sexta-feira, 29 de junho de 2012

Terrorismo em Angola (ii)

Escrito por Franco Nogueira




J. F. Kennedy e Nikita Kruschef (1961).


«Sim, começa por dizer o chefe do governo [entrevistado para a cadeia de jornais Hearst, dos Estados Unidos], são vários os Estados que se vangloriam de ajudar o terrorismo em Angola. A par destes, e por seu intermédio, actua o comunismo. "Aliás na entrevista de Viena, o Sr. Krushef disse claramente ao presidente Kennedy que o apoio às guerras subversivas era agora o método soviético, através do qual se pensava garantir o domínio mundial do comunismo". E conhece o governo português os chefes dos motins? Sabe de alguns [como Mário de Andrade, Viriato Cruz], indica Salazar, e sabe que frequentam Moscovo, Praga, Pequim, e os Estados Unidos. E especifica: "Por exemplo: sabemos de um que viajava com passaporte de um país norte-africano [Tunísia], com o nome de Joe Gilmore; às vezes dá pelo nome de Rui Ventura; e quando obtém visto para entrar nos Estados Unidos - presumivelmente sob aquele nome de Gilmore e com a nacionalidade que lhe confere o passaporte de que é portador - passa a chamar-se Holden Roberto e é apresentado em outros círculos como patriota angolano". E Nkrumah? Que pretende? Tomar Angola para si próprio? Não se está no segredo das intenções daquele estadista africano. Mas Nkrumah proclama o desejo de formar os Estados Unidos de África e, não obstante as objecções de muitos, julga-se no direito de falar em nome de toda a África: "temos aí todos os ingredientes de um novo imperialismo". 

(...) Há o perigo de um golpe comunista em Portugal? Segundo a imprensa do mundo, comenta Salazar, a conferência dos partidos comunistas há pouco efectuada em Moscovo conclui que no momento actual há perspectivas revolucionárias em Espanha, Portugal, Itália, devendo-se utilizar as plataformas anticolonialistas que são Marrocos e Angola. Como fortalecer a NATO? A crise desta, pensa Salazar, não é militar mas política, e apenas se resolve pela solidariedade, mas de nada valerá se se confinar a áreas precisas enquanto o ataque ao Ocidente e sua civilização é global e permanente. E Portugal está sempre disposto a cumprir os seus compromissos, ainda que a opinião pública tenha o direito de o estranhar quando outros membros da Aliança quebram essa solidariedade».

Franco Nogueira («Salazar», Vol. V).


«O 15 de Março (...) ultrapassou em ferocidade tudo quanto é lícito supor: homens, mulheres, crianças esquartejados, queimados e serrados vivos; filhos mortos perante os pais, mulheres mortas diante dos maridos... crianças mortas, espostejadas nos seus berços, etc, etc... Intuito de tamanha selvajaria, que acompanha a implantação do comunismo - o socialismo científico - em todo o mundo: afastar os portugueses europeus e mestiços, em especial, de Angola, pela violência, pelo medo. Na ONU sabia-se com antecedência do que iria acontecer e esperava-se uma vitória rápida e segura dos amotinados... Vê-se quem tinha a mão por baixo.

De outra parte, os terroristas foram armados, municiados, drogados e fanatizados com promessas de todo o género por estrangeiros, como sobejamente se sabe. O facto de a violência indescritível ter caído também sobre os trabalhadores bailundos é denunciador de desejo do bakongo - a tribo revoltada - vir a governar Angola... Não é nada de admirar: em África a solidariedade entre tribos não existe».

Pinheiro da Silva (pref. in «A Epopeia de Mucaba», NEOS).







«São infelizmente muitas - e criminosamente esquecidas - as histórias vividas em Toto, Negaje, Quitexe, Quibaxe, Cuimba, Mavoio, Camabatela, Nambuangongo, Nova Caipemba, Aldeia Viçosa, Vista Alegre, Bungo, Madimba e Zabala. Não se apagarão da memória de muitos - por mais que queiram certos beltranos - as faces crispadas daqueles que viram matar os filhos, que se esconderam no capim, que ouviram desesperados o choro convulsivo das crianças aterrorizadas. Não é possível esquecer os requintes de extrema maldade que levou a amputar os seios das mulheres, a suspendê-las pelas pernas e depois a atirá-las contra as paredes, até morrerem, com as cabeças esmagadas, a degolá-las ferozmente. Na memória de muitos ainda persiste o doloroso espectáculo da Fazenda de Ricardo Gaspar, a melhor do Congo, transformada num campo de mortos, de crianças degoladas, de mulheres mortas, despidas, com paus aguçados nos sexos».



«Cerca das dezassete horas uma avioneta, pilotada pelo engenheiro Pereira Caldas, sobrevoa a povoação e lança garrafa contendo mensagem que diz ter avistado grupos de terroristas armados, cerca de cinco quilómetros a caminho da povoação. Os defensores de Mucaba correm e encerram-se na Capela. Para melhor compreensão do que se passa no exterior, organizam uma patrulha, formada por duas viaturas, levando cada uma oito ocupantes. Numa vai um soldado e na outra um furriel e um soldado.

Sob o comando do furriel Demony Vieira, as viaturas marcham ao encontro do inimigo. Não tarda a dar-se o desastre. A viatura da frente cai numa cilada e sofre um violento ataque, do qual resulta a chacina de cinco ocupantes. A outra escapa por milagre. O condutor revestido de sangue frio, retira de marcha atrás e chega ileso à povoação com os sobreviventes. Agora os campos estão extremados. Nada mais há a fazer senão a defesa das suas vidas. O soldado que havia sido capturado pelos amotinados consegue fugir e apresenta-se na Capela. Entra por uma janela, em escada que lhe é lançada de dentro.

Metidos todos na Capela, estão agora de portas trancadas, posições tomadas e nervos tensos. Pelas dezassete horas e meia os sublevados iniciam o ataque, ao som de cânticos guerreiros e guinchos arrepiantes. Vozes de comando incitam: "Não tenham medo!... As balas dos brancos são como água!... Não matam!..." Trocam-se tiros entre atacantes e defensores. A luta ganha intensidade e entra pela noite dentro...».

Carlos Alves («A Epopeia de Mucaba»).


«A várias raças como até a culturas diversas deve Portugal a manutenção daquela unidade [individualismo de síntese superior e patriótica]. Mas na base está um povo para quem a terra muito significa, uma visão realista que não tolera o esbulho do que é património e custou sangue e trabalho. O último caso está na brava reacção dos colonos de Angola, avessos à intimidação pelas chacinas, mantendo-se agrupados no território, preferindo os cercos à fuga, numa atitude instintiva desprezadora de cálculos acerca do êxito dessas múltiplas resistências isoladas».

Francisco da Cunha Leão («Ensaio de Psicologia Portuguesa»).





Terrorismo em Angola


Encerram-se em Nova Iorque os debates, e de Angola chegam a Lisboa notícias trágicas. Justamente de 14 para 15 de Março de 1961, vagas de terroristas invadem o Norte de Angola. Aboletados e municiados na República do Congo, atravessam em toda a extensão a linha de fronteira e, providos de catanas e armas de fogo rudimentares, assaltam povoações e fazendas. São atacadas Sto. António do Zaire, S. Salvador do Congo, Maquela do Zombo, que se podem considerar quase raianas; mas são igualmente acometidas Ambrizete, Negaje, Mucaba, Sanza-Pombo; toda a baixa do Cassange está em alvoroço; e os terroristas estão às portas de Carmona. São claros para as autoridades os propósitos de implantar o terror. São óbvios os desígnios de se dirigirem a Luanda. Nos círculos do governo central, na alta administração, toma-se então consciência de que em Angola há uma situação de guerra, e de que no território se move guerra contra Portugal.

Em menos de quarenta e oito horas, pelos distritos do Zaire e do Uije é a devastação maldita. Plantações e casas solitárias são saqueadas e incendiadas; aldeias são arrasadas; é posto cerco a vilas e pequenas povoações, cortando-se-lhes os abastecimentos; vias e meios de comunicação ficam destruídos; e a cidade de Carmona apenas consegue resistir graças ao heroísmo dos seus habitantes, encorajados e orientados pela serenidade e espírito decidido do governador Rebocho Vaz. Mas a fúria do ataque visa sobretudo as populações. Não se faz distinção de etnias, nem de sexo, nem de idades tão-pouco. É o terror, maciço e cru. Além dos praticados na Baixa do Cassange, e contra as vilas fronteiriças, parecem ser particularmente violentos os massacres nas regiões de Nambuangongo, Quicabo e Quitexe. Como nos tempos remotos das grandes barbáries, são assassinados homens, mulheres, velhos e crianças, autoridades administrativas, agentes da ordem, brancos, negros e mestiços; ou fuzilados; ou queimados dentro de casas e cubatas; ou esquartejados, e degolados; ou cerrados vivos. São fazendeiros, comerciantes do mato, madeireiros, capatazes das plantações, habitantes de vilas e cidades, homens de profissões liberais, missionários, enfermeiros: no ímpeto do inferno, não se faz discriminação. Propagam-se as notícias, e os que ficam ainda aquém do terror que alastra procuram na fuga salvação. Amontoam-se em transportes que regurgitam muito para além das lotações, e aos milhares tentam dirigir-se a Luanda. Para trás, ficam haveres, que são o esforço de muitos anos; e comércios e indústrias, que representam gerações de tenacidade. E os itinerários não estão protegidos; há cortes de picadas; não se sabe que situação existe na próxima localidade; e nas pistas por que tomam ou nas povoações por que passam apenas encontram corpos chacinados, e ruína, e mais ruína. Grupos de fugitivos cruzam-se a esmo com outros grupos; trocam-se informações: e não pode ser mais ensanguentado o quadro que emerge. Carmona sobrevive, e Rebocho Vaz organiza um centro de resistência e acolhimento: a cidade torna-se um símbolo da resolução portuguesa de estar. Continua o pesadelo de dias excomungados mas, vencido o primeiro choque, os que sobrevivem, autoridades locais ou simples particulares, lançam mão de quanto podem, desde cajados a armas de caça, e congregam-se em bandos; e improvisam redutos que se defendem de dias a dias até serem socorridos, ou sucumbirem trucidados por vagas de terroristas que parecem drogados e se renovam sem cessar, não cuidando de quantos são abatidos. E surge Jorge Jardim, com um largo grupo, os «voluntários de Moçambique», que procuram assistir as autoridades e acorrer, por picadas e matos, aos locais de maior ameaça e que se portam com destemor que logo cria lenda. Simultaneamente, nos muceques (7) de Luanda o ambiente é de agitação, e de boca em boca passa o grito: matar branco, matar branco.


