segunda-feira, 30 de abril de 2012

A maçonaria é só uma (i)

Escrito por José Antonio Ullate Fabo 





Grande Loja Unida de Inglaterra




«A história da maçonaria é uma sucessão de invejas, de ciúmes, de conjuras, de divisões, de ambição desmedida. Foram disputas pessoais que provocaram o confronto entre os maçons antigos da Grande Loja de Iorque e os maçons modernos da Grande Loja de Londres (a que nasceu em 1717), dissensão que deu origem a uma guerra interna durante 80 anos, com implicações internacionais: as duas lojas procuraram obter o reconhecimento das Grandes Lojas da Irlanda e da Escócia, que primeiro o fizeram à loja de Londres, logo à de Iorque, e finalmente, outra vez à de Londres. A luta encarniçada da Grande Loja de França contra o Grande Oriente francês não dizia respeito a diferenças essenciais na concepção da maçonaria, mas sim a ambições pessoais. O rito de Misraïm fez frente ao escocismo (como veremos, ambos são ritos daqueles que foram chamados altos graus, por oposição aos três graus básicos – aprendiz, companheiro e mestre – que formam a maçonaria azul ou simbólica) e à maçonaria moderna, recusando-se a reconhecer a condição de maçons dos dois últimos, por pruridos de protagonismo na confecção dos ritos, e logicamente, como em todos os casos, pelos chorudos direitos de iniciação. A luta prolongada e inflamada entre o Supremo Conselho dos graus 33 (rito escocês, ou seja, de altos graus) e o Grande Oriente de França, que fundava também lojas de graus filosóficos, não tinha como pano de fundo nenhuma discrepância doutrinal, mas antes a sempiterna ambição duns e doutros. O Grande Oriente de França emancipou-se da Grande Loja Unida de Inglaterra cem anos antes de suprimir a menção do G.A.D.U., pelas mesmas razões: para ver quem manda. Quando se consuma a decisão de 1877 (de suprimir do ritual todas as menções "religiosas"), as Grandes Lojas e os Grandes Orientes dividem-se de novo, mas a questão de fundo é quem decide a estratégia a seguir: os princípios são os mesmos. Basta deitar uma olhada à clássica História da Franco-Maçonaria, escrita pelo irmão maçon – entusiasta mas crítico – F.T.B. Clavel, que abrange até aos anos 1840, ou a monumental História Geral da Maçonaria, de Dantón, para constatar como, página após página, toda a história maçónica é uma complexa conspiração, sobretudo interna. No livro de Clavel, ficam a descoberto as paixões baixas e as ambições vorazes que impulsionam fragmentações sucessivas, irregularidades, suplantações e reconciliações, dentro do movimento maçónico».

José Antonio Ullate Fabo («O Segredo da Maçonaria Desvendado»).





A UNIDADE DE PRINCÍPIOS NA MAÇONARIA

Se observarmos as definições da maçonaria - incluindo a nossa tentativa de definição - pode parecer que o principal em todas elas é o ênfase posto na moralidade peculiar e na formação da vontade do maçon. De facto, todas elas denotam a grande importância que se confere à moral particular dos maçons para a consecução do fim da irmandade. De facto, os próprios maçons costumam afirmar que a maçonaria é, antes de mais, uma ética.

«Ética e maçonaria deveriam confundir-se para o bom maçon».

«A maçonaria é, antes de tudo, ética articulada numa moral peculiar, humanista na plena acepção da palavra» (Serrano e Altarriba).

O texto citado, no entanto, diz mais adiante que a peculiar moral maçónica se «aproxima do ser humano mediante a via iniciática». O ensinamento maçónico é tutelado por alegorias e por símbolos.




Mas, sem ignorar a importância da moral na maçonaria, qualquer moral, por mais «peculiar» que seja, depende de certos princípios intelectuais, de certas «fontes da moral». Quais são os princípios em que assenta a moral maçónica?

A configuração da moral maçónica vai depender da concepção que a maçonaria tem do significado último da realidade – a sua «cosmogonia» - e da concepção que faz do ser humano – a sua «antropologia».

Vejamos, pois, se os maçons partilham a mesma concepção da realidade nos seus fundamentos últimos.



 O CRITÉRIO DA REGULARIDADE: UMA PISTA FALSA

A maçonaria chamada «regular», bem como muitos dos ritos dos altos graus desenvolvidos a partir daquela, têm como um dos seus fundamentos inamovíveis a afirmação da existência de um ser supremo, que designam por Grande Arquitecto do Universo (G.A.D.U.). Mackey, na sua Enciclopédia da Franco-Maçonaria, diz que Grande Arquitecto do Universo é «o título com que se designa a Deidade na linguagem técnica da franco-maçonaria».

Mas a questão do reconhecimento da existência do Grande Arquitecto do Universo provocou um cisma dentro da maçonaria, divisão que perdura ainda hoje. A instituição que agrupava a maior parte das lojas de França, o Grande Oriente (G.O.F.), tinha funcionado com autonomia disciplinar em relação à Grande Loja Unida de Inglaterra (G.L.U.I.) desde finais do século XVIII. Depois de grandes debates internos, o Grande Oriente de França decidiu, em 1877, - seguindo os passos do Grande Oriente da Bélgica, que já o havia feito seis anos antes – deixar de obrigar os candidatos a acreditar na existência de uma divindade, pelo que suprimiu a obrigação de jurar perante um livro da «Lei Sagrada», de acreditar na imortalidade da alma e eliminou toda e qualquer menção ao Grande Arquitecto do Universo, nos rituais e nos templos. A partir de então, as reuniões e os trabalhos da maçonaria da obediência do Grande Oriente de França, deixariam de estar dedicadas à glória do G.A.D.U. Também a partir de então, a maior parte das lojas de todo o mundo iriam dividir-se seguindo uma destas duas tendências, a da Grande Loja Unida de Inglaterra ou a do Grande Oriente Francês. Em muitos países, irão constituir-se uma Grande Loja e um Grande Oriente, separados. É precisamente nesta divisão que se baseia o conceito de «regularidade» e «irregularidade» maçónica: um conceito que só tem sentido dentro da própria maçonaria, e que discrimina as lojas e os maçons que se mantêm fiéis aos «padrões» antigos (landmarks), e estão reconhecidos pela Grande Loja Unida de Inglaterra, em relação àqueles maçons e lojas que não fazem uma interpretação tão literal dos landmarks e que carecem do reconhecimento da G.L.U.I.

Como se pode ver, o conceito da regularidade só é aceite pelos maçons que se auto-denominam «regulares», enquanto os chamados maçons «irregulares», negam qualquer valor a essa dualidade e preferem denominar-se «adogmáticos», «liberais» ou democráticos». Para complicar mais as coisas, a tendência congénita que os maçons têm para dividir-se e para formar novas obediências, somada ao facto de a Grande Loja Unida de Inglaterra só reconhecer uma única obediência regular por país, teve como resultado que muitas lojas que cumprem os requisitos teóricos da regularidade estejam fora desta. Apesar disso, continuam a utilizar a denominação de regulares para não serem confundidas com as adogmáticas, ou irregulares.

Independentemente de outras considerações, a regularidade maçónica é um critério pouco útil cientificamente, pois, sendo um conceito exclusivo, só diz alguma coisa daqueles a quem se aplica pela positiva (os regulares), ao passo que daqueles a quem é negado (os irregulares), não nos diz nada, havendo entre eles grandes diferenças de que não se dá suficientemente conta. Doravante, faremos referência à regularidade, ou irregularidade, sem que isso signifique uma tomada de posição nesse litígio interno da maçonaria, como também utilizaremos alguns termos «irregulares», por exemplo «maçonaria adogmática» ou «liberal», na medida em que esta terminologia está consagrada pelo uso e com o intuito de ter uma melhor compreensão das referências.



UMA EXIGÊNCIA NÃO TÃO ABSOLUTA






A disparidade existente entre os maçons, no que toca ao reconhecimento institucional da existência, ou não, de um ser supremo, parece aos nossos olhos uma diferença aparentemente irreconciliável. Estaremos perante um primeiro obstáculo, insanável, para determinar que tipo de crença os maçons, no seu conjunto, têm no que diz respeito à ordem no mundo?

Talvez não seja assim. Os «padrões», ou «limites do território», designados quase universalmente pela palavra inglesa landmarks, são listas que recolhem os pontos inalteráveis da essência da maçonaria especulativa tradicional, ou regular. Estes landmarks incluem a obrigatoriedade, para os que quiserem ser maçons, de reconhecer a existência de Deus. Assim, por exemplo:

1. O landmark número 19, dos recolhidos por Albert Mackey: «Uma crença na existência de Deus como Grande Arquitecto do Universo, é um dos limites mais importantes da Ordem (…) a negação da existência de um Poder Supremo e Vigilante de tudo, determina uma incapacidade absoluta para a iniciação».

2. Primeiro landmark, da lista elaborada por Luke Lockwood: «a crença na existência de um Ser Supremo, em alguma revelação da sua vontade…».

3. Número 8, dos landmarks de H. B. Grant: «Exige-se a crença incondicional na existência – e a reverência ao seu nome – de um Ser Supremo, ao qual os homens chamam Deus, e ao qual os maçons se referem como Grande Arquitecto do Universo».

4. Primeiro landmark, de John W. Simmons: «A crença na existência de um Ser Supremo...».

5. Primeiro landmark, de Roscoe Pound: «A crença em Deus».

A «Regra de doze pontos da franco-maçonaria», norma exigida pela Grande loja Unida de Inglaterra para obter o reconhecimento da «regularidade maçónica», declara no seu primeiro ponto:

«A franco-maçonaria é uma fraternidade iniciática que tem como fundamento tradicional a crença em Deus, o Grande Arquitecto do Universo».

Pois bem, o requisito da crença no Grande Arquitecto do Universo, proclamado tão afincadamente nestes, e em muitos outros documentos, que deu lugar ao percurso desgarrado dos Grandes Orientes, na realidade, não constitui uma diferença essencial entre os maçons regulares e irregulares.

Os maçons regulares e irregulares estão certamente mergulhados numa disputa de método que tem provocado rixas e confrontos entre eles. Não obstante, nem uns nem outros se negam mutuamente a condição maçónica (salvo as excepções desaprovadas pela maioria dos maçons). Isto é que é decisivo.

