terça-feira, 14 de junho de 2011

Portugal, Razão e Mistério (v)

Escrito por António Quadros




Dante Alighieri


Mais subtis se nos afiguram as páginas em que, na Monarquia, nos diz que a legitimidade do Império e em geral de todo o poder recebido directamente de Deus, reside na capacidade de fazer prevalecer o direito e a justiça, a paz e a liberdade, a bondade e o amor (68). Citando Boécio, Dante faz-se eco destes três versos:


Feliz a raça dos homens
se as almas deles, pelo amor
que rege os céus, forem regidas (69).


Ideia que ressoa no esplêndido final, escrito alguns anos depois, da Divina Comédia, o seu desejo e a sua vontade já inteiramente regulados, cavaleiro confesso de Cristo, pelo Amor que move o sol e as outras esferas.

À luz de tais proposições - de cujas consequências teóricas o próprio Dante não terá tomado inteira consciência à data em que escreveu a Monarquia, obcecado politicamente como então se encontrava -, o verdadeiro Império, como Jerusalém Terrestre em metanóia para a Jerusalém Celeste, como Cidade dos Homens encaminhada para tornar-se Cidade de Deus, como Quinto Império em plenitude da profecia de Daniel a Nabocodonozor, não pode ser o de uma Roma rediviva, «legitimada» pelas suas vitórias e passada glória, mas o Império onde a Verdade por que morreu e ressuscitou Cristo encontre a mais fiel realização terrena, ou seja, onde o Imperador seja do Espírito Santo, Imperador das duas beatitudes, as beatitudes que separadamente, embora complementarmente, agraciam, quer a Igreja, quer a Monarquia (ou a República, pode também entender-se e deduzir-se), com os seus distintos carismas.

É o Paráclito, Imperador invisível e pantocrator, que guiará os homens, segundo as palavras de Jesus, para a verdade total (70), é o Divino Espírito Santo que convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo (71).

Em que fronte pousará Ele, Espírito da Verdade, a Coroa terrena do Seu Império? A pomba branca da Sua paz? As labaredas ardentes da Sua justiça e da Sua sabedoria?

Apenas, mas como em empréstimo, como um depósito que não é de posse, como em graça a merecer a cada instante sem em nenhum instante poder ser esquecida, na fronte de um Monarca, de um Governante, de um Estadista que humildemente, sabiamente, amorosamente, a ceda, se recebida por legado hereditário ou se conquistada em luta política, a ceda, mas simbolicamente, num gesto ritual, litúrgico e plenamente significativo do arquétipo que nele se representa, aos Bem-Aventurados, isto é, aos pobres em espírito, aos que choram, aos mansos, aos que têm fome e sede de justiça, aos misericordiosos, aos puros de coração, aos pacificadores, aos que sofrem perseguição por causa da justiça, aos insultados e aos caluniados, que exaltou Jesus no Sermão da Montanha (72). O Império de Deus nesta terra, o Império do Espírito Santo, será, podemos agora sabê-lo, o da realização terrena das Bem-Aventuranças, o onde já não haverá caluniadores nem perseguidores, o onde terão vencido os puros de coração e os misericordiosos, pátria prometida dos justos, dos ofendidos e dos que têm fome de Espírito, pátria prometida da Verdade e do Amor.

Convento de Cristo em Tomar






Janela do Capítulo







O leitor que até aqui pacientemente nos seguiu, em percurso aparentemente labiríntico, lendo as nossas evocações do Culto aristocrático e popular do Espírito Santo (porventura excessivamente pormenorizadas), bem como tudo quanto descrevemos sobre o espírito da Ordem do Templo e a dinâmica da sua transformação na Ordem de Cristo, sem esquecer as concepções de Dante e dos gibelinos, não terá agora dificuldade em acompanhar-nos na nossa conclusão de que o Rei D. Dinis e ao seu lado a Rainha Santa Isabel, tiveram e chegaram a exprimir em termos simbólicos e até activos, o projecto áureo de realizar, nesta terra, o Império do Espírito Santo, que seria, esse sim, e não o romano, o Quinto Império sonhado por Daniel, pelos Judeus e por Dante.

Como se sabe, o mito do Quinto Império conquistou raízes profundíssimas em terra portuguesa, alimentado pela profecia lendária de Cristo a D. Afonso Henriques em Ourique, pelas estâncias em que Luís de Camões nos Lusíadas explicitamente o atribui a Portugal, à forte gente / de Luso, porque é dos Fados grandes certo intento / Que por ele se esqueçam os humanos / De Assírios, Persas, Gregos e Romanos (73), por Frei Bernardo de Brito e pelos historiadores cistercienses de Alcobaça, por D. João de Castro e pelo Padre António Vieira, mais modernamente por Fernando Pessoa e por outros poetas de análoga linhagem, ora visto como um Império Cristão, cuja cabeça será Portugal, ora (segundo Pessoa) como um Império da Cultura ou um Império do Espírito, para o que não seria necessário domínio territorial exterior.

