segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Aristóteles e as Descobertas

Escrito por Miguel Bruno Duarte









Cabo de São Vicente, situado no extremo sudoeste de Portugal continental, na freguesia de Sagres.




O Promontorium Sacrum da Ponta de Sagres.









«Convém lembrar que o Infante D. Henrique foi protector dos estudos teológicos que, no seu tempo, já eram professados na Universidade Portuguesa. A preocupação de Aquém e Além-Mar, de desvendar os mais terríveis segredos da Natureza, torna-se ocupação dominante da razão que pretende resolver os problemas humanos. A descoberta do caminho marítimo para a Índia, de nova relação do Ocidente com o Oriente, tem um significado mais alto do que aquele que pode ser registado na unificação moderna da geografia com a astronomia».

Álvaro Ribeiro («A Arte de Filosofar»).


«(…) E o que aconteceu com os Descobrimentos é que o mais analfabeto, o mais inculto dos marinheiros portugueses era capaz de encontrar nas viagens testemunhos, factos reais que liquidavam completamente o que Aristóteles havia afirmado. Porque ele raríssimas vezes havia feito uma experiência pessoal. É muito frequente encontrar na obra de Aristóteles uma expressão que de uma forma ou de outra quer dizer que alguém viu mas não ele, "dizem", "sabe-se", etc. Não "eu vi", "eu afirmei". E coisa curiosa, quando lemos, por exemplo, Camões, os seus marinheiros dizem "eu vi", "vi claramente visto!", diz um deles. E o que é que eles viram claramente visto? Uma porção de coisas que Aristóteles declarava que não existiam. Assim, o que primeiro se desmanchou foi a física de Aristóteles. E se há uma metafísica que se baseia numa física, o que acontece é que a metafísica começa a ficar abalada».

 
Agostinho da Silva («Vida Conversável»).






Aristóteles e as Descobertas


Ocasionalmente, há sempre quem, a propósito dos Descobrimentos Portugueses, veja na cosmologia de Aristóteles uma concepção dogmática e plenamente ultrapassada pelos progressos técnico-científicos alcançados desde a época moderna até aos dias de hoje. É, pois, caso para dizer que se engana redondamente, sobretudo quando pressupõe terem sido esses mesmos descobrimentos incompatíveis com o sistema cosmológico de Aristóteles, o que é, aliás, desmentido pelo facto, já de si simbólico e altamente significativo, do Infante D. Henrique ter, inclusivamente, «mandado reservar uma sala do Estudo Geral de Lisboa, para aí ser pintado o retrato de Aristóteles» (1). Depois, até mesmo Agostinho da Silva não considerou devidamente o problema, posto que viu na física quantitativa de Copérnico e Galileu o desmanchar da física qualitativa de Aristóteles (2), coisa que, por sua vez, também os Conimbricenses permitem desmentir com base nas correcções que introduziram nos Commentarii, mormente na geografia e na cosmografia (3).

No caso do aristotelismo conimbricense, «um dos grandes descobrimentos dos portugueses» (4), cabe relembrar o primeiro modelo de ecletismo organizado em sistema septivial. Trata-se, na sua melhor forma, de uma síncrese escolástica que soube reunir todos os comentadores, seguidores e opositores de Aristóteles. Mas, se bem que de um sistema enciclopédico se tratasse, longe permaneceu do ecletismo moderno e utilitarista que mais tarde faria escola com a proliferação de compêndios de filosofia (5).

Ainda assim, é hoje sabido como a actualização do Curso Conimbricense ficou por fazer, mesmo quando, «em virtude dos missionários astrónomos, se criaram favoráveis condições para uma excelente modernização, porventura mais ampla do que a dos físicos, a quem só era dado observar o céu europeu» (6). Não faltou, porém, quem achasse necessário proceder à restauração do Curso, como testemunham os esforços de Cristovão Borri, ou os trabalhos de António Cordeiro e de Gregório Barreto, que foram os últimos representantes da tradição conimbricense. Com eles, aliás, se prova ser «falsa a opinião de que o aristotelismo conimbricense se ancilosara e de que vivia na ignorância da filosofia moderna» (7).




Consequentemente, significativo advém o facto daquilo que António Cordeiro designava por «recentiores Galli», entre os quais situava Descartes, Pedro Ramo e Gassendi (8). É com ele, portanto, que a tentativa para conciliar tradição e inovação tem efectivamente lugar no âmbito da filosofia conimbricense, já que, aberto à novidade, não deixou de permanecer fiel a Aristóteles. Deste modo, tendo por intuito integrar o corpus conimbricensis no almejado processo de renovação, bem como se precavendo do que aos olhos de alguns parecia ser a sua filiação na física moderna, incluindo a cartesiana, eis o que, alfim, constituiu a nobre missão de quem ficou, para a história pátria, como o último Conimbricense.