Na maçonaria de tipo inglês, abundam os agnósticos não beligerantes, para quem não é problema a aceitação simbólica do Grande Arquitecto do Universo; e vice-versa, a omissão nos Grandes Orientes irregulares de qualquer menção ao G.A.D.U., à imortalidade da alma ou ao livro da Lei Sagrada, não implica a priori a sua «proibição», pelo que, se um maçon, privadamente, professar qualquer tipo de religião, não entra em colisão com a obediência irregular.

A este respeito, costuma passar despercebido um dado curioso e muito revelador: quando, em 1877, o “convento” do Grande Oriente de França decidiu eliminar das suas Constituições todos os artigos que contivessem referências a Deus, à Lei Sagrada ou à Imortalidade da alma, a medida foi adoptada por iniciativa do então Grão-Mestre, que presidia ao Conselho da Ordem, Frédéric Desmons (1823-1909). O que chama a atenção neste assunto, é que o senhor Desmons era de profissão… pastor protestante, o que demonstra que a intenção da medida não era excluir os candidatos que admitissem a existência de Deus, ou que acreditassem na sobrevivência da alma, mas sim despojar o ritual de exigências excessivamente «dogmáticas». Ao mesmo tempo que Desmons pugnava por essa política dentro da loja, continuava a exercer a sua actividade religiosa de pastor protestante, à sua maneira. Foi uma personagem de um fanatismo laicista extremo, como é típico do Grande Oriente de França.












Poucos anos depois de ter conseguido a supressão das menções ao Grande Arquitecto do Universo nos trabalhos da sua obediência, abandonou o exercício do seu ofício religioso para dedicar-se plenamente à actividade política, na qual teve um certo êxito, pois chegou a alcançar a vice-presidência do Senado francês. O seu sectarismo anti-liberal levou-o a colaborar no assunto que deu origem ao «escândalo das fichas», uma conjura pela qual os maçons organizaram um sistema de controlo dos membros das forças armadas que consistia em facilitar a ascensão aos filiados na maçonaria enquanto aos membros do exército que eram notoriamente católicos militantes, aos que enviavam os seus filhos para colégios católicos ou àqueles cujas mulheres assistiam à Missa, era-lhes vedada qualquer promoção. Desde todos os recantos de França, uma apertada rede nacional enviava para o Ministério da Guerra as fichas com todos os dados dos militares «clericais». Aí, eram arquivadas num ficheiro que era designado por «Cartago». Os militares que figuravam no «Cartago», não tinham qualquer hipótese de conseguir ascender na carreira. Essa história ignominiosa é narrada com abundantes detalhes pelo maçon Alec Mellor. Quando, em 1905, a conspiração se tornou do conhecimento público, houve uma enorme comoção em França. Há que ter em conta que o próprio Desmons, e com ele, muitos anti-clericais do G.O.F. que professavam uma religião meramente privada, não tiveram qualquer problema em ser qualificados para ingressar numa loja de obediência regular e teísta inglesa (in «O Segredo da Maçonaria Desvendado», Diel, 2009, pp. 59-64).

Continua


quinta-feira, 26 de abril de 2012

A trama maçónica (iv)

Escrito por Manuel Guerra 




«(…) Um membro do clandestino Grande Oriente Lusitano diz que a “luz verde” para uma mudança de atitude dos maçons portugueses quanto à independência dos territórios de África foi dada pelo Grande Oriente de França: “Repare, por exemplo, nas posições tímidas que a CEUD defendia, em 1969, acerca do dramático problema africano. A viragem deu-se efectivamente a partir das novas directrizes do Grande Oriente de França. Era então Grão-Mestre Fred Zeller”. A teia multinacional da Maçonaria explica também o maior intervencionismo de Senghor, que começou por incitar as autoridades do Brasil a impulsionarem a projecção da comunidade luso-afro-brasileira. Mais tarde, usando os canais da PIDE/DGS, dado que Lisboa e Dacar tinham cortado relações diplomáticas, propôs a Spínola um encontro no mar, fora das águas territoriais do Senegal e da Guiné. O Governo, a pretexto dos riscos para a segurança pessoal do general, não autorizou a cimeira».

José Freire Antunes (in «Nixon e Caetano»).


«Os maçons regulares são profundamente contrários a todas as formas de neo-colonialismos, visíveis ou disfarçados e, por isso, após consagrarmos uma Grande Loja Africana passamos a ser seus companheiros de viagem somente pelo tempo e medida exactos em que formos desejados, e não mais do que isso.

Conseguimos fazê-lo com sucesso em relação a Moçambique e instalámos o seu Muito Respeitável Grão-Mestre, em 11 de Julho de 2009, tendo participado nas Cerimónias a nosso convite, Grão-Mestres e Grandes Oficiais da Costa do Marfim, do Gabão, das Maurícias, da África do Sul, da Reunião (em representação da G.L.N.F. – Grande Loge Nationale Française), do Brasil, dos Estados Unidos da América e da Rússia.

A Grande Loja de Moçambique foi, em termos maçónicos, quase que imediatamente reconhecida como Regular por muitas Potências Regulares Maçónicas, por exemplo, pelos EUA, França, Rússia, África do Sul, Gabão, Costa do Marfim, Maurícias, Grande Oriente do Brasil e outras, com as quais já estabeleceu tratados de Reconhecimento.

Os juramentos da Consagração e Instalação foram feitos sobre três Livros da Lei Sagrada: Corão, Tora e Bíblia porque a Grande Loja de Moçambique agrega Irmãos muçulmanos, judeus, católicos e evangélicos. Nas suas Lojas trabalham Irmãos de todas as cores, filiados ou não no leque de partidos políticos existentes no País.

Chamo mais uma vez a atenção para o facto de que na Maçonaria que promovemos em África – a Maçonaria Regular – não são permitidas discussões políticas ou religiosas.

Tranquilizem-se, portanto, líderes políticos e religiosos. Tudo o que a Maçonaria Regular já fez, pretende e tenta fazer nos Países Africanos de Expressão Portuguesa é ajudar a melhorar a qualidade dos seus Irmãos para que também melhor possam cumprir os seus deveres de cidadãos para com a Sociedade».

Ex-Grão-Mestre Mário Martin Guia (entrevista in «Maçonaria Regular», Diário de Bordo, 2010).




«… Com base nas alianças e na força que tem nos países de língua portuguesa, a GLLP conseguiu, em Fevereiro de 2011, segundo o actual líder, José Moreno, que o português fosse aprovado como "língua oficial da maçonaria" numa "conferência de grão-mestres em Cartagena".

O crescimento da GLLP, como as lojas em Macau, levou também a que os maçons portugueses na região chinesa tivessem acesso aos círculos maçónicos de obediências internacionais na ilha, pois a maçonaria regular tem mais influência na região.

(…) O que irá avançar, no entanto, é o Instituto de Estudos Maçónicos, que funcionará no edifício da antiga Escola Oficina N.º 1, situado no n.º 58 do Largo da Graça. Este é, aliás, um dos mais de 20 edifícios e propriedades pertencentes ao GOL. (…) "A nossa única fonte de financiamento é o dinheiro das quotizações", explica Fernando Lima. Embora o GOL não revele, o DN sabe que as quotas rondam os 300 euros anuais, o que aplicando a dois mil membros significa ganhos de mais de 600 mil euros/ano.

Além da gestão dos edifícios, o GOL tem ainda despesas na análise dos novos candidatos. Quando alguém chega ao GOL, é sujeito a um rigoroso escrutínio, sendo a sua vida passada a pente fino. O registo criminal, por exemplo, é sempre verificado. Para isso contribui uma estrutura, criada na Dieta de 21 de Março de 2009, que é uma espécie de secreta interna. Com 77 votos a favor e sete contra, foi decidida a "contratação de equipas técnicas externas para fornecimento de serviços de consultadoria e apoio afectivo ao grão-mestre e ao Conselho da Ordem nos domínios da segurança de pessoas, património e informação".

Para alimentar teorias da conspiração dignas de livros policiais, o GOL tem também na sua posse uma lista de 360 agentes e "bufos" da PIDE, que está fechada a sete chaves numa instituição bancária. A lista pertencia à Legião Portuguesa (que ocupou o palácio maçónico durante a ditadura) e foi descoberta pela Loja Liberdade, que a manteve em segredo até há seis anos, quando a entregou nas mãos do grão-mestre António Arnaut».

(in «O Poder da Maçonaria Portuguesa»).


«(…) a civilização ocidental a que chegámos é o resultado da convergência do humanismo cristão com o humanismo maçónico, tanto à direita como à esquerda, de liberais a socialistas, unidos na luta contra a ignorância, o fanatismo e a tirania, nomeadamente contra as experiências totalitárias do século XX.




(…) O GOL, fundado em 1802, é a mais antiga sociedade demoliberal portuguesa, com continuada actividade. E sem ser por acaso é, em termos cronológicos, a segunda organização maçónica do mundo. Logo, é um dos elementos fundamentais do nosso património cultural que se perde nas brumas da memória, tal como a Igreja Católica. Isto é, tanto é um valor nacional, como é europeu e universal, e como tal é reconhecido tanto pela Comissão Europeia como pela própria ONU, participando, através do CLIPSAS, no Conselho Económico e Social da organização. (…) o próprio desenho maçónico (…) esteve na base da Sociedade das Nações em 1918, num processo onde participaram portugueses tão ilustres como o futuro prémio Nobel, Egas Moniz, ou o ex-chefe do governo, Afonso Costa, insignes maçons, por acaso inimigos políticos, no plano doméstico.

(…) O que se pode esperar da maçonaria para os próximos tempos?

Que seja liberdadeira [???], de acordo com as regras tradicionais da liberdade individual, da autonomia da sociedade civil e da integração dos valores da libertação nacional no cosmopolitismo, para que cada nação possa converter-se armilarmente na super-nação futura, a república universal. Isto é, que tenha saudades de futuro, conforme o sonho do maior dos símbolos maçónicos do século XX português, Fernando Pessoa».

José Adelino Maltez


«Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: "Tudo pela Humanidade, nada contra a Nação". Posição social: Anticomunista e anti-socialista…».

Fernando Pessoa (in António Quadros, «Fernando Pessoa – Iniciação Global à Obra»).


«(…) [Fernando] Pessoa está atirado à fama como um osso aos cães e é preciso esperar que, envenenados pelo osso, os cães o larguem».

