terça-feira, 29 de maio de 2012

O Exame e o Ensino Superior

Escrito por Afonso Botelho








«...Por vezes, em consequência da execução da pena de morte, há uma cabeça que se separa do corpo e um corpo que se separa da alma. Na execução da pena de exame, há certamente muitas cabeças que deixarão de pensar, o que é o mesmo que dizer que se separaram para sempre das benemerências do Espírito.

Quem poderá esquecer-se da agressividade mortífera do estudo preparatório para exame?! Uma preparação assim - quem não a sentiu? - transforma-se na técnica mais decisiva de nos cindir por dentro, até atingirmos a perfeição de haver um outro que pensa por nós. Esse outro coincidirá com a imagem do juiz que espera a hora final do exame para nos devolver à Natureza, donde viemos, classificando-nos com os mesmos critérios com que se classificam insectos espetados por alfinetes».

Afonso Botelho («A Pena de Exame», in «Escola Formal», n.º 4).


«O ensino oral da literatura e da filosofia, como também o da história, só tem valor educativo quando transmitido por artistas inspirados e eloquentes. O professor sedentário, que se senta e preside aos trabalhos escolares, que murmura correctamente a lição de apontamentos colhidos em livros alheios e que verifica se os alunos são capazes de fixar, de repetir, ou pelo menos de resumir o que ouviram durante o ano lectivo, está muito longe do ideal do magistério. Quanto mais impessoal quiser ser, em sua didáctica, o professor que desligue o seu espírito e a sua alma da relação afirmativa com o objecto do ensino, tanto mais degradará a sua função de ministro da cultura.

Só o crente pode ser mestre, só o homem esperançado é capaz de conceber os argumentos, as provas e as demonstrações que iluminam e aquecem as almas dos seus conviventes. O didacta que se limite a expor a ordem de um programa, para habilitar o aluno a responder a um interrogatório ou exame; o didacta que não exerça a crítica, que não formule juízos de valor, que não relacione as ideias com os sentimentos; enfim, o didacta que não se entusiasme - realizará um ensino frio, baço e infecundo. O verdadeiro ensino da filosofia é incompatível com a neutralidade restrita de obediência aos estatutos, com a imparcialidade e a impessoalidade.

(...) O que magister dixit quanto a bibliografia é quase sempre respeitado pelos alunos, pelo que os professores não deixam de recorrer a este processo eficaz de unificação cultural. Assim desviam a atenção dos alunos, assim evitam perturbações no ensino, sem que por isso estejam livres de que um escritor leigo consiga com um opúsculo modesto esclarecer o que o clérigo não explicou bem nas suas lições magistrais. O aluno extremamente dócil aceita do "magister" o aviso contra os escritores que não seguiram a carreira universitária, mas o estudante de espírito livre, aquele que prefere julgar por si a julgar por outrem, não deixará de completar a informação bibliográfica, descobrirá bons livros que o professor não citou por julgar maus, e acabará, muitas vezes, por encontrar uma tradição cultural que contradiz o dogmatismo da escola».

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).




O EXAME E O ENSINO SUPERIOR


Mais do que fixar o que o aluno deve aprender, importa a um sistema de ensino superior valorizar a interrogação, ou a possibilidade prévia, do que aprende, de rejeitar a matéria fixada, e nos termos em que se fixou. Tal condição, que é própria do grau superior do ensino universitário, consente e promove o exercício da inteligência do adolescente na sua função de discriminar e dinamizar o saber.

Interrogar é, assim, o verbo que proporciona ao espírito a manifestação da inteligência, do intelecto activo, antecedente da enunciação da «matéria», que aquele, primeiro, identifica e, depois, escolhe.

Digamos que da precedência da interrogação depende a liberdade do ensino e não, como é usual dizer-se na linguagem de economia política, do acesso de todos, a todos os graus do saber.

O fluxo das gerações de aprendizes, crescendo em progressão geométrica e correndo em avalanche para as fontes disponíveis de licenças de trabalho, gera-se na ideia de igualdade e não na de liberdade, como a propaganda democrática se empenha em fazer crer.

Será o organismo social naturalmente obrigado a reagir perante as consequências práticas de tão abstracta e inviável ideia. Todavia, os responsáveis políticos pela educação supõem que a eles cabe a livre iniciativa das medidas para conter tal avatar. Deste modo se amanham as reformas do ensino com o remédio da doença que previamente se inoculou e sempre com a assinatura dos ministros respectivos. As vítimas reais são estudantes, a quem se vão criando os obstáculos para os impedir de serem estudantes.

Assim como a divisão constitui a operação imediatamente inversa da multiplicação, o «numerus clausus» constitui a consequência imediata deste absurdo.

O exame é, contudo, o obstáculo mais grave exactamente porque inverte o sentido da interrogação, dando toda a iniciativa ao examinador e afastando a «matéria» da individuação intelectual do estudante, da sua capacidade de identificação e de escolha.

Sem interrogação não há pensamento. E pensadores deverão ser, por definição, os estudantes do ensino superior.

Se durante os primeiros graus do ensino é indispensável criar virtudes intelectuais para se poder pensar, no grau superior, trata-se de exercer o pensamento na matéria que mais enigmática e interrogável se apresentou a cada estudante. Retirando ao aluno a possibilidade de escolher o enigma, ou a propriedade do interrogável, retiramos-lhe o estímulo para continuar a reassumir a interrogação. Ora, «a interrogação que não se reassume a cada instante do pensamento é, dizemos, tão-somente pergunta ou procura, infecundo interrogar ou já estéril no qual se torna vã toda a resposta» (1).



Afonso Botelho




Pela perda da liberdade de encontrar o enigma próprio, o aluno, sujeito a exame, sente-se como o expropriado, vazio de conteúdo, sem estima pelos conhecimentos que não lhe pertencem; pela perda das formas de pensamento, emergentes da interrogação que perdura, o examinado deseja ansiosamente esquecer tudo que aprendeu, logo a seguir ao exame. Invertido o sentido da interrogação, o único, portanto, que continuará cumprindo o seu dever de interrogar, mais correctamente, é aquele a quem compete apenas ensinar.

Nestes termos, o ensino superior, afectado pelo exame, no acesso e na saída, dirige-se às faculdades menos criadoras e mais inferiores da mente humana. Sem atender às leis da memória que iluminam um vastíssimo campo, de limites ainda desconhecidos, desde a consciência de si próprio às fronteiras supra-sensíveis com o «outro», o exame sujeita o candidato ou a profissional, no ingresso para a universidade e no egresso para a «vida», a um interrogatório que contraria todas aquelas regras, incluindo as de identificação do examinando consigo mesmo.

Este desacerto da subjectividade do discente com a objectividade do ensino tem a sua confirmação plena nas formalidades do exame que se iniciam com a exigência de apresentação do bilhete de identidade. A partir dessa primeira exigência, todo o ritual se desenvolve no sentido de anular a individualidade do estudante e também a do professor. Disfarçada com o sentimento moral da imparcialidade, que o comum das pessoas intervenientes no exame (examinador, examinando, família do examinando) aceita e até reclama, volta a ideia de igualdade a ser causa de uma distorção social irreparável: a transformação do professor num juiz, a quem se retira, como progressivamente se tem feito à Magistratura, o «sagrado» dever de aplicar a lei universal ao caso singular.

Efectivamente, tanto o legislador como o que governa, pautando os defeitos pessoais ou as imperfeições humanas pela ficção socializante da igualdade dos homens (e das mulheres), elaboram leis, já não universais, mas apenas gerais, em que tentam prevenir todos os casos particulares, ou emitem ordens e portarias baseadas na mesma desconfiança dos outros e na estulta presunção de evitar os seus erros. Conhecida a causa ideológica do exame, não podemos esperar que o ensino superior se aproxime do que deve ser. Pelo contrário, a perspectiva socialista aumentará o poder do exame, o seu carácter judicial, a unidade nacional de seus quesitos por forma a que o estudante universitário não interrogue mas seja interrogado, até desistir de ser estudante. Plenamente integrado, será mais útil à «Sociedade» (in revista «Escola Formal», n.º 2).


