quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Portugal e os Americanos (ii)

Escrito por Miguel Bruno Duarte





Henrique Veiga de Macedo (ao centro).



De resto, também Álvaro Ribeiro (34) logrou descrever o nacionalismo político-económico então dominante:

«A nova doutrina política, económica e social, reconhecendo todavia a espontaneidade natural e a iniciativa particular das associações profissionais, sobrepunha-lhes porém uma finalidade superior que lhes conferia carácter institucional. Por instituição se entende o que é definido pela constituição. A oportunidade e a circunstância aconselhavam a subordinar ao interesse nacional, legitimamente representado pelo Estado e pelo Governo, todas as associações profissionais, e especialmente as de carácter económico. O nacionalismo dominante opunha-se igualmente ao liberalismo clássico e ao comunismo internacional, procurando representar no corporativismo orgânico não só a estática, mas também a cinemática e a dinâmica, das mais sadias leis da evolução social. Disciplinada por novos preceitos éticos e por novos recursos técnicos, a economia portuguesa entraria num período de ordem pública que lhe permitiria realizar normalmente os seus fins, sem estar sujeita a perturbações de discussão ideológica e de agitação demagógica, sem estar ameaçada por conflitos sociais de desentendimento entre o capital e o trabalho, sem sofrer o embate da violência das massas anónimas ou da autoridade militar do Estado. Em vez das associações de classe, associações operárias ou associações patronais, que haviam surgido no decurso do século XIX para protelar, atenuar ou anular a agressividade própria de uma sociedade dilacerada até às condições anormais do suicídio, a legislação de 1933 procurou instituir a coordenação de todas as actividades produtivas em subordinação à finalidade superior que é a sobrevivência da Nação Portuguesa» (35).

No decorrer desta sobrevivência, não fora certamente alheio o auxílio financeiro americano cujo total não ultrapassaria os 50 milhões de dólares entre 1946 e 1970. Porém, a tendência seria já outra quando, em 1969, o Governo português, presidido por Marcello Caetano, estabelecera com o Governo americano um acordo bilateral que obrigava Portugal a renegociar a permanência americana na Base das Lajes em troca de facilidades financeiras no valor de 436 milhões de dólares. Mais: o acordo, nunca cumprido, também obrigava Portugal a investir em estradas, agricultura, portos, hospitais, electricidade e escolas (36).

Curiosamente, fora durante o Estado Novo que as obras públicas seriam objecto de um desenvolvimento criador de novas estruturas, como as que, caras ao antigo ministro da Instrução (37), dariam lugar ao Instituto Superior Técnico, no Arco do Cego. E, a par disso, os números relativos ao ensino das primeiras letras foram ainda mais significativos, não só pela multiplicação de escolas como pela considerável diminuição da taxa de alfabetização – de 60% em 1930 para 25% em 1974. Quanto ao ensino liceal, que o veiga-simonismo e o 25 de Abril condenariam  à «unificação» socialista e ao critério da utilidade social (38), é também um facto que, em termos de organização, permanecera relativamente independente do sistema universitário, até porque o Estado Novo, nesse aspecto, permitira inclusivamente a expansão de escolas e liceus nas províncias ultramarinas.



Oliveira Salazar e Azeredo Perdigão na Fundação Calouste Gulbenkian



Nesse sentido, existem escritos de Orlando Vitorino em que, na qualidade de inspector bibliotecário da Fundação Gulbenkian (39), averba que os liceus ainda mantinham a sua autonomia perante uma Universidade centralizada no tempo de Pombal. No entanto, é claro que a organização empírica do ensino permanecia aquém da verdadeira revolução liceal e universitária tal como a concebera e sistematizara Álvaro Ribeiro, nomeadamente na colectânea de artigos compilados no último volume de Memórias de Um Letrado (40). Aliás, diz-nos o pensador portuense:

«As escolas recebiam o apoio financeiro do Estado Novo; os arquivos, as bibliotecas, os museus, fábricas indispensáveis de cultura superior, gozavam de legislação decente; mas a vida do pensamento espontâneo, inspirado e livre, reflectido nas artes da palavra ou nas artes gráficas, era desdenhada pelo empirismo positivista que não sabia intuir nos movimentos as forças que os pressupõem, nem ver nas obras as consequências que se desenvolveriam em actos» (41).

