segunda-feira, 18 de julho de 2011

A Arte da Paz

Escrito por O'Sensei Morihei Ueshiba







Todas as coisas, materiais e espirituais, provém de uma fonte e estão relacionadas como se fossem uma família. O passado, presente e futuro estão todos contidos nessa força de vida. O universo emergiu e desenvolveu-se a partir de uma fonte, e nós evoluímos através do processo da unificação e harmonização.

Foi desta forma que o universo se tornou ser. Não havia céu, nem terra, nem universo - só espaço vazio. Nesse vasto espaço vazio manifestou-se subitamente um único ponto. Desse ponto, vapor, fumo e névoa subiram em espiral até formarem uma esfera luminosa, e assim nasceu o som sagrado SU. À medida que o SU se expandiu de forma circular e descendente, para a esquerda e para a direita, apareceram a natureza e a respiração, claras e puras. A respiração desenvolveu vida e apareceu o som.

SU é a palavra mencionada em muitas religiões do mundo.

Todos os sons e vibrações emanam dessa PALAVRA.

(...) Se tens vida em ti, terás acesso aos segredos das eras, pois a verdade do universo reside em cada e todo o ser humano.

(...) A prática da Arte da Paz permite-te ergueres-te acima do louvor ou reprovação e libertar-te do que te prende a isto e àquilo.

(...) Uma boa mistura é constituída por setenta por cento de fé e trinta por cento de ciência. A fé na Arte da Paz permitir-te-á entenderes as complexidades da ciência moderna.

O conflito entre a ciência material e espiritual provoca a exaustão física e mental, mas quando matéria e espírito estão em harmonia, toda a tensão e fadiga desaparecem.

Usa o teu corpo para criar formas; usa o teu espírito para transcender as formas; unifica corpo e espírito para activar a Arte da Paz.

(...) Todas as coisas estão harmoniosamente juntas; esta é a verdadeira lei da gravidade que mantém o universo intacto.

(...) A tua respiração é o verdadeiro elo que te liga ao universo. Respira em espiral para cima, para a direita; expira a espiral para baixo, para a esquerda. Esta interacção é a união do fogo e da água. É o som cósmico de A e UN, Alfa e Ómega.

Pensa na maré baixa. Quando as ondas dão à costa, rebentam e caem, criando um som. A tua respiração deverá seguir o mesmo padrão, absorvendo todo o universo na tua barriga com a inalação. Fica a saber que todos possuímos quatro tesouros: a energia do sol e da lua, a respiração do céu, a respiração da terra e a maré e corrente das ondas.

(...) A vida é uma dádiva divina. O divino não é algo exterior a nós; está presente no nosso âmago, é a nossa verdade. Na nossa aprendizagem aprendemos a verdadeira natureza da vida e da morte. Quando a vida é vitoriosa, há nascimentos, mas quando existem obstáculos, há morte.

Um guerreiro está constantemente envolvido numa luta de vida ou morte pela paz.

(...) Cada árvore que se ergue acima do ser humano deve a sua existência a um âmago de profundas raízes.

Estudai os ensinamentos do pinheiro, do bambu, dos rebentos das ameixoeiras. O pinheiro é verde, tem raízes firmes e veneráveis. O bambu é sólido, resistente, inquebrável. Os rebentos das ameixoeiras são cheirosos e elegantes.




Não te esqueças de todos os dias prestares a tua homenagem às quatro direcções. Este nosso mundo maravilhoso é a criação do divino, e por essa dádiva devemos estar eternamente gratos. Essa gratidão deve ser expressa através de uma qualquer oração. A verdadeira oração não tem forma estabelecida. Oferece simplesmente a tua gratidão sincera de uma maneira que considerares apropriada e serás amplamente recompensado.

(...) A Arte da Paz não é fácil. É uma luta até ao fim, o desfazer de desejos malévolos e de toda a falsidade. De vez em quando a voz da paz ressoa como um trovão fazendo sair os seres humanos da sua apatia.

(...) O único pecado verdadeiro consiste em ignorar o universal, princípios intemporais da existência. Essa ignorância é a raiz de todo o mal e de todo o comportamento desviante. Elimina a ignorância através da Arte da Paz, e até o inferno será esvaziado das almas torturadas.

