quarta-feira, 22 de junho de 2011

«Sou um repudiado pela cultura oficial»

Entrevista a Orlando Vitorino








No prefácio a Tongatabu e Nem Amantes nem Amigos (Teoremas, 1977), congratula-se «o autor por o destino o haver dado a tão deslumbrante língua portuguesa». Contudo, trata-se de uma língua que, «ainda usada como viva», ou já confinada ao «vozear babélico de uma multidão», surge, de facto, como uma língua já morta depois de ter sido, quer em capacidade descritiva quer em capacidade conceptiva, a primeira de entre todas as línguas europeias modernas. Tal é, pois, o que Orlando Vitorino, dizendo o que sabe, bem como sabendo o que diz, assegura num duplo sentido: o primeiro denotando que as palavras, adulterado o significado étimo e conceptual, decaíram num prosaísmo vocabular de intuitos meramente utilitários e comunicativos; o segundo mostrando que é hoje possível escrever e falar, a par da língua igualmente morta dos clássicos, com palavras cujo espírito de liberdade porventura vale e significa o que as palavras sagradas valiam e significavam para os sacerdotes que, durante mais de mil anos, acreditaram na revelação de Deus.

Ora, a entrevista que se segue, inserta em A Tarde (n.º 871, II Série, 4/11/85), dá disso inolvidável testemunho nas palavras de quem
fora efectivamente «repudiado pela cultura oficial». Aliás, a diferença entre cinema de festival ou cinema de autor, ou ainda entre filosofia portuguesa e cultura marxista universitária, constitui, por si só, o que mais importa saber. De resto, fica também aqui um anexo comprovativo da passividade das instituições do Estado perante as ilegalidades cometidas pelos “candidatos do sistema” nas eleições presidenciais de 1986.

Miguel Bruno Duarte





«Sou um repudiado pela cultura oficial»

Realizador de cinema? Diz-me que não, não é. «Sou um homem da cultura», corrige. A sua primeira, e única, longa metragem, a adaptação para o cinema de «Nem Amantes, nem Amigos», tem doze anos e nunca foi estreada para o grande público. Porquê? «Os distribuidores não a querem, impõem condições...» Se calhar, o seu filme é mau... «Pois olhe que quem o viu considera-o uma obra-prima». Estes distribuidores...! «Faço cinema de autor, sabe? E eles preferem o outro, o de festival. Rende mais, dá mais dinheiro». Entretanto há as curtas metragens. E subsídios? «Qual quê? Quando aprendi a fazer cinema pedi um subsídio e negaram-me. Até hoje. A última vez foi há dois anos. Havia 70 pedidos de subsídios e ganharam cinco realizadores: todos eles comunistas». Pouca sorte, não? «Sou um repudiado pela cultura oficial», afirma. Orlando Vitorino, 60 anos. Actualmente é candidato à Presidência da República. Na manga, um filme em preparação: o da sua candidatura presidencial. Título: «Como se ganha ou como se perde uma eleição». A entrevista, no discurso directo.


«O cinema português não tem espectadores»

A TARDE – Que tipo de cinema se faz em Portugal?

Orlando Vitorino – O cinema de festival. Ou seja, um cinema que não interessa nada ao público, que não tem espectadores e que apenas serve para os seus autores levarem esses filmes aos infinitos festivais que há por todo o mundo, ganharem aí um prémio, fazerem publicidade com ele e obterem, assim, no ano seguinte, um novo subsídio.

A TARDE – Qual a diferença entre cinema de festival e cinema de autor?

Orlando Vitorino – Neste último, o realizador utiliza o cinema para expressar uma realidade que ele próprio constrói, que ele faz, sem condicionamentos. Tal como um poeta escreve um poema, um romancista um romance. No cinema comercial, ou no de festival, o termo realizador é apenas uma designação industrial: há uma grande indústria de cinema, dentro dela existem várias funções e uma delas é a do realizador. Muitas vezes, o realizador é apenas um operário, recebe um texto, um guião, os actores e limita-se a orientar e ordenar tudo aquilo. Por outro lado, o realizador que não entra no meio industrial, que recusa descaracterizar-se, nunca chega a ter êxito.