Quitexe







Entretanto, começam a afluir a Luanda os fugitivos: são chusmas em tropel, feridos, esfarrapados, cobertos de pó e terra encarnada, mutilados à beira da morte por míngua de cuidados, amargos com o ferrete da miséria, raivosos porque as suas vidas são de súbito uma ruína; e clamam por providências, exigem pelo menos o sangue das populações negras que ficam ao norte, e culpam de tudo as autoridades e o governo. Por governador-geral continua Álvaro da Silva Tavares, há pouco chegado: este não perde o sangue-frio, consegue suscitar à sua volta alguma acalmia. De acordo com as autoridades policiais e militares, são decididas as medidas possíveis. Em toda a província existem cerca de 2000 soldados brancos e cerca de 6000 soldados negros. É comandante militar de Angola o general Monteiro Libório. Em cooperação com os administradores, os chefes militares procuram usar aqueles escassos efectivos na abertura de itinerários, protecção de aldeias e vilas, guarda de instalações e de serviços públicos essenciais; e a Força Aérea, do comando do brigadeiro Fernando Resende, assegura comunicações e transporte de feridos graves. Mas é imensa a área, as forças não estão apetrechadas para uma actuação daquele tipo; e de momento, para mais, não sabem as autoridades se acaso não será desencadeado terrorismo em outros pontos do território, não podendo por isso deixar completamente desprotegidas outras cidades. Luanda tem, decerto, de ser protegida e defendida, seja por que preço for; mas Nova Lisboa ou Sá da Bandeira, Benguela ou Lobito, Luso ou Maçâmedes, não podem também ser abandonadas. Não se produzem alterações de ordem pública em outros pontos da província, todavia, nem se notam entre as populações indícios que inquietem as autoridades. A pouco e pouco, os meios existentes podem ser concentrados no Norte. E em Luanda, por entre dificuldades e cenas de emoção, organiza-se o acolhimento aos estropiados do Zaire e do Uije: e somam muitos milhares.

São velozes as notícias e é instantâneo o conhecimento que em toda a província há da tragédia do Norte. São divulgados os cálculos provisórios das autoridades: devem ter sido assassinados, entre elementos da população, cinco a seis mil pessoas, e abatidos dois a três mil terroristas. De lés a lés de Angola é profundo o traumatismo, e o desespero domina todos. É radical a perturbação numa vida colectiva, de brancos e de pretos, que decorria no trabalho, decerto, mas sem sobressalto de monta. E de repente está criado um clima de suspeita, de ódio entre raças: os brancos vêem em cada negro um possível terrorista, os negros vêem em cada branco um homem que se quer vingar e que agora mata sem hesitar. Deste modo, e além das atrocidades dos assaltantes, assumem gravidade o ataque preventivo e a retaliação indiscriminada de brancos sobre negros e destes sobre aqueles. Homem a homem, nas ruas, nos empregos, em toda a parte, espiam-se com rancor, e a um gesto equívoco é abatido o suposto adversário. Parece em escombros a secular igualdade racial que é timbre da política portuguesa, dir-se-ia destruído o tradicional convívio e cruzamento entre etnias. Depois, no ânimo da população de Angola, firma-se uma ideia: o governo de Lisboa abandona todos, e o território, a um destino trágico. Todos interrogam o futuro: consideram perdidos os seus bens, os seus capitais, os seus investimentos, os seus comércios e indústrias, as suas casas; consideram-se na pobreza; e além de verem interrompida a educação dos seus filhos, julgam que apenas lhes podem legar a miséria. Perante o quadro doloroso, para todos é cruel o dilema: partir ou ficar? Recomeçar a vida noutras bases e noutro local, ou ficar, resistir, lutar, agarrar-se à terra, defender bens até à morte? Para muitos e muitos, e de momento, a decisão é de ficar: nasceram ali, e pais, avós, gerações de antepassados nasceram ali: a terra é mais deles que de outros; onde não havia nada, há hoje tudo: e foram eles, e só eles, que tudo construíram com a sua iniciativa e o seu braço. E ir para onde? São já numerosos os que nunca sequer foram à Metrópole, ou que estão em Angola de meninos, ou que há largos anos não saem da província. Que fazer em Lisboa? Seria então preferível ir para a África do Sul ou para a Rodésia do Sul. Mas não: há que estar, correr todos os riscos, afrontar todos os perigos, ficar, vivos ou mortos. Mas a outros é o pânico que os possui. Esses decidem abandonar tudo, perder tudo o que não puder ser levado ou transferido, e tomar o caminho de Lisboa. E é o êxodo, aos milhares. Em aviões e barcos, disputam-se a poder de oiro os lugares (in ob. cit., pp. 215-219).






Tropas portuguesas desfilam em Angola



(7) É conhecida por muceques uma série de aglomerados populacionais pobres que cercam Luanda em toda a sua periferia.

Continua


terça-feira, 26 de junho de 2012

Terrorismo em Angola (i)

Escrito por Franco Nogueira




Embarque de tropas portuguesas para a Guerra do Ultramar


«É nossa convicção que estamos a defender a Europa nos últimos redutos em que ainda pode ser defendida. Se esta tese não é unanimemente acolhida porque se entreveja como possível a defesa ocidental nos pequenos espaços europeus ou por força de espúrias combinações diplomáticas, um aspecto há que muito particularmente nos respeita e em que não pode ser-nos negada competência nem legitimidade de juízo - é que estamos ali a defender Portugal.

Só não se ter em conta o que representam na história e nos direitos de um povo a descoberta e a ocupação de territórios praticamente desabitados; só o desconhecimento das possibilidades dos povos de África de elevarem-se por si sós a níveis de civilização; só o desprezo da obra do branco, mau grado as suas imperfeições e deficiências, em relação a outras etnias ou culturas; só a incongruência, o ilogismo, a confusão em que vivemos podem explicar os discursos proferidos em altas assembleias contra os direitos de Portugal, em línguas puras da Europa, em termos clássicos de formação europeia, se bem que infelizmente rescendendo a teorias de mestres também nossos transviados.

O apoio assim tão claramente dado aos movimentos subversivos e o seu poder contagiante podem facilmente dar origem a novos surtos terroristas. Isto quer dizer que, enquanto persistir a actual desorientação da vida do mundo, a guerra, essa guerra que mal sopita sob as cinzas pode recomeçar, em Angola ou algures, e não já filha das mesmas forças subversivas mas até de outras que se organizem, instruam e equipem além-fronteiras, com a clara aparência de autênticas forças invasoras. Nesse momento, se o facto vier a verificar-se, novos problemas estarão criados não exclusivamente para nós mas para muitos outros povos que pensam erradamente serem as jovens independências o fim da evolução africana, quando marcam apenas o princípio de reestruturação de todo um Continente a fazer-se em guerras seculares. São estas dúvidas ou sombrias perspectivas que sobretudo impedem o trabalho de reconversão das nossas forças militares em forças de paz, de trabalho, de educação das populações em que mais utilmente se empregariam. E neste contexto têm razão os que fazem depender sobretudo da política mundial, e não da nossa política ultramarina, o termo de operações de guerra no Ultramar Português».

Oliveira Salazar («Defesa de Angola - Defesa da Europa», SNI, 1962).


«As organizações comunistas têm feito tudo para exercer influência decisiva junto da opinião pública e deve reconhecer-se que lograram já entrar em certos meios ligados à informação ou à cultura. Por outro lado, estão a actuar com particular interesse junto dos trabalhadores dos escritórios, das oficinas e do campo.

Pois há que opor um dique a tais infiltrações, começando por desmascarar certos intelectuais ou pseudo-intelectuais que à sombra de pretensas preocupações científicas ou literárias tentam difundir os princípios marxistas e apoiar, com a sua propaganda directa ou camuflada, as actividades do comunismo internacional.

(...) Quem não semeia não pode colher. Se à acção comunista não opusermos o exercício efectivo de um magistério político e social bem orientado, não poderemos queixar-nos se perdermos terreno. Os êxitos dos comunistas só são possíveis quando nós recuamos ou transigimos. É assim no plano das relações internacionais e também assim é, dentro de cada comunidade nacional, no domínio das actividades culturais, sociais ou económicas.

Eis, quanto a mim, a grande lição a tomar em conta nestes tempos cruciais que atravessamos. Se a tivermos bem presente, não prevalecerão contra nós nem as calúnias, ataques e crimes dos inimigos, nem a incompreensão e hesitações dos que, dizendo-se amigos ou aliados, esquecem que estamos a defender os verdadeiros interesses e a própria honra do Ocidente.