(1) José Marinho, Teoria do Ser e da Verdade, Guimarães Editora.


sábado, 26 de maio de 2012

Franco-Atirador (ii)

Escrito por António Quadros 





Winston Churchill e o General De Gaulle




«Duro, pouco preocupado com a vida humana, pelo menos na aparência, está longe de ser indiferente ao progresso da sua carreira militar, como o atesta a sua correspondência, mas é respeitado, pois expõe-se ao perigo. (...)  impõe-se pelo seu sangue-frio, pelos riscos que corre. Não se contenta em obrigar os seus homens a usarem gravata e a fazerem a continência. Diante do seu amigo Étienne Repessé, que se tornará seu editor na Berger-Levrault, inspecciona um dia a linha da frente com dois lugares-tenentes. Um obus explode. De Gaulle permanece direito, enquanto os companheiros se deitam no chão: "Têm medo, senhores?"».

Éric Roussel («De Gaulle»).


«Se está comprovado que a divertida fórmula emprestada a Churchill - «De todas as cruzes que tenho de carregar, a mais pesada é a cruz de Lorena» - foi inventada devido às necessidades da causa, não deixa de ser verdade que o Primeiro-Ministro teve de consagrar tanto tempo quanto energia ao seu embaraçante e desconfiado aliado, o General De Gaulle. Entre os dois chefes de guerra, relações acidentadas e tensões recorrentes em breve assumiram uma tendência passional.

(...) Um episódio, ainda em parte inédito, ilustra bem estas relações tumultuosas. No ponto de partida, um assunto em si bastante insignificante:  a união de Saint-Pierre-et-Miquelon à França livre, a 24 de Dezembro de 1941, apesar das advertências insistentes de Londres e Washington. É justamente Washington, onde é convidado de Roosevelt, que Churchill toma conhecimento, furibundo, da notícia - uma notícia que, a seu ver, não pode senão agravar inutilmente as contendas com os americanos a propósito de De Gaulle (efectivamente, o secretário de Estado Cordell Hull aproveita a ocasião para exalar o seu antigaullismo obsessivo, falando dos "chamados franceses livres"). No seu regresso a Londres, Churchill convoca De Gaulle a Downing Street, em 20 de Janeiro, e despeja a sua raiva sobre o general impassível. À medida que fala, vai-se exaltando, o tom não pára de subir, a ponto de o intérprete, Frank Roberts, um alto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, se sentir obrigado a atenuar as afirmações ofensivas e agressivas do Primeiro-Ministro, dando-lhes um aspecto mais diplomático. O que tem como resultado aumentar o furor de Churchill, que segue a tradução em francês e exclama para o intérprete: "Mas traduza o que eu disse, em vez de o deformar!". Por fim, acalmando-se a tempestade, o general De Gaulle, totalmente silencioso até ali, pergunta calmamente: "É tudo?", e perante a resposta afirmativa do Primeiro-Ministro, pega nas suas luvas com uma mão, põe o seu quépi na cabeça com a outra, faz a continência e abandona a divisão. Tendo o chefe da França livre partido, Churchill, impressionado, volta-se para o intérprete e diz-lhe: "Mas que homem! Fez o que havia a fazer. Tiro-lhe o meu chapéu".

(...) Mais segura e significativa parece ser uma exclamação do próprio Churchill: após uma entrevista com De Gaulle em Marrakech, em Janeiro de 1944, ele exclama, de admiração e em francês, perante um dos seus generais: "Não há dúvida! É um grande animal!"».

François Bédarida («Winston Churchill»).


«Aquele sentimento ainda persistente, mas vago, indefinido e no entanto sequioso de definição (que só pode ser intelectual); aquele sentimento de patriotismo que ainda encontramos nas populações do "interior", sobretudo as rurais; esse sentimento logo o vemos apagado, evanescido, até ridicularizado nas populações das grandes cidades, em especial Lisboa, cidade de classe média social, de meia-tigela intelectual, de doutores e bacharéis semi-sapientes, cuja suficiência satisfeita de si é alimentada, em cada dia da semana, por um "semanário de opiniões" - coisas como o "Expresso", o "Semanário", o "Jornal", o "Diabo"... - e, naturalmente, pelas discursatas dos políticos de serviço.

É neste ambiente citadino que nos ficam a olhar como a um fantasma de outro mundo quando lhes dizemos que portugal é uma Pátria e que uma Pátria é uma entidade espiritual. Claro que os poderíamos "esclarecer", ou captar-lhes o crédito de "provincianos" mentais, lembrando-lhes que também De Gaulle dizia que a França é uma ideia, "uma certa ideia". Mas De Gaulle terá sido, para alívio desta gente de meia-tigela, o último verdadeiro homem de Estado...».

Orlando Vitorino («O processo das Presidenciais 86»).







«A II Guerra Mundial, tentativa sangrenta de resolver o problema da Europa e do Mediterrâneo, terminou na condenação dos nacionalismos políticos, culturais e filosóficos. Mais uma vez observou Portugal a maré alta do internacionalismo, ou do universalismo, que persevera na ambição ideal de reger a História. A Organização das Nações Unidas mandava impor ao Mundo, por meios pacíficos e suasórios, uma cultura unificada, para o que foi em 1945 assinada em Londres a carta orgânica da UNESCO, e em 1946 distribuído o opúsculo de Julião sobre A Unesco, suas finalidades e sua filosofia.

Em tempos tão adversos ao princípio das nacionalidades, proclamava quase toda a imprensa o próximo advento de um universalismo redentor configurado na gradual federação de Estados, unidos em torno de um governo comum. Tentavam os publicistas demonstrar que tal política, sem fronteiras socio-culturais, seria indispensável para a felicidade económica dos povos e para o estabelecimento da paz mundial.

Protestando contra essas tendências ideológicas, explicaram os nossos escritores humanistas que o nacionalismo só poderia subordinar-se a um universalismo de ordem transhumana, como é o da Igreja Católica, já que qualquer doutrina com origem determinada no mundo, isto é, em certo instante do tempo e em certo ponto do espaço, não ostenta validade tal que aconselhe alguém a propô-la ou a impô-la a todos os indivíduos e a todos os povos. Nenhuma nação simples, nem nenhuma nação composta, como a união dos organismos nacionais, pode arrogar-se o imperativo categórico na ordem do dever, ou elaborar um direito público internacional contra o qual protestem as consciências esclarecidas. Cumpre ao escol nacional ver e fazer ver como é que o imperialismo se disfarça ao propor por prestígios económicos e financeiros a tese de que é conveniente uniformizar e comunicar as técnicas instrumentais e os processos mecânicos, entre os quais a contagem automática das votações majoritárias que decidem a seu talante, sem que as minorias vencidas possam alegar restrições das suas liberdades e das suas independências.

Esta sofismação é de há muito conhecida pelos povos europeus que formaram a sua cultura filosófica ao abrigo da Escolástica, e que desinteressadamente meditaram sobre os resultados do exame feito ao problema dos universais. A eliminação de entidades intermediárias, transitórias e transitivas, cujo conceptualismo e cujo realismo ficam suspensos da crítica, permite simplificar todos os problemas jurídicos pela formação de dialéctica entre o indivíduo e a sociedade. Entre o indivíduo, ou um corpo humano, e a última ficção jurídica que será a Humanidade, a Sociedade, o Estado, com qualquer designação conferida pela última doutrina da moda, não se intercalam realidades objectivas ou categorias mentais que mereçam ser consideradas na formulação dos fins do direito, e assim um dado de concreção mental e material como a Pátria estará sempre excluído do enunciado internacional dos eternos princípios.

Pensadores habituados pelo ensino aristotélico ao exercício lógico das categorias e sequentes garantias objectivas nunca poderiam admitir que no mundo condicionado pelo espaço e pelo tempo deixem alguma vez de existir as entidades sociais que ainda denominamos nações. A pluralidade indefinida jamais será unificada pela força de um Império. Não está demonstrado que por unificar, ou unicar, os meios de comunicação a Humanidade anule a diversificação militante e incessante».

Álvaro Ribeiro («Espelho do Pensamento»).




QUE EUROPA?

FILOSOFIA E POLÍTICA






Jean Monnet


Nesta época e neste mundo, em que grandes mutações parecem desenhar-se no horizonte, é certamente oportuno repensar com serenidade e com a lucidez possível a situação histórica de Portugal dentro do continente europeu. Quem é, aliás, absolutamente lúcido, quem possui a luz total da razão clara sobre a verdade e o futuro?

