacrilégio, da profanação, da superstição e da idolatria que praticam as outras seitas da maçonaria ordinária; invocações do santo nome de Deus; prostrações e adorações à venerável cabeça da loja; sopros, aspirações, incensos, perfumes, exorcismos aos candidatos e aos vestidos que hão-se envergar, emblemas da sacrossanta Trindade, da Lua, do Sol, da plaina, do esquadro, e outras mil semelhantes iniquidades, bem conhecidas de todos. Na maçonaria de que tratamos, há alguma coisa ainda que, pela novidade, apresenta a mais abominável extravagância.

Já falámos do Grão-Copta, fundador ou restaurador da maçonaria egipciana, e diremos, a propósito, que Cagliostro não recuou em insinuar que, debaixo deste nome, estava a sua pessoa, e, com efeito, todos assim o reconheciam. Neste sistema, o Grão-Copta é igual ao Eterno Deus: a ele se rendem os actos mais solenes de adoração; a ele se atribui a autoridade de comandar os anjos; ele se invoca em todas as ocorrências; tudo se obra em virtude do seu poder, que se assegura ser-lhe singularmente comunicado por Deus. Porém, ainda há mais: em diversas cerimónias que se realizam nesta maçonaria, está prescrita a reza do Veni Creator Spiritus, o Te Deum e alguns Salmos de David. Chega a tal extremo a temeridade, que no salmo Memento Domini David, et omnis mansuetudinis ejus, o nome de David é substituído pelo do Grão-Copta!

Nenhuma religião é excluída da sociedade egípcia: o hebreu, o calvinista, o luterano, o católico, podem indiferentemente ser admitidos, porque acreditam na existência de Deus e na imortalidade da alma, e acham-se já alistados na maçonaria ordinária. Os homens que chegam ao grau de mestres tomam o nome dos antigos profetas, e as mulheres o das sibilas. O juramento que se exige aos primeiros é o seguinte: Eu prometo, obrigo-me e juro de não revelar jamais os segredos que me forem comunicados neste Templo, e de obedecer cegamente aos meus superiores. O das mulheres é concebido assim: Eu, juro em presença do grande Eterno Deus, de minha mestra, e de todas as pessoas que me ouvem, de não revelar jamais, nem fazer entender, escrever nem fazer escrever, tudo quanto se passa aqui à minha vista, condenando-me a mim mesma, no caso de imprudência, a ser castigada segundo as leis do grande fundador e de todos os meus superiores: prometo igualmente a mais exacta observância dos outros seis mandamentos que me impuseram: o amor de Deus; o respeito a meu soberano; a veneração pela religião e pelas leis; o amor a meus semelhantes; uma reverência sem reserva à nossa ordem, e a mais cega submissão aos regulamentos e leis do nosso rito, que me sejam comunicados por minha mestra. Ao passar ao terceiro grau de mestre ou mestra renova-se o juramento, porém o livro não refere a forma.

É sabido que na maçonaria ordinária há o costume de dar ao iniciando dois pares de luvas, um para si, e outro para que o dê à senhora que mais estima. O Grão-Copta, adoptando semelhante costume, junta a particularidade de se cortarem às mulheres, no acto da entrada, uns poucos de cabelos, que lhes restituem acabada a função, os dêem ao homem que mais estimam. Particulares e sacrílegas são igualmente as formas com que se admitem candidatos à posse de seus respectivos graus. Referiremos somente o que respeita à mulher aceite ao grau de aprendiza, e outra correspondente ao homem que sobe ao grau de companheiro. Na primeira, a mestra dá um sopro na cara da candidata, prolongando-o desde a fronte até à barba, e pronunciando estas palavras: Eu vos dou este sopro para fazer brotar e penetrar em vosso coração a verdade que nós possuímos; eu vo-lo dou para fortificar em vós a parte espiritual; eu vo-lo dou para confirmar-vos na fé de vossos irmãos e irmãs, segundo as obrigações que tendes contraído. Nós vos criamos filha legítima da verdadeira adopção egípcia e da loja, etc.; nós queremos que vós sejais reconhecida nesta qualidade por todos os irmãos e irmãs do rito egipciano, e que vós gozeis das mesmas prerrogativas; nós vos damos o poder para ser desde agora em diante e para sempre mulher franco-maçon e livre. Quanto aos homens que sobem ao grau de companheiro, o mestre fala-lhes assim: Pelo poder que tenho do Grão-Copta, fundador da nossa Ordem, e pela graça de Deus, eu vos confiro o grau de companheiro e vos constituo custódio de novos conhecimentos, os quais vos participaremos em os nomes sagrados de Xalion, Melion e Talhagramaton.




