quinta-feira, 7 de junho de 2012

Homens e mulheres (iii)

Escrito por Álvaro Ribeiro








«Entram as sociedades em desagregação quando esquecem, ou desconhecem que a vocação da mulher consiste essencialmente na maternidade, no amor pelo varão eleito, na dedicação pelos que sofrem. Desviar a mulher do seu caminho natural, propondo-lhe fins artificiais ou artificiosos, a que só por prestígio é dada a aparência de elevados, equivale a perverter a mentalidade feminina. A perversão será sempre perversão forçada onde houver instrução e ensino comuns a ambos os sexos.

A doutrina de que o ensino das escolas para o sexo feminino não deve ser igual ao ensino das escolas para o sexo masculino, é a doutrina da educação sexuada, o que facilmente se entende e se aprova logo que se der à palavra sexo o significado sociológico que lhe convém. Há que preservar, pelo menos durante o período que vai da infância à puberdade, as faculdades próprias da alma feminina, cujo desenvolvimento será vantajoso para a harmonia social. Esta precaução não vai de encontro ao movimento reivindicador de iguais direitos civis para ambos os sexos, nem retira à mulher a possibilidade de frequentar as mesmas escolas especializadas, de exercer as mesmas profissões sociais, ou de cumprir os mesmos deveres políticos que os homens.

A existência de dois tipos de ensino, com programas, métodos e livros diferentes, permitirá a existência de duas perspectivas perante a mesma realidade, uma e outra indispensáveis à ciência. A cultura feminina e a cultura masculina, apresentando-se como complementares, exercem na sua reciprocidade estímulos convenientes para melhor compreensão do Universo. Educados diversamente até à puberdade, e habilitados depois para diferentes funções sociais, os dois sexos mutuamente corrigiriam as teorias unilaterais e uniformizantes que atrasam ou paralisam a evolução da humanidade.

A tendência da alma feminina para a personificação, para compreender mais facilmente as relações de pessoas com pessoas, do que as relações das pessoas com as ideias e com as coisas, é doutrina assente nos bons livros de psicologia. É pessoal a mediação da mulher com o Universo. Transferindo para a pedagogia os ensinamentos da psicologia, facilmente chegaremos à conjectura de qual deva ser a didáctica do jogo, da arte e do trabalho na escola feminina».

Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).


«...O que de divino os pagãos atribuem às mulheres - a insaciedade nunca satisfeita, a possessão sem limites, a crueldade inesgotável - faz delas, ao exercerem poderes como são os da política, o pior dos flagelos. Exemplo: Indira Gandhi esterilizando os homens para travar o crescimento demográfico.


Mahatma Gandhi e Indira Gandhi (1920).




 Indira Gandhi




Yasser Arafat e Indira Gandhi




O que de divino os cristãos atribuem às mulheres - dádiva sem reservas, ternura sem descanso, dedicação sem fronteiras - faz delas, ao exercerem poderes como são os da política, vítimas flageladas: quantas Joanas d'Arc queimadas por bruxaria».

Orlando Vitorino («O processo das Presidenciais 86»).



«Ah! mas o teu olhar não tem fundo, através dele eu vejo o Universo.

Ele é para a minha alma uma janela donde olho Deus».

Leonardo Coimbra («Adoração»).



Exemplos destes podem ser extraídos dos diálogos que constituem peças de teatro, mas também dos diálogos que formam parte indispensável dos contos, dos romances e das novelas. Agrupando tais exemplos por suas semelhanças retóricas, poderemos ver que os respectivos grupos se classificam e escalam segundo um critério muito interessante.

Consideremos, por exemplo, o insulto, e não esqueçamos que ele tem um poder mágico. A injúria é, por isso, mais do que uma agressão; é uma forma de domínio sobre a outra pessoa, ou um processo de a convencer de que não possui o valor que a si própria se atribuía. É um juízo de não valor. Ainda que a pessoa ofendida resista pelo orgulho a acreditar nesse juízo, fica, no entanto, sujeita a proceder como se acreditasse, a tirar vingança, a corrigir os defeitos de que toma consciência. Sugestionada, tende por fim a relaxar-se com o defeito incorrigível. Se a injúria não tivesse este efeito, ninguém compreenderia que ela soasse inutilmente, como um flatus vocis.