Por outro lado, o crescimento económico também não correspondia às metas inicialmente traçadas pela república una e corporativa, já que a plutocracia favorecida pelo «condicionamento estatal» em prol de certos sectores como a siderurgia, o cimento, a electricidade, a pasta de papel e a construção naval, conduzira a actividade económica a uma estrutura capitalista centralizada dominada por certos grupos e forças económicas que controlavam, em 1974, mais de 50% do PIB, tais como: Grupo Champalimaud, Grupo Espírito Santo, Banco Português do Atlântico, Banco Fonsecas & Burnay, Banco Nacional Ultramarino e Banco Borges & Irmão. De resto, é Freire Antunes quem nos traça um quadro minimamente esclarecedor:

«A temida “traição na retaguarda” era extensiva a alguns poderosos empresários, retraídos perante a obstinação belicista do Governo, dubitativos quanto à capacidade de Caetano para controlar os acontecimentos e procurando em certos casos acautelar as posições no incerto futuro (42). A economia portuguesa tinha um extraordinário grau de centralização e de concentração de capitais: em 1971, 168 sociedades (0,4 % das operantes em Portugal e nas Ilhas do Atlântico) controlavam 53 % do capital total de todas as sociedades do País (43). Beneficiando do proteccionismo do Estado (o condicionamento industrial, os planos de reorganização, as isenções fiscais), sete grandes grupos resultantes da absorção do capital bancário pelo capital industrial, ou vice-versa, tiveram um crescimento acelerado desde a década de 60: CUF, Espírito Santo, Champalimaud, Português do Atlântico, Borges & Irmão, Nacional Ultramarino e Fonsecas & Burnay. O comunista Cunhal diz: “Os verdadeiros senhores de Portugal eram os Melo, os Espírito Santo, os Champalimaud, formando uma autêntica quadrilha de grandes capitalistas e proprietários, ao serviço dos quais, como seus instrumentos, estavam o Governo, o aparelho repressivo, os meios de comunicação social, e todos os recursos do País" (44). Esses grupos económicos (“monopólios” na linguagem dos marxistas) eram a mola real do desenvolvimento de Portugal e o seu gigantismo tornava o Governo vulnerável aos seus desígnios específicos.



Oliveira Salazar e Ricardo Espírito Santo



A CUF, fundada em 1908 por Alfredo da Silva, era o maior potentado económico da Península Ibérica e a única companhia portuguesa a figurar na lista da Fortune das 200 maiores companhias não americanas do mundo. Propriedade da família Melo e gerida por dois irmãos, Jorge e José Manuel, formava um império de mais de 100 sociedades. A CUF atingiu a integração horizontal, que lhe permitia controlar sectores inteiros da economia portuguesa, e a integração vertical, que lhe dava poder quase absoluto sobre os ciclos de produção e a defendia das flutuações do mercado. Adquiriu a auto-suficiência de um estado dentro do Estado – das fontes de matérias-primas às redes de comercialização, dos bancos aos jornais, dos estaleiros às companhias de seguros. Uma das opções estratégicas da CUF foi a sua participação em joint-ventures com empresas estrangeiras (sobretudo da Escandinávia) e a abertura à Europa. Daí que os irmãos Melo tenham acolhido positivamente o programa modernizador e pró-europeu de Caetano (45). A internacionalização do capital rompia a tradicional aliança entre o empresariado agrícola e o empresariado industrial – uma das bases do modelo salazarista – e sensibilizou parte da oligarquia para as vantagens de uma solução negociada em África.

Uma das dificuldades do Presidente do Conselho na articulação com os grupos económicos decorria do binómio África ou Europa, motivador de controvérsia entre autonomistas e integracionistas, sobretudo após a advocacia pública da integração europeia por tecnocratas do Governo. Por exemplo, o Secretário de Estado da Indústria, Rogério Martins, fez em 1970 declarações favoráveis à integração na Europa que suscitaram uma forte reacção dos integracionistas. Silva Cunha considerou a intervenção de Rogério Martins “pouco feliz”
(46). Uma parte da oligarquia financeira (caso do Grupo Espírito Santo) tinha a sua sobrevivência ligada a África e hostilizava a liberalização económica e política. Essa inflexibilidade traduzia-se ideologicamente nos sofismas apocalípticos de Franco Nogueira, para quem a saída de África implicaria automática absorção de Portugal pela Espanha. Indiferente ao perigo de fusão ibérica, Caetano fez da aproximação política e económica a Madrid um importante vector da sua política externa.