Os filósofos, os pensadores, distinguem-se dos políticos, entre outros motivos, porque os primeiros nunca são tão afirmativos e dogmáticos como os segundos. É da natureza de todos os políticos, é talvez da própria natureza da própria política, que se declarem certezas. A atitude dubitativa ou mesmo interrogativa aparece - do ponto de vista político - como uma atitude de fraqueza, de divisão interior, de fragilidade. O político - esteja ele no poder ou aspire a conquistar o poder - é eternamente obrigado a ocultar as suas próprias dúvidas, a reprimir as suas próprias incertezas, porque a imagem mítica de uma realeza de pai-pedagogo infalível é-lhe necessária, neste velho tempo que ainda é o nosso, para se impor aos seus partidários, aos seus adversários e à massa mais ou menos neutra que segue as correntes majoritárias.

Uma política científica será por muito tempo ainda utopia. A vinculação a imagens míticas do poder, a imagens míticas do Estado, a imagens míticas do espaço habitado ou da ecúmena, a imagens míticas do futuro, é de regra no xadrez político contemporâneo. As opções, os empenhamentos, os «partidos tomados», segundo a expressão francesa, são decisões existenciais que, regra geral, «alistam» todo o ser do «homo politicus», segundo uma duração temporal que evita as contradições. É mal visto, em política, mudar de opinião. Para verberar evoluções ou alterações de rumo descobrem-se os motivos mais amesquinhantes e as corrupções mais degradantes. O «homo politicus» torna-se prisioneiro, até ao fim da vida, da sua própria escolha, muitas vezes adolescente. Nada concede aos adversários - o que seria prova de incerteza - ou, mesmo que o conceda no seu foro íntimo, nada pode aparentar que concede. Nas lutas intrapartidárias pela escolha política são quase sempre os mais intransigentes e duros que triunfam. A razão que assiste aos políticos pode ser elevada, sublimada e depurada pelo exercício filosófico, mas, ao contrário, na maioria das vezes é transformada em emblema ou insígnia e é fixada dentro de um rígido sistema de mitos e de crenças. Paradoxalmente, onde a razão é mais proclamada, mais afirmada, mais declarada, é onde está mais sujeita a tal tipo de sistema, porque a recusa política do mito e da crença é uma entrega total a mitos e crenças que o próprio político ignora. Há sempre mito e há sempre crença. Mais vale reconhecê-lo francamente, e tratar estas formas de para-razão segundo as exigências da razão e da antropologia filosófica, num conúbio existencial entre o sonho e a lógica. Oscilamos entre os absolutismos imperiais que desconhecem ostensivamente as regras do jogo e pretendem impor a própria semi-verdade ou o próprio semi-erro a todo o mundo - e os absolutismos partidários, que aceitam regras de convivência, que escolhem respeitar os adversários e coexistir com eles, mas que, no futuro, são igualmente absolutistas; oscilamos entre o absolutismo intransigente e o absolutismo de compromisso. Este é evidentemente o preferível. Mas ultrapassar a dialéctica dos absolutismos é, cada vez mais, a grande tarefa para amanhã. (...)



O IDEAL EUROPEU







(...) a primeira verificação que faço é esta: a unidade europeia marca passo, estagna, se é que não recua. É um facto, é uma realidade. Nascida depois do termo da II Guerra Mundial,  a ideia da Europa Unida, ou da Federação Europeia, igualmente desejada pelo neocapitalismo e pela social-democracia, trazia em si muito da humilhação sentida pelos povos centro-europeus, perante a ascensão das potências verdadeiramente vitoriosas do conflito: os Estados-Unidos e a URSS. Os povos centro-europeus (estes, principalmente) reconheceram que, na sua divisão e no seu isolamento, não poderiam competir com aquelas superpotências; mas unidos, tal seria porventura possível. Somaram-se os índices de produção, compararam-se estatísticas, estabeleceram-se as primeiras comunidades europeias (económicas), e assim o ideal europeu - herdeiro cultural da tradição greco-latina e romano-imperial - julgou ter uma base realista, uma base terrestre e sólida.

Algumas influências menos «ideais» vieram no entanto perturbar a questão. Em primeiro lugar, o interesse norte-americano em apoiar a unificação europeia depressa revelou um certo travo amargo; não seria a «Europa» para os Estados-Unidos senão um tampão na sua luta estratégica com a URSS? Estaríamos nós, europeus, destinados ao papel de defesa avançada dos Estados-Unidos? Por outro lado, a crescente preponderância dos interesses financeiros americanos na Europa a breve trecho pareceu que imporia um domínio económico-ideológico: a Europa não seria uma potência neutra e perseguindo os seus fins próprios, mas sim um aliado (mais forte do que as cindidas nações europeias) contra o comunismo ou a Rússia. A Europa estava, neste contexto, transmutada num englobante maior - o Ocidente -, englobante capitalista, tecnocrático, industrial, seguindo o modelo democrático e federativo norte-americano.

O general De Gaulle opôs-se a esta concepção de uma Europa federada inclinada para o modelo e a influência norte-americanos, e que na realidade não era a Europa, uma vez que excluía todos os países socialistas de Leste. A sua «Europa das pátrias», que irritou muitos idealistas do federalismo europeu, foi afinal de contas uma fórmula realista que procurou alargar a Europa às suas maiores dimensões - do Atlântico aos Urais -, evitar a sua absoluta inclinação para um dos campos, manter abertas as possibilidades de diálogo com o Leste, afastar o espectro do domínio económico americano e ao mesmo tempo preservar a ideia do estabelecimento de laços de cada vez maior solidariedade entre os povos do nosso continente.

Creio que se enganaram os que pensam estar esta fórmula inteiramente ligada à pessoa de De Gaulle.
É uma fórmula mais realista do que ideológica e o seu conteúdo é mais lógico do que utópico. Para mais, o ideal de uma superpotência europeia foge a responder a um sem-número de problemas de inequívoca gravidade.






AS TRÊS EUROPAS

E o primeiro problema é este: se uma França, uma Itália ou uma Alemanha se sentem coarctadas na sua expansão, na sua liberdade, no seu desenvolvimento, pela presença financeira norte-americana no mesmo seio das suas economias, que sucederia - agora dentro do domínio estritamente europeu - aos pequenos países de fraco desenvolvimento económico? Os economistas-sociólogos que respondam. Mas é preciso não esquecer que há pelo menos três Europas (de um ponto de vista económico, evidentemente): uma Europa onde o socialismo de Estado criou um mundo à parte, com as suas leis e as suas regras; uma Europa desenvolvida do centro e do norte; e uma Europa muito mais pobre, constituída pelos povos do Sul, desde a Península Ibérica ao longo das costas do Mediterrâneo até à Turquia. Países como a Espanha e a Itália encontram-se cindidos entre estas duas Europas, com um norte mais industrializado e desenvolvido, e um sul mais agrícola e pobre.

Podem temer-se as seguintes consequências: em primeiro lugar, a criação de uma superpotência europeia ocidental viria agravar as relações com o que mais depressa se tornaria uma superpotência europeia oriental. A Europa irremediavelmente dividida entre dois blocos unitários e adversários, não matizados já na sua acção pela pluralidade e pelo confronto de vários pontos de vista, e sujeita a decisões de supergovernos separados dos povos e afastados das periferias... Em segundo lugar, a crescente provincialização das periferias. Numa superpotência europeia, a Alemanha, a França, a Inglaterra, a Itália, o Benelux, seriam inevitavelmente condutores, dominadores, não já tanto como potências nacionais, mas como potentados económicos e culturais. As periferias - Portugal ou Espanha, Itália do Sul ou Grécia, Irlanda ou Noruega, Jugoslávia ou Turquia - sofreriam o equivalente ao processo de provincialização, passivismo económico e cultural, arregimentação estratégica, dirigismo ideológico, que, na realidade sofrem já hoje em parte, e que noutros pontos, sofrem, por exemplo, os países sul-americanos dentro de um pan-americanismo dominado pelos Estados Unidos e os países aliados da URSS dentro de uma espécie de pan-eslavismo ou, antes, pan-sovietismo implícito, onde a URSS detém as rédeas do comando.

