sábado, 3 de setembro de 2011

A Rússia regressa às nascentes (i)

Escrito por Henri Massis



Palácio do Kremlin

Na sequência do texto intitulado «Vincit omnia Veritas», segue-se agora, na óptica de Henri Massis, uma «descrição» daquele que foi - e continua sendo, sob novos aspectos e manifestações dificilmente detectáveis - o movimento comunista à escala europeia e mundial. Como tal, não nos interessa o passado pelo passado, ou a mera relação de antecedente e consequente no domínio dos acidentes puramente históricos. Interessa-nos, sim, a percepção desse mesmo processo sem o condicionamento cultural a que está votada a maioria dos eruditos e intelectuais do nosso tempo, pois estes não podem, não querem e não sabem superar as ideologias e os esquemas mentais adoptados e reforçados pelo homem comum na ilusão de uma maior certeza e segurança no plano físico, psicológico e emocional.

De facto, não é a mera análise textual que importa, mas «aquilo» para que o próprio texto directa ou indirectamente remete. Não é a «descrição» abstractamente considerada, mas a percepção do que ultrapassa e transcende a análise académica vulgarmente praticada pela nata chique e bem-pensante da sociedade hodierna. A questão está, pois, em não manter o ponto de conjunção inabalavelmente fixo, de modo a evitar que a percepção se torne rígida e incapaz de liberdade total.

Ora, a ciência histórica é, quando muito, uma disciplina auxiliar da situação humana. Uma tal ciência pode, por exemplo, reunir documentação, classificar, ordenar e interpretar factos de uma forma cuidada e sistematizada. No entanto, ela constituirá sempre uma tentativa de reconstrução fragmentada, dividida ou reunida por partes, uma vez que o material metodológico e de investigação que a informa jamais poderá traduzir a totalidade do processo histórico propriamente dito. Daí a pretensa objectividade de uma tal disciplina, uma vez que, insusceptível de se traduzir numa percepção não-fragmentada sobre o ser e o devir do homem, pode tão-só alcançar percepções parciais e incompletas, quando não refracções e até mesmo distorções de factos e acontecimentos históricos. É, por exemplo, o caso da história de cunho marxista, deveras presente nas instituições do ensino universitário em Portugal.


Neste sentido, estão lançadas as condições para a subversão ideológica pura e simples, em que a abundância de informação ou desinformação implica o condicionamento da percepção de sucessivas gerações de estudantes. Aliás, a Rússia soviética apostou mais nessa espécie de subversão do que propriamente no seu poderio militar e de espionagem, como, aliás, se poderá ver na entrevista de G. Edward Griffin a Yuri Alexandrovitch Bezmenov, um ex-propagandista do KGB que, em 1970, desertou para o Ocidente por não mais se rever no sistema soviético de subversão mundial. Logo, não obstante o facto de jornalistas, politólogos e toda a casta de especialistas universitários afirmarem que o comunismo implodiu com o colapso da União Soviética, é também um facto que as instituições de ensino, a par da engenharia ideológica veiculada pelos meios de comunicação social, permanecem, directa ou indirectamente, programadas para consolidarem toda uma mentalidade padronizada segundo os objectivos ideológicos daquela que já é, para todos os efeitos, a Nova Ordem Mundial.

G. Edward Griffin





Na verdade, o comunismo soviético foi apenas uma fase ou um estádio de um movimento infinitamente mais amplo e de raízes multisseculares. Ainda assim, constituiu uma poderosa manifestação da subversão em curso, para mais descrita por Yuri Bezmenov numa postura de coragem e sem a habitual fuga psicológica que caracteriza a classe intelectual bem-falante. Deixa mesmo patente como as universidades soviéticas recrutavam os líderes de grupos terroristas internacionais, bem como os que lideravam os ditos “movimentos de libertação nacional”, assim designados para a subversão ideológica de continentes, nações, povos, etnias e populações as mais diversas.

