segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Salazar e o Champanhe

Escrito por Miguel Bruno Duarte





Christine Garnier e Oliveira Salazar




«Olhe ela é pétillante como o Champanhe».

Maria Arminda Lacerda



Em Mulheres de Salazar, a jornalista Felícia Cabrita dá largas ao seu lúbrico imaginário sobre a vida íntima e sentimental do último monarca. Ora, a sua tese de alcova resume-se nisto: o ditador «afinal conheceu e estancou as febres da carne com o requinte de um casanova» (1). E como se não bastasse o teor manifestamente grosseiro e pornográfico de uma tal tese – assaz reveladora de quem a exibe –, só já faltava que também fosse representativa do perfil académico dominante.

No âmbito da historiografia marxista, trata-se, no dizer do catedrático Fernando Rosas, de um «trabalho persistente, minucioso e rigoroso (…), mesmo descontando o romanesco ou o acessório ficcional com que a autora» (2) desvenda, quase desnuda a pessoa ou a personalidade de Oliveira Salazar. Assim, à tese de alcova subjaz a chancela pseudo-científica de mais um professor universitário, mesmo quando – segundo confissão do próprio – os arquivos oficiais não permitem reconstituir a vida erótica e amorosa do presumível «casablanca português». Como tal, se tudo praticamente se confina «ao nível da memória oral e dos acervos documentais privados, muitas vezes de difícil convocação e acesso», cai por terra a falsa imagem de um Salazar de vida amorosa «extenuante» (3), tal e qual «um estouvado com mulheres» entregue a «um tumulto» ou a «uma correria de prazer em prazer» (4).

Entretanto, se quiséssemos optar pelo juízo simples e vulgar, seríamos, eventualmente, tentados a ver nos alegados «amores pecaminosos» (5) de Salazar uma virtude varonil nada despicienda. Porém, temos a certeza, melhor, a intuição de que Oliveira Salazar era uma figura distinta e aristocrática, tal como, aliás, Franco Nogueira deixa entrever na passagem que se segue:

«Dedicava à sua família um afecto intenso, vivido. Mas dominava-o sobretudo a paixão pela mãe: absorvente, esmagadora, possuía todo o seu ser. Maria do Resgate era mais do que anjo tutelar: afigurava-se-lhe deusa inspiradora a quem se devia tributar, como um singelo imperativo escrito nas coisas, um culto exclusivo. Acima de tudo importavam a saúde, a felicidade, o bem-estar de Maria do Resgate: e para o conseguir nenhum sacrifício era excessivo. Não constituíam mesmo sacrifícios: eram alegrias que provocavam felicidade interior. Nada queria Salazar fazer que pudesse alterar a existência de Maria do Resgate, ou lhe perturbasse o espírito, ou lhe suscitasse ansiedade e preocupação. Para sua mãe, era companheiro, conversador que a distraía, enfermeiro carinhoso quando preciso: e a isso subordinava deveres, ambições, desejos. E a sua mãe tudo, no fundo, era reconduzido ou comparado: devia-se adorar a Pátria porque esta era a mãe de todos. Mas, a par deste enlevo filial pela mãe, vibrava Salazar com outro sentimento: o apego à terra. Nas leiras e nos pinhais da sua aldeia, nos horizontes tapados pelo Caramulo e pela Estrela, estavam as suas origens, as suas raízes: e não podia criar raízes em mais parte alguma. Pisar o chão onde estavam implantadas as suas cepas, onde germinava e crescia o seu milho, onde floresciam as suas rosas e os seus goivos, constituía para Salazar uma forma de realização pessoal, um gozo físico, uma plenitude de vida. Na terra e nas criações da natureza via um mistério: e o seu próprio ser formava uma parcela dessa parcela desse mistério: e este revelara-se-lhe ali, no casebre do Vimieiro, no adro de terra batida, no milheiral por detrás da casa, nos pinhais circundantes. Por isso enternecia aquela aldeia e não outra; afagava as pedras daqueles muros e não de outros; percorria com inebriamento os caminhos pedregosos daquelas florestas e não de outras: porque era ali que tivera princípio, nascera, se criara, e adquirira consciência da realidade exterior. E por isso também se identificava com tudo e com todos da aldeia: não havia um palmo da sua terra em que não pusesse a mão...» (6).