Estes países periféricos, remetidos a produzir o que convém à super-comunidade, onde a sua voz só muito tenuamente se faria sentir, alienados cada vez mais da sua originalidade criadora, desautonomizados e desvinculados de outros interesses e relações extra-europeus, na realidade passariam a servir os interesses dos potentados dominantes e arriscar-se-iam a ser carne para canhão em conflitos futuros, sem possibilidade de neutralismo. Por outro lado, o fortalecimento da superpotência europeia (que não é necessariamente o enriquecimento e valorização das regiões periféricas, sempre sujeitas ao regime climático mediterrâneo, aos seus solos agrestes, ao atraso dos seus níveis de produção e com menos possibilidade competitiva), o fortalecimento da superpotência europeia, dizia, tão sedutor para um certo orgulho europeu, rácico e cultural, agravaria muito mais ainda o fosso que nos separa dos países subdesenvolvidos da África, da Ásia, da América do Sul, da Indonésia. Em vez de estabelecer pontes destruiria as que ainda existem, desenvolvendo-se no horizonte presumivelmente ódios raciais e continentais muito maiores do que no actual contexto pluralista.

Torre de Belém




A nós, portugueses, afastar-nos-ia cada vez mais de nossas projecções ou relações atlânticas e ecuménicas, reduzindo-nos a província limítrofe do «IV Império». E de um modo geral, pergunta-se se o declínio das línguas e das culturas que caracterizam na sua diversidade e criatividade a riqueza espiritual europeia seria efectivamente um benefício.

Em suma: laços mais estreitos, diálogo mais aberto e franco, maior interpenetração de influências, maior atenção às lições fecundas vindas de fora de fronteiras, esbatimento da rigidez fronteiriça e alfandegária? Sem dúvida. Mas escolha de nova provincialização periférica, em troca das potencialidades económicas e estratégicas de uma «Europa Unida» sob o imperativo de um industrialismo capitalista e tecnocrático - eis do que duvido francamente...


(...) MAS ONDE ESTÁ A MINHA PÁTRIA?

O verdadeiro problema não é pois quanto a mim o de saber se ainda há pátria. Parece-me cada vez mais evidente - contra a opinião, bem o sei, de certas formas de ideologismo superficiais e mal fundamentadas -, que onde haja uma língua própria, uma estrutura cultural, uma actividade filosófica, um complexo social específico, um sistema de educação, a pátria é uma realidade a tonalizar necessariamente as ideias, os valores, os movimentos, as instituições. O que sucede muitas vezes é haver pessoas, frequentemente as que se formaram culturalmente na Universidade, que rejeitam consciente ou inconscientemente a sua pátria, julgando-se afastadas de tal ideia anacrónica, quando na realidade se tornaram cidadãos de outras pátrias. São os que desprezando e ignorando por exemplo a literatura portuguesa, a filosofia portuguesa, a cultura portuguesa e a língua portuguesa, se integraram por completo nos sistemas de outras culturas nacionais. A sua posição é a de um snobismo provinciano estéril, irremediavelmente distanciado da cultura emulada e ao mesmo tempo desenraízado da cultura circundante. Alienação cultural completa, incapacidade de abordar os problemas reais do seu povo, uma vez que constantemente se lhes querem vestir soluções ou figurinos concebidos para outros sistemas e formas psico-sociológicas da vida.

Os supostos apátridas deveriam perguntar a si próprios «onde está a minha pátria?». Serão a França ou a Alemanha? (opções universitárias). Será a América? (opção capitalista-tecnocrática). Será a Rússia? (opção ideológica). Será a China ou Cuba»? (opções políticas-nova vaga).






Estes olham com desgosto tudo quanto vêem em sua volta. Em vez de tentar compreender para dinamizar pelo amor, desprezam e ironizam, sublinhando a cada passo que «neste país, etc...». Enquanto os autores portugueses se não vendem, enquanto as revistas de cultura portuguesa estiolam ao cabo de poucos números, enquanto as iniciativas culturais portuguesas sucumbem por falta de apoio e estímulo de todos os sectores, sejam eles quais forem, as temporadas de medíocre teatro francês são um êxito clamoroso, as revistas estrangeiras vendem-se entre nós muito mais que as portuguesas, as más traduções de livros por vezes maus proliferam, os criadores de cultura, pensadores, escritores, artistas, são ignorados pela opinião pública e pelas instituições ditas culturais, voltadas para os narizes de cera do passado ou para os brilhantes centros estrangeiros, que têm ao seu serviço poderosas máquinas de propaganda e instituições de difusão cultural excelentes - o que aliás só abona em seu favor.


(...) UTOPISMO E REALISMO

(...) Depois dos nacionalismos militaristas, de que foram expressões o nazismo ou o fascismo (nacionalismos telúricos e racistas, não corrigidos por um universalismo espiritual), a inteligentzia europeia desvalorizou os conceitos de nação ou de pátria. Viu numa próxima humanidade sem fronteiras a solução para as guerras. Foi um período de utopismo emocional, que, mal fundamentado todavia, depressa foi ultrapassado pela própria realidade.

Efectivamente, todas as tentativas de realização de supranacionalidades por alguma razão conheceram o fracasso, desde a expansão russa para os países socialistas de Leste até ao pan-americanismo, desde o projecto dos Estados Unidos da Europa cujo núcleo inicial seriam os países-membros do Mercado Comum até à União Árabe ou à unidade da península industânica. Aliás, uma supranacionalidade (federativa ou imperial) seria ainda uma nação, embora uma nação maior. A super-nação humana, que a ONU até certo ponto deseja prefigurar, pertence a um futuro tanto mais longínquo quanto continuem a incompreender-se ou a subestimar-se as razões que levaram à criação civilizacional das comunidades orgânicas.


CONDIÇÕES DE PROCESSO UNIVERSALIZANTE

É sem dúvida desejável e até exequível a ideia de uma fraternidade universal-humana - mas a sua via não pode ser a da absorção ou da redução das culturas diferenciadas. Neste sentido, quanto mais depressa se quiser andar, mais se atrasa o processo universalizante. No pós-guerra pensou-se que a ideologia política poderia ser o critério unificador supranacional. Ora a ideologia política é uma zona superficial da cultura humana. Nem a ideologia nazista da Ordem Nova, nem a ideologia democrático-capitalista americana lograram os seus objectivos. Antes se viu que, uniformizadoras muito mais do que universalizadoras, as ideologias político-internacionalistas ofendiam os sentimentos nacionais dos povos, engendrando reacções mais ou menos violentas. E assim, a época contemporânea está muito mais próxima do parcelamento plurinacional do que jamais o esteve a História. Nem sequer conseguimos reunificar as nações artificialmente divididas pelas guerras (como a Alemanha, a Coreia, a China, o Vietname), quanto mais criar supernações. Perante um abalo, um traumatismo, uma agressão, uma eleição, uma guerra, é que vem à tona, com toda a sua potência, mais do que a ideia de pátria, o valor de pátria (in ob. cit., pp. 170-171; 174-177; 181-182; 184-185).




















quarta-feira, 23 de maio de 2012

Franco-Atirador (i)

Escrito por António Quadros








O Governo Mundial


Destacam-se agora alguns trechos significativos de um dos livros mais emblemáticos de António Quadros, titulado Franco-Atirador. Nele, o autor traça a dialéctica entre uma ideologia unificadora supranacional e a coexistência de comunidades nacionais e patrióticas. Desse modo, mostrara-se particularmente sensível ao eventual surgimento de uma supranacionalidade federativa ou imperial, viesse ela da ONU ou das sucessivas Internacionais de ordem capitalista ou socialista.

Aliás, António Quadros propusera-se explicitar como uma tal ideologia utópica e totalitária seria ultrapassada pela própria realidade, não obstante a perpetuação de guerras, divisões e toda a espécie de conflitos internos e externos. Porém, a verdade é que, sem prejuízo da lúcida percepção manifesta pelo autor sobre a relação de forças entre as potências mundiais, não vira até que ponto a dialéctica entre tais potências resultaria no que já hoje vários e distintos autores designam por Nova Ordem Mundial. Em poucas palavras, António Quadros não se apercebera da aliança oculta entre banqueiros internacionais e socialistas revolucionários com vista a reforçarem interesses e benefícios mútuos.