Ernesto Palma


«… A proliferação de estudos sociais e de estudos sociológicos, em todo o hemisfério designado por ocidental, com a multiplicação de gabinetes, centros, institutos, faculdades e outras escolas, acusa uma tendência doutrinária que me parece perigosa na medida em que tende a minimizar, ou a minorar, os estudos de psicologia. A sociologia sem psicologia conduz à inversão, e portanto à falsificação, dos métodos explicativos e racionais. Ora a UNESCO está impregnada deste sociologismo tão internacionalista como abstracto, contra o qual não podem deixar de opor-se todos os intelectuais religiosos e todos os intelectuais espiritualistas que meditem sobre o destino transcendente da Humanidade».

Álvaro Ribeiro





g) O Bilderberg Group, também conhecido como Bilderbergconferentie ou Clube de Bilderberg (BG). Pertenciam ao CFR os elementos do núcleo que criou o BG por meio do jesuíta Joseph Retinger (9), nascido em Cracóvia em 1887 numa família de origem judaico-austríaca. Grau 33 na maçonaria sueca, assumiu a secretaria permanente do BG até à sua morte, em 1960. O nome deste grupo provém do Hotel Bilderberg, situado na localidade holandesa de Oosterbeek, local da sua assembleia constitutiva em Maio de 1954 sob a presidência do príncipe consorte Bernard de Lippe, também mação. É um grupo «privado», que assenta no talento pessoal, no dinheiro individual e familiar e na discrição ou, se se preferir, no segredo. O financiamento do BG está a cargo do grupo Rockefeller, da casa Rothschild, dos bancos Dillon Read, Warburg e Lehman e de duas instituições muito ligadas ao mundialismo: o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. A abastada família sueca Wallenberg tem financiado, até agora, as suas reuniões. Uma das suas filhas é a mulher de Kofi Annan, que foi membro do BG antes de ser secretário-geral da ONU.

Como aponta Martín Lorenzo em El Nuevo Orden Mundial, até 1976, o Bilderberg Group foi presidido pelo príncipe Bernard da Holanda. Os laços da casa real holandesa (titular de uma das maiores fortunas do planeta) com a alta finança são velhos e bem conhecidos, pelo que se torna desnecessário detalhá-los aqui. Por causa do escândalo suscitado pelos subornos da companhia Lockheed, em que se viu envolvido como principal implicado, o príncipe Bernard deixou a presidência do grupo, tendo sido substituído por Douglas Home, ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, que permaneceu no cargo até 1980. A Home sucedeu Walter Scheel, ministro dos Negócios Estrangeiros e, posteriormente, Presidente da República Federal Alemã, que assumiu a chefia até 1985, ano em que foi substituído pelo britânico Eric Roll, presidente do grupo bancário S. G. Warburg. Este último, em 1989, deu lugar ao actual presidente Peter Rupert, mais conhecido como Lord Carrington, ex-secretário-geral da NATO, ex-ministro de vários Governos britânicos e membro destacado da Fabian Society e do Royal Institute on International Affairs.

Entre os mais destacados membros da secção europeia do Bilderberg Group, é habitual a pertença simultânea à Comissão Trilateral, pertença que se estende ao Conselho de Relações Exteriores no caso dos membros mais destacados da secção norte-americana do grupo. Destes últimos poderia fazer-se uma breve relação de nomes que militam nos três organismos, como David Rockefeller, George Bush, Zbigniew Brzezinski, Robert McNamara, Henry Kissinger, Caspar Weinberger, Bill Clinton – todos eles dispensando apresentações -, George Ball, associado do banco Lehman Brothers, Cyrus Sulzberger, editorialista do New York Times, e Heddy Donovan, redactor-chefe da revista Time.

O Bilderberg Group está estruturado em três círculos concêntricos:

1. Em primeiro lugar, o círculo mais reduzido, decisivo e interno, o mais fechado de todos. Chama-se Bilderberg Advisory Committee («comité consultivo»). O seu secretário-geral para os Estados Unidos é David Rockefeller; os membros pertencem todos ao CFR e, ao mesmo tempo, ao círculo seguinte. Serão todos mações?

2. Um círculo mais amplo, mas interno, o Steering Committee («comité de direcção»), composto por 24 europeus e 15 americanos (Estados Unidos). Os 15 americanos pertencem quase todos ao CFR e todos são membros permanentes, e não meros convidados para uma ou mais assembleias.





3. O círculo mais exterior e numeroso. É composto por convidados ocasionais e por filiados permanentes. Segundo Lesta-Pedrero, reúnem-se geralmente cerca de 120 pessoas. Cerca de 70% são membros fixos ou permanentes, os restantes 30% são convidados circunstanciais. Todos são cidadãos prestigiados e influentes, com ou sem actividade oficial nos Governos dos respectivos países. Uma vez por ano, durante quatro dias, expõem de maneira informal os seus pontos de vista sobre os assuntos económicos e políticos internacionais para, com a sua experiência pessoal, chegarem a um entendimento acerca desses problemas e das suas implicações. Embora tratando-se de uma reunião (Conferentie) em que, segundo se diz, não se tomam decisões nem se publicam conclusões, as discussões influenciam tomadas de posição posteriores. De resto, consta que foram tomadas decisões importantes, como por exemplo em relação à Guerra das Malvinas, ao estabelecimento de relações com a China por parte de Nixon, à autorização para a Rússia bombardear a Chechénia, à formação de um Estado albanês independente e ao desmembramento da Jugoslávia (com a entrega da sua província mais setentrional à Hungria) (10).

(…) A escolha dos convidados costuma fazer-se em Março. O comité directivo indica a data do encontro quatro meses antes da sua realização. O nome e a morada do hotel onde irá realizar-se a reunião só são comunicados uma semana antes. Os debates e conclusões são mantidos em rigoroso segredo. Surpreendentemente, os meios de comunicação não parecem interessar-se pelas assembleias do BG. A título de exemplo, nos arquivos do jornal El País desde a sua criação, em 1976, a palavra «Bilderberg» aparece escrita apenas 11 vezes neste diário «independente», uma num título e duas num subtítulo em 1977. Nos últimos 17 anos (1989, realização da reunião do BG em La Toja, Espanha) figura uma única vez e isto apesar do Juan Luis Celebrián, conselheiro delegado do grupo Prisa, ser membro assíduo do BG desde 2001. Os mesmos que não deixam os «famosos» do mundo cor-de-rosa dar um passo em sossego não se atrevem a incomodar de modo algum as personagens mais influentes da política, da banca e do comércio mundiais. Ninguém arrisca publicar o programa, as informações e os resultados das suas reuniões. O juramento de confidencialidade absoluta é feito pelos participantes e pelos jornalistas. Os directores dos principais jornais, bem como das mais influentes cadeias de rádio e televisão, são simultaneamente profissionais do jornalismo e convidados. A revista norte-americana The Spotlight é a excepção permanente nesta questão. Um ou mais dos seus enviados conseguiram infiltrar-se nas diferentes reuniões anuais do BG. Por ser considerada um perigo para a globalização, o Governo conseguiu que ela fosse encerrada por meio de um processo judicial. Mas ressurgiu com um novo nome, expressivo das suas intenções de liberdade: American Free Press. Graças às suas informações, sabe-se que os objectivos do BG convergem no enfraquecimento progressivo das soberanias nacionais e na sua transferência para as instituições de índole oligárquica e supranacional.




O interesse dos meios concentra-se na lista de participantes. Os convidados assistem sozinhos (sem mulheres/maridos, amantes, etc.). Os guarda-costas vigiam mas nunca entram na sala da conferência e comem num local separado. O BG é «uma sala secreta, satélite do CFR. Nada sabemos sobre os critérios utilizados para o recrutamento e o convite dos membros, que dizem que não assistem às reuniões a título privado, mas sim em virtude dos seus altos cargos… O BG, tal como a sua matriz, o CFR, é uma promoção maçónica» (R. de la Cierva, op. cit., p. 618). É verdade, embora digam que «assistem na qualidade de cidadãos privados e não como representantes oficiais» (D. Estulin, op. cit., p. 33).

Filipe González foi convidado para a reunião realizada em 1976 em Torquay, na Inglaterra, mas declinou o convite. Assistiu Manuel Fraga Iribarne. O novo PSOE, que conseguiu afastar o tradicional – o do exílio -, encabeçado pelo mação Rodolfo Llopis, não estava preparado para uma tão chamativa saída da clandestinidade fora de Espanha. Na reunião, realizada em Palma de Maiorca em Setembro de 1975, dois meses antes da morte de Franco, foram abordados três assuntos. Um deles foi «a necessidade de contar em Espanha com um grupo de Homens Novos capazes de assegurar a substituição do franquismo sem traumatismos». Abria-se o caminho a Felipe González, Adolfo Suárez e suas equipas. «Partido Socialista: o Partido da Maçonaria» é o título de um dos capítulos da obra citada de Manuel Bonella Sauras. Assim foi e assim continua a ser. Na mesa redonda sobre a maçonaria na Universidade Ceu-San Pablo (Novembro de 2005), Ricardo de la Cierva respondeu a uma pergunta reconhecendo que, durante a Segunda República, não houve nenhum mação nos partidos de direita (CEDA de Gil Robles). Mas o mesmo não se pode afirmar acerca do actual Partido Popular.

Segundo parece, dos participantes ocasionais – alguns por apenas uma vez -, 30% são convidados porque, atendendo às circunstâncias sociopolíticas e económicas mundiais, servem os interesses dos círculos mais restritos e dos membros permanentes. O convite pressupõe uma excelente promoção dos convidados ocasionais. Deram-se «coincidências» curiosas. Bill Clinton, Tony Blair, George Robertson, Romano Prodi e Loyola de Palacios foram convidados pela primeira vez em 1991, 1993, 1998, 1999 e 2005, respectivamente. Presidente dos Estados Unidos, presidente do Partido Trabalhista e nas eleições seguintes (1997) primeiro-ministro, secretário-geral da NATO e presidente da Comissão Europeia, membro do European Advisory Council de Rothschild, o banco comprovadamente mais influente da Europa. A irmã de Loyola de Palacios, Ana Palacio, ocuparia o cargo de vice-presidente do Banco Mundial.



h) A Comissão Trilateral ou, simplesmente, Trilateral. Uma selecção do BG, do CFR, da B’Nai B’Rith e de um grupo de japoneses constituiu, em Novembro de 1972, numa reunião confidencial, a Trilateral Commission. A ela assistiram David Rockefeller (líder do BG que, aos 80 anos de idade – em 2002 – foi nomeado presidente honorário da Trilateral), George S. Franklin, dirigente do CFR, e Max Kohnstam, entre outros. Constituída por três anos (Quioto, 1975) e, a partir de então, indefinidamente. O nome alude, segundo alguns, aos «três lados» (Estados Unidos, Europa e Japão). E, segundo outros, também ao «triângulo» de inegável ressonância maçónica. Como promotor aparece o judeu de ascendência polaca Zbigniew Brzezinski, autor de Between Two Ages: America’s Role in the Technotronic Era («Entre Duas Eras: o Papel da América na Era Tecnotrónica»), que é «como que o fundamento ideológico da Trilateral» apesar do seu erro total de prognóstico: «Devemos procurar a cooperação com os países comunistas através de uma acomodação primeiro política e depois filosófica», numa frase que sintetiza o seu pensamento neste livro. Como chefe de operações e garante económico figura o fabiano e mação de altíssimo grau David Rockefeller, que controla os três bancos mais poderosos dos Estados Unidos (o Chase Manhattan Bank, o Bank of America e o First National City Bank de Nova Iorque), além de um sem-número de empresas e de outros bancos «menores». Não se sabe se Brzezinski é ou não mação; a sua mulher, Emilie Benes, era sobrinha de Eduard Benes, Grão-Mestre da maçonaria checa e presidente da Checoslováquia.