É difícil saber, com base documental, quando surgiu, formulada já em termos populares e míticos, a ideia profética de que à pátria portuguesa estaria destinada uma tão grandiosa missão. Para Camões, era obviamente já uma tradição. Mas não estaria ela desde logo implícita na teoria providencialista da expansão, desde os séculos XV e XVI? Quando Camões fala num Império a dilatar, de que Império se trata? Não será o Quinto Império -, mas como Império do Espírito Santo, nascido pois o mito entre nós da visão de D. Dinis e de Santa Isabel, continuada e ampliada pelos Príncipes e Reis de Avis.

Como construir contudo neste mundo, na profundidade das almas e na largueza da Écumena, um tal Império, visto (e regressando agora à sua fonte dionisíaca), não como um Império da força, ou mesmo do direito (ao modo romano e virgiliano), mas como um Império de Deus-Espírito Santo, na Terceira Idade, Quinto Império, interpretado como Império do Quinto Evangelho, Evangelho Eterno, na concordância do Antigo, do Novo e do Novíssimo Testamento em permanente dispensação, revelação ou ditado na alma dos Ungidos e dos Inspirados, eclesiásticos ou laicos, como parece figurar-se em todo o protocolo simbólico das Festas do Império do Divino, desde Alenquer aos Açores e ao Brasil?

Podemos encontrar a resposta histórica a esta pergunta, cremos, no conteúdo da tripla missão transcendental, em planos diferentes mas convergentes, atribuída, por D. Dinis, simultaneamente ao Auto ou ao Mistério da Coroação do Imperador do Espírito Santo, ao Estudo Geral Universitário e à Ordem de Cristo, em univocidade garantida pelos Reis portugueses, na sua condição de Monarcas livres segundo o conceito de Dante e de Cristãos e Paracletianos em consonância activa e criacionista com a Igreja Universal.


Fiéis por um lado ao seu carisma próprio, à sua realeza soberana de investimento divino e fiéis por outro lado à Igreja Católica e ao Sumo Pontífice em sua vocação religiosa, em ordem à salvação e à redenção, D. Dinis e Santa Isabel, no seu projecto áureo, marcaram com um sinal de fogo, a partir deles, e talvez para sempre, seja em força de ideal, seja em mito e poesia, seja em saudade ao nível do inconsciente colectivo popular, seja em medida de pessimismo e de frustração, o destino da pátria portuguesa e porventura da pátria brasileira.

Aproximemo-nos ainda um pouco mais.

2. Na profundidade das almas, o Império do Espírito Santo nunca poderia construir-se por uma acção puramente política como um sucedâneo do Império Romano. Por isso a mais verídica noção portuguesa do Quinto Império é diferente de todas as outras.

Nem basta que um Monarca hereditário, com pergaminhos para a sucessão de César, seja coroado pelo Papa, nem muito menos que um Imperador vitorioso, como Napoleão Bonaparte, a si próprio se coroe, levando até ao absurdo a teoria de Dante.

O Império do Espírito Santo, tal como anunciado no Mistério da Coroação, não é em suma um Império de fora para dentro, um Império sociocrático ou autocrático, mas um Império de dentro para fora, um Império a partir da metanóia de todos e de cada um, um Império da conversão, que é a conversão dos cristãos, também como cidadãos e homens sociais, à luz, à verdade e à vida que veio trazer Jesus Cristo no seu exemplo e paixão, e que o Espírito Santo transmite aos que o invocam com o coração puro, bem assim como, ao mesmo tempo, a conversão de todo o mundo, em sua variedade de crenças, de culturas e de civilizações, sem perda do próprio de cada uma, a análoga beatitude, embora em convergente finalidade escatológica.

O mesmo é dizer-se que o Império do Espírito Santo, português e universal, o Quinto Império, é um Império virtual, irrealizável por simples coroação, herança, lei, ditadura ou partido, por parte de grupos oligárquicos, classes políticas ou revolucionárias voluntaristas. É um império virtual, potencial, apenas esboçando o acto, apenas desenhando a promessa, apenas prefigurando o projecto. Não é o Rei que é coroado Imperador. Não é sequer a autoridade local ou o Bispo, ou o sacerdote paroquial. É o pobre, é a criança, é o que visivelmente está carenciado da plenitude de ser homem, pela condição social ou pela idade. E aqui se simboliza como é à face da carência que nos pode surgir em horizonte, em ideal, em aspiração e em promessa decidida, o cumprimento da promessa infinita que cada homem traz consigo à nascença e cuja realização a existência em sociedade lhe dificulta até à negação.