É possível que se aguardassem de mim outras palavras. Julguei, todavia, que deveria debruçar-me um pouco sobre alguns aspectos práticos do problema central que está posto nesta campanha e que, afinal, é o grande problema do nosso tempo: o comunismo.

Temos de responder vitoriosamente ao desafio terrível que o comunismo lançou à consciência dos homens livres. É ver como ele cria prosélitos, perverte as inteligências desprevenidas e envenena as almas fracas, e como promove as discórdias entre os homens e as dissensões entre os povos numa tentativa diabólica para destruir os fundamentos da sociedade cristã e numa rebelião desesperada contra os valores morais e espirituais, o mesmo é dizer, contra Deus.

Ateu, na sua essência doutrinária e na sua acção demolidora, divinizou-se a si próprio, arvorando-se em princípio e fim de tudo e criando uma mística "religiosa" de raiz e sentido eminentemente materialistas.

Proclama em todos os quadrantes da vida mundial a paz, mas por toda a parte ateia guerras e revoluções e suscita ódios e ressentimentos. Diz-se defensor dos povos oprimidos, mas sob o seu despótico domínio nações inteiras jazem escravizadas e no mais total e degradante colonialismo de todos os tempos. Prega justiça, mas para os seus corifeus todos os crimes, perseguições e vinganças se legitimam desde que concorram para robustecer ou alargar o seu poderio...».

Henrique Veiga de Macedo (in «Três Campanhas Eleitorais - Um Pensamento», 1970).



Henrique Veiga de Macedo (2.º à esqu.).



Terrorismo em Angola

No dia 6 de Março de 1961, Botelho Moniz e Elbrick almoçam juntos, a sós, e o embaixador americano desvenda ao ministro que tem instruções para uma firme diligência com o objectivo de forçar o chefe do governo a alterar a sua política africana.  E na verdade, no dia seguinte, 7 de Março, o embaixador dos Estados Unidos, solicita uma entrevista com Oliveira Salazar, e pede urgência. Pergunta o ministério dos Estrangeiros: de que assunto deseja o embaixador ocupar-se? Responde Elbrick: está actuando por instruções pessoais do presidente Kennedy e apenas ao presidente do Conselho pode revelar a matéria. Elbrick chega acompanhado de Xanthaky, conselheiro e intérprete, e apresenta-se de semblante grave. É no gabinete do chefe do governo, em S. Bento. Desempenha-se o enviado americano do seu encargo. Diz, em síntese: estão preocupados os Estados Unidos com a África, e com os perigos de uma implantação comunista no continente, que importa ao mundo livre evitar; o presidente Kennedy pensa que a autodeterminação dos países africanos constitui a maneira mais eficaz de barrar o caminho à União Soviética; o nacionalismo africano é aliás irresistível, e a descolonização é um fenómeno inevitável, além de corresponder aos ideais de liberdade e dos direitos humanos; neste particular, o presidente Kennedy está especialmente apreensivo com a situação em Angola e, dadas as cordiais relações luso-americanas, muito desejaria que aquela se resolvesse à luz dos princípios geralmente aceites; de outra forma, poderá suscitar-se na ONU uma situação muito embaraçosa para Portugal, não sendo possível contar com o apoio dos Estados Unidos; apenas uma declaração de intenções, pública e formal, a fazer urgentemente pelo governo português, e anunciando não só reformas como a aceitação do princípio de autodeterminação e de independência para aquele território, poderá prevenir dificuldades de toda a ordem; se essa declaração não for feita, será de esperar um ponto crítico nas relações entre os Estados Unidos e Portugal, de que não caberá qualquer responsabilidade ao governo de Washington; e, por último, como a independência de Angola deverá causar perturbações à economia portuguesa, os Estados Unidos declaram-se prontos a estudar com outros países da NATO a melhor maneira de compensar financeiramente aquelas perturbações. Salazar escuta com atenção concentrada. Elbrick conclui a sua comunicação. Entrega um muito curto memorial, que contém uma breve síntese. Oliveira Salazar pergunta se o embaixador esgotou as suas instruções ou tem mais alguma coisa a acrescentar. Mais nada, declara Elbrick. Levanta-se o chefe do governo, dirige-se à porta do gabinete, que abre. «Ouvi atentamente e agradeço-lhe a sua visita. Muitos cumprimentos para o Presidente Kennedy. Muito boas tardes, Senhor Embaixador». Saem os dois americanos. Nos corredores, diz Xanthaky para Elbrick: «Nunca mais ouviremos falar desta diligência nem jamais obteremos qualquer resposta».

Em Nova Iorque, continua a campanha da Libéria para uma reunião do Conselho de Segurança contra Portugal. E nos círculos afro-asiáticos da ONU, e numa larga parte da imprensa, traça-se de Angola um quadro dramático: o território está em revolta; a repressão das autoridades portuguesas é selvática; jorram torrentes de sangue; está assim comprometida a própria paz mundial. No Brasil, Humberto Delgado apoia a reunião do Conselho, e defende a independência do Ultramar português e a integração de Goa na União Indiana. Por Lisboa, numa escala entre dois aviões, faz uma breve paragem Kwame Nkruma, presidente da República do Gana (1), e arauto mundial da luta antiportuguesa; dá um passeio pela cidade; e aos funcionários portugueses destacados para o acompanharem, manifesta em termos tocantes profundo interesse pela saúde de Oliveira Salazar e pede-lhes que transmitam a este os seus cumprimentos e desejos de longa vida. Por seu lado, o governo de Lisboa protesta em Nova Iorque, junto da presidência do Conselho de Segurança, contra o pedido da Libéria, que considera ilegal, não justificado, e violador do n.º 7 do art.º 2 da Carta, que proibe qualquer interferência nos assuntos internos dos Estados. Sem embargo, e no caso de se efectivar a reunião, Portugal deseja participar nos debates. Dias depois, a 10 de Março de 1961, o Conselho de Segurança inscreve efectivamente a questão de Angola na sua ordem do dia. E o ministério do Ultramar, num comunicado, sublinha a existência de um plano internacional de subversão da África portuguesa. Pelo Norte de Angola circulam estranhos panfletos convidando a população para as festas de 15 de Março, e a limpar estradas e pontes, e a tratar bem os chefes do posto, suas famílias, e todos os brancos; mas as autoridades locais não atribuem importância a tais papéis, nem lhes dão interpretação especial. E elementos oficiais americanos em Lisboa e Luanda insistem em perguntar, por razões misteriosas, se no território da província de Angola tudo está calmo.



Atendendo ao prestígio do Conselho de Segurança, e ao temor que infunde nos mais tíbios ou menos prevenidos, produz-se na opinião pública portuguesa alguma emoção, e muitos prevêem que aquele orgão da ONU tomará as decisões mais graves contra Portugal: sanções políticas, ou económicas, ou até a intervenção armada. Há alarme, há receios. Inicia o Conselho os debates a 13 de Março; Vasco Garin representa Portugal; e de Lisboa, com urgência, segue Jorge Jardim, portador de elementos de facto e dados estatísticos fornecidos pelo ministério do Ultramar. Simultaneamente, e em pagamento da que lhe fizera Marcello Mathias, chega em visita a Lisboa o ministro dos Assuntos Exteriores de Espanha, Fernando Maria Castiella. Desenrola-se o programa habitual de recepções e conversas. Castiella e Mathias falam longamente; e o ministro espanhol é recebido por Thomaz e Salazar. Castiella afecta sempre uma atitude de grande compreensão, de entranhada amizade por Portugal, e de incondicional e dedicado apoio em tudo o que os portugueses desejarem. Para Castiella, não há problemas na «fraternidade ibérica» (2). Mathias vinca sempre os «dois países da Península». Em Nova Iorque, na violência e no vitupério, desenrola-se o debate. Além da Libéria, são particularmente brutais o Ceilão, A República Árabe Unida, a União Soviética. Até à saciedade, é repisado o inferno das acusações rituais: opressão, atraso, genocídio, perigo para a paz mundial. Pede-se o cumprimento imediato, por Portugal, das resoluções votadas anteriormente; solicita-se uma declaração de princípio, outorgando a Angola a independência. Um aspecto do debate surpreende alguns círculos do Conselho de Segurança: pela primeira vez, a delegação americana, chefiada por Stevenson (3), ataca a política portuguesa em África, alinha com as acusações afro-asiáticas ainda que em linguagem mais moderada, e deixa entrever um voto contrário a Portugal. Não causa surpresa em Lisboa a nova atitude dos Estados Unidos, que está no caminho da diligência de Elbrick, de há dias; mas Salazar e Mathias não ocultam a sua preocupação, nem ignoram as implicações futuras da política de Washington. Como fecho de debate, e para ser submetido ao voto, a Libéria, o Ceilão e a República Árabe Unida apresentam um projecto de resolução que engloba e sintetiza o ponto de vista afro-asiático expresso no debate: por duas vezes se acentuam os perigos que a situação em Angola representa para a paz e a segurança mundiais; reitera-se a doutrina das resoluções anteriores contra Portugal; e solicitam-se reformas imediatas no contexto da resolução sobre a extinção do colonialismo. E quando, na noite de 15 de Março de 1961, Mathias oferece a Castiella um banquete nas Necessidades, e os dois ministros celebram o fortalecimento do Pacto Peninsular, vai em Nova Iorque ser posto ao voto o projecto afro-asiático. Como se aprestam a votar os Estados Unidos? Stevenson telefona a Kennedy, que está no seu gabinete da Casa Branca (4); recomenda que a delegação americana apoie o projecto afro-asiático, votando portanto contra Portugal, e pede ao presidente instruções finais. Que atitude tomarão os outros ocidentais? - pergunta Kennedy. Provavelmente abster-se-ão, diz Stevenson; mas igual atitude da parte dos Estados Unidos causaria deplorável impressão por todo o terceiro mundo. Dean Acheson (5), que naquele momento se encontra no gabinete de Kennedy, sugere ao presidente que não tome uma decisão precipitada, e acentuou que o assunto deve ser mais ponderado. Não há tempo, a votação vai realizar-se dentro de minutos, diz Kennedy; e depois de consultar Dean Rusk pelo telefone, e retomando a conversa com Stevenson, instrui este para votar contra Portugal. Comenta então Acheson: «Senhor Presidente, acaba de tomar uma decisão que é ao mesmo tempo um erro e um perigo, e terá as mais graves consequências para Portugal e para os Estados Unidos». E procede-se à votação em Nova Iorque: votam a favor da resolução a Rússia, a República Árabe Unida, a Libéria, o Ceilão e os Estados Unidos. Abstêm-se a França, a Inglaterra, a China, o Chile, o Equador e a Turquia. Há assim cinco votos afirmativos e seis abstenções. Não obtivera o texto, portanto, a maioria de votos positivos exigida, entre os 11 membros do Conselho, para que seja aprovada uma resolução, e nos termos regulamentares é havida por derrotada. Mas os Estados Unidos tinham votado contra Portugal pela primeira vez na história dos debates de problemas portugueses na ONU; e deste modo haviam rompido a solidariedade ocidental (França, Inglaterra, Turquia) e ignorado a amizade latino-americana (Chile, Equador).