A TARDE – Nunca? Tem a certeza?


Ingmar Bergman


Orlando Vitorino – Abro uma excepção, por exemplo, a Ingmar Bergman. Mas veja o caso do Bogdanowitch, o realizador de «Romance em Nova Iorque». Ele é, na minha opinião, um dos maiores realizadores do cinema actual, e, no entanto, não tem êxito, nunca foi premiado. Os prémios têm sido atribuídos a obras inferiores, pelo menos inferiores àquelas que ele realiza.



«Amadeus»
– Uma obra menor

A TARDE – E quais são essas obras inferiores?

Orlando Vitorino – Cito duas mais recentes: «A Casa do Lago», com Henri Fonda, e «Amadeus», do Milos Forman.

A TARDE – Em conclusão: o bom realizador é o que faz, a partir da sua própria sensibilidade, do seu próprio texto, o filme que depois dá ao público. É isto?

Orlando Vitorino – Exacto, é a sua obra de arte. Mas não tem, necessariamente, de a dar a conhecer. Eu posso fazer um filme admirável e não pretender exibi-lo.

A TARDE – E porque não? Seria um esforço inglório, não?

Orlando Vitorino
– Não vejo porquê. Da mesma forma que um poeta pode escrever um poema e não o publicar, eu posso fazer um filme e não o exibir.

A TARDE – Não me parece que seja a mesma coisa. No cinema o caso toma outras proporções. Escrever um poema não implica custos materiais. Exige apenas sensibilidade, papel e tinta. Criar, montar e realizar um filme já implica encargos financeiros, por sinal bastante elevados.


Os subsídios e as queixas dos realizadores

Orlando Vitorino – Isso é outra história. Sabe qual o valor dos subsídios dados pelo IPC? São, em média, de quarenta mil contos.

A TARDE – Muito? Pouco?

Orlando Vitorino – Imenso. E, no entanto, os respectivos realizadores queixam-se, vão lamentar-se para os jornais de que os filmes não prestam porque os subsídios são muito pequenos. Veja: o Manuel de Oliveira recebeu 200 mil contos de subsídio para o seu último filme! Sabe de quanto necessitei para fazer o meu? De 300 contos! Um filme de 35 mm, com 15 actores, entre eles do melhor que cá temos: Lígia Teles, Delfina Cruz, Lia Gama, António Duarte, Andrade e Silva, etc.

A TARDE – Mas foram 300 contos há doze anos.

Orlando Vitorino – Pois sim. Mas na altura os realizadores recebiam subsídios no valor de dez mil contos.


«Nem Amantes, nem Amigos» – uma «obra-prima» por 300 contos

A TARDE – E com esses 300 contos conseguiu o filme que queria?

Orlando Vitorino – Fiquei perfeitamente satisfeito. De resto, a maior parte das pessoas que puderam ver este filme considera-o uma obra-prima.

A TARDE – Porque é que este filme nunca foi estreado? Não quis ou, pelo contrário, ninguém se interessou por ele?

Orlando Vitorino
– Contactei dois distribuidores para o efeito. O primeiro achou o filme demasiado intelectual, sem interesse para o público. O segundo quis impor condições a alterar a história do filme, e eu não aceitei. Desisti. E desde então, «Nem Amantes, nem Amigos» tem sido exibido a pedido de grupos de estudantes, para festas, para escolas de fotografia, etc. Sexta-feira passada foi exibido no Pathé, anteriormente tinha estado na Cinemateca, etc. Posso acrescentar que empresto o filme sem cobrar dinheiro. Nunca obtive com ele lucros materiais.


«Sou um homem da cultura»




A TARDE – Afirma não ser realizador de cinema. Como se define?

Orlando Vitorino – Dispenso os rótulos. Digamos que sou um homem da cultura. E a cultura manifesta-se de muitas maneiras. Faço cinema como posso fazer teatro. Aliás, este filme foi tirado de uma peça de teatro. Não há cultura autêntica sem uma fundamentação filosófica.