O caso, rigorosamente falando, radica no sistema monetário internacional que já hoje reúne todas as condições indispensáveis para controlar as finanças, os mercados, a educação, os recursos naturais e a população mundial. Não há, pois, uma divisão rígida entre capitalismo e socialismo, ou entre o capital e o alegado sistema de distribuição da riqueza. Existe sim – conforme já demonstrado por Antony Sutton no seu livro Wall Street and the Bolshevik Revolution – uma oligarquia financeira internacional que dispõe do socialismo para, mediante o seu potencial destrutivo, neutralizar toda e qualquer resistência aos seus planos de dominação mundial.

Acentuemos ainda que fora António Quadros quem apelara para uma «revolução criadora» na Universidade, ou, se quisermos, para uma renovação da criatividade intelectual no âmago do ensino superior. Pode, enfim, parecer uma ilusão alimentada pelo autor, dado o grau de consciência que sempre manifestara perante a grave situação de um ensino comandado pelas grandes culturas imperiais, quando não pelas máquinas político-ideológicas que introduziram entre nós o cientismo, o marxismo, o estruturalismo, etc. E daí que um dos alvos preferidos de António Quadros residisse precisamente no positivismo universitário ou académico.






Entretanto, os manuais da dita «Disciplina de Filosofia», ministrada no ensino médio, constituem um verdadeiro caso de insanidade mental relativo a quem, por um lado, os elabora, depois a quem os produz para fins editoriais, e, por último, ao professorado directa ou indirectamente obrigado a prescrevê-los e a segui-los no meio escolar. Ora, nos manuais se encontra a mais inacreditável série de esquemas, definições e falsas oposições, como entre empirismo e racionalismo, empírico e científico, sensação e intelecto, experiência e razão, etc. Continua-se, inclusivamente, a transmitir um cientismo próprio da «escola analítica», além da particularidade relativa à necessidade sempre fictícia de situar o pensamento filosófico no seu contexto histórico-cultural.

A filosofia não é uma disciplina, um domínio ou uma área do saber. Apresentá-la como tal, sobretudo na forma irracional que a cultura universitária lhe confere, equivale a produzir a animosidade dos adolescentes numa idade assaz sensível na formação da personalidade. Depois, há ainda a questão de como todo o ensino se fundamenta em directrizes internacionais provenientes de agências especializadas como a Unesco, envolvendo técnicos e financiamentos que executam, de uma forma gradual e programada, o modelo global de organização do ensino.

Enfim, é de, facto, na Universidade que o globalismo encontra o seu melhor aliado. E não é, pois, por acaso que um número considerável de jornalistas, economistas e intelectuais sejam constantemente solicitados por órgãos de Comunicação Social para assim inculcaram nos mais desprevenidos a crença no globalismo invasor. Seja como for, mal sabia ainda António Quadros qual é, na verdade, o maior intento das forças e das potências do mal que pairam nos bastidores da Nova Ordem Mundial.

Miguel Bruno Duarte





«INTERNACIONAIS», INTERNACIONALISMO, NACIONALISMO E IDEAL UNITIVO


ABATER AS FRONTEIRAS:








Abater fronteiras! Riscá-las dos mapas! Apagá-las das almas.

Eis um ideal que se renova em cada geração: um ideal romântico, que aspira à imediata realização do homem universal, do homem transcendente às nações e aos nacionalismos, às pátrias e aos patriotismos. Ideal que mergulha as suas raízes no «passado» cultural da humanidade. Podemos detectar as antigas pegadas deste ideal na civilização helenística supranacional, visionada por Alexandre; no romano-centrismo imperial de César e de Augusto; na afirmação cristã de que os homens pertencem a uma pátria que não é deste mundo, e de que portanto só tem sentido a cidade universal dos homens enquanto potencial cidade de Deus; consequentemente, nas tentativas e nas teorizações de uma República Christiana, dos Impérios sonhados por Frederico, ou por Carlos V, ou até mesmo do V Império lusocêntrico, Império do Espírito Santo, conciliador de todas as desavenças e todas as cisões através do Espírito da Verdade, ou ainda do Império Napoleónico, agora galocêntrico...

Com a crise do conceito de Império - pois que a supranacionalização era conquistada e imposta afinal de contas por uma pátria centralizadora e absolutista -, deu-se a canalização do mesmo ideal para um princípio a que podemos chamar o internacionalismo.


AS «INTERNACIONAIS»

O facho do antinacionalismo teórico e revolucionário foi levantado pelos partidos socialistas e comunistas. Mas as Internacionais não conheceram melhor fortuna do que os Impérios. A I Associação dos Trabalhadores durou dez anos. A sua existência não resistiu à cisão entre os comunistas, dirigidos por Marx e Engels, e os anarquistas, encabeçados por Bakunine. Não resistiu sobretudo à guerra europeia de 1870, que despertou o espírito nacional na França e na Alemanha. A segunda guerra europeia - de 1914-18 -, marcou o fim da II Internacional, cujos adeptos, na sua maioria, fraquejaram perante o apelo patriótico. A III Internacional, inspirada por Lenine, foi russo-cêntrica, o famoso Comintern. O seu fim foi apressado pela luta entre Trostky e Estaline e, é bem evidente, pela terceira guerra europeia. O domínio soviético, a reaparição do velho nacionalismo russo foram postos em relevo pela cisão da Jugoslávia de Tito e pela satelização da Europa de Leste; mais recentemente, pela revolta da Hungria e pela invasão da Checoslováquia. Em vez do Internacionalismo, a ressurreição do antigo conceito de Império, com a Rússia a exercer a função desempenhada nos tempos passados por Roma, pela Alemanha, pela Espanha, com homens de confiança do tipo sátrapas a dirigir os países satélites, com Partidos transformados em grupos de pressão, trabalhando a favor da «pátria-mãe do socialismo mundial».

Situação que não podia deixar de explodir: todos estes países e partidos lutam hoje por «vias nacionais» para o socialismo, insatisfeitos perante a ideia de uma vassalagem contrariante da sua liberdade. Fala-se de uma IV Internacional, que seria a Internacional dos estudantes, inspirada por Mao-Tsé Tung, por Che Guevara, por Trostky, Internacional simultaneamente anticapitalista e anti-soviética, mas a sua realização seria por certo ainda mais frágil do que as tentativas anteriores.





Em escala um pouco mais reduzida, outras Internacionais agitam as almas e atraem muitos espíritos: por exemplo a chamada Tricontinental - Organização de solidariedade dos povos da África, da Ásia e da América Latina -, concebida para lutar contra o capitalismo e a aliança euro-norte-americana; por exemplo a OEA, a Organização dos Estados Africanos; num pólo oposto, as Internacionais dos países capitalistas, cujas dificuldades de realização não são menores: a Europa-nação, a Europa do Mercado Comum, a Europa das democracias liberais; o pan-africanismo e o pan-europeísmo foram precedidos pelo pan-americanismo mas também este está em regressão, tão ténues são as afinidades sociais, económicas, culturais e políticas entre as três Américas: a da língua inglesa, a da língua espanhola e a da língua portuguesa.

Em suma, em qualquer das suas interpretações - a imperialista ou a internacionalista, a capitalista ou a socialista, a democrática ou a absolutista -, o ideal de um mundo sem fronteiras desfaz-se constantemente contra o rochedo forte da realidade.

Ideal defendido retoricamente, ardorosamente, teimosamente, em vez de progredir, no entanto retrocede. Continuam as utopias de ficção científica a figurar uma era futura em que já não há guerras porque já não há nações. Mas, entretanto, a tendência do real é para a pulverização em número cada vez maior de países: tal acontece na África e na Ásia, por exemplo; e são inúmeras as reivindicações separatistas de províncias que querem voltar a ser pátrias, como por exemplo o país Basco, na Espanha; a Bretanha, na França; a Escócia e o País de Gales na Grã-Bretanha; o Quebec, no Canadá; a Ucrânia, na União Soviética; o Biafra, na Nigéria - para citar apenas alguns casos de agitação muito recente e para não mencionar os países divididos em dois pela estratégia internacional das grandes potências: a Alemanha, a Coreia, o Vietname. Há quem demonstre, por outro lado, que a única forma de resolver o problema do totalitarismo russo ou chinês - países que, pelas suas dimensões excessivas não poderiam ser governados senão em regimes de ditadura - é a sua divisão em várias nações, de acordo com os vários grupos étnicos.