Consideremos, em segundo lugar, o processo feminino de atribuir ao homem intenções que ele não tem, e sobre essa hipótese reconstituir a motivação dos actos masculinos. O homem vê-se embaraçado para justificar, explicar e enunciar os motivos do seu procedimento, mas é quase sempre dominado pela retórica da mulher.

Neste domínio, a mulher inculta mostra-se muito melhor psicóloga do que os políticos doutorados. Estes conhecem os motivos gerais das acções humanas, dizem que determinado sujeito se move pelo medo, pelo interesse ou pela ambição, procedem a argumentos retóricos. Ignoram, porém, que o homem é um ser pensante, e que o essencial está em saber como é que cada pessoa pensa o seu medo, o seu interesse ou a sua ambição. Sem este conhecimento, o político erra, porque só tem diante de si a estatística.

Em terceiro lugar a mulher actua pelo processo da sugestão que é o recurso à mentira. Ela conhece, digamos assim, os pontos fracos do homem, e agudamente lhe incute desconfiança sobre o seu próprio valor. O processo mais frequente é o de obrigar o homem a pôr em dúvida o valor da memória, levá-lo a admitir que por vezes esqueceu os factos de que foi testemunha, e até as promessas que não cumpriu. Como, entre nós, a memória costuma ser desprezada, visto que o ensino público permite julgar que a boa memória não é sinal de inteligência, o homem não se sente humilhado com a acusação de esquecido, de distraído ou de desatento. Ao ceder, assim, por fraqueza, fica privado da luz espiritual que permitiria argumentar contra a mulher.






É curioso observar, num estudo de retórica, que os mesmos esquemas servem para a mulher se reconciliar com o homem. Bastará preenchê-los com valores opostos na mesma axiologia.

Dominando a economia doméstica, e determinando os encargos da casa, a mulher tem a  possibilidade de demonstrar que não basta ao sustento da família o salário, o ordenado ou o vencimento obtido por trabalho honesto. Na incessante repetição dos seus dizeres aflige o homem até ao momento em que ele, desesperado, toma uma decisão imprevista, mas subordinada aos imperativos do seu carácter moral. A mulher, capaz de realizar maravilhas de economia doméstica, para garantir a alimentação e a educação dos filhos, não se eximirá a atormentar o marido com sucessivas exigências que aumentam os encargos familiares mas que satisfazem as suas ambições.

Muitos homens casados se vêm assim obrigados a desistir das profissões intelectuais a que haviam sido chamados por vocação, e na frenesia de ganharem mais dinheiro que ostentam no lugar da casa em que a mulher domina, desistem de exprimir o seu talento ou de revelar o seu génio em obras de arte. Este caso, frequente entre os escritores, será talvez o mais eloquente para demonstrar que o homem do nosso tempo ignora efectivamente o que seja o amor.

Alegar-se-á, talvez, que esta descrição se encerra no quadro da sociedade burguesa, e que a sociedade burguesa tende a desaparecer. Será talvez, assim. Nessa hipótese, admitamos também que, em consequência do progresso socialista, o homem beneficiará com o adiantamento da cultura estética, ética e religiosa. Efectivamente, quanto mais educado, mais instruído e mais culto for, tanto mais desejará que a mulher amada se afaste dos trabalhos que a desfeiam, debilitam ou envelhecem. A natureza tende a ser aperfeiçoada pela graça. O homem, deixando de ter o egoísmo brutal que observamos nas civilizações decadentes, será cada vez mais afectuoso para com a sua companheira, liberta-la-á de todas as espécies de servidão, preferirá admirá-la e exaltá-la sem fim. Casado, o homem desejará que a mulher concilie a conservação dos seus encantos com a atenção aos deveres domésticos, e não manifestará gratidão para com a mulher que, por motivos moral ou economicamente respeitáveis, ignore a higiene, despreze o toucador, descure o vestuário, desdenhe da moda, abandone o lar. O que o homem não encontrar na sua casa, procura-lo-á em casa alheia. Eis o motivo principal dos casos de adultério masculino (14).