(...) Os mais fortes nem sempre derrotam os mais fracos. Os pequenos podem tornar-se grandes se trabalharem constantemente para isso; os fortes podem tornar-se fracos se não o fizerem.

(...) O Caminho da Paz é muito vasto, reflectindo o grande desenho dos mundos ocultos e visíveis. Um guerreiro é um santuário vivo do divino que serve esse grandioso desígnio.

(...) Mesmo que o nosso caminho seja completamente diferente das artes guerreiras do passado, não é necessário abandonar totalmente os costumes antigos. Absorve as tradições veneráveis, vestindo-as de forma mais actual e apoia-te nos estilos clássicos para construíres melhores formas.

(...) Aqueles que são iluminados nunca deixam de se querer superar. Os feitos destes mestres não podem ser expressos por palavras ou teorias. As acções mais perfeitas são as dos padrões encontrados na natureza.

(...) Encara um inimigo como se estivesses a defrontar dez mil; encara dez mil inimigos como se estivesses a defrontar um.

(...) O ferro está cheio de impurezas que o enfraquecem; trabalhando-o, torna-se aço e transforma-se numa espada de gume afiado. Os seres humanos desenvolvem-se da mesma maneira.

(...) Não há disputas na Arte da Paz. Um verdadeiro guerreiro é invencível porque ele ou ela não disputa nada. Derrotar significa derrotar o espírito de contenção que abrigamos dentro de nós.

A Arte da Paz não é um objecto que alguém possua, nem qualquer coisa que se possa dar a outro. Deves entender a verdadeira essência da Arte da Paz e expressá-la pelas tuas próprias palavras.

(...) Na arte da Paz temos como objectivo ver tudo ao mesmo tempo, abarcando todo o campo de visão com um só olhar.

(...) O centro físico está na tua barriga; se o teu espírito estiver centrado aí também, poderás estar certo da vitória.




(...) As técnicas da Arte da Paz nem são rápidas nem são lentas, não são internas nem externas. Transcendem o tempo e o espaço.

(...) O corpo deve ser triangular, o espírito circular. O triângulo representa a geração de energia e é a postura física mais estável. O círculo simboliza a serenidade e perfeição, a fonte de técnicas ilimitadas. O quadrado significa solidez, a base do controlo.

(...) Toda a vida é um círculo que se move sem parar e esse é o ponto central da Arte da Paz. A Arte da Paz é uma esfera inesgotável que envolve todas as coisas.

(...) Não olhes para este mundo com receio e ódio. Enfrenta corajosamente o que os deuses têm para te oferecer.

(...) Encara qualquer desafio que esteja à tua frente. Quando um ataque aparece à tua frente, utiliza o princípio da "lua reflectida na água". A lua parece estar realmente presente, mas se tocares a água, não estará lá nada. Também o teu oponente não encontrará nada sólido para atacar. Tal como a luz da lua, envolve o teu oponente física e espiritualmente, até não haver separação entre vós.

(...) Sê grato mesmo pelos revês e dificuldades. Lidar com os obstáculos é uma parte essencial do treino da Arte da Paz.

(...) O falhanço é a chave para o êxito; cada erro nos ensina alguma coisa.

Em situações extremas, o universo inteiro torna-se nosso antagonista; nessas alturas críticas a unidade do espírito e a técnica são essenciais - não deixes que o teu coração hesite!

Para praticamos a Arte da Paz necessitamos de um valor, um valor que assenta na verdade, bondade e beleza. O valor dá-nos força e torna-nos corajosos. O valor é um espelho que revela todas as coisas e expõe o mal.

No instante em que um guerreiro confronta um adversário todas as coisas se tornam claras.

Mesmo quando chamado por um único adversário, mantém-te em guarda, pois estás sempre rodeado por uma horda de inimigos.

Não desejes evitar um confronto. Quando ele ocorrer desarma-o logo na origem.

Quando alguém estiver em oposição a ti, existe uma possibilidade de cinquenta por cento para cada um. Saúda um oponente que avance; diz adeus a um oponente que recue. Mantém o equilíbrio original e o teu oponente não terá por onde atacar. Na verdade, o teu oponente não o é, porque tu e o teu oponente tornam-se num só. Esta é a beleza da Arte da Paz.