O último desenvolvimento teórico do ideal supranacional - ideia inteligente, sem dúvida - é o que, inspirado no pensamento federalista de Denis de Rougemont, preconiza a substituição das nações por regiões. É uma tese que mergulha as suas raízes no microcosmos sui generis da Suiça. Mas podemos transformar o mundo inteiro numa Suíça? Talvez.


O FENÓMENO NACIONAL

Talvez. Mas o certo é que - e é o objectivo deste comentário - não se avançará jamais um passo no sentido do ideal supranacional, enquanto não se meditar apropriadamente nas causas de tantas dificuldades. É costume atribuírem-se as resistências a maquiavelismos e a interesses económicos ou políticos de toda a sorte. Termos de ir bem mais fundo, para apreender na sua complexidade o fenómeno nacional.



Aristóteles



Aristóteles compreende-o, quando mostrou que o homem, ser da natureza, está submetido às categorias: categorias de tempo e espaço, categoria de modo, entre outras. Cada comunidade humana vive na sua hora e no seu tempo: não é possível unificar este horário das evoluções civilizacionais por um acto político; cada comunidade habita no seu ponto do espaço, frio ou tropical, continental ou insular, montanhoso ou desértico: não é possível atribuir a todas, indistintamente, o mesmo clima; cada comunidade tem o o seu modo de ser, isto é, a sua maneira de se colocar perante os problemas do nascer, do viver, do morrer, perante a natureza ou Deus, perante a sociedade ou o Homem, e manifesta-o não só na sua religião, na sua filosofia, na sua arte e na sua cultura erudita, mas também na sua língua, nos seus costumes, no seu folclore: uma pátria é uma estrutura e parece ainda muito cedo para resolver o mundo pluralista das estruturas diferentes, numa só estrutura uniforme, ainda quando a técnica pareça acelerar o processo de aculturação. (A técnica não tem ao seu alcance criar comunidades concretas e vivas).

Unificar a Europa, unificar o mundo? Eis o que só será possível quando todos nos pusermos de acordo sobre o sistema político ideal, sobre o sistema educativo ideal, sobre o sistema de moral ideal, sobre o sistema religioso, ou místico, ou ideológico que efectivamente coincide ou mais se aproxima da Verdade última. Grande tem sido a tentação de cortar o nó górdio e fazer como Alexandre: impor um sistema, criar um Império. Mas seria apenas a aparência artificial de um sistema, seria um Império condenado ao ciclo sem fim das rebeliões e das contestações, como as dos países helenizados ou romanizados ontem, como os das nações sovietizadas hoje.


A UNIDADE VIÁVEL

Teremos então de aceitar a realidade multinacional como definitiva, com o seu risco permanente de guerras catastróficas? Sejamos sensatos. Se a pátria é uma comunidade estrutural, todavia a aliança e a fraternização supranacional e sobretudo supranacionalista é uma possibilidade que podemos e devemos desenvolver. Simplesmente: tem-se mandado o carro à frente dos bois, o que não é maneira de andar para a frente. Por outras palavras, tem-se querido realizar por intermédio da dialéctica política e, portanto, sem respeito ao outro o que deveria principiar pelo diálogo intelectual e filosófico, não contaminado pelo espírito da intolerância e da paixão.

Cada pátria tem em primeiro lugar que ser ela própria, desenvolvendo ao máximo todas as suas virtualidades e potencialidades peculiares e irredutíveis a uma generalidade vaga, pois só assim poderá dialogar activamente com as restantes. E tem em segundo lugar que aprender a ouvir as outras, sem juízos preconcebidos, sem complexos de inferioridade ou de superioridade, sem teimosias. Enquanto tal não suceder - e estamos muito longe desse escopo -, é prematuro pensar em unidade. Pois que a unidade terá um dia que se fazer, mas sem diminuições, sem abandonos, sem perdas, sem a destruição, em suma, da variada riqueza cultural do mundo. O sistema aprenderá de todos os sistemas, em vez de os desprezar ou ignorar. Será tão maleável quanto o é a múltipla insatisfação do homem de todos os meios e todos os espaços. Será tão exigente quanto o são os valores e os movimentos de ideias mais profundos e elevados do grande leque multicultural. Mas só assim será. Ou então o mesmo ideal unitivo não cessará de causar tiranias, totalitarismos, absolutismos e a sua contrapartida, contestações, revoltas e revoluções, quando não guerras por uma imagem do internacionalismo (a democrática, a comunista...), mais do que por um conceito de nação... (in Franco-Atirador, Espiral, 1970, pp. 165-169).










Continua


domingo, 20 de maio de 2012

Silogística

Escrito por Miguel Bruno Duarte








«A partir do Iluminismo de cariz maçónico, procurou-se desvincular a ética da religião ou religiões concretas, a razão da fé e da Revelação divina. Por isso a maçonaria propõe o que é comum a todas as religiões e a todas as éticas. É isso que se deve ensinar nos centros de ensino e aquilo que deve reger a cidadania. É a chamada "ética cívica" ou "filosófica, racional", distinta e contraposta à "ética/moral religiosa".

(...) O homem dos nossos dias, qual Teseu, anda perdido e inquieto no labirinto serpenteante da globalização, em busca do fio de Ariadne que o conduza a uma "nova ordem", sem dúvida utópica. A maçonaria falou sempre de uma "Nova Ordem" e, pelo menos desde o início do século XIX, também de uma "Nova Era". Entre 1829 e 1990 veio a lume The New Age, uma das publicações periódicas mais conhecidas, órgão do Conselho Superior do Rito Escocês da circunscrição sul dos Estados Unidos. Para que a convivência dos homens e das nações seja pacífica já não basta a ética cívica. É necessária a implantação de uma ética mundial, ou de um "mínimo ético", quer dizer, uma normativa básica que regule adequadamente as relações entre todos os povos e indivíduos. Para além da Declaração dos Direitos do Homem (1948), já foram dados alguns passos nesse sentido, o mais notório dos quais foi, sem dúvida, a Declaração de Uma Ética Mundial (DEM) do II Parlamento das Religiões (Chicago, 4 de Setembro de 1993), em torno da ética. As religiões são marginalizadas, e até certo ponto suplantadas, pela ética mundial ou comum a todos, religiosos ou não.

(...) O resultado será "uma ordem nova" (DEM, "Introdução"). Isto, porque "não é possível uma Nova Ordem Mundial sem uma ética mundial" (DEM I), sem uma "renovação espiritual" mais necessária do que "as transformações sociais e ecológicas" (DEM II)».

Manuel Guerra («A Trama Maçónica»).


«Podemos pensar, como o relativista, que nenhuma sociedade, incluindo a nossa, é detentora exclusiva da verdade. Mas podemos entender que isso significa apenas que algumas sociedades estão certas acerca de algumas coisas, e outras acerca de outras.

(...) Se cada sociedade pode aprender com as outras, a importância do diálogo intercultural é óbvia.

(...) Para que o diálogo intercultural se realize, é importante que os membros de todas as sociedades estejam dispostos a procurar as bases de entendimento que lhes permitam não só comunicar entre si, como progredir no sentido de eliminar erros morais e fortalecer práticas morais que se têm mostrado correctas. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é um documento especialmente importante para promover essas bases de entendimento entre todas as culturas».

In «A Arte de Pensar» (Filosofia 10.º ano), Capítulo 7: Valores e cultura: a diversidade e o diálogo de culturas, Didáctica Editora, Vol. I, 2011, pp. 132-33.



Quartel-General da Unesco (Paris).




«... de nada vale objectar que a Unesco declare a filosofia como estando num plano superior ao das outras disciplinas, ou, por outras palavras, que os filósofos, jamais substituindo os especialistas doutros domínios, devam, acima de tudo, dar uma "unidade intelectual" aos fins doutrinários daquela instituição. Daí a "vulgarização de uma cultura filosófica internacional", se atendermos à nomenclatura do programa da Unesco em matéria de filosofia, tal como foi projectado pela Comissão preparatória de 24 de Junho de 1946. Por conseguinte, este programa, adverso ao princípio das nacionalidades, apenas representa uma tendência ideológica apostada na utopia dos direitos e dos deveres do homem perante a "nova democracia".