Pode agora interrogar-se: mas tal não é a missão da Igreja Universal? É e não é, como ensinaram Santo Agostinho, S. Bernardo e Dante. É que a missão dos Bispos e do Clero tem o seu carisma num plano que é essencialmente o da Salvação e o da Redenção, cabendo no entanto aos soberanos ou aos poderes políticos que depois os substituíram exercer a sua acção, complementar, noutros planos, como os da existência em sociedade com vista ao bem comum nesta terra, o da vida e evolução perfeccionista da psique e do pensamento em cada cidadão, o da organização da vida social, moral e económica neste mundo, de acordo com um dinamismo que não deve ser apenas o do interesse próprio ou mesmo o interesse particularista das classes, das regiões e das nações, ou ainda o interesse horizontal do homem-massa, exterior e uniforme.





A separação da Igreja e do Estado tornou-se um dado adquirido. O Estado autonomizou-se por completo da Igreja ou das Igrejas e Confissões religiosas de vária origem, como não era ainda possível no tempo de D. Dinis e de Dante, e daí muito da sua luta.

Mas uma fenda surgiu, uma ruptura grave, a partir do momento em que ao Estado não lhe bastou ser independente, quis também organizar-se sem valores transcendentais, sem uma filosofia espiritualista e redentorista do homem procurado e descoberto na sua complexidade, sem uma educação para a metanóia, para a conversão permanente, não só ao nível religioso e espiritual, mas também mental e intelectual, sem uma ética superior com vista à fraternização das relações humanas, enfim sem uma teoria dos fins últimos e tudo jogando em teorias truncadas, de fins parcelares, reducionistas e diminutivos, que, confinando-o à satisfação ou insatisfação dos desejos da psique, da alma ou da anima, o mantêm pois na condição de animal racional. Ora o homem não é um animal, seja um animal racional, o homem é ao contrário um espiritual, um espiritual animado, um espiritual com alma ou, na expressão preferida por Álvaro Ribeiro, uma razão animada.

O Estado moderno não soube assumir-se como Estado filosófico e ético, e como sede nacional e terrena de um Reino do Espírito - Reino do Espírito Santo sobre e para os homens e Reino do Espírito Santo nos homens em sua condição ambígua mas potencialmente levitante.

O que fez D. Dinis, ele que segundo a datação de Joaquim de Flora e dos joaquimitas nascera no Ano I da Idade do Espírito Santo, não foi assumir, ele próprio, o Império, com a sua Coroa e o seu Ceptro, mas encenar um Mistério e integrá-lo no tempo sagrado dos cinquenta dias pentecostais de forma a que anualmente fosse revivido para nunca mais ser esquecido, Mistério em que, ele próprio, com a Rainha e os Franciscanos de Alenquer, de Sintra e de todo o Reino, colocavam a coroa simbólica do Imperador do Espírito Santo, na cabeça de um homem de baixa condição ou nalguns lugares de uma criança, em ambiente festivo e eufórico de abundância, de partilha fraterna, de liberdade, de alegria e de amor.

Era, como acentuámos já, o ritual profético de um futuro Império segundo as Bem-Aventuranças. Nesses dias da Páscoa Rosada, à coroa simbólica do pobre-Imperador ou do menino-Imperador, correspondia efectivamente e intencionalmente a festa (estado pré-paradisíaco) em que todos confirmavam a sua condição cristã de irmãos (con-frarias do Espírito Santo), se juntavam num ágape em comum, onde já não faziam sentido as classes sociais, davam generosamente as suas ofertas ou bodos para serem distribuídos (partilha do pão, activo amor ao próximo), abrindo-se também as portas das prisões. A cada canto, seu Espírito Santo. E em cada uma das sete semanas dessa Páscoa Rosada, um novo Imperador, como, em cada ano, novos Imperadores do Espírito Santo, porque é o Mistério e o Ritual profético de um Império a partir de dentro, de um Império na profundidade das almas, de todas e de cada uma. Os últimos serão os primeiros e por isso só eram coroados os pobres e as crianças. Mas o Império só poderá finalmente consolidar-se quando já não houver pobres e quando os homens forem, em pureza de coração, como as crianças.

Então, só então, os mansos possuirão a terra, os que têm fome e sede de justiça serão consolados, os pacificadores serão chamados filhos de Deus e todos sem excepção, poderão ser coroados, a raça humana será coroada e ungida, mas é preciso começar a preparar esse ainda virtual Império de Deus, esse ainda potencial Império do Espírito Santo, Império das labaredas de fogo, que queimam, purificam e consolam, e por isso, na Festa da Candelária em Alenquer, toda a vila surgia cingida por um grande abraço ígneo e luminoso, sua consagração e testemunho de fidelidade ao Espírito da Verdade.