No caderno da seita dos iluminados, impresso em Paris no ano de 1789, refere-se que estas últimas palavras foram sugeridas por Cagliostro, como santas e arábicas, de um certo jogador de peloticas, que dizia estar assistido de um espírito, que era alma de um hebreu cabalista, o qual por arte mágica tinha morto o padre antes da vinda de Jesus Cristo.

Os maçónicos ordinários têm por protector S. João Baptista, e por isso o homenageiam, ao contrário do rito de Cagliostro, onde é S. João Evangelista (neste dia foi Bálsamo preso em Roma) o festejado, dizendo ele que em virtude da grande afinidade que há entre o Apocalipse e as diversas passagens do mesmo rito. Delas convém aqui falar, para plena inteligência da impiedade do sistema e das operações em que continuamente se exercitou, como veremos.

Na passagem dos homens ao grau de mestres prescreve-se a seguinte execranda função: toma-se um menino ou menina que esteja no estado de inocência (a que se dá, respectivamente, o nome de pupilo ou pomba), a qual recebe, comunicado pelo venerável, o poder de que, antes da queda do homem, estava investida, e em especial o de mandar os sete espíritos puros que dizem existentes no trono divino e que regem os sete planetas, assim nomeados no sistema ou livro de que vimos tratando: Anael, Rafael, Gabriel, Uriel, Zobiaquel, Anaquiel.

Conduzida a pupila à presença do venerável, esta dirige, juntamente com os membros da loja, orações a Deus para que se digne permitir-lhe o exercício do poder que lhe foi comunicado pelo Grão-Copta, a fim de que possa obrar segundo os mandamentos do venerável e servir de mediadora entre ele e os espíritos que se chamam intermediadores. Depois, vestida com um hábito talar branco, adornada de faixa de turquesa e cordão encarnado, e aspirada com um sopro, encerram-na num Tabernáculo, que é um lugar apartado do Templo, armado de branco, tendo por fora uma porta de entrada, pela qual se há-de ouvir a voz e, no interior, uma pequena mesa onde ardem três velas. Renova o venerável as orações, e começa a exercer aquele poder que diz ter recebido do Grão-Copta, obrigando os sete anjos a comparecer perante a pomba. Quando esta anuncia a sua presença, aquele ordena-lhe, em virtude do poder que Deus conferiu ao Grão-Copta e o Grão-Copta lhe comunicou a ele, que pergunte ao anjo Anael se o candidato tem os méritos e os requisitos necessários para se elevar ao grau de mestre, e, sendo a resposta afirmativa, passa a outras cerimónias e funções necessárias para a elevação do iniciando.

A mesma cerimónia se prescreve para a elevação das mulheres ao magistério, mas com alguma diferença; à pomba, colocada, como se disse, no Tabernáculo, é-lhe ordenado que faça comparecer um só dos sete anjos e que lhe pergunte se será permitido levantar o véu com que está coberta a inicianda. Seguem-se outras supersticiosas cerimónias, e depois o venerável diz à pomba que mande comparecer os outros seis anjos, aos quais se dirigirá nos seguintes termos: Pelo poder que o Grão-Copta conferiu a minha mestra, e pelo que eu dela obtive, ordeno-vos, anjos primitivos, que consagreis estes hábitos, fazendo-os passar por vossas mãos. São estes hábitos os vestidos e insígnias da Ordem, e juntamente uma coroa de rosas secas. Quando a pomba verifica que os anjos realizaram a consagração, ordena-se-lhe que faça comparecer Moisés, a fim de que também abençoe os ditos vestidos, e tenha nas mãos a coroa de rosas durante o resto da cerimónia. Depois lançam-se pela janela do Tabernáculo os vestidos, as insígnias, e, entre elas, as luvas que levam escrito no meio: eu sou homem; e tudo entrega à candidata, Seguem-se outras perguntas à pomba, especialmente para dizer se sim ou não Moisés teve sempre na mão a coroa, e, respondendo que sim, põe-se-lhe na cabeça. Finalmente e após outras práticas igualmente sacrílegas, faz-se uma outra pergunta à pomba: se Moisés e aos sete anjos foi grata a promoção. Invocada a vinda do Grão-Copta para que também a abençoe e aprove, fecha-se a loja.