As matemáticas também tiveram o seu devido lugar entre os Conimbres, o que permite invalidar a posição judicativa de um Francisco Gomes Teixeira ao atribuir a decadência dos estudos matemáticos à predominância do ensino jesuíta. Deste modo, se bem que a «matemática era coisa mais sabida pelos ofícios ligados aos Descobrimentos do que pelas artes ligadas às Escolas» (9), existiu, de facto, um marcado interesse pelo raciocínio matemático, como no caso de Cristovão Borri, que, pese embora não ter aceite o sistema de Copérnico, rejeitara, na obra Collecta Astronomica (1629), o sistema geocêntrico de Ptolomeu. E assim se ia depondo, gradualmente, o teocentrismo escolástico em prol de disciplinas matemáticas como a aritmética, a geometria, a óptica, o estudo da agrimensura e da estereometria, da mecânica e assim por diante.

Não há dúvida de que, com a nova fase humanista da filosofia moderna, a tendência acentuada do matematismo era um dado adquirido, e, além do mais, sobejamente antecipado por Copérnico no que toca ao primado da geometria sobre a doutrina aristotélica do movimento. Que o diga, pois, o astrónomo de Cracóvia:

«O grande benefício e enfeite que esta arte confere ao bem público (para não mencionar as inúmeras vantagens para os indivíduos), são muito excelentemente observadas por Platão. Em Leis, VII, ele pensa que [a matemática] deverá ser cultivada em primeiro lugar, porque pela divisão do tempo em grupos de dias, como os meses e os anos, é possível manter um estado vigilante e atento os festivais e os sacrifícios. Negar a sua necessidade para o professor de qualquer ramo do ensino superior é pensamento tolo, segundo Platão. Em sua opinião é altamente desagradável que alguém, possuindo os conhecimentos suficientes sobre o Sol, a Lua e outros corpos celestes, possa vir a ser conhecido e chamado divino» (10).

Por conseguinte, com Copérnico o intuito era pôr fim à «incerteza dos ensinamentos tradicionais das matemáticas acerca da dedução dos movimentos das esferas do universo» (11), já que, no seu entender, permanecia uma questão irresoluta por culpa dos filósofos. E no entanto, é neles que se baseia, até descobrir em Cícero, Nicetas e Plutarco o suposto ponto de Arquimedes para a explicação matemática da máquina do Mundo. Por outras palavras, descobre a ciência pitagórica, que já Plutarco descrevia nos seguintes termos:

«Outros pensam que a terra está fixa. Mas o pitagórico Filolau diz que ela gira em órbita à volta do fogo, num círculo oblíquo à semelhança do Sol e da Lua. Heraclides do Ponto e o pitagórico Ecfanto atribuem movimento à Terra, não de maneira a sair da sua posição mas girando como uma roda do Ocidente para Oriente, à volta do seu centro» (12).

Todavia, é curioso como, à medida que se desenrolam as demonstrações copernicanas sobre a esfericidade e a mobilidade da Terra, resulta a impressão de que a matemática não é, por si mesma, explicativa do movimento, como, aliás, já bem sabia Aristóteles. Seja como for, tal não diminui o valor da investigação copernicana sobre as próximas quão distantes relações entre a Terra e o Céu, assim como as observações e ilações secundadas «nas ilhas descobertas (…) às ordens dos príncipes espanhóis e portugueses...» (13). Enfim, tudo medido e calculado segundo o modelo matemático, a ponto de Copérnico afirmar que o centro de gravidade da Terra não é diferente do respectivo centro geométrico.










Na verdade, há uma diferença de grau ou, até mesmo, uma relação de complementaridade entre os sistemas geocêntrico e heliocêntrico do universo. Mais: Dante chegou mesmo a transladar o sistema ptolomaico num sistema teocêntrico em que os coros e as potestades angélicas, em órbitas cada vez mais alargadas, e, por isso, mais lentas, rodeiam e circulam o Inefável, ao passo que as esferas cósmicas e celestes de Ptolomeu intensificam o respectivo movimento à medida que, do centro do universo (Terra), se sucedem até ao infinito divino. Logo, alcançado o empíreo, ou o céu sem estrelas, transparece a fronteira entre o tempo e a eternidade, o múltiplo e o uno, tal como Dante expõe, descreve e revela neste passo da Divina Comédia:

«No empíreo não diminui a intensidade da visão a vizinhança e a distância; porque onde Deus governa directamente não têm lugar as leis naturais» (14).