A Trilateral é uma organização «privada», com mais de 300 membros, que promove a colaboração económica e cultural entre estes três pólos. Os seus membros provêm dos sectores político, financeiro e dos meios de comunicação social. Segundo o relatório da Comissão Parlamentar Italiana encarregada de investigar o caso da Loja P2 («Relazione della Commissione Parlamentare d’Inchiesta sulla Logia Massonica P2), a Trilateral é próxima e tem afinidades com a maçonaria. São membros da Trilateral os espanhóis Claudio Boada, o socialista Júlio Feo (assessor de Filipe González), Miguel Herrero de Miñón (mação, membro do Comité Executivo da Comissão desde 1995), Victoria Camps (professora e senadora socialista), Carmen Iglesias (membro da Real Academia Espanhola e da Real Academia de Histórica), Emilio e Ybarra, Antonio Garrigues Walker (mação, vice-presidente e da secção europeia).

Segundo o seu anuário confidencial, em 1984 faziam parte da Trilateral 98 personalidades da América do Norte (pelo menos 10 do Canadá e as restantes dos Estados Unidos), 146 da Europa (…) e 81 do Japão.


Conspirações maçónicas?

(…) convém introduzir algumas observações e alguns critérios para um recto discernimento acerca da existência ou não de uma conspiração seja de que natureza for, maçónica ou não.




1. Naturalmente, uma coisa é a fundação do Bilderberg Group ou da Trilateral, etc., obra de mações que até certo ponto podem marcar a orientação destes organismos. Outra é que a sua direcção seja necessariamente maçónica, como sem dúvida é quando à sua frente se encontra um membro da família Rockefeller. E outra ainda é poderem ser catalogados como organizações-fachada da maçonaria.

2. Quando os membros são mações, e são conhecidos como tal, é lógico e natural que actuem de acordo com as suas ideologias e os seus princípios maçónicos, desde que isso permita que intervenham com a mesma coerência os membros que não são mações, cristãos ou não.

3. Para dissipar qualquer sombra de conspiração maçónica dever-se-ia conhecer a pessoa (individual ou colectiva) que nomeia o encarregado de organizar o Bilderberg Group, por exemplo, bem como de escolher os convidados. Serão os convites feitos tendo em atenção razões objectivas (méritos pessoais, cargo e função que desempenham) ou têm-se em conta motivações e afinidades ideológicas? Basta que a mesma pessoa seja encarregada de o fazer durante vários anos ou que se escolha cerca de metade dos participantes «livremente» entre personalidades, por exemplo, maçónicas, para se poder falar de «conspiração» pelo menos anónima e dos seus efeitos nocivos.

4. O segredo maçónico dificulta muito a identificação de cada membro e do organismo enquanto tal, assim como a transparência necessária para afastar a dúvida ou a suspeita de conspiração. No entanto, todos os sintomas e indícios convergem na mesma direcção.

Por vezes, a realidade coincide posteriormente, pelo menos nas suas linhas gerais, como o que foi projectado por indivíduos iluminados, ainda que os seus executores desconhecessem a existência do projecto. Esta reflexão assenta como uma luva à correspondência mantida entre dois mações esclarecidos, Albert Pike e Giuseppe Mazzini, em 1870-1871. As suas cartas conservam-se na biblioteca do British Museum, em Londres (11).


Qualquer pessoa pode perceber a lógica hegeliana, ou seja, a dialéctica que, partindo de dois opostos (tese-antítese), os supera e aperfeiçoa numa síntese que pode, por sua vez, converter-se numa nova etapa do processo dialéctico. Hegel descobriu a sua dialéctica no pensamento humano, na história dos povos e também na natureza: grão de trigo (tese) semeado, enterrado e apodrecido (antítese), dá novo caule e espiga com muitos grãos de trigo (síntese). Georg F. Wilhelm Hegel (1770-1831) entusiasmou-se com a Revolução Francesa a ponto de festejar o dia da tomada da Bastilha (14 de Julho) como seu aniversário. Pensava que tinha sido plasmado o antropocentrismo – o homem erigido em centro do universo. Nos últimos anos da sua vida, manteve-se entusiasmado pelo ideal do espírito revolucionário (tese), mas horrorizado pela sua concretização na Revolução Francesa numa orgia de sangue e violência (antítese).

Albert S. Pike (1809-1891) destacou-se como advogado, militar (brigadeiro sulista durante a Guerra de Secessão americana), estudioso das religiões, administrador de assuntos dos índios do Oklahoma, mação (12) responsável máximo dos Illuminati a partir de 1859, entusiasmado para pôr em marcha um Governo e uma Nova Ordem mundiais. A sua ligação ao Ku-Klux-Klan (aparentemente terá sido um dos seus co-fundadores) e o seu racismo (contra os negros), geralmente comum entre os brancos sulistas, assinalam o lado obscuro da sua brilhante biografia. Por este e outros motivos, compreende-se que os mações actuais dos Estados Unidos estejam a submeter Pike a um processo de desmistificação e que, por vezes, falem dele com algum receio e cautela. G. Mazzini (1805-1871), por seu lado, precursor da unificação italiana, mação grau 33 da maçonaria italiana (grau obtido na Universidade de Génova), promoveu a incorporação de mações italianos na Maçonaria Florestal ou Carbonária, radicalmente agressivos contra a Igreja Católica. Organizou o grupo político chamado Jovem Itália, que foi transposto para outros países. O poeta Heinrich Heine pertenceu à jovem Alemanha e Benjamin Disraeli (mação, primeiro-ministro do Reino Unido) à jovem Inglaterra.

A carta de Pike a Mazzini (datada de 15 de Agosto de 1871) informa-o do projecto dos Illuminati: «Promoveremos três guerras que irão afectar o mundo inteiro». De acordo com a terminologia hegeliana, considera como tese a Europa não russa. A Primeira Guerra Mundial destruiria os czares do seu poder e transformaria a Rússia na sede central e na fortaleza do comunismo ateu». Desta maneira, a Rússia seria a antítese da Europa cristã e o instrumento adequado para «destruir outros Governos e debilitar as religiões».


A Segunda Guerra Mundial seria provocada pelos confrontos político-ideológicos entre os regimes ditatoriais europeus e o sionismo ou judaísmo. Não é difícil recordar o nazismo e o fascismo. Esses confrontos teriam como resultado «o estabelecimento de um Estado soberano sionista na Palestina» e a consolidação do comunismo internacional, «capaz de fazer frente ao cristianismo» nas suas diversas ramificações.

A Terceira Guerra Mundial oporá os sionistas e os muçulmanos. Então deverá promover-se «a destruição mútua do sionismo político e do islamismo». As circunstâncias deste conflito farão com que «outras nações entrem na luta de tal sorte que fiquem esgotadas física, mental, espiritual e economicamente.

A seguir, de acordo com o projecto avançado por Pike, os Illuminati serão os revolucionários causadores do «maior cataclismo jamais conhecido». «Os cidadãos serão obrigados a defender-se de uma minoria radicalizada de nihillistas ateus». As massas sentir-se-ão abandonadas pelas autoridades religiosas e políticas e a sua convulsão desesperada provocará a «destruição simultânea do cristianismo e do ateísmo». As massas lançar-se-ão «em busca de um ideal». Então os Illuminati apresentarão à humanidade um novo líder e governante mundial, que será como que uma segunda encarnação de Jesus Cristo. Não custa muito identificá-lo com a «Energia Crística» ou o «Cristo Cósmico» da New Age. Então há-de revelar-se «a luz verdadeira», ou seja, a «manifestação universal de Lúcifer», o Portador da Luz».


Penso que se sobrevalorizou excessivamente a influência dos Illuminati enquanto tais, agrupados nas diferentes organizações, seita ou não, assim chamadas. No entanto, o prognóstico de Pike parece um projecto dramático em vários actos já vistos ou realizados à excepção do terceiro, que acaba de ter início, e do desenlace. Haverá quem possa imaginar, que está prestes a subir pela última vez o pano do cenário mundial. Seria interessante investigar se os Illuminati mais ou menos formais (a Loja Rockefeller, a Ordem Illuminati, etc.) e os «informais» (Bilderberg Group, Skull and Bones, as principais obediências maçónicas) leram e estudaram a correspondência entre Pike e Mazzini. A espanhola Ordem illuminati, apesar da sua influência relativa, não está em sintonia com esta partitura. Enfim, como já foi indicado no final da apresentação desta obra, o destino de uma sociedade depende, geralmente, do dinamismo criativo de minorias selectas e mais ainda da liberdade individual das pessoas, especialmente das personagens da história nas diferentes vertentes socioculturais e individuais. Pensemos na marca deixada por alguém que, aparentemente, morreu no mais desastroso e ignóbil fracasso. Assim teria sido, na realidade, se não tivesse ressuscitado, se não fosse Deus: Jesus Cristo (13).

(in ob. cit., pp. 335-346).


Notas:

(9) Cf. D. Estulin, La Verdadera Historia..., p. 28.

(10) Cf. D. Estulin, op. cit., pp. 51-56.

(11) Parte das cartas foi publicada no livro Pawns in the Game de William Guy Carr, ex-agente dos serviços secretos do Reino Unido. Conheço-as por meio de P. H. Koch, op. cit., pp. 81-89.