Convento de S. Francisco (Alenquer, ou melhor: "Alão Quer", segundo as lendárias palavras de Afonso Henriques).


Valerá a pena acrescentarmos, a atestar a originalidade na Península e na Europa, deste Mistério e Ritual universalistas, mas lusocêntricos na forma profética entre nós assumida, que um inquérito realizado em Espanha a pedido de Jaime Cortesão, pelo Centro de Estudos Etnográficos Peninsulares, sobre a existência ou não do culto do Espírito Santo, sob a forma de Império, deu resultado negativo (74). Trata-se efectivamente de um culto que teve expressão própria portuguesa, conjuntamente religiosa e laica, tal como originalmente português em seu estilo de terapia e consolo no amor foram os Hospitais do Espírito Santo, que sob o impulso da Rainha D. Leonor (75) se transformaram mais tarde nas Misericórdias, criações também típicas da nação, face à Península e em geral à Europa.

Ao serviço da expansão e da realização mundanais de um tal projecto de Império colocou D. Dinis a nova Milícia de Cristo, vocacionada por toda a sua herança templária, mas agora rejuvenescida, lusitanizada e reorientada pelo ciclo doloroso da paixão, morte e ressurreição a que fora sujeita. Tal a missão de que na Divina Comédia, Dante viu investidos os Perfecti de Acção, Cavaleiros de Cristo e Fiéis do Amor sem heresia, batalhadores por um mundo governado pelo Espírito.

Sem heresia cremos efectivamente, não podendo olvidar-se que Isabel de Aragão foi santificada pela Igreja, não se lhe tendo sido encontrado desvio teológico. Sem heresia, mas com independência, originalidade, personalidade, criacionismo mental e até ritual, concebeu pois D. Dinis o que podemos verdadeiramente chamar um projecto áureo em que, ao lado da missão espiritual da Igreja, do Papa e em especial dos Cistercienses e dos Franciscanos na sua escatologia da salvação, surgia agora a complementar missão das confrarias laicas do Espírito Santo, do Estudo Geral Universitário e da Ordem de Cristo, concorrendo no triplo plano da religião popular, da maturação filosófica e da acção militante para a sagração e para a santificação do mundo no temporal, no terrenal e no social.

A Monarquia Portuguesa assumia-se efectivamente como fundadora e garante de um Império de Deus, o Império do Espírito Santo, que seria verdadeiramente o Quinto Império bíblico, se o projecto tivesse podido realizar-se na plenitude de todas as suas virtualidades.

Se... Baseados na arqueologia da tradição portuguesa templária, cisterciense, joanina, dionisíaca, paracletiana, tal como julgamos tê-la aprendido nas suas linhas mestras, esboçámos o projecto áureo de um Império virtual e ideal do Espírito.

E quanto ao Império possível, quanto ao destino do projecto áureo na prova deste mundo dos homens e no desafio dos tempos e das gerações que se sucedem? Na entrega aos meandros, às erosões, aos inesperados, às infidelidades, às voltas e contravoltas de uma realidade onde a degenerescência e a corrupção sabotam os mais belos idealismos, mesmo se estes resistem e sobrevivem de uma ou outra forma?

Brasão da Dinastia de Avis



Eis interrogações de não fácil resposta. Tentemo-la, contudo, ainda que seja, tenha que ser precário o nosso entendimento de todo o período que medeia entre a morte de D. Dinis e a ruptura com a tradição, depois da morte de D. Manuel I e do advento do seu filho, infiel ao espírito de Avis, D. João III, ruptura entre a paideia dionisíaca e a paideia dominante em reinado culminante do hoje incompreendido D. Manuel I.

É uma das épocas mais estudadas da história portuguesa, mas é precisamente por isso que as raízes mais fundas dos acontecimentos nos fogem. A erudição que sobre ela pesa, porque é uma erudição fundamentalmente positivista e mais recentemente materialista, escondeu a nosso ver o essencial das questões. Reconstitui-lo tem pois de ser uma procura realizada menos sobre o documento escrito (muito explorado, mas incompleto ou lacunar no que mais interessa) do que sobre a linguagem cifrada da arte, dos símbolos, das alegorias ou dos mitos, menos sobre o dito pelos cronistas e seus sucessores, os historiadores, do que sobre o interdito de uma perdida e transviada herança literária e iconográfica (in ob. cit., pp. 140-148).


Notas:

(68) É a matéria de todo o Livro I, Necessidade da Monarquia, centrado embora na pessoa do Monarca.

(69) Paraíso, 33, 144 e 145, in ob. cit., p. 856.

(70) João, 16, 13.

(71) Ibid., 16, 18.

(72) Mateus, 5.

(73) Camões, Os Lusíadas, Canto I, 24.

(74) Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses, ob. cit., p. 179.

(75) Ibid., pp. 179 e 180.







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