A CUF e outros sectores da oligarquia favoreciam um desenvolvimento interno segundo os modelos avançados da Europa e flexibilidade em África, onde o volume dos seus investimentos não era fundamental. Caetano assumiu quanto ao dilema África/Europa uma posição desdramatizadora, e por isso suspeita aos olhos dos salazaristas, explicando que Portugal não tinha de optar entre a França e África, mas encontrar uma complementaridade. Frisou em 1971: “A verdade é que a metrópole portuguesa está situada na Europa e não pode fugir à fatalidade dessa posição geográfica”
(47). Em termos práticos, se bem que politicamente constrangido pelos ortodoxos, Caetano não abdicou do progressivo ajustamento às realidades da Comunidade Económica Europeia. A crescente interpenetração de capitais tornou irreversível esse movimento centrípeto, de que o acordo entre Portugal e a CEE em 1972 foi uma etapa significativa.



António de Sommer Champalimaud



Outra dificuldade de Caetano derivou da liberalização industrial, pela qual o Governo tornou o mercado mais competitivo e aberto ao investimento estrangeiro, o que foi um desafio para o arcaísmo e a mentalidade proteccionista de muitos empresários portugueses. A reacção «nacionalista» encontrou em António Sommer Champalimaud o seu mais determinado protagonista. Champalimaud esteve fora de Portugal até 1973 por causa de um processo judicial famoso – o caso da herança Sommer – que lhe foi instaurado por um irmão. Mas continuou a dirigir o seu potentado industrial e financeiro através de administradores e afirmava ser uma vítima política de Salazar. Patrão do cartel do cimento, cujas perspectivas de consumo aumentaram bastante com o plano de construção de uma rede de auto-estradas, Champalimaud indispôs-se com a autorização dada pelo Governo à instalação de unidades cimenteiras concorrentes das suas. Em Dezembro de 1973, descontente com a concessão a estrangeiros da exploração dos minérios do Lobito, em Angola, Champalimaud acusou o Governo de bloquear a “estratégia de trabalho e de investimento que me propus definir neste meu regresso à Pátria” (48). Mantendo um flirt com sectores de esquerda, e influência em jornais da oposição como o Diário de Lisboa, Champalimaud era um activo inimigo de Caetano: “Dizem-me que o industrial asseverava a quem o queria ouvir o seu propósito de 'deitar abaixo' o Governo” (49). No final de 1972, parcelas significativas da plutocracia mostravam-se indiferentes à sorte política do Presidente do Conselho» (50).

A propósito de Champalimaud, há também um episódio contado por Veiga de Macedo ao autor destas linhas:

Em Conselho de Ministros – era Veiga de Macedo ministro das Corporações e da Previdência Social – pôs-se a questão, na presença de Oliveira Salazar, de o ministério emprestar dinheiro a Champalimaud para assim investir na actividade siderúrgica. Nisto, discordam os ministros entre si, em especial Veiga de Macedo, cuja razão assenta no facto de o dinheiro não pertencer ao ministério, visto ser apenas um organismo do Estado que vela e garante pela previdência de parte considerável dos portugueses. Dada a discordância, Salazar decide levar a questão a votos, como numa democracia. A questão resume-se, por fim, a favor de Champalimaud, se bem que na condição, exigida por Veiga de Macedo, de o empresário devolver o dinheiro na íntegra e com juros.

No mais, a oligarquia financeira, combinada com «liberais» e tecnocratas, dera a mão à esquerda invasora. O próprio Marcello Caetano, que se abrira a sectores nominalmente liberais, também acabou por reconhecer ter sido a SEDES infiltrada por marxistas (51). Aliás, uma tal infiltração fora tão patente na Universidade que um inspector da PIDE/DGS (Fernando Gouveia), especializado em subversão comunista, afirmou «que os grupos radicais praticantes do combate armado ou influentes nas universidades consumiam mais energia à PIDE/DGS do que a estrutura clandestina comunista, que era a que “dava menos trabalho”» (52).