Dean Acheson



Acheson, velho e experimentado estadista, advertira Kennedy. Mas não se conforma com a atitude dos Estados Unidos, nem tem por bastante o seu aviso, e quer registá-lo. Escreve a Kennedy uma longa carta. Depois de referir notícias da imprensa sobre a mudança da política africana dos Estados Unidos, Dean Acheson aprecia directamente o voto americano no Conselho de Segurança. Diz o antigo secretário de Estado: «O embate causado pelo voto na semana passada - e ainda mais significativamente o do discurso que foi feito, com a sua sinistra ameaça para o futuro - não atingiu principalmente os portugueses ou a crise de Angola». Do voto americano, a mais grave consequência, pensa Acheson, está em tornar impossível qualquer negociação que poderia trazer à África alguma «sanidade». Vai ter reflexos na Argélia, e em toda a África. «Na verdade», continua Dean Acheson, «através de África a grande necessidade não está em empurrar mais povos mais depressa para a independência, que não sabem usar melhor do que o têm sabido os congoleses. Independência para todos esses povos não é já um problema realista. O grande e crucial problema consiste em prepará-los, com muito mais do que simples velocidade, para enfrentarem o futuro inevitável». E por último Dean Acheson atira a Kennedy um doesto: «Qualquer estadista, soldado ou advogado sabe que o caminho para o desastre consiste em dar combate no terreno escolhido por outrem». As Nações Unidas são uma ratoeira: pequenos países têm-se permitido manobrar as potências responsáveis e obrigam-nas a votar em todos os problemas concebíveis: «Nós (os americanos) somos suficientemente grandes para não fazermos isto». E a «nossa própria grandeza e responsabilidade impõem-nos que em todas as situações não percamos de vista o conjunto». (6) Em Lisboa, Jaques de Lacretelle pronuncia no Instituto Francês uma palestra sobre Marcel Proust. E na Casa do Infante, no Porto, Adriano Moreira, subsecretário do Ultramar, profere uma conferência com o título de Provocação e Resposta. Num óbvio remoque do voto americano, diz: «Só nós temos resistido ao desafio dos adversários; teremos também de resistir à provocação e à transigência dos que se dizem amigos» (in Salazar, Livraria Civilização Editora, V, pp. 210-215).



Notas:

(1) Na altura, o Gana apresenta na Organização Internacional do Trabalho uma queixa contra Portugal, acusando este de prática de trabalho forçado em Angola. Portugal aceitou o inquérito, e este foi conduzido por uma comissão internacional presidida por um juiz senagalês; do inquérito, conduzido com minúcia em Angola, saiu Portugal totalmente ilibado. Então, e usando exactamente os mesmos trâmites processuais, Portugal apresenta na OIT uma queixa contra a Libéria, com uma acusação formulada nos mesmos termos. A OIT tinha de a fazer prosseguir contra aquele país como o fizera contra Portugal; este assim o exige; e assim se faz. Mas então há alarme nos círculos afro-asiáticos da OIT e da ONU; ficam em causa as grandes plantações estrangeiras na Libéria, o governo deste país lamenta-se que a falta de transportes não lhe permite cooperar com a comissão a ser designada pela OIT, etc. Conclusão: a queixa portuguesa é arquivada; mas a Portugal é dada a garantia de que, na OIT, nunca mais se pronunciará uma acusação contra Portugal no Ultramar.

(2) Recorde-se que Castiella, com outros, era autor de trabalhos em que se advogava a «união ibérica».

(3) Adlai Stevenson, membro destacado do Partido Democrático, candidato presidencial; derrotado por Kennedy, este nomeia-o para o posto de embaixador dos Estados Unidos na ONU.

(4) Convém lembrar a diferença de horas entre Lisboa e Nova Iorque; quando em Lisboa era o princípio da noite, em Nova Iorque e Washington estava-se no meio da tarde.

(5) Antigo secretário de Estado, que falara longamente com Salazar numa visita a Lisboa em 1952.

(6) Carta de 19 de Março de 1961.




Oliveira Salazar



Continua


sábado, 23 de junho de 2012

As atrocidades do comunismo (ii)

Escrito por Deirdre Manifold



«Na manhã de 15 de Março de 1961, 200 portugueses de raça branca e 300 portugueses de raça negra foram sevalticamente assassinados no decurso de uma incursão terrorista no Norte de Angola. Nessa manhã, um grupo de 4000 terroristas atacou a roça experimental situada na pequena aglomeração de Nova Caipemba. Um sobrevivente, Manuel Lourenço Alves conta os seguintes factos: "O assalto começou às seis horas da manhã em todas as casas pertencentes à roça, fossem elas ocupadas por europeus, negros ou mulatos - todas elas foram atacadas ao mesmo tempo. As mulheres foram arrastadas para fora das suas casas com os seus filhos. Perante as suas mães, os terroristas começaram então a cortar os braços e as pernas das crianças e divertiram-se a brincar com os membros em pedaços numa imitação grotesca do jogo de futebol. Depois as mulheres e as raparigas foram despidas, violadas e cortadas aos bocados. Isto é um exemplo do que se passa nos nossos dias um pouco por toda a parte do mundo. Estes actos, de uma incrível selvajaria, são realizados, de uma maneira deliberada e premeditada, por homens cujo único fim é o da destruição dos valores humanos e da vida humana. Os patrões velhacos, que financiam, fiscalizam e encorajam por toda a parte a causa comunista, vivem nos seus palacetes particulares no Oeste, sem que os títeres, que fazem o seu repugnante trabalho, tenham a menor suspeita do papel que desempenham. Os patrões dos bonecos zombam perdidamente da morte violenta de milhões de seres tal como de moscas se tratasse. A sua guerra é total: as suas vítimas mais débeis e mais impotentes são crianças, tanto a Este como a Oeste"».

Deirdre Manifold («Fátima e a Grande Conspiração»).


«Na confusão de ideias em que vivemos hoje, já admitem alguns que só um grande Estado se arrogue o direito de estruturar uma nação; os mais Estados e as mais Nações haviam de dissolver-se ou diminuir-se no reconhecimento dessa unidade, subordinando-se-lhe inteiramente e submetendo-se à sua direcção. Daqui vem que no credo comunista o nacionalismo é para todos nós um pecado e para a Rússia uma virtude que se deve venerar. A forma porém como se previu e verifica a evolução dos acontecimentos tem variado na mente dos dirigentes e na prática das coisas: a cada momento são as circunstâncias que indicam o melhor caminho a seguir. Como se conclui pela impossibilidade na Europa da guerra de fronteiras, anunciam as duas maiores potências da Terra ter acordado e ir propor aos mais a luta contra a guerra, contra a propaganda belicista, contra o armamento convencional ou não. Entendamos bem os termos da combinação: proibem-se as guerras que não haverá, mas estimular-se-ão as guerras que continuará a haver. A França não invadirá a Alemanha, a Bélgica não se baterá com a Holanda, a Espanha respeitará Portugal; mas os mesmos que tão convictamente se hão-de vangloriar duma paz já consolidada por força dos acontecimentos e da vontade dos povos, continuarão a reivindicar o direito de interferência ideológica, de apoio político e financeiro, de fornecimento de armas, de preparação de núcleos subversivos em territórios estrangeiros, por cima e sem embargo das relações diplomáticas, das declarações de amizade e dos desejos de boa vizinhança. E o fundamento desta política contraditória está em que não se trata de guerras de conquista mas de guerras de "libertação", tal qual a efectuada em Goa, com desprezo dos direitos soberanos de Portugal e dos interesses dos goeses, não considerados no conflito nem havidos para nada, senão por nós mesmos, antes e depois da ocupação».

Oliveira Salazar («Unidade das Forças Armadas e Consciência Nacional», SNI, 1962).