Portugal foi, aliás, vítima desse processo no que toca ao Ultramar. Mais: esse processo sempre contou com a conivência de intelectuais, diplomatas, jornalistas, editores e professores universitários a um nível nunca antes visto. Além disso, os americanos também concorreram para o respectivo processo, havendo mesmo, à primeira vista, uma afirmação espantosa de Yuri Bezmenov, qual seja a de que a Segunda Guerra Mundial fora deflagrada por Hitler e Estaline com a ajuda financeira de multinacionais americanas.

Talvez agora se tornem mais claras e transparentes as palavras de Oliveira Salazar dirigidas a J. F. Kennedy: 


«Os russos estão claramente a atacar Portugal em África e parece que os americanos estão ingenuamente a fazer o jogo dos russos». 

E mais diria à revelia de Kennedy:

«O mundo está tão cheio de contradições… que às vezes tenho receio que tudo isso me transtorne e me dê voltas à cabeça». 

Por fim, remataria numa última palavra: 

«Querem-me pegar fogo».

Em suma: a percepção do processo em questão não se realiza como se estivessemos perante um somatório de percepções parciais. Digamos que a percepção, se nos é permitida a analogia, está para aquele processo como a gota de água está para todos os rios e todos os oceanos. Ou seja: muitos livros podem ser escritos, muitas e variadas opiniões divulgadas, centenas e milhares de teses universitárias produzidas em série industriosa, e, no fim de contas, quem produz tudo isso das duas uma: ou macaqueia o processo segundo "medidas activas" de desinformação ou continua a não ver absolutamente nada.

Miguel Bruno Duarte






«Todo aquele que pensa que abandonámos o marxismo-leninismo engana-se grosseiramente. Tal só sucederá quando os camarões assobiarem».

Nikita Kruschef



A Rússia regressa às nascentes

Tudo ignorando sobre a Rússia, saltando a seu respeito de ilusão em ilusão, a maior parte dos franceses ainda há pouco alimentava as mais contraditórias opiniões quanto a esse país. Para uns, a URSS era «o país de maior desenvolvimento da civilização, o farol e guia de todos os povos, a pátria de todos os proletários». Para outros, era apenas «um território assolado onde reinavam a desordem, a fome e o desespero, onde a população inteira esperava somente a primeira oportunidade e o primeiro abalo para derrubar a detestada tirania reinante». Se os sucessos da guerra confirmaram a fé dos primeiros, quebrantaram singularmente, pelo contrário, as certezas dos segundos; e o que havia de sumário e, por assim dizer, de mítico nos juízos de ambos, explica-nos que apesar das suas posições antagónicas os partidários e os adversários do colectivismo se encontrem hoje concordantes numa nova ilusão ainda mais falaciosa. Realmente, se uns atribuem a potência dos sovietes aos méritos do regime, os outros não procuram senão tranquilizar-se sobre os perigos que tal potência encarna. «A Rússia bolchevista evoluiu muito; mudou imenso de há vinte anos para cá», ouve-se dizer aos que supõem o bolchevismo um tumor no corpo do povo russo que bastará suprimir para que a Rússia deixe de ameaçar a Europa (1). Mostram-nos de novo a Rússia patriota e religiosa, para que automaticamente o nosso patriotismo e os nossos sentimentos religiosos se sintam serenados. Tanto basta, pelo menos, para que certos franceses e certos católicos se creiam ao abrigo de todos os perigos, no futuro, quando não vão ainda mais longe vendo nessa «evolução» uma espécie de refúgio providencial. Nem lhes passa sequer pela cabeça que tal evolução seja de natureza especificamente russa - «a vida russa é comunismo» - dizia o nosso Michelet – e que o que no Leste pode gerar força, produzir potencialidade, cause no Ocidente apenas debilidade e não aproveite senão à anarquia. Aliás, que pode importar-nos um despertar do patriotismo e das crenças religiosas na Rússia? Pode reconhecer-se o patriotismo, o valor militar de um povo, e não deixar de se recear os efeitos desse patriotismo e desse heroísmo quando se viram contra nós. Pode igualmente verificar-se o misticismo, o espírito religioso de uma raça, e ao mesmo tempo temer a ameaça que representa para a nossa própria fé, na medida em que se propõe destruí-la. E não está precisamente em semelhante caso esse povo eslavo, orgulhoso da sua crença ortodoxa, em revolta contra a Igreja universal, contra a ideia católica e romana? Por isso não se trata de ignorar o patriotismo, o misticismo russo, a religião russa, mas de saber contra o que se levantam. Eis a única questão que tem sentido, na nossa opinião.