Embora negando protagonizar um dirigismo na ordem internacional, a Unesco revela a sua face quando a propósito do seu programa, deixa entrever o seu plano de acção, de que salientamos, pelo teor assaz interventivo, os seguintes pontos:

1. "Sugestões" ou "recomendações" a sociedades nacionais e internacionais de filosofia; 2. Ligação e apoio financeiro às universidades nacionais com vista à "execução de um plano de ensino à escala mundial"; 3. Intercâmbio internacional de professores e estudantes mediante bolsas de estudo; 4. Subvenção "criteriosa" no plano editorial de obras e manuscritos de natureza filosófica; 5. Patrocínio de revistas e traduções já editorialmente asseguradas; 6. Subordinação da filosofia a problemas sociais e políticos, como por exemplo a "psicologia social", "as causas sociológicas das nevroses", "o homem face ao Estado", "a liberdade política", etc.; 7. Redacção de um manual de moral destinado aos alunos do secundário em todo o mundo; 8. "Sugestões" feitas aos Estados-membros tendo em vista uma formação moral e cívica dos professores primários, com base nas publicações da Agência; 9. Publicação de "um jornal internacional em várias línguas", cujo propósito é o de, num primeiro momento, "propor" um programa de ensino moral às escolas, para, finalmente, o inserir como parte integrante dos diferentes programas nacionais. Em suma: trata-se de uma cultura unificada, a que não é alheia uma atitude que se diz contrária à veiculada pela propaganda, mas, na verdade, reveladora em si de finalidades que só podem resultar num sistema totalitário».

Miguel Bruno Duarte («Noemas de Filosofia Portuguesa»).





Silogística


António Quadros, em estilo que Orlando Vitorino chegara a caracterizar de «aparentemente conciliador mas intimamente revulsivo», escrevera em tempos que a ONU não mais seria do que uma nação mundialmente hegemónica em detrimento de uma independência civilizacional das nações e das pátrias política e culturalmente organizadas (1). Porém, hoje as coisas são muito mais complexas na medida em que a ONU já é, efectivamente, o governo mundial ao qual subjaz uma rede apátrida de forças económicas, políticas e culturais inspiradas por uma engenharia comportamental à escala planetária (2). Prova disso são as inúmeras agências que da ONU proliferam sob as directrizes programáticas de técnicos e especialistas em matéria tão vasta e ampla quanto podem ser os vários interesses e actividades da existência humana, entre as quais proliferam as questões morais e culturalmente sociológicas dirigidas e regulamentadas pela Unesco.











Não esqueçamos, pois, que os objectivos do projecto supranacional da ONU já estavam teoricamente definidos antes de a Segunda Guerra Mundial ter terminado em 1945. Desde então, a cultura unificada, propagandeada em termos pacíficos e suasórios pela ONU, é o objectivo último a impor a toda a organização do ensino dos diferentes países, nações e civilizações onde quer que existam ou onde quer que se encontrem. Nesse propósito, a Unesco projectou, inclusivamente, uma «unidade intelectual» alegadamente filosófica, já que não só se apresentou, desde o primeiro momento, como uma instituição filosófica, como propugnou ainda, em Comissão preparatória, de 24 de Junho de 1946, pela «vulgarização de uma cultura filosófica internacional» (3). A ONU negaria, já então, tratar-se de um dirigismo na ordem e na legalidade internacionais, ao mesmo tempo que «recomendava» um plano no qual se estipulava um apoio financeiro às universidades nacionais com vista à «execução de um plano de ensino à escala mundial», assim como estipulava igualmente a subvenção «criteriosa» no plano editorial de livros, revistas e traduções já previamente asseguradas do ponto de vista da subordinação da filosofia à moral e à sociologia politicamente correctas (4).

Consequentemente, não é por acaso que no âmbito do actual programa da «disciplina de Filosofia» (5), a Unesco - tal como se refere num posterior aditamento do respectivo programa -, haja ditado «a todos os Estados a introdução ou o alargamento da formação filosófica a toda a educação secundária» (6), a ponto de uma tal disciplina ficar estreita e ideologicamente dependente de um declarado «vínculo entre Filosofia e Democracia, entre Filosofia e Cidadania». Ora, inúmeros são os modos como um tal vínculo se tende a repercutir no influxo linguístico dos jovens destinatários, posto que um tal processo, tão amplo quanto as disciplinas, os processos pedagógicos e os respectivos agentes de ensino, se baseia numa incessante repetição de palavras de ordem cuja fonte remota já quase ninguém praticamente questiona ou identifica como tal. Por conseguinte, não há fenómeno linguístico que, de um modo geral, todo o indivíduo, em semelhantes circunstâncias, cuide de analisar no sentido de se libertar de toda a carga ideológica pré-determinada e politicamente correcta, mas, por isso mesmo, encobridora do senso mais directo e concreto da realidade.

Preconizam as Categorias de Aristóteles que sem os estudos de ordem filológica não podem prosseguir os estudos de filosofia pautados pelo logos e pela lógica. Tais estudos, estilística ou literariamente considerados, precedem mesmo os estudos de psicologia, pois só mediante a palavra é que a psique, feminina ou masculina, se nos revela ao serviço da expressão, da comunicação e da persuasão. E eis a razão por que também os estudos de ordem filológica permanecem a base dos estudos humanísticos, hoje em dia praticamente adulterados em prol de uma organização do ensino técnica e tecnologicamente dominante.

Aristóteles


Paralelamente se compreende que, perante essa adulteração, surja, nos termos da «disciplina de Filosofia», um simulacro caricatural do que seja a verdadeira arte de persuadir e argumentar à luz do silogismo aristotélico, segundo o qual, estabelecidas certas noções ou conceitos acerca das coisas, resulta algo diferente do previamente estabelecido. Ora, não é isso o que se ensina aos jovens estudantes das escolas médias e universitárias, na medida em que os professores-repetidores se fazem eco de velhas estruturas académicas e compendiarísticas que remontam, não a Aristóteles propriamente dito, mas sobretudo à lógica escolástica de matriz medieval e moderna, que nem sequer é uma lógica incompleta porque é ontologicamente vazia de acidentes verbais, como o tempo, o modo e a voz. Nela, portanto, a existência, em sua natureza única e pluriforme, aparece subsumida na fórmula essente do S é P, que é uma relação simplesmente formal de sujeito e predicado jamais realizada segundo a prioridade concedida por Aristóteles à virtude do verbo.

Ou seja: a «lógica formal», tal como é oficialmente ensinada, não é uma lógica modal dirigida ao reinos do natural e do sobrenatural, na medida em que, sendo uma lógica de classificação espacial e abstracta, não logra ultrapassar os estreitos limites de uma ordenação meramente extensiva de «conceitos» equiparados a classes passíveis de maior ou menor inclusão entre si. O jovem estudante aprende assim a analisar a qualidade (afirmação ou negação) e a quantidade (universal ou particular), a distinguir as inferências mediatas das imediatas com base na oposição, combinação e conversão das proposições gerais (contrárias, subcontrárias, contraditórias e subalternas), a multiplicar as figuras pelos modos silogísticos com o fim de analisar as 256 formas de combinação possíveis, das quais só 19, secundadas em nomenclatura latina para efeitos de facilidade mnemónica, são formalmente aceites segundo certas e determinadas regras de validade silogística. Trata-se, ao fim e ao cabo, de um processo lúdico de coerência e consequência puramente formal, já que aplicado à revelia de todo e qualquer acordo com a realidade, ou, se quisermos ainda, com o conteúdo que da realidade induzido ou mediado seja com vista à sua transcensão mental.

Tal acontece porque a lógica de Aristóteles se viu progressiva e secularmente reduzida a uma pura relação espacial de inclusão de objectos em classes, de que dão exemplo os silogismos categóricos e hipotéticos. Porém, Aristóteles jamais apresentou o silogismo como uma série ou um conjunto de proposições que reduzissem o raciocínio e a argumentação a três esquemas quantificados de pura inutilidade retórica. E tão abusivamente formalizados foram esses esquemas que, abstraídas inclusive as condições espácio-temporais, permaneceu apenas o constrangimento automático e raciocinante que haveria de suscitar a reacção negativa dos cartesianos no auge da modernidade científica e matematizante (7).