O homem sofre, e a sua dor só encontrará anestesia, calma ou prazer junto da mulher. Se não obtiver a felicidade do amor, ou porque seja obrigado a manter-se no estado de celibatário, ou porque seja incapaz de chegar a ajustamento afectivo com a mulher que escolheu, procurará compensar a sua frustração pelo exacerbar do instinto agressivo. Este reflexo da vida familiar nota-se na vida profissional, no comportamento para com os subordinados, para com os colegas e até para com os superiores, mas torna-se mais do que notável, porque evidente, onde a opinião se transforma em acção, queremos dizer, na vida pública. O homem infeliz no amor progride às cegas numa estrada ladeada pelo crime ou pela loucura.






Há que integrar o estudo dos factores afectivos na ciência ou disciplina que costuma ser designada por ética. As doutrinas alemãs, que acima de tudo postulam o dever, a obediência ou a vontade, mostraram-se insuficientes para garantir os valores morais. O dever é como a dívida, pressupõe uma restituição ou um regresso. Não é uma graça, como a dádiva. Efectivamente, só a religião do amor, em tudo contrária à religião da dor, só a religião da dádiva em tudo oposta à religião da dívida, se mostrou até agora capaz de estimular o aperfeiçoamento ético da humanidade. Mal vai ao educador que prefere fixar-se na servidão a uma ideologia, em vez de enfrentar estas verdades, ou quando postula, isto é, pede e exige, uma ética inadequada às condições do nosso tempo. O voto de castidade, pobreza e obediência, por muito admirável que seja, só pode ser cumprido por homens superiores, e em perfeitas condições de liberdade. Não é lícito propô-lo à maioria dos seres humanos, nem fazer dele um princípio regulativo do procedimento moral. Faltando à verdade, os homens enredam-se em legislações confusas ou encareceram-se em instituições complexas, que os tornam infelizes, sem que do sofrimento resulte sequer um estímulo de redenção.

Convém que o homem reconheça que a sua infelicidade provém da frustração no amor, e que não receei proclamar a verdade. Importa, a seguir, demonstrar que a mulher também não poderá ser feliz numa vida que a afaste do amor, da maternidade e da família.

Incitar a mulher a que troque o ambiente da família pelo ambiente da escola, incitar a rapariga a que estude em escolas análogas às dos rapazes, sem conhecer a utilidade ou o destino de tais estudos indiferenciados, é um erro social. Toda a escolaridade que a mulher sofrer depois da adolescência estará longe de contribuir para o desenvolvimento da personalidade feminina. Motivos diversos, entre os quais o desejo de se libertar da tutela dos pais, ou da pressão moral do ambiente da família, impelem a adolescente a prolongar os seus estudos em escolas instituídas para rapazes, mas sem finalidade profissional, como o liceu, ou destinadas a profissões masculinas. Ninguém contestará o direito de a rapariga se inscrever nessas escolas, de obter os respectivos diplomas e de exercer as respectivas profissões, porque ninguém deseja ouvir as reivindicações feministas acerca da igual liberdade para ambos os sexos. O argumento de que as condições sociais, ou as barreiras jurídicas, hajam impedido a revelação de génios entre as mulheres que se dedicaram às artes, às letras e às ciências, deve ser afastado da retórica política, para que, depois de estabelecida a igualdade, se torne ainda mais evidente a desigualdade que resulta das diferenças naturais. Assim se fará ver que, constituída como estiver a sociedade, sempre os medíocres se hão-de coligar contra os homens de génio, de modo tal que sobrevivam na fama apenas aqueles que conseguiram vencer todas as adversidades (in ob. cit., pp. 133-138).


(14) Gina Lombroso, La Femme dans la Société Actuelle, Traduit de l'italien par François Le Hénaff, Paris, 1929.

Continua


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