A confirmar a incidência comunista aquando do antigo regime, está o facto de 128 oposicionistas das prisões de Caxias e Peniche serem, na sua maioria, «militantes do PCP e da CDE, organização de frente dos comunistas», para não falar de uns poucos «membros de associações cristãs e 10 militantes do MRPP» (53). Quanto ao PS, segundo Freire Antunes, zero. Por conseguinte, é um facto que os comunistas estavam bem infiltrados na Universidade para, em Maio de 1962, provocar o caos e a turbulência académicas por via dos mais variados recursos, tais como: cartas, manifestos, jornais anti-situacionistas, boicotes a aulas e exames, subversão ideológica da “estudantada” por via de associações e movimentos sindicais universitários, ocupação de instalações como a que ocorrera numa cantina universitária em que foram presos um milhar de estudantes já exímios nas baladas de Zeca Afonso, e mobilização de intelectuais comunistas como Baptista-Bastos, Fernando Namora, Cardoso Pires, Saramago, Sophia de Mello Breyner, Urbano Tavares Rodrigues, etc.

De resto, meninos saídos da alta classe média andavam no alvoroço a ponto de Salazar prever a ocupação de cadeiras governamentais no espaço de 10 anos, caso não fossem reprimidos a tempo. Ora, entre eles estavam Jorge Sampaio, Medeiros Ferreira, Eurico de Figueiredo, António Sousa Franco, Diogo Freitas do Amaral, Marcelo Rebelo de Sousa e miudagem afim. Demais, aquela previsão de Salazar ocorrera durante a crise académica de 1962, falhando por poucos anos quanto ao que, na realidade, se viria a confirmar no pós-25 de Abril de 1974.

Consequentemente, o objectivo do regime era, com base numa intervenção policial sobre as manifestações estudantis, neutralizar os indubitáveis focos de infiltração e propaganda comunista no redil universitário. A questão era certamente delicada, até porque Oliveira Salazar sabia muito bem, com base na sua experiência em Coimbra, quão perigosa podia ser a confrontação do poder político com a “estudantada”. Mais: Salazar tinha profunda noção da capacidade de intriga provinda da classe universitária em geral.

Não há, pois, como duvidar de que a crise académica de 62 e 69 se cumprira com vista à «hegemonia cultural» preconizada por António Gramsci, a começar pela inversão da linguagem relatada, em Março de 1961, pelo Jornal A Voz:

«Coexistência e convívio são duas palavras muito em voga no dicionário comunista e que significam a mesma coisa, com a diferença de que a primeira diz respeito às relações internacionais e a segunda à penetração entre a juventude universitária, no sentido de subvertê-la e aliciá-la aos seus ideais. Os convívios são para tudo, para troca de impressões sobre teatro, arte e literatura, e até para ataques audaciosos e descarados à “moral retrógrada”. Parece haver em tudo isto o que o Prof. Adriano Moreira chamou “provocação à transigência”, há dias oficializada no pretório da ONU» (54).



O universitário Adriano Moreira



Sede das Nações Unidas (Nova Iorque).


E de crise em crise universitária, descreve ainda Freire Antunes:

«O protesto dos estudantes da geração de 70 prolongava a tradição contestatária da geração de 60, mas tinha duas diferenças essenciais. Em primeiro lugar, os métodos de insubordinação eram muito mais politizados e mais eficazes na sua agressividade extrema. Em segundo lugar, o movimento associativo nas grandes universidades (Lisboa, Porto, Coimbra) já não era hegemonizado pelo PCP, mas por uma poalha de grupos maoístas marcados pelo cisma sino-soviético e pelo Maio francês de 1968. Entre esses grupos, que combinavam as actividades de contestação nas escolas e a militância subterrânea, distinguiu-se o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP), fundado em 1970 com base na doutrina maoísta. Os militantes do MRPP eram especialmente activos nas Faculdades de Direito e de Economia de Lisboa e atacavam fortemente o regime como o PCP. Um dos chefes da polícia política evoca: "Esses eram muito barulhentos e activos nas universidades e através dos CLAC’S. A organização do MRPP não era muito forte, mas eles tinham a força e a vivacidade da juventude". (55) Arnaldo Matos e Fernando Rosas, que tinham sido líderes estudantis na Faculdade de Direito de Lisboa, no final da década de 60, eram dois dos dirigentes do MRPP na clandestinidade».