Daí se explica, aliás, que a lógica, alterada e adulterada pelos escolastas das sucessivas idades, decaísse na operação matemática de extensão ilimitada (logística), porquanto já completamente liberta de todo o universo idiomático em prol dos símbolos e sinais de notação unívoca figurados na técnica do cálculo. A lógica de Aristóteles cai, pois, fora do modelo matemático, porque, caso contrário, jamais faria a mediação entre a Natureza e Deus, mediação, além do mais, fundamentalmente indutiva por contraste à participação platónica entre o real e o ideal. A par da indução, que tem por fim a descoberta do conceito oculto ou da razão implícita na fecunda doutrina do silogismo, a lógica de Aristóteles é também o estudo analítico dos processos sofísticos, tanto mais presentes quanto mais se vão alargando e intensificando os sofismas jornalísticos, parlamentares e académicos do nosso tempo.

Já dissemos que, para Aristóteles, o conceito não é uma classe. Assim se explica por que o conceito, naturalmente expresso na palavra, pressupõe em si uma potencial qualificação de ordem semântica indispensável à demonstração de proposições necessárias e universais. Para tal qualificação contribui, sem dúvida, a definição das palavras sem que com isso se caia, pela via da “lógica formal”, na redução abstracta do conceito a uma pura extensão classificativa e espacial dos termos entre si, como quando se parte do género para a espécie – dizendo-se do Animal para o Homem -, ou da espécie para o género - dizendo-se do Homem para o Animal.

Se as coisas sensíveis, susceptíveis de medição ou mensuração, não se definem, os conceitos e as ideias, libertos da lógica decaída no círculo vicioso das convenções gramaticais e dos processos e esquemas estáticos de conversão e combinação de proposições, permanecem numa esfera privilegiada ante a delimitação abstracta das classes e da partição dicotómica entre juízos verdadeiros e falsos, positivos ou negativos. A lógica de Aristóteles não é, por isso, uma lógica confinada à repetição das regras e dos exemplos do compêndio escolar, já que não só considera a formação de imagens em determinadas condições do espaço e do tempo, como ainda e, sobretudo, possibilita o exercício pístico, gnósico e sófico que liberta o homem das condições estéticas da sua subjectividade. Numa palavra, o homem, por instantes que seja, também há-de desespacializar e destemporalizar à imagem e semelhança de Deus.




Aliás, como já pensara e interpretara Álvaro Ribeiro, a lógica de Aristóteles é uma lógica da invenção, da transcensão e da síntese na medida em que a distinção entre o abstracto e o concreto, a especialização e a generalização, a indução e a dedução, a forma e a matéria, o acto e a potência só se realizam perante a leitura de obras científicas, artísticas e filosóficas na condição imprescindível de nunca dispensarem o acesso à observação e à experimentação. Erro ou desvio é, portanto, o de separar os resultados em permanente actualização das ciências e das artes mecânicas da lógica tradicional propriamente dita, posto que, nesses termos, se inibe o despertar dinâmico da inteligência humana na capacidade de discernir paralogismos e descobrir silogismos sem cair na univocidade puramente formalista das classificações e dos esquemas estáticos da lógica medieval e moderna. Isso mesmo viu igualmente Olavo de Carvalho ao restabelecer a diferença aristotélica de grau do “discurso integral”, a saber: o poético, que tem por objecto o possível; o retórico, que tem por objecto o verosímil, o dialéctico, que tem por objecto o provável; finalmente, o lógico ou analítico, que tem por objecto a certeza apodíctica do encadeamento dedutivo e probante do silogismo científico (8).

Embora uma tal gradação se afigure, efectivamente, à imagem de um afunilamento piramidal, como bem vira o nosso compatriota João Seabra Botelho (9), ela não deixa, todavia, de se exprimir como uma teoria integral do logos. Ninguém pode, portanto, inferir da certeza para a verdade sem a mediação inferencial do conhecido para o desconhecido, do sensível para o inteligível, da potência para o acto. A dedução própria do silogismo não dispensa, como tal, o movimento de retorno às formas, aos fenómenos e até às aparências emergentes da natureza imediatamente dadas e plenamente contidas nos princípios universalizantes do espírito, como a verdade, a liberdade e a justiça.


Notas:

(1) António Quadros, Franco-Atirador, Espiral, 1970, p. 184.

(2) Sobre este ponto, diz-nos Daniel Estulin: «O RAND Institute e o Tavistock de Inglaterra, financiados pelos Rockefeller, investigam «a dinâmica da evolução»: a lógica subjacente ao motivo de pessoas de origens, interesses, lealdades e níveis de informação diversos terem certas opiniões. Os elitistas do establishment chamam-lhe «engenharia do consentimento». Coleman esclarece no livro: «A Tavistock, e fundações do mesmo género na América, têm uma única finalidade – vergar a força psicológica do indivíduo e reduzir-lhe as defesas perante os ditadores da Ordem Mundial»» (in Toda a Verdade sobre o Clube Bilderberg, Publicações Europa-América, 2008, p. 134).

(3)  Cf. Philosophie et démocratie dans le monde, enquête de L’UNESCO, Editions UNESCO, 1945, pp. 37-39.

(4) Cf. ob. cit., pp. 39-44.

(5)  Cf. Ministério da Educação, Introdução à Filosofia (Ensino Secundário), Imprensa-Nacional Casa da Moeda, 1992.

(6) Cf. Ministério da Educação, Programa de Filosofia (10º e 11º Anos), Departamento do Ensino Secundário, homologado em 22 de Fevereiro de 2001.






(7) A “lógica formal”, tal como se ensina nas escolas médias e universitárias, tem por objectivo analisar a validade de um “argumento” supostamente silogístico, partindo do falso princípio de que todo o argumento é um conjunto de proposições mas nem todo o conjunto de proposições é um argumento. Ora, em Aristóteles não só o argumento silogístico não se reduz a um conjunto constituído por duas premissas e uma conclusão – o “silogismo categórico regular” segundo a classificação dos escolásticos medievais e modernos – como também não se confina ao necessitarismo constringente da “forma lógica” abstraída de todo e qualquer conteúdo experiencial, imaginal e conceitual que se manifeste e realize como tal. Logo, a determinação da verdade ou da falsidade de uma proposição, seja ela afirmativa ou negativa, é o que importa para Aristóteles enquanto condição primeira para a elaboração e demonstração lógica de todo o discurso silogístico que transcenda a mera correspondência ou a mera representação entre o pensamento e a realidade. Mas é precisamente isto que não acontece na “lógica formal” de matriz medieval e moderna, já que a “validade silogística”, formalmente vazia, dispensa a procura da verdade numa articulação que se quer sempre figurativa e redutora das premissas e da conclusão. Quanto muito existe o “valor de verdade” entre proposições gerais (contrárias, subcontrárias, subalternas e contraditórias), assim como a “validade material” que, imediatamente representável na realidade mais sensível e circundante, há-de ou não reflectir-se, por um lado, em cada proposição isoladamente considerada, e exigir, por outro, que de duas premissas verdadeiras não resulte uma conclusão falsa. Em última análise, de um “argumento” não se pode dizer, do ponto de vista da mera “lógica formal”, que ele é verdadeiro ou falso, uma vez que, num sentido completamente inverso ao que Aristóteles pensara, a “lógica formal” de matriz medieval e moderna é ontológica e filosoficamente vazia.

(8) Cf. Olavo de Carvalho, Aristóteles em Nova Perspectiva, Topbooks, pp. 40-49.

(9) J. S. Botelho, «Aristóteles em Nova Perspectiva», in Sapientia Autem Non Vincit Malitia, Homepage de Olavo de Carvalho. Segundo João Botelho, o Organon de Aristóteles seria melhor compreendido à luz de um sistema esférico do que de um sistema piramidal. Quer dizer: em Aristóteles jogam, operam e combinam-se dinâmica e dialecticamente indução e dedução, análise e síntese, múltiplo e uno, ciência e imaginação. Além disso, o autor também salienta a importância do “discurso sofístico”, assaz presente na filosofia grega, em geral, e no pensamento de Aristóteles, em particular.