Nikita Khrushchev traçou o retrato de Estaline e condenou-o. A sua descrição do georgiano pintou-o como um homem tão vil que a maioria das pessoas pensou que estava inapelavelmente condenado. O que ele escreveu, de facto, é o que passamos a expor: Estaline era um assassino mas não agia contrariado - era um assassino entusiasta. Tinha prazer em matar. Vibrava só a pensar que os seus próprios amigos estavam a ser torturados. Aquando da prisão dos médicos judeus, acusados do envenenamento de Zhadnov, Estaline chamou o homem encarregado de os interrogar e indicou o género de tortura que devia ser aplicado a cada um deles. Forneceu três regras fundamentais para arrancar as confissões dos culpados. «Bater, bater e bater sem cessar» e acrescentou «se até determinada data não obtiverdes as confissões corto-vos a cabeça». Khrushchev demonstrou que Estaline era um louco furioso. Quando o visitávamos da parte da manhã, ele olhava para nós e dizia: «Que asneira é que praticou? Hoje tem os olhos fugidios». E nunca se sabia se o abandonaríamos como amigo ou se seriamos conduzidos por um guarda para sermos fuzilados». Apresenta-nos pois o retrato de um assassino com apetite ilimitado de mortes e de uma megalomania sádica. Mas conclui desta forma espantosa: «Não interpreteis mal o que digo: Estaline era um homem de bem. Era um marxista-leninista. Praticou tudo isto como o devia fazer um bom marxista-leninista».

Richard Wurmbrand, pastor baptista romeno, passou catorze anos da sua vida nas prisões comunistas. No seu livro «L'Église du Silence Torturée pour le Christ» escreve: «A 23 de Agosto de 1944 um milhão de russos invadiu a Roménia e pouco depois os comunistas apoderaram-se do poder. E isto não se realizou sem a cooperação dos dirigentes ingleses e americanos da época. Pelo trágico cativeiro de tantos povos a responsabilidade pesa sobre o coração dos cristãos da América e da Inglaterra... e devem saber que ajudaram os soviéticos a imporem-nos um regimen de assassínio e de terror. Os comunistas convocaram um congresso de todos os dirigentes eclesiásticos no palácio do Parlamento. Estiveram presentes quatro mil padres, pastores e ministros de todos os credos, que não só escolheram Estaline para presidente honorário como chegaram mesmo ao ponto de declarar que o comunismo e o cristianismo eram profundamente semelhantes e podiam coexistir sem dificuldade. Um, após outro, elogiaram o marxismo e asseguraram ao novo regime a lealdade da Igreja... Minha mulher que estava sentada a meu lado disse-me: «levante-se Ricardo e lave a afronta feita à Santa Face de Cristo». Levantei-me e falei, louvando não os assassinos dos cristãos mas Deus e Jesus Cristo a quem é devido, em primeiro lugar, a nossa fidelidade. Depois tive de pagar bem caro o crime de ter dissertado com tanta franqueza.

«...Jamais esquecerei o meu primeiro encontro com um prisioneiro russo. Disse-me que era engenheiro. Quando lhe perguntei se tinha fé em Deus olhou-me muito espantado. Sem perceber sequer a minha pergunta, respondeu: "Não tenho ordem dos meus superiores para crer. Se me ordenarem acreditarei...".

Perante mim estava um homem cujo espírito tinha morrido, um homem que perdera a maior dádiva concedida por Deus às suas criaturas: o dom da personalidade. Já não pensava por si próprio. A lavagem ao cérebro transformara-o num instrumento dócil na mão dos comunistas, tornara-o num soviético típico, após todos estes anos de domínio marxista. Os comunistas não se limitaram a ocupar, pouco a pouco, o mundo, apoderando-se da terra e do gado do camponês, da humilde loja do barbeiro e do alfaiate - de gente pobre e sofredora.





...A 19 de Fevereiro de 1948, Domingo, fui raptado pela polícia secreta. Durante mais de oito dias ninguém soube se estava vivo ou morto. A minha mulher recebeu a visita de agentes da polícia secreta que pretendiam ser antigos prisioneiros que me tinham conhecido muito bem. Contaram-lhe que assistiram ao meu enterro. Dilaceraram-lhe o coração.

....As torturas infligidas aos presos eram, para mim, abomináveis. Prefiro não me demorar na descrição do que tive de suportar. Num outro livro "L'Église des Catacombes" conto, de forma pormenorizada, as nossas experiências com Deus que nos assistia nas prisões. Um pastor foi torturado com tições incandescentes e com navalhas. Bateram-lhe de forma frenética. Depois, ratos esfomeados foram introduzidos na sua cela por uma canalização. Nem sequer podia manter-se de pé durante duas semanas. Os seus carrascos queriam forçá-lo a renegar um dos seus irmãos em religião mas ele resistiu com teimosia. Por fim trouxeram o seu filho de catorze anos e começaram a chicoteá-lo diante do pai, dizendo que continuavam a fazê-lo até que o pastor dissesse o que eles queriam. Quando o desgraçado já não podia suportar semelhante espectáculo gritou para o filho. «Tenho que dizer o que eles pedem, já não posso aguentar ver-te maltratado da forma como o estão fazendo» Mas o filho respondeu: "Pai, não faça a injúria de ter um traidor por pai... Se me matarem morrerei com estas palavras nos lábios: Jesus e minha Pátria". Os comunistas enraivecidos lançaram-se sobre o pobre jovem e bateram-lhe até o matarem... Algemas, guarnecidas de pregos no seu interior, envolviam os pulsos. Só quando nos conservávamos completamente imóveis é que não nos feriam. Nas celas glaciais tiritávamos de frio.

...Os cristãos eram pendurados de cabeça para baixo e batiam-lhes com violência tal que os corpos balançavam com a rudeza das pancadas desferidas. Eram colocados em câmaras frigoríficas com temperaturas tão baixas que o interior das paredes se cobriam de gelo. Fui lançado numa dessas celas quase despido. Pela vigia, os médicos da prisão vigiavam o «paciente»; aos primeiros sintomas da morte pelo frio chamavam os guardas para nos retirarem e reanimarem aquecendo-nos. Depois, quando estávamos refeitos, mandavam-nos, de novo, colocar no frigorífico para de novo enregelarmos e esta brincadeira prosseguia de forma interminável. Ainda hoje não suporto que abram um frigorífico na minha presença.

...Outras vezes encerravam-nos em caixas de madeira pouco maiores do que nós. A exiguidade das suas dimensões impedia-nos de executar qualquer movimento. Dezenas de pregos de pontas aceradas guarneciam as paredes. Tudo corria bem se não nos movéssemos. Mas como permanecer de pé durante tantas horas sem, por fim, fraquejar. E quando vacilávamos, por efeito da fadiga, os pregos dilaceravam-nos a carne.







As torturas infligidas pelos comunistas aos cristãos ultrapassa o entendimento humano. Assisti a muitas delas e verifiquei que o semblante dos carrascos estava radiante de uma alegria satânica. Enquanto nos martirizavam bramavam: "Somos o Diabo".

A nossa luta não é contra a carne e o sangue mas contra os Principados e os poderes das Trevas. E afirmamos que o comunismo não procede de homens mas de Satanás. É uma força espiritual - diabólica e só pode ser combatida por uma força espiritual superior: o Espírito de Deus.

...Ouvi um dia um carrasco confessar: "agradeço a Deus, em quem não acredito, por ter vivido até esta hora em que posso exprimir toda a perversidade do meu coração". E dizia isto dando mostras de uma incrível ferocidade em relação aos prisioneiros que lhe eram entregues.

...Já depus como testemunha perante a Sub-Comissão de Segurança Interna do Senado Americano. Descrevi então, os terríficos espectáculos, a que me foi dado assistir, como por exemplo o dos cristãos, durante quatro dias e quatro noites, atados a cruzes colocadas no solo de forma a que centenas de prisioneiros eram obrigados a satisfazer as suas necessidades sobre as caras e os corpos dos crucificados. Quando erguiam as cruzes, os comunistas riam e troçavam: "Olhai o vosso Cristo, como está belo". Já contei como um padre chegou à semi-loucura em virtude dos terríveis suplícios a que foi submetido. Obrigaram-no, na prisão de Pitesti, a consagrar excrementos humanos e urina e, sob esta forma, a distribuir a Comunhão a fiéis católicos... Todas as descrições do Inferno nas Santas Escrituras ou os suplícios narrados no Inferno de Dante, nada são em comparação com as torturas praticadas nas prisões comunistas.

...E isto é apenas um pormenor do que se passou neste Domingo, como em muitos outros, na prisão romena de Pitesti. E há outros tantos factos impossíveis de reproduzir. O coração fica despedaçado se tivesse de o fazer. É por demais obsceno e terrível para confiar ao papel. E, no entanto, são estas as provocações que os nossos irmãos em Cristo são obrigados a suportar, e que ainda hoje suportam. E nunca mais terminaria as descrições relativas às abominações dos comunistas e ao heroísmo dos cristãos.

...As torturas e as brutalidades persistiam sem interrupção. Quando já tinha perdido os sentidos ou estava imbecilizado para dar aos meus carrascos a esperança de me arrancarem confissões, era conduzido de novo, para a minha cela prisional. Aí estendia-me, abandonado, privado de cuidados, semi-morto, para retomar um pouco de forças, a fim de que pudessem de novo dedicar-se à inglória tarefa de me torturarem. Muitos dos meus companheiros morreram quando chegaram a este estado mas eu, não sei porque razões, foi-me sempre concedida a força para recomeçar. No decorrer dos anos passados em diferentes prisões, os carrascos fracturaram-me quatro vértebras dorsais e muitas outras. Queimaram e cortaram 18 buracos no meu corpo.