A questão africana – prossegue Freire Antunes - atravessava dilacerantemente toda a vida social portuguesa, colocando os jovens perante a obrigatoriedade da incorporação militar, e as universidades transformaram-se em focos permanentes de contestação violenta. O surto de rebelião contagiou muitos rapazes e raparigas oriundos da aristocracia e da alta classe média – os filhos-família -, que em Portugal, como sucedera em França em 1968 e nos Estados Unidos por causa do Vietname, engrossaram as falanges do maximalismo político. Caetano observou em retrospectiva: "A verdade é que as escolas superiores se transformaram em centros de doutrinação revolucionária, infectando gravemente a juventude que havia de formar os quadros da vida económica e social e era chamada a conduzir os soldados nas operações contra-subversivas no Ultramar. A revolução social-comunista foi preparada aí" (56). A relação do Governo com as academias constituiu uma sucessão ininterrupta de actos compulsivos: encerramento temporário de escolas, intervenções da “polícia de choque” e da PIDE/DGS, prisões frequentes.

Em Janeiro de 1971, o Instituto Superior Técnico foi encerrado por um período indeterminado e a Universidade Clássica de Lisboa esteve em pé de guerra. Quatro alunos do Instituto Superior de Economia foram condenados a 22 meses de prisão. Um grupo de estudantes a quem Veiga Simão recusou uma audiência foi apedrejar a embaixada dos Estados Unidos. Em Fevereiro, cerca de 9000 estudantes da Universidade de Coimbra fizeram greve de protesto contra a prisão de oito colegas. Em Abril, o líder estudantil Alberto Costa, candidato da CDE em 1969, foi preso. Em Dezembro, seis alunos da Faculdade de Direito de Lisboa foram condenados a penas de prisão entre os 16 e os 24 meses. Caetano, que tinha a experiência directa da crise académica de 1962, ordenou a Gonçalves Rapazote que evitasse métodos extremos de repressão: "O recurso às companhias móveis, por exemplo, só se justifica perante casos de manifestações tumultuosas em campo aberto, ou quando haja risco de ela se produzir e convenha tentar o efeito dissuasor. É normalmente desaconselhável em académicos e com grupos juvenis. A dissolução de grandes ajuntamentos e a evacuação de edifícios devem ser tentadas por avisos e meios dissuasórios. Quando estes não dêem resultado, há meios incruentos hoje em uso por todas as polícias do mundo, como sejam os gases lacrimogéneos" (57)»
(58).





Marcello Caetano era, sem dúvida, uma figura manifestamente dúplice. Assim, enquanto reitor da Universidade de Lisboa colocou-se ao lado da juventude revolucionária para solapar a autoridade de Oliveira Salazar, a quem, por certo, aspirava suceder. E daí o seu convite dirigido aos estudantes universitários para um jantar num restaurante do Campo Grande - o Castanheira de Moura -, a que correspondera uma bem merecida carga policial com direito a hospital e tudo. E nisto, Marcelo Caetano nem sequer apareceu (59), cabendo assim aos seus colegas de ofício, como Lindley Cintra, Oliveira Marques e Veríssimo Serrão, pôr água na fervura. (60).

No fim do regime, o marxismo já era praticamente a «doutrina universitária» dominante. E para tal contribuíra o Governo caetanista e algumas figuras ligadas ao regime, entre elas Baltazar Rebelo de Sousa e Franco Nogueira por, de facto, sugerirem o nome de Veiga Simão para a pasta da Educação (61). Neste contexto, adianta Orlando Vitorino:

«…ao lado da introdução de numerosas "inovações" pedagógicas de carácter marxista, acentuaram-se aquelas que, com o mesmo carácter, haviam já sido introduzidas durante os governos de Caetano, e até de Salazar. Foi assim que um "princípio fundamental" da pedagogia veiga-simonista, o de "evitar a clássica concepção épica da história" e "não dar relevo às figuras, das quais se fazia depender o curso dos acontecimentos", foi adoptado pelos governos comunistas e socialistas durante os últimos três anos. Apenas negativo na sua versão veiga-simonista, aquele "princípio pedagógico" foi buscar o seu aspecto afirmativo à teoria da história do marxismo. Em consequência, as faculdades mitogénicas, que são nas crianças o motor da inteligência, viram-se desse modo esmagadas tanto no ensino secundário como no primário, e os professores foram obrigados a explicar o "curso dos acontecimentos" por incompreensíveis e abstractas razões economicistas de mais do que discutível cientificidade. Aliás, os conceitos do economicismo intervencionista passaram a presidir à generalidade do ensino, desde o da história até ao de português. Assim se satisfaz a grotesca reivindicação daquele ministro caetanista que, numa mesa-redonda do semanário "Expresso", explicava pouco antes de 25 de Abril: "ensine-se, com o leite (sic), economia às crianças". E nos livros de estudo como nos exercícios escolares, as crianças deparam hoje com noções como "mais-valia" e expressões deste teor: "o helenismo foi um produto da burguesia"» (62).