Serra do Caramulo


Ora, toda essa matriz telúrica e aristocrática também se reflectia na forma como Oliveira Salazar naturalmente se dava aos devaneios sentimentais, quanto mais não fosse nos seus tempos de militante católico, como também o testemunha Franco Nogueira:

«Acompanhavam-no raparigas de Coimbra, de boa sociedade ou moças tricanas, nos seus passeios românticos pelo Choupal, pela Estrada da Beira, ou ao Penedo da Saudade e pelas margens do Mondego. Encantava-o, fascinava-o a presença das mulheres, a sua conversa frívola, os seus enredados problemas femininos; e fascinava as mulheres. Atraíam-no sobretudo as mulheres frágeis, delicadas, franzinas, mas alegres e ruidosas. Não excluía perante si próprio a hipótese de casamento, embora em futuro remoto; pensava romanescamente na Júlia Perestrelo, sua explicanda e filha de sua madrinha; mas o seu amigo mais íntimo, o padre Cerejeira, não parecia encorajar esse devaneio. Sentia Salazar, todavia, a ânsia de dar expressão aos seus enlevos românticos. Abandonando o pseudónimo de Alves da Silva, e assinando-a com um simples S, publicou então uma crónica muito sentimental, muito literária, muito adjectivada, muito rebuscada, a que chamou «Ela»» (7).

Compreende-se, pois, que, não «obstante o seu aspecto distante, monástico, gelado, de maneira a compor um tipo e a transmitir uma imagem», Salazar não ficasse de todo «alheio à sedução da Coimbra romântica e boémia» (8). Aliás, como exemplo da sensibilidade quase feminina de Salazar (9), desde logo presente no contraste oscilante entre o devaneio amoroso e o orgulho manifestamente ferido, leia-se o seguinte trecho:

«Sem prejuízo da sua actividade docente, Oliveira Salazar ampliava agora a sua vida social. Superara uma crise sentimental, em que não rejeitara de todo a possibilidade de casamento. Fora com efeito profunda a sua afeição pela Júlia Perestrelo, a Julinha, filha de sua madrinha Maria Perestrelo: mas esta não aprovara o derriço com o filho do Tio António, modesto feitor da casa dos Perestrelos. Salazar, como explicador que também havia sido de Julinha, passara a esta um ponto para composição: «que pensa do amor?» Maria Perestrelo considerou o exercício como escabroso e impertinente, e faz sentir ao afilhado a sua raiz plebeia. Salazar declara então que nunca mais entraria em casa de sua madrinha, nem lhe falaria, jurou-o» (10).

Além disso, note-se também o que já Franco Nogueira averiguara ser, no que respeita ao círculo feminino de Salazar em Coimbra, a «fronteira indefinida entre a amizade fraternal e o devaneio amoroso» (11). Ora, este ponto parece-nos significativo perante o parecer de Maria Arminda sobre a última visita de Cristina Garnier a Salazar, quando este, já no crepúsculo da vida, se encontrava na Cruz Vermelha:

«Ficou incomodadíssima e chorou, chorou. Mas eu acho que a relação deles nunca passou de uma “amitié amoreuse”» (12).




De facto, Oliveira Salazar, não obstante o encanto suscitado pela jornalista francesa, nunca se lhe rendera em termos amorosos. Em Salazar não houve, portanto, entrega por encantamento, se por entrega entendermos o transporte amoroso subtraído a considerações de ordem reflexiva, volitiva, social e moral. Ou seja: Salazar não chegara a transplantar o seu fundo vital em alma alheia na medida em que vivia e concentrava toda a sua existência no exclusivo amor pela Pátria. De resto, só o amor filial pela mãe o teria feito recuar perante o destino penosamente traçado, porque só esse falava mais alto, como ele próprio confessa:

«Se minha mãe não tivesse morrido (…), nem sequer teria sido ministro. Ela não poderia viver sem mim e eu não poderia trabalhar sabendo-a inquieta» (13).