Por outro lado, não deixa de ser curioso termos ainda, «a completar as órbitas celestes, (…) as órbitas concêntricas dos elementos, situadas na parte interior das primeiras relativamente à Terra: a mais próxima da órbita da Lua é a do fogo, logo seguida pela do ar, que rodeia a da àgua, a qual, por sua vez, circunda a da Terra» (15). E de tal modo assim é, que Aristóteles se viu compelido a considerar o sistema pitagórico do universo, segundo o qual era o fogo e não a terra que ocupava o centro desse mesmo universo. Eis, pois, o seu testemunho:

«A maioria das pessoas diz que a terra está no centro do universo... mas os filósofos itálicos, conhecidos pelo nome de Pitagóricos, afirmam o contrário. No centro, dizem eles, está o fogo, e a terra é um dos astros que produz a noite e o dia com o seu movimento circular em torno do centro. Além disso constroem outra terra em oposição à nossa e à qual dão o nome de anti-terra. Com tudo isto não andam à procura de teorias e causas para explicar factos observados, mas antes a forçar as suas observações e a tentar acomodá-las a certas teorias e opiniões de sua lavra. Mas há muitos outros que concordariam que é errado à terra a posição central e, para o confirmar, recorrem mais à teoria do que aos factos observáveis. Para eles, o lugar mais valioso convém à coisa mais valiosa: mas o fogo, dizem eles, é mais valioso do que a terra, e o limite mais do que o intermédio, e a circunferência e o centro são limites. Raciocinando nesta base, admitem a ideia de que não é a terra que jaz no centro da esfera, mas sim o fogo. (…) Os Pitagóricos têm mais outra razão. Sustentam que a parte mais importante do mundo, que é o centro, devia estar guardada com o maior cuidado, pelo que lhe chamam, ou antes, ao fogo que ocupa esse lugar, a "Casa da Guarda de Zeus", como se a palavra "centro" fosse completamente inequívoca, e o centro da figura matemática fosse sempre da coisa ou o mesmo do centro natural. Mas é melhor conceber o caso do céu inteiro como análogo ao dos animais, pois, aí, o centro do animal e o do corpo são diferentes» (16).

Enfim, com tudo isto diz-nos Aristóteles que a ciência matemática é a ciência dos limites abstraídos do movimento inerente a toda a substância física. E por isso, também David Ross, baseando-se na Metafísica de Aristóteles, considera a questão nos seguintes termos:

«Par e ímpar, direito e curvo, número, linha e figura podem ser estudados fora das suas relações com o movimento. Mas a carne, os ossos e o homem já não o podem ser. São para o objecto das matemáticas – para usar o exemplo favorito de Aristóteles – o mesmo que "empertigado" é para "curvo". "Empertigado" é um termo que apenas pode ser definido por uma certa qualidade – a concavidade – dum certo objecto físico – um nariz; "curvo" pode ser definido e podem estabelecer-se proposições sobre ele sem serem introduzidas quaisquer referências destas» (17).


No entanto, David Ross apenas toca ao de leve uma tão pertinente questão, ao postular uma certa identidade nos objectos estudados pela Física e pela ciência matemática. Porém, Álvaro Ribeiro foi mais fundo ao apontar-nos o caminho que doravante cumpre realizar a quem crê nas reais virtualidades e virtudes da filosofia portuguesa:

«Se lermos, porém, os livros científicos de Aristóteles, nomeadamente a Física, veremos já a redução das categorias ao número conveniente para o objecto de estudo. Com o renascimento da ciência pitagórica e platónica, e também com a subordinação da experiência às determinações do peso, conta e medida, facilitadas pelo progresso arábico das matemáticas, a noção de substância e a noção de categoria sofreram uma alteração verificável nos textos da filosofia moderna. Acima da natureza, isto é, das leis do nascer e do morrer, foram situadas as relações inteligíveis cuja imortalidade substituía a dos deuses da mitologia antiga. O pensamento filosófico foi obrigado a aceitar como padrão de necessidade a sequência das relações matemáticas, relações inteligíveis, substantes, existentes em si e para si. A relação foi refutando a pouco e pouco a substância. Os sistemas filosóficos afirmavam-se relativistas na medida em que iam sendo fenomenistas, desistindo de designar a substância absoluta» (18).