(12) Soberano Grão-Comendador do Rito EAA para os Estados Unidos durante mais de 30 anos (1859-1891), autor de livros, de grande influência, sobre questões maçónicas, «a personalidade mais importante da maçonaria norte-americana do século XIX» (J. Ridley, op. cit., p. 230).

(13) Pensemos na influência de Homero, Sócrates, Buda, Alexandre Magno, Maomé, os Reis Católicos, Napoleão, etc.





segunda-feira, 23 de abril de 2012

A trama maçónica (iii)

Escrito por Manuel Guerra






«O TERRORISTA DA NORUEGA

Ao longo da história têm sido várias as ligações da maçonaria portuguesa a obediências de todo o mundo. Um dos últimos feitos foi a eleição de um português para a maior organização mundial da franco-maçonaria liberal e adogmática: o CLIPSAS. António Reis teve, no entanto, uma estreia agridoce – poucos meses depois de tomar posse, viu-se na obrigação de justificar aquele que foi um dos maiores ataques na Europa nos últimos anos, cometido por um maçon: o massacre na ilha Utoya, na Noruega, que vitimou 77 pessoas.


Num comunicado dirigido aos "irmãos", a 7 de Agosto de 2011, António Reis condenou – em nome do CPLIPSAS – o massacre cometido por Andres Breivik, a quem se referiu como "norueguês infiltrado na Grande Loja da Noruega, da qual foi imediatamente expulso".


(…) A obediência mais poderosa do CLIPSAS é o Grande Oriente de França. Foi, aliás, numa loja francesa que Mário Soares foi iniciado quando se exilou em Paris. Acabou por não continuar a actividade em Portugal por não ter "paciência" para "esoterismos" nem para os rituais maçónicos. No entanto, as ligações entre a maçonaria francesa e o GOL foram sempre muito sólidas, na mesma medida em que a Grande Loja Legal de Portugal tem laços fortes com a Grande Loja Unida de Inglaterra. (…)


A GLÁDIO E A P2 DE BERLUSCONI

Ao longo de mais de 200 anos, o GOL tem uma história rica em alianças internacionais. O DN apurou que a obediência esteve ligada à Operação Gládio, facto que está, aliás, a ser estudado por maçons do GOL. A Operação Gládio foi um projecto secreto norte-americano – comandado pela NATO – que recorreu a redes na clandestinidade durante a Guerra Fria para criar grupos de resistência em caso de avanço comunista. Essas células tinham por objectivo impedir uma invasão soviética da Europa Ocidental e estariam operacionais caso as tropas do Pacto de Varsóvia furassem a "cortina de ferro".

Na operação estiveram envolvidos 16 países – incluindo Portugal -, sendo a mais famosa destas células a italiana Gládio, onde estava fortemente representada a P2 (Propaganda Due), uma das mais importantes lojas maçónicas de Itália. O GOL estabeleceu na altura ligações com a P2, que tinha entre as suas principais figuras o ainda primeiro-ministro Silvio Berlusconi.


A ORIGEM DO 'BARÇA'

Nem Dan Brown nem os mais criativos conspiradores se lembrariam se associar o "tiki-taka" orquestrado por Lionel Messi à maçonaria, mas o que é certo é que o GOL esteve ligado à fundação do Barcelona. Tudo porque a loja maçónica que esteve na origem do clube no final do século XIX puxou do orgulho catalão e inscreveu-se no GOL para não ter de prestar "vassalagem" às obediências de Madrid.

Também houve maçons dos dois maiores clubes de Lisboa, o Sporting e o Benfica, que já terão sido – segundo contaram estudiosos do GOL ao DN – instituições paramaçónicas.



(…) GLLP DOMINA NO MUNDO LUSÓFONO

Olhando para as ligações internacionais da maçonaria portuguesa é ainda de destacar a aposta da Grande Loja Legal de Portugal nas ex-colónias portuguesas. A maior obediência da maçonaria regular em Portugal já tem sete lojas nos países de língua portuguesa, que se dividem por Angola (três), Cabo Verde (dois), Macau, Timor, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Estas lojas respondem à organização portuguesa, uma vez que não têm uma obediência própria nos países onde estão instaladas. Moçambique já tem a sua própria obediência, a Grande Loja Legal de Moçambique, e no Brasil proliferam diversas obediências.


UM LUGAR NA ONU



A maior organização da maçonaria mundial (…) conseguiu assento no Conselho Económico e Social das Nações Unidas (Ecosoc). A decisão 2011/227 do Ecosoc, a que o DN teve acesso, dá o estatuto de "consultor especial" ao CLIPSAS (Centro de Ligação e de Informação das Potências Maçónicas Signatárias do Apelo de Estrasburgo), um privilégio usualmente atribuído a organizações não-governamentais (ONG). (…) Com o estatuto de "consultor especial", o CLIPSAS de António Reis pode designar representantes, apresentar relatórios quadrienais e marcar a presença nas reuniões promovidas pela ONU em Nova Iorque, Viena ou Genebra.

A decisão foi tomada a 25 de Julho de 2011, mas, dada a discrição típica da maçonaria, não foi divulgada por qualquer meio de comunicação, ficando circunscrita à documentação oficial da ONU. No entanto, confrontado pelo DN, o presidente do CPLIPSAS confirma a designação, que considera "extremamente importante". O ex-deputado socialista – na liderança daquela organização desde Maio de 2011 – revela que os maçons esperam dar "aconselhamento político às Nações Unidas, acima de tudo na área social". António Reis recorda também a importância que esta designação tem para os maçons, uma vez que se trata da "primeira vez que a organização da maçonaria liberal está representada nas Nações Unidas".


O CLIPSAS consegue, assim, um estatuto similar ao das ONG. Desde o ambiente (como é exemplo a Greenpeace) aos direitos humanos (caso da Amnistia Internacional), são várias as ONG que têm assento no Ecosoc.







(…) A ONU sempre foi vista como uma organização com fortes ligações à maçonaria, a qual terá até tido influência na sua origem. São também, naturalmente, vários os maçons com representação na complexa ramificação das Nações Unidas. No entanto, é a primeira vez que a maçonaria liberal é reconhecida oficialmente pela mais influente organização internacional. Fica assim cumprido aquele que era um dos principais objectivos do mandato do presidente do CLIPSAS, e ex-grão-mestre do GOL, António Reis».

(in «O Poder da Maçonaria Portuguesa»).



c) A Order of Skull and Bones (SAB). O nome coincide com o emblema (uma caveira com dois ossos cruzados). Também é chamada simplesmente The Order («A Ordem»), bem como «Felicidade Conjugal», The Russel Trust Association, The Eulogian Club («Clube da Eloquência») e The Order of Death («A Ordem/Irmandade da Morte»), ou «Capítulo (Loja) 322». É uma fraternidade ou sociedade secreta, erigida em 1832 na Universidade de Yale, a segunda universidade dos Estados Unidos em termos de antiguidade (1701) e de recursos económicos (13 milhões de dólares de dotação orçamental). Entre os seus alunos encontram-se cinco Presidentes dos Estados Unidos, 15 prémios Nobel, um Presidente mexicano (Ernesto Cedillo) e um da República Federal Alemã (Karl Karstens), entre outros.

A SAB foi fundada por dois estudantes da Universidade de Yale, Alphonso Taft e William Huntington Russell, que tinham sido rejeitados por outra associação universitária (a Phi Beta Kappa). O primeiro grupo era constituído por estes dois e outros 13 companheiros, ou seja, um total de 15. Por isso, todos os anos se iniciam 15 novos filiados. Os seus membros chamam-se bonesmen («homens ossudos», ou «esqueletos»), «cavaleiros de Eulogia», boodle boys. «Veneram» Eulogia, a deusa grega da eloquência, e têm por modelo o maior orador de todos os tempos: Demóstenes (século IV a. C.). Pelo menos até os 322, número do ano da morte deste orador ateniense.
A SAB, tal como outras fraternidades da mesma universidade, caracteriza-se por uma aura tétrica. A lealdade entre os seus membros é simbolizada e realizada pelos ritos de iniciação, que, por vezes, são partidas estudantis de mau gosto. Durante o século XIX e a primeira metade do século XX, chegaram por vezes a ser praticados roubos em cemitérios. A iniciação é celebrada num edifício chamado «tumba». Na iniciação do primeiro grau, há geralmente um membro da SAB que bate à porta do quarto do candidato. Quando este abre a porta, pergunta-lhe: «Skull and Bones. Aceitas?». Se ele responde afirmativamente, recebe uma mensagem com a fita a prender o emblema da SAB, a caveira com dois ossos cruzados, e o nome do capítulo (ou loja): «Tumba 322». Segundo o ritual, o candidato atira-se para um lamaçal. Depois sai e entra numa tumba ou sepultura simbólica, que recorda os ritos do iluminismo do século XVIII. Aí come ou ingere alimentos; realiza actos estranhos de cariz sexual e redige um escrito, de carácter igual ou semelhante, que entrega. Lê uma fórmula secreta de juramento, sai do túmulo e vê a Luz. Ao concluir as cerimónias de iniciação, convertido num homem novo, veste uma túnica preta com o emblema, uma soma de dinheiro e um relógio de areia. O rito de iniciação dura várias horas, quase toda a noite. A decoração do capítulo e alguns ritos são bastante parecidos com os do 3.º e 9.º graus do maçónico Rito EAA [Escocês Antigo e Aceite], com o grau 3 da Grande Loja Rockefeller, bem como com diferentes graus da Ordem Illuminati e da sua ordem interna, os Luciferinos de Zion. Talvez se trate apenas de resíduos de versões lúdicas espontâneas dos meios estudantis de outros tempos ou de todas as épocas, agora já fixados ou ritualizados.




Nas paredes dos capítulos americanos está escrita a palavra war («guerra»), que deve ser entendida no sentido «ascético» e de superação pessoal. Os já iniciados costumam ter pelo menos uma reunião semanal no primeiro ano de juniors e meditar sobre o mundo e sobre si próprios. O primeiro ano é completado por um segundo, como seniors.