Moisés, o "salvo das águas"



Não será importuna uma breve digressão, que possa servir de desengano àqueles que porventura tenham tido a desgraça de cair nesta cegueira. O Grão-Copta, o restaurador da maçonaria egipciana, o conde de Cagliostro, mostra em diversas partes do seu sistema ter em grande conta o patriarca Moisés. No entanto, o próprio Cagliostro declarou espontaneamente terá alimentado sempre em seu ânimo uma insuperável antipatia contra o mesmo Moisés. Em sua opinião, Moisés foi um ladrão, por ter tirado aos egipcianos seus vasos; e, em face dos mais claros argumentos com que o refutaram, procurando convencê-lo do seu erro, pérfida e obstinadamente sustentou seu modo de ver, o que faz supor ter visos de verdade o que foi dito por sua mulher - que a antipatia de seu marido por Moisés procedia de origem mui diversa, qual era a de ele não comparecer a seus trabalhos maçónicos. No entanto, amara sempre os hebreus como a si mesmo, e costumava dizer que é a gente mais bela do mundo.

Mas voltemos ao nosso intento.

O fim da sua maçonaria, como por mais de uma vez temos dito, consiste na perfeição do homem, meio pelo qual promete conduzir os sequazes à regeneração moral e física, depois que tenham subido ao grau de mestres. Para obter uma e outra, prescreve duas distintas quarentenas, que vêm a ser: um retiro de quarenta dias pela primeira vez, e uma cura corporal de outro tanto tempo, pela segunda. As práticas impostas para uma e para a outra formam um complexo que é uma demonstração triunfante da iniquidade do sistema. A descrição que vamos fazer justificará a nossa proposição.

O que pretende obter a regeneração moral, que significa a inocência primitiva, deve subir a uma montanha altíssima, à qual dará o nome de Sinai, e no seu cume construirá um pavilhão, dividido em três planos ou estâncias, que se denominará Sião. A câmara superior medirá dezoito pés quadrados, tendo quatro janelas ovais por cada lado, cada uma só porta de entrada. A segunda câmara, situada no meio, será perfeitamente redonda, sem janelas, e capaz de acomodar treze pequenas camas; uma só lâmpada, colocada no meio, alumiará, e não haverá ali móvel algum que não seja necessário. Esta segunda câmara chamar-se-á Arazat - nome da montanha sobre a qual se assentou a arca, em sinal de repouso que está reservado só aos maçons eleitos de Deus. - Finalmente, a terceira câmara terá capacidade conveniente para servir de refeitório e, ao redor, três gabinetes; em dois deles guardar-se-ão as provisões e tudo o mais que preciso for, e no terceiro os vestidos, as insígnias e os instrumentos maçónicos da arte, segundo Moisés.

Juntas as provisões e os instrumentos necessários, encerram-se treze mestres no pavilhão, sem mais poderem sair durante quarenta dias, que é quanto demoram os labores e trabalhos maçónicos, observando em cada dia a mesma distribuição de horas: seis serão empregadas na reflexão e repouso; três na oração e holocausto ao Eterno, que consiste em dedicar-se todo a si mesmo com a maior força do coração, tendo em vista a maior Glória de Deus; nove nas sagradas operações, tais como a preparação da carta virgem e a consagração dos instrumentos que devem fazer-se todos os dias; as últimas seis na conversação e restabelecimento das forças perdidas, tanto físicas como morais. Passado que seja o dia trigésimo terceiro destes exercícios, começarão os encerrados mestres a gozar do favor de comunicar visivelmente com os sete anjos primitivos, e conhecer o selo e a cifra de cada um destes entes imortais. Um e outro serão por eles mesmos provados na carta virgem, composta, ou da pele de um cordeirinho recém-nascido, purificado em pano de seda, ou da secundina de uma criatura do sexo masculino, nascido de uma hebreia, purificada igualmente, ou de papel ordinário, benzido pelo fundador.


Este favor durará até ao dia quarenta, no qual, concluídos os labores, começará cada um a gozar do fruto deste retiro, isto é, cada um recebe, de per si, o Pentágono, ou a carta virgem, sobre a qual os anjos primitivos imprimiram suas cifras e selos.