Notas:

(1) Cf. Pinharanda Gomes, «Aristotelismo», in Dicionário de Filosofia Portuuesa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 30. E mais diz: «Esta aliança do sabido e do praticável define o perfil do Infante D. Henrique, figura central do apogeu do nosso empirismo» (p. 77). Logo, tendo em conta que «o carácter experiencial do empirismo do século XV tenha sido preterido pelo carácter experimental das ciências naturais do século XVIII» (p. 78), a verdade é que esse mesmo empirismo, com sua catalogação e classificação dos fenómenos cosmográficos, botânicos e zoológicos, não foi, de modo nenhum, anti-aristotélico. Além disso, a «perspectiva aristotélica da física dava (…) uma consciência teológica aos Descobrimentos, já que, não sendo uma física mecanicista, mas uma física dinâmica, transfere da cinemática para a estática e, na escala ascendente, da física para a ontologia, da ciência do sensível para a ciência do ideável» (p. 30).

Demais, Aristóteles prevalece na Casa de Aviz. «Incidências aristotélicas são patentes na Crónica de D. Pedro I e na Crónica de D. Fernando, de Fernão Lopes, cuja teoria do conhecimento é aristotélico-platonizante, e cuja prática hermenêutica manifesta, na sua obra de historiador, o realismo peculiar à lógica aristotélica. O aristotelismo político aparece no Livro Velho, do Conde de D. Pedro de Barcelos, na obra de Gomes Eanes de Azurara, e nas de outros escritores da mesma época. D. Duarte, que tinha Aristóteles na sua livraria, cita-o algumas vezes; o infante D. Pedro, no Da Virtuosa Benfeitoria, mostra influência aristotélica mais ampla, citando, já os livros lógicos, já os de ciências naturais, enquanto D. Duarte preferiu os lógicos, os éticos e os políticos. A presença de mestres franciscanos, como Fr. João Verba, junto destes autores, leva-nos a considerar a sua influência neles e, também, o valor que as escolas franciscanas dariam, nesse tempo, ao pensamento de Aristóteles» (pp. 29-30).



Estátua de Aristóteles




(2) Agostinho da Silva, Vida Conversável, Assírio & Alvim, 1998, p. 93.

(3) Cf. Pinharanda Gomes, Os Conimbricenses, Biblioteca Breve, 1992, p. 87.

(4) Cf. P. Gomes, Os Conimbricenses, pp. 121 e 125.

(5) Com a reforma pombalina, transitou-se do texto magistral para o texto compendial. Daí que, sob a influência de Verney, o diploma pombalino ordenasse como «livro único» as Lições de Lógica e Metafísica, do italiano António Genovèsi. Ora, só por volta de 1830, terminada a imposição escolar do Genuense, dar-se-ia então, mais propriamente a partir de 1840, o recurso a uma solução pedagógica que, em cada professor, passava pela liberdade de escolha do livro a adoptar. Dir-se-ia, pois, estarmos perante uma escola eclética, contra qual Teixeira Bastos, discípulo de Teófilo Braga, iria mover combate para pôr fim ao que dizia ser «uma cobertura moderna dada à escolástica, para continuar a dominação cultural» (cf. P. Gomes, «Ecletismo», in Dicionário de Filosofia Portuguesa, p. 75).

(6) Cf. P. Gomes, Os Conimbricenses, pp. 121 e 125. Note-se o exemplo de Manuel Dias, que «imprimiu um Tratado da Esfera (1614) na China, onde construiu um telescópio galileico».

(7) P. Gomes, Os Conimbricenses, p. 123. Id., «Aristotelismo», p. 32. Entretanto, por realçar estão ainda os contributos cosmológicos que aos Conimbricenses foram trazidos pelos geógrafos dos Descobrimentos. Daí que, embora «os princípios não sejam alterados, (…) é verdade que, no De Coelo, se introduzem correcções à geografia antiga, correcções essas devidas aos descobrimentos náuticos» (Idem, «Conimbricenses», in Dicionário de Filosofia Portuguesa, p. 63).

(8) Id., Os Conimbricenses, p. 144.

(9) Id., pp. 124-125.

(10) Nicolau Copérnico, As Revoluções dos Orbes Celestes, Fundação Calouste Gulbenkian, 1984, p. 14.

(11) Id., p. 8.

(12) Id., p. 9.

(13) Id., p. 22.

(14) Dante Alighieri, A Divina Comédia: O Paraíso, Livraria Sá da Costa – Editora, 1958, Vol. III, Canto XXX, p. 323.

(15) Cf. Titus Burckhardt, Alquimia, Publicações Dom Quixote, 1991, p. 51.

(16) Aristóteles, De Coelo, B 13, 293 a 18, in G. S. Kirk/J. E. Raven, Os Filósofos Pré-Socráticos, Fundação Calouste Gulbenkian, 1990, pp. 262-263.

(17) Sir David Ross, Aristóteles, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 77.

(18) Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais, Guimarães Editores, 1961, p. 101.





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