...Quando, em Oslo, os médicos me examinaram e viram as cicatrizes, assim como nos meus pulmões os vestígios de uma tuberculose contraída na prisão, declararam que o simples facto de ainda estar vivo era um milagre. Segundo a sua experiência prática devia ter morrido há nuito. E creio que Deus realizou este prodígio a fim de que possais ouvir a minha voz implorante actuar em nome da Igreja subterrânea para além da Cortina de Ferro. E permitiu a um dos seus servos escapar vivo e clamar em alta voz a mensagem dos seus irmãos sofredores e fiéis».


O matemático Igor Shafarevich, membro da Academia das Ciências da URSS, escreveu um livro brilhante - «Socialismo». É uma análise penetrante e histórica do Socialismo. Eis a opinião de Soljénitsyne a propósito dele: «... Que todo o socialismo de um modo geral, tanto como em todas as suas tonalidades, conduz à destruição universal da essência espiritual do homem e ao nivelamento da humanidade na morte».

O socialismo é a estrada real que conduz ao comunismo. No jornal inglês «Labour Monthly», de Outubro de 1921, Bernard Shaw escreveu: «Que o trabalho forçado tendo por termo a morte como sanção final... é a chave da abóbada do socialismo».

O pastor R. Wurmbrand foi libertado. Organizações cristãs pagaram o seu resgate. É o único exemplo... (in ob. cit., pp. 86-90).


quarta-feira, 20 de junho de 2012

As atrocidades do comunismo (i)

Escrito por Deirdre Manifold






«Ora, como no homem positivista de Comte - e até nele mesmo - havia retornos ofensivos do metafísico e até do teológico, também no homem bolchevique pode haver um sobressalto do homem humano.

De aí a necessidade de extinguir as luzes de Deus, para que a miopia do teísta ou do cristão não impeçam a visão normal do homem comunista.

O assalto foi cínico, violento e ignóbil. São conhecidos os fuzilamentos, assassinatos a frio, mascaradas carnavalescas, dejecções em altares, profanações da mais vil infâmia. Nestes propósitos não pode um homem religioso, ou, sequer, agnóstico com o sentido do mistério, deixar de ver mais que um método cínico - ele terá de ver propulsões mais longínquas e trágicas: autênticas possessões demoníacas.

(...) O esforço para a implantação pode deixar em seu caminho doze milhões de mortos de fome, inegáveis casos de canabalismo, oito milhões de crianças vagabundas, raparigas de treze a catorze anos grávidas e sifilizadas, altares profanados - simbolicamente oferecidos ao excremento -, milhões de camponeses fuzilados, médicos, padres, intelectuais assassinados aos milhares: tudo isso nada prova aos olhos dum comunista. O Absoluto do Fim justifica e consagra todos os meios».

Leonardo Coimbra («A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre»).


«Comunismo é um estado de espírito. Um dia participei no programa do Bernard Pivot [na televisão francesa] que veio com essa: “Como é que você ainda se considera comunista?” Disse espontaneamente: “Acontece que sou uma espécie de comunista hormonal. Da mesma maneira que a barba me cresce, há uma hormona que fez de mim isto, e não posso deixar de o ser. Pode dizer-me: depois disto que aconteceu, e isto e isto; de acordo, tudo isso aconteceu, e parece-me mal que tenha acontecido, e condeno quem o fez. Mas isso não me tira o direito, e o dever, de ser aquilo que sou”. Ele riu-se muito…».

José Saragago (Público, 7 de Novembro de 2008).


«Veritas é a divisa da Universidade de Harvard. Como certos dentre de vós o sabem já e como os outros aprenderão no decurso da sua vida, a verdade começa a fugir-nos no próprio momento em que o nosso olhar diminui a sua atenção: nesse instante, escapam-nos pormenores e fica-nos a ilusão de que continuamos a segui-la. Numerosas dissensões vêm daí. E é preciso também saber que a verdade raras vezes é doce ao paladar: ela é quase sempre amarga».

A. Soljénitsyne (Harvard, Junho de 1978).






«Tive a oportunidade de contactar com os livros de Solzhenitisin em São Paulo. O interesse dos prisioneiros por tais livros era tal que acabavam por ficar completamente deteriorados pelo uso. Perguntar-me-ão como os consegui introduzir na prisão. Graças à ignorância do guarda que assistia à entrada da minha comida. Para ele era apenas um livro soviético... "um dos nossos". O Arquipélago de Gulag repetiu-se, de facto, em Angola, muitas vezes actualizado numa desumanidade maior...».

Américo Cardoso Botelho («HOLOCAUSTO em ANGOLA»).




Vegetar sob o jugo comunista





John Noble, um cidadão americano, viveu nove anos em diversos campos de concentração soviéticos. Relatou as suas experiências num livro intitulado «I was a Slave in Russia» («Era um Escravo na Rússia»), publicado pelo Cicero Bible Press, em Brodview, Illinois, USA. Na página 43 lê-se: «Apercebi-me mais de uma vez que a morte era a última coisa a recear dadas as condições do cativeiro, sob o jugo dos vermelhos». Noble refere-se, largamente, aos que se ocupavam das necessidades espirituais dos detidos. «Dois grupos de homens, resplandecentes de dedicação, entre os prisioneiros, elevavam-se acima da podridão e do envilecimento que reinavam no campo de Mühlberg: a clerezia e os médicos. Os padres católicos e os pastores protestantes iam muito mais além do desempenho do seu ministério religioso - e faziam-no em condições extremamente difíceis. Missas celebradas às escondidas num canto de um abarracamento, sermão pregado furtivamente ou cânticos proferidos em voz baixa atrás das latrinas. Os padres e os pastores - penso eu - executavam a sua tarefa da forma mais meritória possível (para os que não mergulharam na animalidade), dando prova, em todas as ocasiões, da maior humildade. Nenhum trabalho era desprezível ou repugnante para eles. Em cada humilde tarefa que executavam, quer no meio da fetidez das latrinas ou na espessa lama do exterior, esses homens transportavam no coração a fé abrasadora e inabalável que possuíam. Jean Noble descreve do seguinte modo as celas de uma das numerosas prisões: «A cela média, seis pés sobre três (1,80 por 0,90) tinha o tamanho de um armário de parede. Um leito de madeira quase a ocupava por completo.

As paredes eram de uma alvura ofuscante. E atrás da porta, e por cima do postigo, uma lâmpada de 400 wats permanecia acesa dia e noite, a ponto de dar a ilusão que a brancura das paredes se infiltrava em cada célula do meu cérebro. Entre os tabiques de duas celas havia uma abertura de metal, na qual - a partir das sete horas da manhã - crepitava lenha ou carvão para aquecimento dos prisioneiros. Ao meio dia esses tabiques estavam de tal modo quentes que não só não permitiam que deles nos aproximassemos como o seu calor húmido nos sufocava e nos encharcava de suor. À noite apagava-se o lume. As portas e os corredores, que davam para o exterior, tal como as celas - abertas de par em par -, deixavam penetrar o vento glacial. Não tínhamos cobertores e enregelavamos, tiritando com frio. Buchenwald foi catalogado como, virtualmente, um matadouro hitleriano e, no entanto, ouvi muitas vezes repetir, com desusada insistência, por prisioneiros que tinham estado em campos de concentração, primeiro alemães e depois soviéticos, que o tratamento era bem pior sob o domínio soviético.

John Noble foi transferido de Buchenwald para Weimar onde, após três anos de internamento, sem qualquer acusação, veio a saber que tinha sido condenado a quinze anos de trabalhos forçados num campo do arquipélago do Goulag. Durante esse longo cativeiro jamais contactou com qualquer advogado nem teve conhecimento de qualquer nota de culpa. Eis, segundo ele, como veio a tomar conhecimento da sua condenação: «Uma jovem sentada em frente de uma mesa formula as perguntas habituais respeitantes à minha identidade. Depois estende-me um impresso apenas com duas linhas escritas. A primeira continha o meu nome e tinha um pequeno espaço em branco com o número quinze escrito a meio. «O que é isto?», perguntei, apontando os algarismos. «Foi julgado em Moscovo e condenado a quinze anos de trabalhos forçados». No impresso estava escrito «trabalhos físicos».






Durante todos os anos que Noble passou por diferentes campos soviéticos nunca lhe foi permitido expedir um simples postal, e muito menos uma carta, e nunca teve direito a receber visitas. Eis uma curta passagem do seu livro que descreve a carruagem do comboio que o transportou para o Goulag, numa viagem que durou seis semanas. «Estava comprimido no meio de outros prisioneiros, os pés esmagados contra as paredes do vagão, as mãos apertadas sobre os flancos, o queixo apoiado no rebordo rugoso da tábua do meio. Era absolutamente impossível mudar de posição, de me distender ou de fazer o menor movimento. Duas vezes por dia conduziam-nos à retrete do comboio. Mas sucedia, com frequência, que os prisioneiros, não se podendo reter por mais tempo, aliviavam-se pelas calças, choramigando pelo ocorrido e conspurcando os companheiros da desgraça que estavam mais próximos. E apesar do infortúnio em que nos encontrávamos mergulhados era sobremodo difícil a alguns de nós não odiar esses desgraçados».