Fortificado com isto, e feito assim mestre e cabeça do exército, sem socorro de algum mortal, seu espírito encher-se-á de fogo divino, e seu corpo ficará puro como o do menino mais inocente; sua penetração não terá limites; seu poder será imenso; não aspirará a outra coisa mais que a um perfeito repouso para chegar à imortalidade e poder dizer de si: Ego sum qui sum.

Além do Pentágono sacro, terá outros sete diferentes, dos quais poderá dispor a favor de sete pessoas, homens ou mulheres, que sejam de sua maior estimação. Estes Pentágonos secundários só têm impresso o selo de um dos sete anjos; portanto, quem o possui não pode exercer império sobre outro que não seja este, e fá-lo-á não em nome de Deus, como possuidor do primeiro Pentágono, senão em nome do mestre de quem o recebeu, obrando por seu poder, do qual pelo outro ignora o princípio.

Vejamos agora o seguimento da regeneração, ou perfeição física, com a qual pode a pessoa chegar, ou à espiritualidade de 1557 anos, ou prolongar a vida sã e tranquila até que Deus o queira chamar a si. Quem aspira a tal perfeição, deve, cada cinquenta anos, retirar-se no plenilúnio de Maio, com um amigo ao campo, e ali, encerrado numa cela ou alcova, sofrer, durante quarenta dias, uma dieta rigorosa, com escassos alimentos, consistindo em sopas ligeiras, ervas tenras, refrigerantes, laxativos, e bebidas de água destilada ou da chuva de Maio. No décimo sétimo dia deste retiro, feita uma pequena sangria, tomará certas gotas brancas, que não explica de que sejam compostas, seis pela manhã e seis de tarde, acrescentando mais duas pelo dia adiante, até ao dia trinta e dois, em que procede a uma pequena sangria ao nascer do Sol; no dia seguinte mete-se na cama até concluir a quarentena, e ali sobe ao primeiro grau da matéria-prima, aquele mesmo que Deus criou para tornar o homem imortal e que este perdeu pelo pecado, não podendo reavê-lo senão pelo favor do Eterno ou pelos exercícios maçónicos. Tomado este grau, o que houver de ser renovado perde o conhecimento e a fala por três horas e, convulsionado, exsolve-se numa grande transpiração e evacuação; depois, tornando a si e mudando a cama, há-de ser confortado com uma substância composta de uma libra de carne sem gordura e várias ervas refrigerantes.

Se o confortivo o põe em bom estado, no dia seguinte dá-se-lhe o segundo grau de matéria-prima numa tigela de substância, cujos efeitos, ao contrário da primeira, lhe ocasionarão uma grande febre com delírio, caindo-lhe a pele, os cabelos e os dentes. No dia seguinte, trinta e cinco, se o doente tem forças, tomará banho, nem quente nem frio, que não pode exceder uma hora. No dia trinta e seis, num vaso de vinho velho e generoso, tomará o terceiro grau de matéria-prima, que o porá num sono doce e muito sossegado. É então que nasce outra vez a pele e começam a aparecer os dentes e o cabelo. Tornando a si, deve entrar num novo banho aromático, e lavar-se, no dia trinta e oito, num banho de água ordinária, na qual se deitará nitro. Tomado o banho, vestir-se-á e passará pela sala, tomando, no dia trinta e nove, algumas gotas do bálsamo do grão-mestre em duas colheres de vinho tinto.

No dia quarenta, finalmente, sairá de casa, já de todo renovado. Para complemento da história, não deixaremos de advertir que um e outro método estão prescritos, igualmente para as mulheres, e que, na parte correspondente à regeneração física se manda, a cada uma delas, retirar para a montanha ou para o campo com a única companhia de um amigo, o qual deve prestar-lhe todos os ofícios necessários, em particular aqueles que correspondem à crise da cura corporal.













É esta a trama do seu sistema ou maçonaria egipciana, que muito pela rama explanamos, a fim de corresponder à brevidade que prometemos. Da outra análise que sobre o dito sistema se tem feito, resulta, iniludivelmente, a sua impiedade, superstição e sacrilégio; porque, além de reunir em si tudo o que há de pior nas comuns maçonarias, tem ainda, a torná-lo mais repulsivo, essa indigna sedução tendente a inspirar aos homens o sistema físico e moral, investindo cara a cara, e sem rebuço, com os dogmas mais sólidos da religião (in ob. cit., pp. 44-52).


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