A TARDE – A propósito, como adquiriu a sua formação filosófica?

Orlando Vitorino
– Formei-me na Faculdade mas lá não aprendi rigorosamente coisa nenhuma. Tudo o que sei aprendi através da linha de uma cultura portuguesa não reconhecida e abafada pela cultura oficial. Essa linha, que eu considero a maior de todas, inicia-se com Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra. A sua segunda geração reúne nomes como José Régio, José Marinho, Álvaro Ribeiro e Santana Dionísio. Eu incluo-me na terceira geração, a dos discípulos. Evidentemente que são tudo nomes repudiados. Para nós não há apoios, subsídios, nada.


Os repudiados

A TARDE – Acha então que o seu trabalho só não é reconhecido por se inserir na linha de pensamento e/ou estilo de Teixeira de Pascoaes?

Orlando Vitorino
– Somos marginalizados pela cultura oficial.

A TARDE – E o que é a cultura oficial?

Orlando Vitorino
– São as instituições, as universidades, o ensino marxizado, é o considerar-se a cultura como um instrumento da política.

A TARDE – Mas formou-se em Filosofia numa dessas instituições.

Orlando Vitorino – Sim. Mas apenas por chantagem social. O ensino em Portugal não presta para nada. Apenas se salva a instrução primária, e mesmo essa estão a tentar destruir.


O candidato

A TARDE – O que leva a candidatar-se à presidência da República?

Orlando Vitorino – Uma das principais razões é alterar esta situação da cultura. Além disso, é bom não esquecer que a política portuguesa está a ser orientada e dirigida por agentes de doutrinas estrangeiras. De más doutrinas estrangeiras. Estamos hoje a viver condicionados por quatro estruturas criadas pelo comunismo gonçalvista: a reforma agrária; as nacionalizações (80 por cento da economia está nacionalizada); a marxização do ensino e o controlo da informação. É tudo isto que eu pretendo anular com a minha candidatura.





O optimismo de Orlando Vitorino

A TARDE – Mas não acha que, à partida, as hipóteses de vir a ser eleito são, praticamente, nulas?

Orlando Vitorino
– E porque são nulas?

A TARDE – São-no praticamente porque o nome de Orlando Vitorino nada ou quase nada representa junto do eleitorado. E não é fácil competir com nomes como Mário Soares, Freitas do Amaral ou Lourdes Pintasilgo.

Orlando Vitorino – Mas esse três senhores só são conhecidos porque a máquina publicitária e política que têm por trás os tornou conhecidos.

A TARDE – Seja. Mas candidatam-se já conhecidos, e bem. O que não é o seu caso...

Orlando Vitorino
– Claro que não. E é evidente que vão fazer tudo para que os candidatos independentes não possam ter lugar. Veja o caso da RTP: entrevistou esses três senhores e, naturalmente, e segundo a lei que obriga a que todos os candidatos sejam tratados da mesma maneira, pensei que também eu seria entrevistado. A resposta da RTP à minha carta foi que a televisão portuguesa «já escolheu os seus candidatos». Como vê, esta é mais uma prova de que a lei eleitoral não está a ser respeitada.

A TARDE – Ainda assim, vejo-o muito optimista. Acredita mesmo que possa a vir a ser eleito? Não será uma perda de tempo?

Orlando Vitorino – Veremos...


Anexo: o caso da RTP

Em 15 de Julho de 1985, Orlando Vitorino envia ao Presidente da RTP uma carta em que lhe pergunta qual a data em que ele, como candidato presidencial, seria entrevistado, uma vez que a RTP havia já entrevistado os candidatos presidenciais M. L. Pintasilgo, M. Soares e F. do Amaral e uma vez que a Lei Eleitoral obriga a RTP a dar igual tratamento a todos os candidatos.