A estrutura (abertura e encerramento das reuniões) é semelhante à da maçonaria, mas as reuniões têm menos parafernália e são mais simples do que as maçónicas. Comprovei a insistência de mações da maçonaria irregular para que a SAB fosse inscrita entre as obediências maçónicas, mas não é nem se pode chamar maçonaria porque os seus graus de iniciação, de acordo com a minha informação actual, não incluem os três primeiros, essenciais e comuns a todas as obediências maçónicas. Nas suas reuniões falam também de questões religiosas e políticas. Foram iniciados nesta ordem os Presidentes dos Estados Unidos Theodor Roosevelt e o filho de um dos co-fundadores, William Howard Taft (filiados também na maçonaria regular), George Bush pai e George Bush filho (ex-Presidente dos Estados Unidos), o secretário de Estado George C. Marshall (o do homónimo plano de ajuda à Europa) e John Kerry, candidato democrata à presidência nas eleições de 2004. Entre os apelidos mais repetidos entre os membros da SAB figuram Rockefeller, Cheney, Bundy, Bush, Taft e alguns muito conhecidos pela sua ligação a marcas de automóveis (Ford, Dodge), pneus (Goodyear) e conservas (Heinz, Kellogg, Pillsbury). Além da sede, em Yale, tem capítulos noutras universidades dos Estados Unidos. Há alguns anos que aceita membros não norte-americanos e abre capítulos fora dos EUA, se bem que muito elitistas. Com a autorização e a chancela do centro dos Estados Unidos, o Capítulo 333 instalou-se em 2004 nos arredores de Madrid. Conta já com mais de 30 membros, a maioria dos quais com uma importância e uma influência políticas, culturais e empresariais indiscutíveis no Partido Popular ou afins como, por exemplo, José María Aznar (iniciado no primeiro grau em 2001), José Manuel Lara Bosch (proprietário do grupo Planeta e de dois jornais, La Razón e Avui, de tendências diferentes e até opostas, pelo menos na perspectiva nacional e nacionalista). Percebe-se o motivo por que a editorial de Lara elimina, nas suas publicações, quase tudo o que se relaciona com a Skull and Bones, especialmente na sua vertente espanhola. Em 1991, ingressou, pela primeira vez, uma mulher. As mulheres são chamadas boneswomen, «Damas da Eulogia» ou boodle girls. A partir da década de 1950, a organização começou a admitir membros de minorias étnicas, incluindo negros.




d) Diz-se que o Bohemian Club (BC) (7), também chamado Bohemian Grove («arvoredo»), fundado em 1872, é a antecâmara da SAB. Seja como for, é reservado a homens, tem a sua reunião anual durante duas semanas e meia num extenso parque florestal 120 km a norte de São Francisco, nos Estados Unidos, dividido em 122 secções e com capacidade para cerca de 2500 personalidades, que, convidadas, acedem de acordo com a sua categoria no BC. Os participantes, vestidos com túnicas brancas e gorros vermelhos, ao estilo dos druidas (sacerdotes celtas), celebram um ritual em que queimam um boneco, símbolo das suas «preocupações». Vivem totalmente relaxados, intervêm em representações teatrais e em ritos «pagãos», assim como em estranhas demonstrações, por vezes espontâneas, de diversão desinibida. O símbolo do BC é um mocho, capaz de ver nas trevas nocturnas e relacionado com Pallas Atenea, a deusa da sabedoria na mitologia grega, e com Moloch, ao qual os cananeus sacrificavam vítimas humanas, especialmente crianças (Lv 18, 21; 20, 2; Jr 32, 35). As personalidades escolhidas da política, da economia e da ciência proferem ou assistem a conferências de temáticas variadas e muito elevadas. Segundo parece, a secção da categoria máxima foi ocupada ultimamente por David Rockefeller, Henry Kissinger, Thomas Watson (director da IBM), entre outros. Escusado será dizer que pelo menos os dois primeiros são mações. George Bush ainda não chegou a esta zona. Compartilhou secção com W. Clausen (Banco Mundial) e Walter Cronkite (apresentador de televisão). Um político espanhol, incapaz de disfarçar as suas aspirações, foi visto a vaguear nas imediações do «bosque» ou «Clube dos Boémios». No mês de Julho, têm um «curso» de 15 dias nos Estados Unidos. Quem, quantos e de que nacionalidades foram os participantes em Julho de 2006? A quem compete escolher os convidados?


e) A Fabian Society (FS), que deve o seu nome ao ditador romano Q. Fábio Máximo, chamado Cunctator («Lento», «Precavido», «Retardador») pelas suas ameaças de luta contra Aníbal até lhe desferir o golpe definitivo. Eis o lema dos fabianos, nas palavras de F. Podmore: «É preciso saber esperar pelo momento oportuno, como Fábio pacientemente fez na sua luta contra Aníbal, apesar das críticas que recebeu pela sua lentidão. Quando chegar o momento, será necessário atacar como fez Fábio». Na realidade, inicialmente, os socialistas fabianos e os comunistas praticamente só se diferenciavam na táctica programada para alcançar o triunfo do socialismo: a da revolução (comunistas) e a muito mais lenta da propaganda e da legislação (fabianos). A FS foi fundada a 4 de Janeiro de 1884 num clima burguês (classes média e alta), esotérico, maçónico e teosófico. Os seus traços só ficaram definidos quando Sydney Webb, exclusivamente dedicado à propaganda política, e a sua mulher, Beatrix Potter, publicaaram os Fabian Essays, em 1889. Pelo menos um dos seus co-fundadores, Thomas Davidson, pertencia à sociedade Skull and Bones. Segundo Richard B. Haldane (mação e secretário de Estado da Guerra), outro dos co-fundadores, a sua «missão» e o seu objectivo são «consolidar-se como plataforma para a formação de quadros do futuro Estado socialista». Ao fracassar na sua tentativa para alcançar os ideais socialistas dentro dos partidos até então tradicionais na Grã-Bretanha, os fabianos fundaram, em 1906, o Partido trabalhista. A FS manteve boas relações com Lenine e Trotsky e esteve decididamente do lado da Frente Popular durante a Guerra Civil Espanhola. Dominou nas universidades de Oxford, Cambridge e Harvard, bem como em meios de comunicação influentes a nível mundial (o New York Times, por exemplo). Há centros fabianos em prestigiadas universidades norte-americanas como, por exemplo, Harvard, Princeton e Columbia. A sua obra mais representativa e influente é a London School of Economics, Escola de Economia fundada em 1895 que estava, e está, ligada à universidade londrina. Ramiro de Maetzu pertenceu à FS, se bem que depressa tenha mudado de orientação; foram seus alunos David Rockefeller e Paul Preston, entre outros; entre os espanhóis, estiveram Fernando Morán, F. Fernández Ordóñez, Narcís Serra, Luis Ángel Rojo, Ramón Tamames, etc. Penso que a ligação da FS à maçonaria, embora imbuída e até demonstrada, se revela bastante labiríntica. Entre os que podem ser considerados co-fundadores num sentido mais ou menos amplo, contam-se: o já referido Haldane; o jornalista William Clarke, discípulo do mação, político e intelectual revolucionário italiano G. Mazzini; a teósofa Annie Besant, com um alto cargo na maçonaria mista Direito Humano e reorganizadora do ramo inglês sob o nome de «co-maçonaria», de cujo Grande Conselho foi Grã-Mestra; a também teósofa Alice Bailey, fundadora da Escola Arcana da Boa Vontade, agora tão florescentes nos domínios da New Age. Ao contrário do que era habitual no seu tempo, a FS admitiu no seu seio um bom número de mulheres (entre um quinto e dois quintos do total), geralmente de talante activista e ao mesmo tempo intelectual. Os fabianos e fabianas, pelo menos no início, estavam quase todos relacionados com a maçonaria e, muitos deles, com a teosofia.





f) O Council on Foreign Relations (CFR), nome do Royal Institute of International Affaires dos Estados Unidos. Deu os primeiros passos a 19 de Maio de 1919, num almoço de trabalho organizado em Paris pelo «coronel» Edward Mendel House, para o qual foram convidados os norte-americanos e ingleses participantes na Conferência de Paz de Versalhes – mas não todos, apenas os pertencentes à Távola Redonda. É constituído por quase 4000 pessoas (em 1999, equivalendo a um pouco mais do dobro do número para 1976), que se contam geralmente entre os mais influentes no Governo, nos negócios, na banca, nas comunicações e nos meios intelectuais dos Estados Unidos. É um grupo de debate que visa «aumentar a compreensão do mundo na América do Norte e sugerir ideias para a sua política externa». «Entre membros da maçonaria regular e dos B’Nai B’Rith, o número de mações neste altíssimo grupo de apoio ultrapassa, sem dúvida, metade do total» (8). O fundador, Mendel House (há quem diga que Mendel-Haus, de ascendência alemã), pertencia à maçonaria, embora não regular ou inglesa, mas sim a um ramo «iluminista» e «sinárquico» chamado Master of Wisdom («Mestre de Sabedoria»), com mais afinidades com os Illuminati da Baviera. O CFR é esplendidamente subsidiado pelas fundações Ford, Carnegie e Rockefeller, bem como por trusts de importância internacional: IBM, ITT, Standard Oil of New Jersey (ou seja, a Exxon), entre outros. Ao CFR pertenceram ou pertencem mações H. S. Truman, Lyndon B. Johnson, Gerald R. Ford, George Bush pai, W. J. Clinton, H. Kissinger, membros das famílias Rockefeller e Rothschild e ainda grandes personalidades que não foram ou não são maçons (John Robert e Edward Kennedy, Dwight Eisenhower, R. Nixon, por exemplo). Pertencia também ao CFR o núcleo fundador do Bilderberg Group. Quase 50 membros do CFR faziam parte da delegação dos Estados Unidos para a fundação da ONU em São Francisco (1945). É normal. Desde o princípio da sua existência, o CFR aspirou à criação de um Governo mundial. «O autêntico governante em Washington é invisível e exerce esse poder nos bastidores» (F. Frankfurter, juiz do Supremo Tribunal, 1939-1962).

(in ob. cit., pp. 329-335).


Notas:

(7) Cf. J. Lesta-M. Pedrero, op. cit., pp. 21-27.

(8) Cf. R. de la Cierva, op. cit., p. 610.





Continua

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A trama maçónica (ii)

Escrito por Manuel Guerra 




«… Às vezes falta às pessoas leituras sérias, rigorosas e complexas. Nós fugimos às leituras complexas da história, e o grande desafio, quando se aborda a maçonaria e outras instituições enredadas em muita mitologia conspiracionista, é o de olharmos para além de toda a poeira, da polémica, da demagogia e de muita propaganda.