A Arte da Paz consiste em preencher aquilo que falta.

Devemos estar preparados para receber noventa e nove por cento do ataque de um inimigo e encará-o de frente para iluminar o Caminho. Por muito negra que a situação esteja, ainda será possível virar as coisas a teu favor.

(...) Existem dois tipos de Ki: o Ki vulgar e o Ki verdadeiro. O Ki vulgar é pesado; o verdadeiro Ki é leve e versátil. Para que ajas bem tens de te libertar do teu Ki vulgar e inundar os teus orgãos com o Ki verdadeiro. Esta é a base da técnica poderosa. O Ki pode ser uma leve brisa que roça pelas folhas ou um vento indomável que arranca ramos.

(...) Os antigos guerreiros usavam pilares e árvores como escudos, mas isso hoje já não serve. Também podes confiar nos outros para te protegerem. O espírito é o teu verdadeiro escudo.

(...) Não olhes directamente nos olhos do teu opositor: ele poderá desorientar-te. Não fixes o teu olhar na sua espada; ele pode intimidar-te. Não te concentres no teu oponente; ele pode absorver tua energia. A essência do treino é fazer o teu oponente entrar completamente na tua esfera. Então poderás colocar-te onde desejares.

Até o mais poderoso ser humano tem uma esfera limitada de força. Retira-o dessa esfera para a tua e a sua força dissipar-se-á.

(...) Na aprendizagem, não tenhas pressa, pois são necessários pelo menos dez anos para dominar o básico e avançar para o primeiro grau. Nunca penses que sabes tudo, que és um mestre perfeito; deverás continuar a praticar diariamente com os teus amigos e alunos, e a progredir todos juntos na Arte da Paz.

O progresso vem para aqueles que praticam e praticam; confiar em técnicas secretas não te leva a lugar nenhum.

Experimentar esta e aquela técnica não vale a pena. Limita-te a agir com decisão e reserva.

Para aprender a discernir o ritmo dos ataques agarra-te às bases. Os segredos estão à superfície.

(...) A vitória sobre nós próprios é o principal objectivo da tua aprendizagem. Centremo-nos no espírito mais do que na forma, no grão mais do que no envólucro.




(...) Para implementar verdadeiramente a Arte da Guerra, deves poder movimentar-te livremente nos campos divinos, abertos e ocultos.

(...) As técnicas do Caminho da Paz mudam constantemente: cada encontro é único e a resposta apropriada deverá surgir naturalmente.

As técnicas de hoje serão diferentes amanhã. Não te deixes apanhar pela forma e aparência de um desafio. A Arte da Paz não tem forma - é o estudo do espírito.

No fim, deves esquecer-te da técnica. Quanto mais progredires, menos terás a aprender. O Grande Caminho afinal é um Não Caminho.

(...) A Arte da paz que eu pratico tem espaço para cada um dos oito milhões de deuses. E eu coopero com todos eles. O Deus da Paz é grandioso e aprecia tudo que é divino e iluminado em cada terra.

(...) Já não podemos confiar nos ensinamentos externos de Buda, Confúcio ou Cristo. A era da religião organizada que controlava todos os aspectos da vida, acabou. Nenhuma religião só por si tem todas as respostas. Construir templos e santuários não chega. Torna-te à semelhança de uma imagem de Buda. Todos deveríamos ser transformados em deusas da compaixão ou budas vitoriosos.

O Caminho é extremamente vasto. Desde os tempos antigos até aos tempos de hoje, mesmo os maiores sábios foram incapazes de apreender e perceber a verdade completa; as explicações e ensinamentos de mestres e santos exprimem só parte do todo. Não é possível alguém falar de tais coisas na sua plenitude. Limita-te a aproximar-te da luz e do calor, aprende com os deuses e através da prática devotada da Arte da Paz torna-te num só com o divino.

A unificação de corpo e espírito através da Arte da Paz é um estado de exaltação, tão maravilhoso e agradável que te faz sentir lágrimas de alegria.

Quando te curvas perante o universo, Ele curva-se também; quando chamas o nome de Deus Ele ecoa dentro de ti.

A Arte da Paz é a religião que não é religião: completa torna mais perfeita todas as religiões (in Morihei Ueshiba, A Arte da Paz, Coisas de Ler Edições, 2005).







































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