Convém, no entanto, lembrar que Veiga Simão fora, em 1963, o fundador da Universidade de Lourenço Marques, além de reitor até 1970 (63). Contudo, a fundação dos Estudos Gerais Universitários em Angola e Moçambique obedecia a uma política integracionista que reservava à Metrópole o direito de, nas suas universidades, assegurar as condições de complemento curricular, técnico e profissional ainda não asseguradas no Portugal de Além-mar. Ou seja: a centralização universitária da Metrópole, que corria a par da centralização administrativa e política seguida por Salazar (64), implicava uma unidade autónoma nacional que se queria, tanto quanto possível, cumprida à margem de toda e qualquer ingerência política, económica e cultural oriunda de poderes internacionais (65).



Veiga Simão



Na verdade, o veiga-simonismo não só representou como ainda representa a infiltração de directrizes programáticas internacionais no sistema de ensino em Portugal. Esse sistema encontra-se, portanto, dirigido segundo os modelos nórdicos da comunidade técnico-científica consagrados pela ONU, organização que, de resto, também acolhera no seu seio Veiga Simão enquanto embaixador de Portugal em 1974 e 1975. E assim nasceu a Universidade socialista tutelada pelos seus mais consagrados mentores, e que, na esteira de Fernando Rosas, João Medina, António Telo, Manuel Maria Carrilho, António Barreto, Filomena Mónica, António Louçã, António Costa Pinto, José Medeiros Ferreira e outros mais, tem corrompido sucessivas gerações em prol de um «revisionismo histórico» sem precedentes na sociedade portuguesa (66).

Entretanto, aconselha-se a leitura das várias passagens documentais reunidas por Freire Antunes sobre as contradições e peripécias que envolveram as mais diversas figuras durante as relações luso-americanas no tempo da «primavera marcelista». É, pois, de ver como Caetano se submeteu a Nixon aquando da Guerra de Yom Kippur, uma vez terem os americanos, com vista à criação de uma ponte aérea de auxílio militar a Israel, usufruído de direitos incondicionais de trânsito pela base aérea das Lajes, enquanto os Portugueses recebiam, sem a mínima contrapartida, o maquiavélico agradecimento de Henry Kissinger. Em suma: sem Oliveira Salazar, era o fim do Império Português e o derradeiro suspiro de um povo entregue ao arbítrio dos mais implacáveis poderes e organizações internacionais.


Notas:

(34) Note-se, aliás, que o pensador portuense fora encaminhado, por complacência de um teorizador e prático da cruzada corporativa (o Dr. António Júlio de Castro Fernandes), para uma repartição do Estado-Novo, nomeadamente para a Junta Central das Casas do Povo depois de sofrer na pele e na carne as agruras, as humilhações e as privações mais terríveis na procura de um trabalho minimamente digno e remunerado.

(35) «Finalidades das Casas do Povo», in As Portas do Conhecimento, dispersos escolhidos, IAC, 1987, pp. 279-280.

(36) Cf. Freire Antunes, pp. 164-166.

(37) Fora, aliás, com Duarte Pacheco que o Ministério da Instrução Pública daria lugar ao Ministério da Educação Nacional.


Duarte Pacheco


(38) Cf. Orlando Vitorino, Exaltação da Filosofia Derrotada, Guimarães Editores, 1983, p. 190.

(39) Estes escritos encontram-se na Fundação António Quadros.

(40) Álvaro Ribeiro, Memórias de Um Letrado, III, Guimarães Editores, 1980.

(41) Id., ob. cit., p. 31.

(42) Um exemplo da mentalidade preventiva foi dada por Manuel Bullosa, banqueiro e industrial do ramo petrolífero, que empregou Mário Soares no seu Banque d’Outre Mer, em Paris. Em Julho de 1983, na Livraria Bertrand, em Lisboa, Soares recordou a sua “dívida de gratidão” para com Bullosa. Correio da Manhã, 1 de Julho de 1983. Bullosa tinha interesses em Moçambique (Sociedade Nacional de Petróleos).

(43) Maria Belmira Martins, Sociedades e Grupos em Portugal (Lisboa, Estampa, 1973), p. 12.

(44) Cunhal, Passado e Futuro, p. 31.