O povo russo nunca deixou de ser patriota e religioso, apesar da ideologia em que aparentemente o seu nacionalismo e o seu misticismo se absorveram. Berdiaeff já em 1923 notava justamente: «Na base da revolução russa, desencadeada por forças elementares meio-asiáticas e meio-bárbaras, numa atmosfera de guerra em decomposição, há um facto religioso ligado à natureza religiosa do povo russo». Houve demasiadamente, com efeito, o costume de se ver no bolchevismo apenas uma teoria social e política, e os empréstimos que fez a certos sistemas europeus, como o marxismo, não contribuíram pouco para dissimular a sua verdadeira natureza. «O bolchevismo, como realidade, nada tem que ver com o marxismo» - disse Keyserling, e não há dúvida de que a Revolução de 1917 poderia apresentar outro aspecto e reivindicar outras teorias. Em boa verdade, foi marxista somente porque o marxismo parecia ser, no momento em que ela se produziu, o instrumento mais eficaz para revolver um Estado até às suas profundezas (2). Mas mesmo que os seus princípios fossem princípios de morte, mesmo que a doutrina que encarnava devesse teoricamente destruir mais do que construir, teria mais cedo ou mais tarde de reconstituir o império russo porque traria em si, implicitamente, essa missão – missão idêntica, no fundo, à que outrora recebera, segundo a lenda, esse Rurik que foi o fundador da dinastia moscovita (3).


Quaisquer que fossem as ideias em que se inspirou, a Revolução de Outubro teve portanto a missão de restaurar a Rússia, de lhe restituir as perdidas forças. Embora tivesse aceite, de entrada, um tratado desastroso que privava a Rússia de numerosas conquistas históricas (4), embora tivesse provocado durante certo tempo o aumento da desordem, agravando a impotência do país, a Revolução de 1917 não deixava no entanto de se sentir obrigada a regenerar o povo que acabava de submeter, desde que não quisesse falhar o seu objectivo e condenar-se ao próprio malogro. Socialista ou burguesa, liberal ou autoritária, foi, no momento em que estalou, a sacudidela obscuramente desejada até por aqueles que iam ser suas vítimas.

Com efeito, a revolução soviética triunfou porque a maioria dos russos a considerou como o instrumento de regeneração da pátria moscovita enfraquecida, humilhada, dividida, durante o último período do czarismo. Tudo se desagregava. Duas derrotas militares sucessivas provocadas pela desorganização interna e pelo progressivo debilitamento do espírito público, tinham ferido cruelmente o prestígio da nação. O império de Nicolau II perdera no mundo a posição excepcional que conquistara o império de Alexandre I, árbitro dos destinos da Europa depois da sua vitória de 1812. Por isso, todos os verdadeiros russos, até os mais fiéis à dinastia reinante, ambicionavam o rejuvenescimento do Estado e transformações políticas mais ou menos profundas que reconduzissem a «Madre Rússia» à primeira fila das grandes potências. Já em 1905 os oficiais da esquadra de Rojestwensky, não tendo ilusões sobre o desastre para que se dirigiam, fechavam os punhos e repetiam, apesar do seu lealismo: «É preciso que isto mude». Mais tarde, quando a Grande Guerra revelou ainda mais a fraqueza da sua pátria, burguesia, nobreza, até grão-duques desejaram a reforma total que sararia as feridas do seu orgulho.