Noble trabalhou nas minas de Vorkuta quando se desencadeou uma greve provocada pelos presos informados da revolta dos alemães do Leste contra o regime comunista. Em Vorkuta circulava, de boca em boca, a notícia que os 20 milhões de prisioneiros do campo de concentração de Goulag também se tinham revoltado. A greve durou dez dias. Depois, numa bela manhã, vários milhares de presos foram atirados para um campo, onde lhes foi anunciado que iam ser entabuladas negociações para pôr termo ao conflito. Quando todos estavam juntos, os vemelhos apontaram-lhes as metralhadoras - forçando-os à rendição. Os sobreviventes regressaram imediatamente ao trabalho. Noble relata: «A minha existência em Vorkuta assemelhava-se a uma morte viva. Era como que uma dolorosa combinação de lenta e constante inanição e de acabrunhamento, monotonia que destruiu mais de um homem que gozava de melhor saúde do que eu».

Noble descreve também as torturas a que assistiu. E o que transcrevo aqui está bem longe de espelhar o pior. Ajudou a transportar até à cela um prisioneiro que tinha sido selvaticamente espancado, chicoteado. A pele foi arrancada desde as omoplatas, em toda a largura das costas até à cintura, e o tecido da camisa, que nunca despira, penetrou na carne viva. Durante cerca de uma hora, com um médico, também prisioneiro, retirou com infinitos cuidados os fragmentos de tecido incrustados nas feridas, tentando com precaução escolher os fios do tecido ensanguentado de preferência às parcelas de carne sanguinolenta. Quando acabámos esta dolorosa limpeza envolvemos as feridas com bocados de papel higiénico, a régia prenda oferecida pelo dispensário da prisão e o único «medicamento» a que tinhamos direito. O suplício do gabinete de desinfecção para a esterilização dos colchões, mais complexo e subtil, era executado por uma máquina metálica de imponentes proporções. Com as suas válvulas e os seus geradores a vapor, esta insólita caranguejola não era utilizada há muito. Os novatos não sabiam que ela não estava em condições de receber o vapor de água. E eram estes precisamente os lançados para a cuba transformada em instrumento de tortura. Quem fosse considerado culpado de ter cometido qualquer falta era atirado para dentro da cuba por guardas cujos modos brutais faziam compreender ao desgraçado que a punição seria terrível. O prisioneiro aterrorizado via os painéis de aço descerem e fecharem-se hermeticamente sobre ele, depois ouvia o ruído estridente dos ferrolhos que se uniam. No interior reinava a escuridão compacta e o detido esperava a todo o momento receber um jacto de vapor efervescente ou uma nuvem de gás tóxico. O desgraçado era deixado neste estado de medo abjecto e de incerteza durante um ou dois dias e só decorrido esse lapso de tempo é que os guardas consentiam em lhe abrir a porta. Muitos presos enlouqueciam depois desta diabólica provação. E poucos ficavam livres de doenças nervosas. A maior parte saía da cuba com os cabelos grisalhos e na generalidade dispunha-se a confessar o que quisesse.

Para além da tortura, os prisioneiros eram friamente abatidos sem a menor razão. Os soviéticos matavam porque, literalmente falando, um número tinha sido tirado à sorte ou porque sobre um documento sem importância, após um processo imaginário, alguém tinha decidido que determinada pessoa havia de morrer. As causas apresentadas, de antemão, para a matança eram completamente indiferentes para os homens incumbidos de executar tão triste tarefa, assim como, aliás, o conceito da própria morte.

Localização de Gulags na União Soviética




E eis a razão porque os gracejos trocados entre os guardas a tal respeito não eram estudados - eram espontâneos... A vida devia ser retirada a certos indivíduos cujos nomes se inscreviam nos quadros estatísticos do Estado. Os processos escolhidos para as execuções, a respeito dos quais os guardas se gabavam por vezes da sua humanidade, eram de extrema simplicidade. Quando um condenado estava despido, conduziam-no a uma ala parcialmente destruída da prisão - e, quando dobrava a esquina de um corredor, o guarda que o seguia matava-o com um tiro na nuca. Cada vez que um prisioneiro era abatido arrastavam o seu corpo até ao fim do corredor. No fim de um dia de matança, um amontoado de corpos seminus, agitados de estertores, jazia no solo do corredor sombrio e nojento. Os corpos eram então regados com gasolina. Um fósforo completava a macabra operação. As chamas desta fogueira espalhavam tal claridade que, por vezes, eram enxergadas por prisioneiros acantonados noutros abarracamentos. Se fossem pedidas explicações a estes carrascos sobre o que se passava respondiam que estavam a queimar lixo.

W. C. Bullitt, o primeiro embaixador dos Estados Unidos nomeado para a Rússia Soviética, no seu livro «A Talk with Vorochilov» («Uma Conversa com Vorochilov»), narra o episódio seguido ocorrido no início do reinado dos bolcheviques: no começo de 1919, segundo Vorochilov contou a Bullitt, persuadiu 10 000 oficiais czaristas de Kiev a renderem-se, prometendo que, se o fizessem, não só eles como as suas famílias seriam autorizados a regressarem a suas casas. Aceite a oferta, mandou-os executar bem como todos os filhos do sexo masculino - as mulheres e filhas foram enviadas para bordéis para satisfazer as necessidades do Exército Vermelho. De passagem mencionou que, nesses prostíbulos para a soldadesca, o tratamento proporcionado a essas pobres mulheres foi tal que nenhuma delas sobreviveu mais de três meses. Ufanando-se de um crime tão abominável, Vorochilov pensou que se conduziu como um bom marxista-leninista. Ter-se-á o marxismo-leninismo, desde essa data, humanizado como alguns pretendem fazer crer?

Ora, Khrushchev disse: «Todo aquele que pensa que abandonámos o marxismo-leninismo engana-se grosseiramente. Tal só sucederá quando os camarões assobiarem (in Fátima e a Grande Conspiração, Edições Fernando Pessoa, pp. 83-86).

Continua


domingo, 17 de junho de 2012

Obviedades estratégicas

Escrito por Olavo de Carvalho







Diário do Comércio, 6 de fevereiro de 2012

Se vocês querem algum dia ter no Brasil um movimento conservador vigoroso, apto a conquistar e exercer o poder, comecem por meditar os seguintes pontos:

1. Os grupos que dominam a política, a mídia e o mercado livreiro provêm das universidades e especialmente do movimento estudantil. A elevação dos líderes estudantis às posições de poder leva aproximadamente trinta anos. Quem domina as universidades hoje dominará o país em trinta anos.

2. Dominar as universidades não é um processo espontâneo. É o resultado de um trabalho sistemático de ocupação de espaços, de remoção dos adversários, de interproteção mafiosa e de conquista progressiva dos altos postos, que não rende frutos em menos de uma geração: mais trinta anos, que podem se reduzir a dez porque a conquista da hegemonia universitária e a formação da nova geração de estudantes não são fases estanques, mas fundidas e superpostas. O tempo necessário para a formação de um movimento político viável é, pois, de quarenta anos aproximadamente.

O acerto desse cálculo é ilustrado por exemplos inumeráveis. Data dos anos 60 o início da conquista das universidades da Europa, dos EUA e da América Latina pela “nova esquerda” inspirada na Escola de Frankfurt e naquilo que seus críticos viriam a rotular, sem muita precisão, de "marxismo cultural". Decorridas quatro décadas, a ideologia do “politicamente correto”, do feminismo, do gayzismo, do abortismo, do racialismo e do ódio anti-ocidental e anticristão dominava, e domina até hoje, a política, a mídia e o mercado editorial em toda essa área – um terço da superfície terrestre.

3. O trabalho de conquista, primeiro das universidades, depois do poder em geral, depende de duas condições: (a) só pode ser empreendido por organizações estáveis e duradouras, capazes de esforço concentrado e sistemático ao longo de pelo menos duas gerações; (b) exige organizações que estejam firmemente decididas a realizá-lo e que vejam nele a sua obrigação mais essencial e incontornável, ao ponto de sacrificar a ele todos os seus demais interesses políticos, sociais, culturais, financeiros etc.

Em todo o planeta, há quase dois séculos, só se interessaram seriamente por esse objetivo as organizações ligadas ao movimento revolucionário mundial em todas as suas variantes internas (comunismo, nazifascismo, terceiromundismo, “nova esquerda” etc.) Nenhuma outra. Não estranha que a mentalidade revolucionária, em suas várias versões, incluindo as mais inconscientes de si próprias, tenha se tornado a chave dominante do pensamento político – e até da moralidade pública – em todo o mundo ocidental. Hoje em dia, uma nova versão do movimento revolucionário – o radicalismo islâmico – está fazendo um sério, bem organizado e bem financiado esforço para conquistar as universidades da Europa e dos EUA. Se esse esforço for bem sucedido, será impossível evitar a islamização forçada do Ocidente no prazo de uma ou duas gerações.