Em 2 de Agosto de 1985, o Presidente da RTP envia a seguinte resposta:

Exmo. Senhor
Dr. Orlando Vitorino
Rua Eça de Queirós, 22-4.º Esq.
1100 LISBOA

Exmo. Senhor

Em resposta à carta de V. Ex.ª de 15 do corrente, que mereceu a minha melhor atenção, cumpre-me transcrever o esclarecimento que, a propósito, me foi prestado pelo Director de Informação:

“1. A Direcção de Informação da RTP efectuou entrevistas com personalidades de relevo na vida política nacional que, pelos apoios conhecidos e pelas sondagens divulgadas, têm surgido como as mais capazes de alcançar o que, hoje não passa de intenção: a candidatura efectiva à Presidência da República.

2. Os critérios jornalísticos que presidem à escolha dos entrevistados são da exclusiva responsabilidade da Direcção de Informação da RTP e resultam da apreciação da importância relativa, em termos de informação, dos potenciais candidatos à Presidência. Não se integram, portanto, na propaganda eleitoral de cada um deles.

3. A lei determina igualdade de tratamento obrigatória durante a campanha eleitoral. De momento, apenas existem intenções de candidatura.

4. A seu tempo, a Direcção de Informação da RTP esquematizará entrevistas a todos os candidatos efectivos à Presidência”.

Com os melhores cumprimentos.

O PRESIDENTE DO CONSELHO DE GERÊNCIA

a) Manuel João da Palma Carlos.







Em 12 de Agosto de 1985, Orlando Vitorino envia ao Presidente da RTP a seguinte resposta:

Exmo. Senhor
Dr. Manuel João da Palma Carlos
Presidente da RTP
LISBOA

Exmo. Senhor

Recebi em 2 do corrente uma carta, sem data, que V. Ex.ª me dirigiu para me informar do privilégio que a RTP decidiu conceder a certos candidatos presidenciais – os Srs Freitas do Amaral, M.L. Pintasilgo e Mário Soares – entrevistando-os e noticiando-os demorada e frequentemente, e da atitude contrária que adopta para com os candidatos independentes – como eu, o Gen. Altino de Magalhães, o escritor Vasconcelos e Sá ou o industrial António Champalimaud – ignorando-os simplesmente. Ao afirmar e expor esta discriminação, a carta de V. Ex.ª constitui a declaração formal e iniludível de que a RTP está apostada em destruir a legitimidade do exercício do primeiro orgão da soberania nacional. Trata-se de uma posição de tal gravidade que não posso deixar de dizer a V. Ex.ª o seguinte:

1. O facto de a RTP privilegiar certos candidatos é motivo suficiente para condicionar os resultados eleitorais, dada a influência decisiva que a RTP pode ter na formação da opinião pública.

2. O facto de a RTP ser uma empresa estatizada, envolve toda a organização do Estado, em especial o Governo, na responsabilidade por esse condicionamento do resultado das eleições.

3. O facto de V. Ex.ª, como Presidente da RTP, vir reconhecer e defender o privilégio concedido àqueles candidatos, constitui uma manifestação inaudita de abuso do poder e equivale à declaração de que o exercício da soberania não tem origem na livre expressão da vontade popular.

4. O facto de a declaração de V. Ex.ª, com o correspondente comportamento da RTP, estar em conflito aberto com as determinações da Lei Eleitoral, é razão mais do que suficiente para ser requerida ao Tribunal Constitucional a anulação ou a não aceitação das candidaturas privilegiadas.

Resta-me informar V. Ex.ª de que envio cópias desta carta, bem como da que me dirigiu, às seguintes entidades:



Presidente da República
Presidente da Assembleia da República
Primeiro Ministro
Presidente do Supremo Tribunal de Justiça
Cardeal Patriarca de Lisboa
Arcebispos de Braga e Évora
Presidente do Tribunal Constitucional
Comissão Nacional de Eleições
Conselho da Comunicação Social
Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas
Chefes e Comandantes Militares
Comunidade Económica Europeia
Conselho da Europa
Embaixadores dos países de regime não totalitário
Candidatos à Presidência da República
Agências Internacionais de Informação
Amnistia Internacional
Directores dos orgãos de comunicação social.

O Candidato independente à Presidência da República

a) Orlando Vitorino



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