O orgulho eslavo facilitou a aceitação do regime bolchevista e de tantos inumanos constrangimentos. Foi sobretudo para apaziguar esse orgulho ferido pela decadência do Estado imperial que o povo das estepes admitiu o grande desconcerto social realizado pelo Estado soviético. Lenine mostrava compreendê-lo ao afirmar: «É preciso que considerem a nossa intervenção como novo apelo aos varegues». Lenine dizia também, referindo-se aos russos: «Excitarei o seu prurido patriótico – será a forma de não fazerem caso dos seus próprios sofrimentos!» (5).

Mas Lenine não ignorava que um revolucionário no nosso tempo deve ser antes de tudo um soldado e, quando meditava na forma de submeter o império russo, sabia que só poderia consegui-lo a ferro e fogo. Para esse bolchevique o pacifismo fazia parte, aliás, do que ele chamava a «blagologia burguesa». Nunca se deixara lograr por essa patacoada. «Trata-se apenas de uma questão de oportunidade», dizia poucos meses antes da Revolução de Outubro. «Sou pacifista quando isso pode prejudicar os Estados capitalistas… Mas se conseguir assenhorear-me do poder na Rússia, serei exactamente o contrário do pacifista. Quando a Rússia for bolchevizada, seremos patriotas russos e não hesitaremos em nos bater com os nossos vizinhos, se o interesse do país e da revolução o exigirem!» (6). E, como implacável realista que tanto meditara Clausewitz como Karl Marx, Lenine gostava de citar a sentença de Heráclito, fazendo-a sua: «Não esqueceis que a guerra é a rainha do universo!».Por isso, a Revolução de Outubro depressa tomou, aos olhos de todos os observadores atentos, esse carácter de desforra nacional e imperialista que parecia excluir o sistema económico e social que defendia. A pouco e pouco a doutrina foi sacrificada à missão histórica, ou melhor, passaram-se a servir dela como de uma mística capaz de restituir ao imperialismo moscovita toda a sua força. Vencido no terreno do marxismo, Lenine consagrou-se ainda com maior encarniçamento à sua outra tarefa, que lhe ditava o seu patriotismo. O marxismo não o despojara do que ele chamava «a altivez nacional dos Grandes Russos» Mais do que a qualquer dos seus compatriotas, impulsionava Lenine esse orgulho russo que se manifesta no mais humilde dos mujiques e lhe dá a crença de que o povo russo, embora atrasado em relação aos povos civilizados, recebeu a missão de assegurar a felicidade do género humano. Por isso Lenine procurou compensar o revés sofrido dedicando-se à outra parte do seu programa: regenerar a Rússia, dar novas armas ao seu imperialismo, realizar os desígnios do pan-eslavismo à sombra e com a ajuda de uma doutrina revolucionária que, sem aplicação possível na própria Rússia, se tornaria numa máquina de guerra particularmente eficaz contra os Estados estrangeiros.


A história russa oferecia-lhe, aliás, o exemplo do método capaz de restaurar o império decadente no aspecto material, em primeiro lugar. Depois do desastre de Narva, Pedro o Grande enfiara pela senda da industrialização a fim de restabelecer a nação moscovita. Lenine não precisou de ser marxista para sentir a necessidade de fazer o mesmo depois de Brest-Litovsk. Sabia que a Rússia possuía imensas reservas de riquezas naturais e que bastaria valorizá-las sistematicamente para que se colocasse à cabeça do universo. Desde que o ditador bolchevista instituiu a Nep, ou seja, desde que abandonou a prática do marxismo, dedicou-se apaixonadamente à reconstituição dos recursos materiais da sua pátria, ao desenvolvimento máximo do seu poder industrial e militar, ao aumento e à restauração do evaporado prestígio do enorme império. Já em 1922 afirmava: «É necessária a tensão extrema de todas as nossas energias para aproveitarmos a moratória que as circunstâncias nos oferecem e para garantirmos o restabelecimento económico do país, sem o que não pode sequer pensar-se em aumentar seriamente a sua capacidade defensiva. Chegámos ao fim de uma série de guerras; devemos preparar-nos para nova série». Era este o objectivo confessado; e, pouco antes de morrer, Lenine definia assim a tarefa dos seus sucessores: «A Rússia, sozinha, constitui um mundo, disse-lhes. Depende de vós que esse mundo pese com todo o seu volume na balança das forças».