(…) Volto a repetir: o poder da maçonaria é mais mítico do que real. Se atribuirmos a um determinado membro poderoso o seu poder na relação estreita com a sua pertença à maçonaria, então, podemos fazer uma interpretação desse género. Se formos capazes de distinguir a pertença dos cargos exercidos autonomamente, sem estabelecer essa relação estreita, poderemos ter outra leitura. Tudo depende das leituras que se fizerem em cada momento, porque é muito difícil provar essa relação directa que, mais uma vez, é muito marcada por esta mitomania da conspiração, da qual a nossa cultura ainda não se libertou».


José Eduardo Franco (professor universitário presente no «Debate: Maçons reivindicam privacidade», in «O Poder da Maçonaria Portuguesa»).



«A julgar pelos documentos que conheço, a conspiração maçónica ou não existiu ou não pode ser demonstrada, pelo menos da forma como se costuma conceber uma conspiração, como um projecto estruturado por toda a maçonaria em ordem a obter o controlo dos Governos das diferentes nações e do mundo inteiro ou de toda a humanidade. Porém, se se levantasse o véu do segredo maçónico com efeitos retroactivos, quantos secretários-gerais e altos dirigentes da anterior Sociedade das Nações e da actual ONU não terão sido mações? Lembremo-nos de Léon Bourgeois, que, com outros mações (Jules Ferry, Émil Combes, etc.) submissos às directrizes das lojas, se destacou nas tarefas de laicização do ensino e de eliminação da educação religiosa em França. De mero funcionário numa prefeitura, Bourgeois chegou a Grão-Mestre do Grande Oriente Francês, presidente da Sociedade das Nações e prémio Nobel.

Vários autores rejeitam a conspiração maçónica escudando-se na fragmentação, na falta de unidade das diferentes obediências maçónicas, ou pelo menos das principais. Esse é um aspecto a que a maçonaria procurou obviar já desde a reunião realizada na cidade alemã de Wilhelmsblad em 1782. Em 1902, tentou-se a união dos diferentes ramos maçónicos, e especialmente da Grande Loja e do Grande Oriente, ou seja, das representantes da maçonaria regular e irregular. Conseguir-se-ia dessa maneira uma solidariedade e uma eficácia maiores. Para isso foi criado o Bureau International des Relations Maçonniques, com sede em Genebra. Depois de outras tentativas, como por exemplo a da Oficina Mundial Maçónica, instituída antes da Primeira Grande Guerra, a aspiração à unidade maçónica pareceu concretizar-se na A.M.I. (Associação Maçónica Internacional), fundada em 1921. Mas teve uma existência efémera, tendo ficado muito enfraquecida com a retirada da maçonaria dos Estados Unidos, a mais numerosa e potente, com uma enorme diferença em relação às restantes.

Em 1961, a maçonaria irregular instituiu o CLIPSAS (Centre de Liaison et d’Information des Puissances Maçonniques Signataires de A’Appel de Strasbourg) para a «promoção do laicismo e da liberdade de consciência». É constituída pelos Grandes Orientes de França, Bélgica e Alemanha e as Grandes Lojas de Holanda, Dinamarca e Itália e tem a sua sede em Bruxelas. O CLIPSAS denunciou "o dogmatismo e o conservadorismo social da maçonaria anglo-saxónica", isto é, da maçonaria regular. Admite ateus, agnósticos e mulheres como membros. Não renuncia à participação na política nem a acções directas "a favor dos direitos humanos e da democracia"».

Manuel Guerra («A Trama Maçónica»).



«...Nos últimos dez anos, os grão-mestres do GOL, têm tido ligações à política, mas Fernando Lima, o seu sucessor, vem quebrar esse ciclo. O GOL está a desinteressar-se da política?


Até me congratulo com essa situação, porque o GOL não pode ser confundido com uma organização parapartidária nem ter simpatias partidárias definidas. Nós aqui sempre tivemos dirigentes de partidos políticos, mas também sempre tivemos muitos maçons sem filiação partidária. E nesse aspecto ainda bem que o grão-mestre actual reflecte essa sensibilidade, porque permite separar melhor as águas. Permite não ver essa associação tão habitual entre o GOL e um determinado partido político [PS].

Significa, então, como os maçons repetem várias vezes, que a maçonaria não "conspira" no plano político?


Conspirações, normalmente, só existem em ditaduras. Portanto, conspirações não existem. Em democracia jogam-se as regras do jogo democrático.


Não lhe pergunto no sentido literal, mas no das solidariedades e jogadas políticas entre os maçons.



António Reis

A organização maçónica, como tal, não interfere directamente na vida política. Não dá ordens aos partidos políticos. Limita-se a defender um conjunto de valores em que insiste e que gosta que sejam respeitados na vida social e política do País. Valores da igualdade, da liberdade, da fraternidade, da laicidade. Mas não é um instrumento de intervenção política. Os maçons individualmente, esses sim, podem fazer essa intervenção na vida política em nome dos valores próprios da maçonaria.

(…) Os maçons continuam a recusar a terminologia 'sociedade secreta'. É um termo insultuoso?


Essa designação foi-nos dada mais pelos nossos inimigos do que propriamente por nós próprios, precisamente para criarem uma aura de mistério e de seita relativamente à maçonaria, que nunca pretendeu ser uma seita. O que se passa é que a maçonaria teve, ao longo da história, de tomar algumas precauções contra as perseguições de que foi vítima. Isso levou a alguma preocupação em não revelar os nomes dos próprios maçons. Às vezes mantém-se esse cuidado porque, infelizmente, vivemos numa sociedade em que ainda existem vários preconceitos em determinados meios sociais contra os maçons. E é por isso que muitos deles não aceitam ver revelada a sua identidade. Porque isso lhes pode causar dificuldades nas suas carreiras profissionais…».


António Reis, ex-grão-mestre do Grande Oriente Lusitano, ex-deputado do PS e, facto não menos significativo, actual presidente do CLIPSAS (em entrevista intitulada «Protestamos quando alguém é prejudicado por ser maçon», in «O Poder da Maçonaria Portuguesa»).


«Desde há algumas décadas que muitos maçons têm procurado relativizar a importância do segredo nos trabalhos maçónicos. (…) No seu livro La Masonería, una orden iniciática, Florencio Serrano e Francesc Xavier Altarriba dizem, contando com o apoio de numerosos maçons de alto nível, entre eles o actual Grão-Mestre da Grande Loja de Espanha: "A maçonaria não é uma sociedade secreta. Não pode existir uma sociedade secreta perfeitamente inscrita no registo de associações de um país que esteja registada, protegida e obrigada pelas leis desse país". E explicam que "em certas épocas da história e em certos países onde a opressão totalitária o exigia, a maçonaria, como organização, teve que actuar pautada pelo secretismo e pela discrição por ser o único meio de defesa contra a perseguição". Serrano e Altarriba concluem que "actualmente pode afirmar-se que, como organização civil, actua com índices de discrição habituais em qualquer outra organização ou associação privada, não sendo animada pelo objectivo de criar qualquer secretismo. Quem desejar, pode aceder livremente a um registo de associações onde encontrará os nomes e a estrutura da organização maçónica correspondente".

Torna-se difícil perceber em que medida é que Serrano e Altarriba contribuem para a clarificação da essência da maçonaria com estas afirmações. Colocada no início do seu livro, a explicação de Serrano e Altarriba carece de qualquer relação com a realidade. É uma pena comprovar que, dentro dos meios maçónicos [e universitários], ainda existe a propensão, ao falar da instituição, para dar explicações mais próprias de uma das muitas lendas cor-de-rosa da maçonaria, do que de investigadores rigorosos.



(…) Já vimos, em parágrafos anteriores, que Serrano e Altarriba declaravam que, em certas épocas, a maçonaria teve que actuar pautada pelo secretismo e pela discrição como única forma de defesa contra a perseguição. Mas esta afirmação choca frontalmente com os dados históricos, aceites inclusivamente por essas mesmas organizações maçónicas. O citado Albert G. Mackey, bem como Albert Pike, Robert F. Gould, e muitos outros maçons notáveis, viveram em épocas e em países onde não havia quaisquer vestígios de «opressão totalitária» que os obrigasse a recorrer ao segredo para defender-se de uma inexistente perseguição, e apesar disso, são partidários entusiásticos do secretismo maçónico, o que também acontece com os rituais praticados em países como a Suíça, a Suécia, a Dinamarca e muitos outros em que não houve repressão contra a maçonaria, mas onde foi mantida a exigência do segredo maçónico. Ferrer Benimeli cita um catecismo da maçonaria de 1740, procedente da pacífica Berna: "Prometo sob a minha palavra de honra, não revelar jamais os segredos dos maçons…", texto que é concluído com a habitual aceitação das penas por violar o segredo: "Se faltar à minha promessa, consinto que me seja arrancada a língua, cortada a garganta, atravessado o coração de parte a parte…". Enfim, a truculenta fórmula habitual que não parece justificar-se pela pressão ambiental.

Afirmar que o segredo maçónico foi algo de acidental e efémero que se ficou a dever a circunstâncias alheias à maçonaria, como é o caso da perseguição, da incompreensão social ou da repressão, é a mesma coisa que sustentar que a maçonaria é uma sociedade que conta com "os índices de discrição habituais em qualquer outra organização ou associação privada, não sendo animada pelo objectivo de criar qualquer secretismo", isto é mais do que jogar com o equívoco».


José Antonio Ullate Fabo («O Segredo da Maçonaria Desvendado»).





A maçonaria e as instituições políticas e económicas internacionais

O juízo de Nicholas Murray Butler, presidente da Universidade de Columbia e da Fundação Carnegie e membro do CFR, além de engenhoso, aproxima-se da verdade: «O mundo divide-se em três categorias de pessoas: um número muito reduzido que produz os acontecimentos, um grupo um pouco maior que supervisiona a sua realização e zela por que eles se realizem e, finalmente, uma maioria que nunca sabe o que realmente sucedeu». Cabe agora falar de organizações que se enquadram nos dois primeiros grupos, os realmente influentes no devir da história moderna.

Embora não possamos passar os dias a levantar tapetes e a correr cortinados para averiguar o que se esconde debaixo ou atrás deles para além de pó e possíveis teias de aranha, a forma conspirativa é, nalguns casos, a forma alternativa de ver e interpretar a histórica. Eis o diagnóstico e o prognóstico do jornalista Daniel Estulin, especializado no poderoso Bilderburg Group: «A sua meta final [do Bilderberg Group] é a criação de um Governo mundial único (designado, não eleito), com o seu próprio exército, mercado, moeda e religião ou igreja, também mundiais, um controlo férreo da Educação, um Tribunal Internacional de Justiça com um único sistema legal. Tudo isto sob o mandato das Nações Unidas, que eles próprios controlam». Não sei se controla a ONU, embora isso seja pelo menos possível, e talvez provável. Mas, se tivesse acrescentado «ética», poder-se-ia vislumbrar no horizonte «o que é comum a todas as religiões e a todas as éticas» promovido pela maçonaria.