4. Os grupos conservadores, liberais (no sentido brasileiro), cristãos, judeus sionistas etc. têm-se limitado a opor à hegemonia revolucionária nas universidades o combate intelectual, a “guerra cultural” ou “luta de idéias”. Apostam nisso o melhor das suas forças. Mas é estratégia absolutamente impotente, pois o que está em jogo não é realmente nenhuma “luta de idéias” e sim uma luta pela conquista dos meios materiais e sociais de difundir idéias – coisa totalmente diversa. Você pode provar mil vezes que tem a idéia certa, mas, se o sujeito que tem a idéia errada é o dono das universidades, da mídia e do movimento editorial, o que vai continuar prevalecendo é a idéia errada. Basta ler revistas como New Criterion ou a Salisbury Review para notar que, em comparação com a “esquerda”, os conservadores têm hoje uma superioridade intelectual monstruosa. Nem por isso eles mandam no que quer que seja. Em política, a superioridade intelectual tem apenas um valor instrumental muito relativo. Se você não sabe usá-la para quebrar a autoridade do adversário, para tomar o cargo dele e colocar lá alguém da sua confiança, ela não serve para absolutamente nada. O movimento revolucionário já entendeu há tempos que “ocupar espaços” não é vencer debates letrados. Concentrando-se na “luta de idéias”, recusando-se nobremente a praticar a ocupação de espaços, a infiltração nos postos decisivos e o boicote aos adversários, os conservadores deixam a estes o exercício do poder e se contentam com a satisfação subjetiva de sentir que são mais inteligentes e moralmente melhores. O senso solidariedade mafiosa, então, escapa-lhes por completo. Dificilmente um conservador ou liberal chega a reitor, a ministro ou mesmo a diretor de departamento, sem imediatamente rodear-se de auxiliares esquerdistas, só para provar a si próprio (e para grande satisfação do adversário) que seu respeito pelas pessoas está “acima de divergências ideológicas”. Essa boniteza moral é fonte de tantos malefícios políticos, que chega a ser criminosa.

5. A luta pela ocupação de espaços pode comportar uma parte de debate político-ideológico, mas tem de ser uma parte bem modesta. O essencial não é vencer as “idéias” do adversário, mas o próprio adversário, pouco importando que seja por meios sem qualquer conteúdo ideológico explícito. Trata-se de ocupar o seu lugar, e não de provar que ele está do lado errado. Isso se obtém melhor pela desmoralização profissional, pela prova de incompetência ou de corrupção, pela humilhação pública, do que por um respeitoso “debate de idéias” que só faz conferir dignidade intelectual a quem, no mais das vezes, não tem nenhuma.


quinta-feira, 14 de junho de 2012

A angústia do nosso tempo e a crise da Universidade - Por António Quadros

Escrito por Orlando Vitorino








«O. V. começa por fazer a descrição crítica do nosso actual ensino (...) subordinado a uma visão colectivista, marxista e reducionista (...) e que fomenta uma igualização ou uniformização pelo inferior destinada a forjar inferiores ou escravos (...) Depois da crítica, O.V. propõe, não só a extinção da Universidade, o reconhecimento de todas as formas de ensino livre e o abandono do predomínio do Estado na organização do ensino, mas também o primado da filosofia no ensino, entendendo-se que todo o ensino depende, não de uma filosofia, mas da filosofia (...) Seguindo a ideia, já defendida por Leonardo Coimbra e Delfim Santos, de que as reformas não conseguirão nada, o autor faz a proposta de um ensino completamente diferente...».

António Quadros (in «Tempo», 18/1/85).


«Temos apresentado e repetido - em folhetos, em artigos, em conferências e em livros - todos os argumentos que concluem pela necessidade de extinguir a Universidade. No entanto, desde o Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra até ao caloiro da Faculdade de Direito e seus aflitos pais, todos nos pedem explicação dessa proposta. Estou cansado de a repetir para, em todos os casos, acabar por obter a concordância de quem a pede. A extinção tem inúmeras razões, desde o estabelecimento da autonomia do ensino superior, autonomia sobretudo científica, até ao facto de a Universidade, estatizada há dois séculos e marxizada há uns quarenta anos, condicionar e determinar toda a organização do ensino, que é, como se sabe, caótica e insusceptível de reforma. É preciso extingui-la para, em vez dela, criarmos escolas privadas de ensino superior.

Como lhe observássemos que já existem entre nós escolas privadas de ensino superior - a Universidade Livre e a Universidade Católica - Orlando Vitorino esclarece:

Essas Universidades só administrativamente são privadas. O seu ensino, a sua didáctica, os seus métodos, os seus cursos, até os seus professores são os mesmos da Universidade do Estado que lhes serve de modelo, modelo imposto como condição para que os respectivos cursos sejam reconhecidos pelo Ministério da Educação, todo ele infiltrado de comunistas nos lugares-chave».

Orlando Vitorino (in «A Capital», 4/11/85).




A angústia do nosso tempo e a crise da Universidade – Por António Quadros


Este livro de António Quadros vem alinhar na vasta bibliografia que, sobre o problema do ensino, nos nossos dias se alarga, através das gerações contemporâneas, desde António Sérgio e desde Marcello Caetano e Delfim Santos, até Lobo Vilela e Magalhães Godinho, e até Álvaro Ribeiro e Afonso Botelho.

A determinação do problema como sendo uma crise da Universidade e que é, portanto, solúvel mediante uma reforma da instituição, encontra-se em António Sérgio, Marcelo Caetano e Delfim Santos.






A determinação do problema da Universidade como sendo um obstáculo ao desenvolvimento da cultura e que, embora solúvel, faz depender a solução de uma reforma da mentalidade e não apenas da instituição, encontra-se em Álvaro Ribeiro e Afonso Botelho, sobretudo no livro do primeiro: O Problema da Filosofia Portuguesa.

No seu recente livro, António Quadros parece inclinar-se para repor o problema como uma crise institucional e não como um obstáculo cultural. Para isso adopta, por um lado, a relação do ensino com a expressão geracional, relação esta de que se ocupa a parte mais valiosa do livro de Afonso Botelho: O Drama do Universitário – mas substitui o tradicionalismo católico deste escritor pela temática do existencialismo de que ele se afirma, entre nós, o mais operoso representante.

Por outro lado, considerando estabelecidos já os factores da reforma da mentalidade, António Quadros transfere para a cultura, portanto na forma de resultados definitivos, aquilo que, na obra de Álvaro Ribeiro, é processo de revelação pela filosofia. Admite, por conseguinte, o primado que a mentalidade, isto é, os valores espirituais dominantes, e a vivência existencial, ou seja a necessidade de afirmação cultural do Homem, ocupa na solução do problema do ensino.

Mas espera que, por meio de uma reforma das instituições, as Faculdades universitárias sejam susceptíveis de se adequar simultaneamente às exigências espirituais que o ensino supõe nos alunos e às fontes de cultura que os alunos supõem no ensino. António Quadros coloca-se assim dentro de um problema que sempre preocupa os escritores com maior responsabilidade pela cultura, e fá-lo de modo pessoal e original, que procura seja também optimista e construtivo.

Bem compreendemos como é difícil, a quem trate este problema, passar da crítica do ensino, nos justos termos em que ela é feita, à consequente viabilidade de uma solução dentro das instituições tradicionais. Não o conseguiu nenhum dos autores citados, nem, que saibamos, isso foi alcançado na vasta bibliografia portuguesa sobre o problema do ensino. Por civilizado respeito pelas instituições? Por atavismo e formação? Por prestígio social dos títulos universitários? Pela impossibilidade de substituir ao ensino institucional um ensino verdadeiro?

Seja por que for, o certo é que nisso está uma infindável origem de contradições que nelas logo absorvem ou fazem frustrar as sempre necessariamente parciais soluções apresentadas em obras individuais, em planos ou relatórios, em esperanças postas numa reforma ou numa infindável sucessão de reformas das sempre idênticas instituições. Tudo delas se discutindo e criticando e condenando, só a elas se não discute e critica nem condena. Porque tudo que se discute, é por partes que se condena e reforma.

Reformou-se o ensino do latim, por motivos que estão nos argumentos largamente expostos por António Sérgio. Mas se analisarmos tais argumentos, verificamos que eles são igualmente válidos com as inevitáveis variantes, para a quase generalidade das disciplinas liceais. Por que se critica e condena então apenas o ensino do latim? Para não perdermos a esperança nas instituições!

Não vemos na secular história das instituições de ensino exemplos bastantes para podermos falar na possibilidade de uma fecunda relação universitária de mestre-discípulo. Mas fomos discípulos de Leonardo Coimbra. E embora saibamos que só ocasionalmente Leonardo Coimbra foi professor universitário, embora não tenhamos sido seus alunos na Universidade – como José Marinho, como o Padre Dias de Magalhães – ao seu magistério atribuímos um exemplo fecundo do ensino universitário. Para quê? Para não perdermos a esperança nas instituições e assim sermos o reverso do poeta que «onde punha a esperança as rosas murchavam logo».



António Quadros



Bem vemos, pois, como é difícil tratar este problema do ensino. Mas se somos escritores e se somos senhores da nossa responsabilidade poderemos deixar de o tratar? E, ao tratá-lo, poderemos levar às evidentes consequências a crítica, que é o ponto de partida? Ou será, noutro extremo, o problema insolúvel? E se o é, podemos aceitá-lo como tal ou iludimo-nos em sucessivas, frustradas soluções? E todos nós, desde António Sérgio, que ainda terá vivido a grande esperança na reforma constitucional da República, desde Marcello Caetano e Delfim Santos, que viveram a confiança num poder quase criador do Estado, desde Magalhães Godinho, que tudo transfere para uma alteração mais estadual do que real, até Álvaro Ribeiro, que não desespera onde as rosas murcharam, e quando olha Saturno já vê nascer Apolo; até Afonso Botelho e António Quadros, últimos companheiros no mesmo drama, que já é mais vivo nos que se lhes vêm seguindo – todos nós havemos de sofrer ou de sorrir, com paciência ou com ironia, a esta velha história de que o «rei vai nu».

Todos nós o vemos nu, mas creio bem que temos já os ouvidos fechados à voz do primeiro homem de coragem que há-de conseguir gritar-nos isso que todos nós estamos vendo (in Diário Popular, ano XV, n.º 5047, Lisboa, 24 de Agosto, 1956, pp. 17 e 19).