À construção desse compacto edifício industrial, destinado para a guerra e para a conquista, Estaline e os seus iam consagrar-se, com tanta tenacidade e insensibilidade tamanha, que deveriam ter dado ao mundo a previsão do grau de poder a que fatalmente chegariam. Verdade seja que os resultados obtidos – esses resultados que a Europa caiu no erro de menosprezar – não se conseguiram senão em detrimento da teoria. Porque – conforme veremos a seu tempo – o poder militar dos sovietes assenta muito mais sobre as riquezas materiais, que mal começaram ainda a explorar, de um império três vezes mais vasto que os Estados Unidos da América, do que no valor e nos méritos próprios de um regime que somente soube interpretar em certo momento histórico, as ambições imperialistas e a vontade de expansão do eslavismo (7).

[…] Mas que visa esse novo patriotismo russo, contra quem, na sua ambição de vir a ser o centro da humanidade nova, o fanatismo desse jovem povo, que tem a azedia do sangue bárbaro, volta a sua frenética e poderosa animalidade? O povo russo crê, com fé primitiva e tenaz, que a sua missão no mundo é a política do género humano. Que significa essa crença? Para onde tende esse messianismo? Eis o que unicamente nos importa – a nós que defendemos as afeições e os interesses do Ocidente.

Consciente da sua originalidade própria de que, como dissemos, tem uma noção messiânica, a Rússia bolchevista julga-se anunciadora da regeneração do mundo. Para melhor anular as contradições que a minam, começa por querer destruir todos os valores que fizeram aquilo que somos. A cultura helénica, o mundo latino, a civilização cristã nunca tiveram inimigo mais lúcido nem mais implacável do que o que se apoia nos contrafortes dos Urais. E é por isso, em primeiro lugar, que o bolchevismo constitui um perigo – na medida, exactamente, em que assenta sobre um princípio anti-ocidental, anti-humano […].

Bolchevista ou eslavófila, pois - «há no bolchevismo integral grande número de ideias eslavófilas» (8) – é no velho citismo que continua a alimentar-se essa ideologia em que se exalta o ardor virgem de um povo que afirma a superioridade da sua frescura intacta sobre o esgotamento imputado a todas as raças instruídas, cultas, formadas. «Sim, somos citas» - apregoou A. Block - «sim, somos asiáticos, de olhos turvos e ávidos!». É esse citismo que constitui o fundo de todas as aspirações nacionais russas e que alicerça a inimizade irredutível, o antagonismo filosófico e histórico da Rússia e da Europa. «Entre ela e nós» - diz Tiucheff - «não pode haver negociações nem armistício. A vida de uma é a morte da outra». E afirma seguidamente que «o citismo russo reduzirá a cinzas o universo, arrancará a máscara a Atlante, esse burguesote do mundo; porque, num furação de chamas, por entre a tormenta, a boa nova vai alastrar» - isto é, a nova verdade revolucionária dos citas, única «verdade cósmica» destinada a destruir «a Europa estatista e materialista».




Por toda a parte se topam ao serviço da violência as mesmas declamações contra «o Ocidente apodrecido» - lugar-comum dos intelectuais russos -, o mesmo desejo de regeneração universal baseado na convicção de que o povo russo é o corpo de Deus, o povo deífico (9), e também aquela forma de messianismo que Karl Marx ironicamente definia «a fé na renovação da Europa por meio do cnute e da mistura do sangue europeu com o sangue calmuco».