Mas retornando à francesinha, tudo parece indicar que ficou seduzida por quem, nas suas palavras, a «habita estranhamente» (14). E se dizemos seduzida é no sentido etimológico de atraída, não sexualmente (15), mas amorosamente, como, aliás, se assinala no seguinte trecho:

«Mas de novo vive sob a emoção da sua estada em Portugal, e compreende bem a saudade portuguesa. Por entre os cuidados do volume [«Vacances avec Salazar»], as conversas com Grasset, os preparativos da edição, as solicitações sociais, Christine pensa, imagina uma nova visita a Lisboa, à «quinta» do Vimieiro. Agora, que a vida para ela mudou de sentido e de rosto, promete a Salazar ser paciente e doce, e obedecer-lhe para sempre. E um dia Marcello Mathias convida-a a um passeio por Paris, encaminha-a para a Rua Royale. Param defronte de uma joalharia; Mathias pergunta a Christine, muito naturalmente, qual dos anéis expostos mais lhe agrada; ela aponta uma das jóias; e Mathias diz-lhe que, a partir daquele momento, o anel lhe pertence, em nome de Salazar. Christine fica aturdida, e escreve para Lisboa que não se trata de um simples anel, mas de uma jóia, já carregada de passado, e aureolada de luz, de encanto, de ternura. E diz mais a Salazar: beija-lhe as mãos, num amor intenso, total: e que beija as suas cartas» (16).


Posto isto e, não obstante a má-língua do jornalismo vil de expressão universitária, uma coisa é certa: Oliveira Salazar não só conhecera a língua e a alta cultura francesa, mas também o encanto que pode, por certo, advir da melhor alma feminina de Além-Pirenéus.


Notas:

(1) F. Cabrita, Mulheres de Salazar, Editorial Notícias, 1999, p. 87.

(2) Cf. prefácio in ob. cit.

(3) Ob. cit., p. 59.

(4) Ob. cit., p. 76.

(5) Ob. cit., p. 47.

(6) Franco Nogueira, Salazar, I, Atlântida Editora, pp. 152-153. De facto, o apego de Salazar à terra fez com que, pela vida fora, procurasse alargar «os seus quintais, os seus lameiros». A esse respeito sobressai um episódio caricato, embora altamente expressivo do seu arguto e tenaz poder de negociação, tal como nos conta Franco Nogueira sobre a aquisição, em 1944, «de um terreno de semeadura de 30 metros quadrados, confinantes com uma propriedade de Mário Pais de Sousa»: «E logo determina ao pedreiro Ilídio que construa muros de vedação para delimitar bem as novas terras. Mas ao serem traçadas as extremas com a propriedade de Pais de Sousa, verifica-se que o muro esbarraria com um velho castanheiro gigante. Debate-se o problema: não se pensando derrubar a árvore, fica esta aquém ou além do muro? E Salazar propõe a Pais de Sousa a solução: "Não faz mal, dividimos a coisa a meio. Eu fico com o castanheiro, tu ficas com a sombra"» (ob. cit., III, p. 544).

(7) «Chamava-se... Nunca lhe soube o nome. Demasiado pálida talvez, era duma magreza delicada e fina. Condescendia em sorrir, mas tinha nos olhos negros, macios de veludo, a expressão indefinível duma tristeza profunda. (…) Não vi nunca que chorasse; mas notava-se-lhe sempre o mesmo olhar longo, aveludado, triste... (…) E ninguém a interrompia na meditação dolorosa – fina e branca entre os cachos enormes de glicínias roxas, vicejando no terraço triste, voltado ao poente. Estrelava-se o céu, e lá ficava cismando, o olhar perdido no horizonte imenso, aquele olhar longo, meigo, dolorido, expressão adorável de ternura e saudade... Disseram-me depois que, em vésperas de noivado, repentinamente, a ferira, sem dó, uma grande desgraça... S (ob. cit., I, pp. 98-99).







(8) Ob. cit., I, p. 101. Sobre a natureza «antinómica» de Salazar, diz-nos ainda Franco Nogueira:

«Mercê dos seus traços contraditórios, e porque todos estes eram muito vincados, a personalidade de Salazar aparecia a cada um dos seus amigos e conhecidos sob ângulos divergentes ou opostos. Para uns, era homem frio, mesmo gelado; para outros, era sensível, tímido, emotivo, um ser de nervos que estremeciam facilmente; para alguns, era homem remoto, longínquo, exigente, arrogante e desdenhoso; para terceiros era compreensivo, afável, indulgente; ou era duro, ácido, implacável, impiedoso, desumanizado; ou era ainda humilde, sóbrio, espartano; ou também era senhor de si, vaidoso, e a simplicidade exterior reflectia apenas uma atitude premeditada para obter um efeito; tanto era lacónico, reservado, indecifrável, como aberto e conversador loquaz; por entre uma candura inocente, ingénua, podia emergir a sagacidade e a astúcia; e para todos era deslumbrantemente lúcido e de um fascínio inexplicável, que podia seduzir ou irritar. Era complexo, e saía fora do comum» (ob. cit., I, p. 157). Mais lacónico, mas não menos incisivo, surge igualmente o testemunho do Cardeal Cerejeira: «Nele, chocam-se a todo o instante o cepticismo e o entusiasmo, o orgulho e a modéstia, a desconfiança e a confiança, a bondade mais tocante e por vezes a dureza mais inesperada» (cf. Cristina Garnier, Férias com Salazar, Companhia Nacional Editora, 1952, p. 177).

(9) A expressão é do Cardeal Cerejeira. Insere-se ela, por via epistolar, no seguinte contexto: «Não te dei notícias da visita da senhora francesa [Cristina Garnier]. Está conquistada por ti, me parece, ao amor de Portugal. Na nossa conversa, que foi longa, interessava-lhe o teu aspecto humano. Falámos da riqueza de dons com que Deus te dotou – a maior riqueza de dons, os mais variados e às vezes aparentemente contraditórios, que foi dada a qualquer da nossa geração – dons de inteligência poderosa, profunda, ao mesmo tempo teórica e prática, dominada pelo bom senso; dons de vontade forte, serena, metódica, tenaz; dons do coração, sensibilidade quase feminina, dedicação escondida, fino gosto. E tudo isto esmaltado, na conversa ondeante, de casos que vinham à recordação. De ordem geral, só me disse, ao despedir-se, que não tinha dificuldade nenhuma para o livro, se não quanto ao último capítulo. Preocupava-a a conclusão. Subjugada e encantada pela tua personalidade, rendida diante da obra realizada, pareceu-me ver-lhe uma dúvida sobre o futuro, a continuidade quando tu desapareceres. Teu Manuel» (ob. cit., IV, p. 240).







(10) Ob. cit., I, p. 190. Atribui-se a Júlia Perestrelo, a mãe da jovem Maria Júlia, a seguinte frase: «Nem tanto abaixo, nem tanto acima, não se esqueça dos tamancos do seu pai». Humilhado, António de Oliveira Salazar teria respondido: «Nunca descansarei enquanto não pagar todos os favores que devo à sua família» (cf. «Uma desordem perfumada», in Os Anos de Salazar, PDA, 2008, 10, p. 19).

(11) Ob. cit., I, p. 191.

(12) F. Cabrita, ob. cit., p. 87.

(13) Cf. Férias com Salazar, p. 38. Segundo Marta, uma das três irmãs de Salazar, o quadro é deveras tocante e impressivo: «Era [Maria do Resgate] de uma inteligência rara. (…) gostava muito do nosso irmão e ele nunca deixou de lhe consagrar um verdadeiro culto. Quando era estudante em Coimbra dava lições para poder visitá-la todos os domingos. Trazia-lhe fruta, da mais rara e da mais cara. Durante a longa doença que a levou ela não podia comer esses frutos, mas olhava-os, tocava-os e isso bastava para a tornar feliz. Nos últimos dias da vida convencera-se de que só o filho sabia aliviar as suas dores e as suas angústias. Na verdade, as palavras de ternura com que ele a tratava não pertenciam a este mundo e faziam-nos chorar. De pé, junto da sua cabeceira, passou as nove noites da sua agonia. Quando ela morreu, tinha os pés tão inchados que com muita dificuldade acompanhou o funeral» (idem, p. 37).

(14) Cf. «Uma desordem perfumada», in ob. cit., p. 26.

(15) Hilariante, para não dizer inocente, permanece o episódio em que, Cristina Garnier, sentada durante um almoço ao lado de Azeredo Perdigão, deixara estupefacto o Presidente da Fundação Gulbenkian com a seguinte pergunta: «On dit que je couche avec le president?» (in «Uma desordem perfumada», in ob. cit., p. 22).

(16) Cf. Franco Nogueira, Salazar, IV, p. 251.



Oliveira Salazar e Carolina Asseca



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