Assim se realizará a New World Order, ou Nova Ordem Mundial ou, se se preferir, a utópica New Age, ou Nova Era. Vários especialistas (como Jim Mars ou o jornalista William T. Still) afirmam sem rodeios: «Até ao início do século XX, o plano para uma Nova Ordem Mundial estava radicado na maçonaria, à época a maçonaria dos Illuminati; com o advento dos grupos da Távola Redonda e dos seus irmãos norte-americanos, o CFR, a chama da tocha foi transmitida de século para século» (J. Mars). Se, antes, as rédeas da programação e da realização da Nova Ordem Mundial estavam nas mãos da maçonaria, agora detêm-nas os dirigentes das organizações como as que iremos estudar seguidamente, que são mações, pelo menos na sua maioria. Por outro lado, muitas das «mais de 40 000 fundações sem fins lucrativos» hoje activas nos Estados Unidos partilham os objectivos prioritários das sociedades secretas, nomeadamente a «globalização e o governo centralizado» (J. Mars). Claro que muitas destas fundações sem intuitos lucrativos directos e imediatos foram «fundadas» pelos dirigentes das associações estudadas nesta epígrafe (Rockefeller, Rothschild, Ford, Morgan, etc.).


Em torno das conspirações e das suas leis

Mas é preciso evitar cair num de dois extremos: ouvir rumores conspiratórios por detrás de um acontecimento que não agrada ou não ouvir senão silêncio, ausência total de conspiração. O carácter conspirativo tende a interpretar a história em termos apocalípticos e dualistas: forças ocultas, descontroladas e incontroláveis desencadeariam os acontecimentos por obra de uma espécie de fatalismo à mercê de leis desconhecidas e invisíveis mas manipuláveis por organizações hábeis e sem consciência ou ética.

O fatalismo da New Age é astrológico e utópico. Quando, daqui a poucos anos, se passar do signo zodiacal Peixes (o dos 2000 anos de cristianismo) para o de Aquário, produzir-se-á inevitavelmente uma alternância com uma «inundação» de paz, felicidade e harmonia de cada um consigo próprio, com os outros e com o universo. O traço definitivo da Nova Era é a sua condição de «alternativa», mas uma alternativa «substitutiva», ou mudança brusca no plano religioso, ético, terapêutico, musical, etc. (3).

O advento da Nova Era será fruto de uma «conspiração». A Conspiração de Aquário (4) é precisamente o título da obra mais representativa da Nova Era na sua visão geral e nos pontos básicos, um livro que converteu a autora na sua mais eficaz difusora, se bem que não a mais profunda. A conspiração aquariana ou da Nova Era é descrita como automática e instantânea, à maneira de uma mudança de paradigma. «Paradigma» deriva de uma palavra grega, parádeigma, que significa «modelo, exemplo». Todos aprendemos ainda na infância os «paradigmas» dos verbos; quando, na sua conjugação, se passa do paradigma da primeira conjugação para o da segunda, deixa de servir o da primeira e a mudança não se pode dar de modo gradual. É o que vai acontecer quando se passar do paradigma da Era de Peixes para o específico da Era de Aquário. Mas isto parece e é algo de conceptual e fantasioso, como todas as idades de ouro das mitologias.




Nas «conspirações» tradicionais não era assim que as coisas se passavam. Não havia nelas, como na Nova Era, uma multidão anónima que «conspirava», no sentido etimológico desta palavra, ou seja, «expirava, exalava o ar respirado juntamente com», na mesma direcção. Tratava-se, antes, de um grupo muito activo e activista que divulgava novas ideias e revolucionava o sistema de pensamento e as normas de comportamento sociopolítico e individual.

As circunstâncias socioeconómicas e políticas constituíram, a partir do século XIX, o clima propício ao nascimento pujante de novas «dinastias» ou poderes. Até então, os que eram predominantes e aceites recebiam a sua legitimidade ou do «trono» (poder político herdado), ou do «altar» (a religião, Deus, o clero), ou da aristocracia do sangue (nobreza). A partir do século XVIII, abriu-se o caminho a uma legitimidade alternativa, proveniente do dinheiro ou do poder económico e comercial. A cor do «ouro» propriamente dito ou do «ouro negro», o petróleo, fascina as pessoas a ponto de substituir o poder da herança, tanto régia como nobiliárquica. De resto, o dinheiro dá poder e prazer que, em muitos casos, se converteram nos ídolos de sociedades cada vez mais secularizadas. Antes, o poder económico dum grupo provinha do seu poder político, que emanava da autoridade religiosa ou do poder militar. Agora, uma nova classe social, a burguesia, usurpa o poder político por meio do seu poder económico, suplantando a nobreza e o clero, ou seja, sob os títulos tanto sagrados como nobiliárquicos ou de sangue. Produziu-se, por conseguinte, uma mudança de paradigma.

Logicamente, a mudança de paradigma provoca o ressentimento e, inclusivamente, a inveja dos suplantados, que, como justificação para a sua torpeza e queda, tenderão a atirar as culpas da nova situação aos outros e, facilmente, a tramas ocultas, a sociedades secretas, a conspiradores. Os perdedores precisam de conspirações para comprovar que os maus são os outros e que os males vêm do exterior. Pelo contrário, os vencedores não precisam de conspirações, reais ou imaginadas, para justificar o seu êxito. Ainda que o tenham obtido graças a elas, ocultá-las-ão como recurso de honorabilidade.

Por outro lado, as forças emergentes precisam de se apoiar mutuamente para acabarem por se impor de modo estável e tranquilo. A maçonaria, nascida no início do século XVIII, viveu sacudida, ainda adolescente, pelo turbilhão «revolucionário» em muitos aspectos, e não só no político. Além disso, os mações, enquanto indivíduos, viram-se obrigados a fazer bastantes esforços para não perderem o equilíbrio. Não podemos esquecer que «a ajuda mútua dos irmãos» é uma das normas em vigor na maçonaria. Além disso, a lei do segredo suscita a suspeita e a intriga.

As organizações políticas e económicas mais influentes (5)

Ricardo de la Cierva (6) alude a várias organizações de influência indiscutível e descreve-as. Enquadra-as na maçonaria invisível pois, fundadas ou dirigidas por mações, desenvolvem actividades aparentemente alheias à maçonaria, embora impulsionadas pelos projectos e pelo ideal maçónicos. Se bem que habitualmente abertas a não-mações, a sua «filosofia» e as suas directrizes são maçónicas. Basta por agora enunciar a maioria delas e expor o desenvolvimento das mais importantes.

a) Os grupos da Távola [Mesa] Redonda, «Round Tables» (RT)



Cecil John Rhodes


Os mações Cecil John Rhodes (deste apelido procede o nome da Rodésia), multimilionário graças ao monopólio dos diamantes, e W. T. Stead fundaram em 1891 uma sociedade «secreta» denominada Association of Helpers. Em 1909, essa sociedade converteu-se na Round Tables, sob a direcção de Alfred Milner, Primeiro Vigilante da Grande Loja Unida de Inglaterra e representante da coroa britânica na África do Sul entre 1897 e 1905, que foi director da Távola Redonda até à sua morte, em 1925. A RT era e é uma sociedade «discreta», de natureza oligárquica, promotora das ideias e do Império Britânico. Chamou-se «Távola [Mesa] Redonda» numa evocação dos cavaleiros do lendário rei Artur. Os seus primeiros membros eram, na sua maioria, mações: Rothschild, o financeiro A. Beit (uma das lojas da Rodésia chama-se Alfred Beit n.º 25), Wickham Stead (secretário de Rhodes), entre outros. Os seus membros são pessoas que se notabilizam pelo seu muito dinheiro ou pelo seu talento, por vezes a soldo dos primeiros e dos seus negócios. Bill Clinton, mação e ex-presidente dos Estados Unidos, e a sua mulher Hillary foram alguns dos beneficiários das bolsas de estudo da fundação de Cecil Rhodes. Convencido do destino imperial ou dominador dos Britânicos, Rhodes procurou torná-lo realidade sobretudo na África Austral, visando a sua extensão a toda a África. No seu quinto testamento, Cecil Rhodes definiu a formação de uma organização estruturada «conforme o modelo da Companhia de Jesus e da Maçonaria». A RT está estruturada em dois ou três círculos concêntricos, cada vez mais internos, mais secretos e mais influentes, numa organização mais inspirada nos Illuminati da Baviera do que na maçonaria regular ou inglesa. A sua sede localizou-se sempre em Inglaterra. As suas ramificações estão enraizadas em mais de 17 países da Commonwealth e também nos Estados Unidos. Foi com base nos grupos da Távola Redonda que se estruturou a trama do Royal Institute of International Affairs.


b) O Royal Institute of International Affairs (RHA), criado em 1919 em Londres, mas com ramificações nos Estados Unidos, onde se chama Council on Foreign Relations (CFR), e noutros países anglo-saxónicos (in ob. cit., pp. 324-329).


Notas:

(3) Cf. M. Guerra, 100 Preguntas-Clave sobre la New Age, Burgos, Monte Carmelo, 2004, pp. 115-138.

(4) Marilyn Ferguson, The Aquarian Conspiracy, J. P. Tarcher, 1980 (ed. española.: La Conspiración de Acuario, Barcelona, Kairós, 1994, 5.ª ed., 1.ª ed. 1985).

(5) Cf. M. Bonilla Sauras, Los Amos del PSOE (Informe Confidencial), Fuenlabrada (Madrid), Arca de la Alianza Cultural, 1986, pp. 18-93; R. de la Cierva, La Masonería Invisible..., pp. 563-637; D. Estulin, La Verdadera Historia del Club Bilderberg, Barcelona, Planeta, pp. 77-173 (fala também do CFR e da Trilateral); id., Los Secretos del Club Bilderberg; J. Lesta-M-Pedrero, Claves Ocultas del Poder Mundial, Madrid, Edaf, 2006, pp. 15-32, 75-96.

(6) La Masonería Invisible..., pp. 602-622.




Continua