Despotismo e comunismo apoiados no instinto da raça, tal era já o ideal dos velhos teóricos moscovitas, porque o comunismo não existe apenas onde reina o colectivismo mas em toda a parte onde um déspota dispõe arbitrariamente da comunidade – e o estalinismo não se distingue nesse aspecto do czarismo. A Rússia foi sempre comunista (10), porque nunca reconheceu o direito de propriedade nem o da pessoa humana, de que a propriedade não é mais do que o desenvolvimento e a aplicação. Com efeito, para o russo a pessoa não existe. Somente conhece o orgulho colectivo e esse orgulho aspira impor ao mundo um deus russo, um senhor russo, uma religião russa. Por isso não é possível separar o comunismo da ideia russa, a qual se confunde com um implacável pendor imperialista que nunca foi tão bem expresso como pelo lema dos eslavófilos:

«Esmaguemos tudo o que não seja russo» (11). O programa nacional comunista não tem outro objectivo. Mais próximo do absolutismo tártaro do que do marxismo, o bolchevismo é apenas um instrumento de ataque contra o resto do mundo que ele odeia e quer corroer para melhor destruir. Por isso esforça-se por fecundar o nacionalismo latente dos povos asiáticos que se encontram em estado de expectação, de profetismo, de milenarismo, precursor das grandes erupções migratórias, e que a universal comoção da guerra exaltou.

O regresso dos bárbaros, eis o que nos ameaça – isto é, o novo triunfo dos sectores menos conscientes e civilizados da humanidade sobre os sectores mais conscientes e civilizados. Semelhante ideia, que ainda ontem parecia monstruosa, impôs-se agora aos nossos espíritos. Não julgamos já desarrazoadas as advertências de um Rousseau (12), de um Bonald, que pressentiam os tempos «em que a Europa esgotada, tal como no final do império romano, será fácil presa para os povos que a natureza esconde nas vastas planuras da Ásia central». E quedamo-nos a reflectir sobre o que Renan, no começo da guerra de 1870, anunciava como consequência fatal do enfraquecimento dos Estados Ocidentais pelas teorias democráticas e socialistas levadas aos seus últimos efeitos:

«Existe ainda no mundo» - dizia - «um reservatório de forças bárbaras quase todas debaixo da vigilância da Rússia. Enquanto as nações civilizadas conservarem a sua forte organização, o papel dessa barbárie quase se reduz a zero»; mas acrescentava: «A Rússia só será perigosa se o resto da Europa a abandonar à falsa ideia de uma originalidade que ela talvez não possua e se lhe permitir que reúna como num feixe os povos bárbaros do centro da Ásia, povos absolutamente impotentes por si sós mas capazes de serem disciplinados e muito susceptíveis, se não se lhes prestar atenção, de se agruparem em torno de um Gengis Can moscovita» (13).

(in A Nova Rússia, Livraria Tavares Martins, 1945, pp. 3-20).





Notas:

(1) «O bolchevismo não é Lenine nem Trotsky, é todo o povo russo» (Muskova). E como já dizia Dostoievsky: «O niilismo apareceu entre nós porque todos nós somos niilistas! Nada mais cómico do que os cuidados dos nossos sábios perdendo tempo a pesquisar as origens dos niilistas! Os niilistas não nos vieram de parte alguma – estiveram sempre connosco, em nós e entre nós».

(2) «Espero o livro em que o marxismo de Estaline apareça inserido na história da Rússia, escreveu Ortega y Gasset. O que em Estaline é verdadeiramente russo é o que nele é verdadeiramente forte, e não o que nele é marxista» (A Revolta das Massas, p. 146).

(3) À frente dos varegues, esse chefe escandinavo estabeleceu-se na Rússia, em volta de Novgorode, no final do século IX.

(4) Aliás, a propósito da paz de Brest-Litovsk, a Pravda escrevia em 3 de Março de 1928: «A paz de Brest foi um compromisso do poder soviético com o imperialismo. Todavia, esse compromisso pertence ao número dos que matam o adversário. Depois da conclusão da paz a influência do bolchevismo aumentou muito no exército alemão e isso precipitou o rebentar da Revolução na Alemanha». E a Pravda acrescentava: «Tal como a paz de Brest-Litovsk, todas as relações «pacíficas» de um país socialista com os seus pares imperialistas constituem compromissos de natureza muito particular. Mas também esses compromissos matam os países imperialistas».