(45) Havia também razões pessoais para a cooperação da CUF com o Presidente do Conselho. Jorge de Melo explicitou-as a Caetano: “Eu não esqueço o que lhe devo, quando, em momento difícil de partilhas, tivemos os quatro irmãos a sorte de ter o seu conselho e actuação. Isto bastaria para nunca poder tomar uma posição política, na sua ignorância, sem directamente o procurar”. (Carta de Jorge de Melo a Marcello Caetano, 6 de Setembro de 1972. PESSOAL. Arquivos Pessoais de Marcello Caetano (Lisboa).

(46) Cunha, O Ultramar, p. 270.

(47) Marcello Caetano, Revolução na Continuidade (Lisboa: Verbo, 1971), p. 19.

(48) Carta de António Champalimaud a Marcello Caetano, 25 de Novembro de 1973. PESSOAL. Arquivos Pessoais de Marcello Caetano (Lisboa).

(49) Caetano, Depoimento, p. 119. Embora ataque muito Champalimaud neste livro, Caetano omite o seu nome. Hábito português de não querer atribuir importância a quem tem importância.

(50) Cf. Freire Antunes, ob. cit., pp. 236-238.

(51) A SEDES foi um organismo tecnocrático fundado como instrumento de apoio ao Governo de Marcello Caetano. Até ao 25 de Abril de 1974, ter-se-ia, porventura, limitado a colóquios e iniciativas editoriais.






(52) Freire Antunes, ob. cit., p. 341.

(53) Idem, p. 341.

(54) «Como o Governo perdeu a juventude», in Os Anos de Salazar, Crise Académica, Centro Editor PDA, 2008, 19, p. 8.

(55) Entrevista: Álvaro Pereira de Carvalho. Os CLAC’S eram os Comités de Luta Anticolonial.

(56) Caetano, Depoimento, p. 164.

(57) Carta de Marcello Caetano a Gonçalves Rapazote, 23 de Maio de 1972. CONFIDENCIAL. Arquivos Pessoais de Marcello Caetano (Lisboa).

(58) Cf. José Freire Antunes, ob. cit., pp. 234-235.

(59) Cf. «Crise Académica: a Greve de Fome», in Os Anos de Salazar, ob. cit., p. 22.

(60)  Curiosamente, só depois de exilado é que Marcello Caetano se lembrou da doutrinação revolucionária que, até ao limite da loucura, contaminara a juventude nos seus tempos de professor e reitor universitário E daí ter sido durante o seu consulado que, sob inspiração francesa, mais se fez sentir «a abóbada doutrinal da esquerda marxista» (cf. José Freire Antunes, ob. cit., p. 172).

(61) Id., ob. cit., pp. 234-235.

(62) Orlando Vitorino, Exaltação da Filosofia Derrotada, pp. 187-188.

(63) Veiga Simão fundou também, em 1973, a Universidade de Aveiro.

(64) Isto não obstante o reconhecimento, por parte de Salazar, de que existissem naturalmente vários e diferentes graus de autonomia administrativa e financeira nos territórios ultramarinos que as distâncias e a grandeza dos mesmos certamente implicavam. Porém, era uma autonomia sem significado propriamente político, embora profundamente expressiva da unidade histórica e independente da Pátria portuguesa (cf. Oliveira Salazar, Apontamento sobre a Situação Internacional, SNI, 1956, p. 13).


(65) Curiosamente, um dos factores que parecem ter levado à demissão de Adriano Moreira da pasta do Ultramar, em 1963, foi o de, sem o aval prévio de Lisboa, ter participado na criação dos Estudos Gerais Universitários em Angola. O que é, aliás, compreensível à luz da política integracionista portuguesa da época, porquanto imune a toda a ficção jurídico-política que preconizasse a autonomia do que não estava em condições de ser autónomo, nem muito menos capaz de autodeterminação (cf. Oliveira Salazar, Portugal e a Campanha Anticolonialista, SNI, 1960, p. 13).

(66) A mais recente prova de que a Universidade é uma organização com fins políticos e marcadamente ideológicos, foi a atribuição do doutoramento Honoris Causa a figuras cimeiras do socialismo dos ricos, como Mário Soares, Jorge Sampaio e Ramalho Eanes. A Universidade marxista elege assim os orixás do poder político em Portugal, isto é, elege aqueles que, num período de quarenta anos, mais contribuíram in extremis para a acção destrutiva e aniquiladora da soberania portuguesa.

Continua


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