(5) Carta a Liebknecht; cf. Pierre Lafue: Lenine et le Mouvement.

(6) «Cada remoinho, cada ziguezague da história é um compromisso – dizia também Lenine – um compromisso entre as antigas forças já insuficientemente poderosas para poderem arredar por completo as novas forças, e essas forças novas que ainda não são suficientemente poderosas para derrubarem o Velho Mundo. O marxismo não é irredutivelmente contra os compromissos; considera necessário utilizá-los com a mira de tirar o maior partido que for possível».






(7) «Aos que pensavam na transformação sistemática da sociedade universal, a Rússia propôs uma série de problemas cujos elementos eram essencialmente russos e aos quais não puderam dar senão soluções puramente russas, absolutamente inconcebíveis noutros países. É portanto perfeitamente ilusório raciocinar partindo desse povo para os outros. Já são horas de se ver no sistema soviético um fenómeno especificamente russo e de lhe reconhecer carácter universal. Os chefes do regime tiveram a ambição de criar uma grande potência económica que sem dúvida esperam servirá para derrubar o capitalismo privado além-fronteiras. Em primeiro lugar, porém, trata-se de edificar aquém-fronteiras a Nova América» (F. Grenard, La Révolution Russe). Primeiro passo na marcha para a conquista do mundo!

(8) Ustrialoff.

(9) «Sabeis qual é presentemente o único povo deífico, o único povo chamado a renovar o mundo, a salvá-lo em nome de um novo Deus? É o povo russo» (Dostoievsky, Os Possessos). A fé sombria de um Lenine descende directamente deste messianismo.

(10) Já em 1880, no tempo dos czares, o barão Haxhausen podia escrever o seguinte: «Ninguém na Rússia possui verdadeiramente a propriedade, excepto a Nação. Tudo o mais, propriedade das comunas, das famílias, etc., é apenas uma propriedade concedida temporariamente e que não se funda sobre o princípio da estabilidade. Em todas as épocas e em todas as relações da vida se vê que a comunidade do bem é o princípio fundamental da sociedade russa». E o mesmo historiador observava: «Originariamente, a ideia de um direito à propriedade privada do solo é estranha por completo ao pensamento e aos costumes do povo russo. Os vastos territórios da Rússia foram sempre considerados como propriedade colectiva do povo russo. Daqui advém, como consequência, que não pode haver nenhuma propriedade do solo, nenhum direito hereditário a semelhante propriedade, nem sequer o direito de usufruto vitalício ou temporário sobre determinada porção do solo. Esse princípio, cuja origem se deve à antiga vida nómada do povo russo, manteve-se ainda depois da formação de instituições fixas, em todas as fases da história do império».

Estepe russa

Por isso a Rússia constituiu terreno particularmente favorável para uma experiência de socialismo, ou melhor de capitalismo de Estado: «país imenso, abundante em matérias-primas e em géneros alimentares, que constitui um mundo por si só, capitalismo privado que foi sempre débil e sem influência sobre o regime social, arruinado pela guerra e pela Revolução, Estado centralizado e despótico em que nada jamais se fez a não ser por ordem superior e por regulamentação administrativa, povo acostumado a obedecer e a sofrer, multidão de homens pouco ou nada diferenciados, habituados a uma vida comum e colectiva, a uma existência uniforme» (F. Grenard, ob. cit).

(11) Dostoievsky exprime a mesma ideia ao escrever: «Todos os homens devem tornar-se russos, antes de mais nada. Já que o cosmopolitismo é uma ideia nacional russa, importa em primeiro lugar que cada homem venha a ser russo» (Citado por O. Spengler, Années décisives, p. 98).

(12) «Os tártaros» - dizia J.J. Rousseau - «tornar-se-ão novos senhores: julgo infalível essa revolução».

(13) Revue des Deux Mondes, 15 de Setembro de 1870. Cf. La Réforme intellectuelle et morale, 125.

Continua


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