terça-feira, 3 de setembro de 2013

A Teoria da Verdade (ii)

Escrito por Orlando Vitorino





«Emerge o espírito do ser da verdade na cisão, emerge plenamente como aquele a quem a cisão não afecta em ponto algum e de maneira alguma. Pois ele é, como o que autenticamente é, e nenhum ser é e se não diz de ser algum, o único para nós do unívoco da visão e de toda a ciência humana ou divina, o que assume o Nada, e ele é, como se fosse, no princípio de toda a cisão, e a suporta em si como aquele a quem carência alguma e desejo algum e a amor algum afecta, e de nenhuma acção carece nem paixão. Esse, claro mistério e pleno sentido da união suma e inalterada de todo o ser e toda a verdade, é o de que participa não só tudo quanto pensa e se pensa e é de algum modo consciente, mas tudo quanto é para nós como o que nem pensa nem se pensa nem se revela consciente e é apenas como objecto, imagem para a consciência finita. Por ele emerge da cisão com sentido tudo quanto vemos ou não vemos, sabemos ou temos por sabido, ignoramos ou temos ignorado, e tudo quanto apenas a alma profunda longinquamente assinala, tudo quanto só nos é dado apreender quase sempre remoto, indeciso e incerto».

José Marinho («Teoria do Ser e da Verdade»).



9. Os leitores que pensam – e só escrevemos para leitores que pensam – já relacionaram quanto vimos dizendo sobre civilização, sua exclusiva formação pela filosofia, sua radicação, desenvolvimento e conservação nos povos que existem como nações e repúblicas, se organizam em Estados e se unificam em Pátrias, os leitores já relacionaram e formaram o silogismo da iniludível interdependência de civilização, pátria e filosofia. Tal como se diz numa língua, a filosofia situa-se numa Pátria e por ela se expande em civilização.

A filosofia francesa é o racionalismo cartesiano, a filosofia alemã é o racionalismo idealista, a filosofia portuguesa é a teoria da verdade.

10. Considerada no seu sistema – e todo o pensamento filosófico é sistemático - a “filosofia portuguesa” enuncia, reúne e articula as teses que lhe são peculiares. A primeira das teses, primeira na ordem mais didáctica de exposição do sistema e também a que imediatamente singulariza a “filosofia portuguesa”, é aquela que José Marinho enuncia assim: “o ser enquanto ser é ilusório”.

Álvaro Ribeiro, por sua vez, demonstra como o que se diz o ser não é mais do que a gratuita substantivação, com a suposta substancialização do que se pretende substantivar, da forma verbal intransitiva utilizada para indicar a predicação que, desde a Escolástica até Kant e até às escolas dos nossos dias, erradamente se confunde com o logismo e se faz deturpar no juízo para chegar à fórmula kantiana adoptada por toda a filosofia moderna posterior: “pensar é julgar”.

Afirma-se, pois, que “o ser enquanto ser é ilusório”. Ao dizer-se ser ou ao dizer-se que é, significa-se, primeiro, a relação com um predicado que vai dizer-se a seguir, significa-se depois o acto ou a possibilidade de pensar, visto que pensar é descobrir predicados ou atributos, mas não se significa o que quer que seja dos predicados, não se significa o ser.



Orlando Vitorino



O bom e claro entendimento desta primeira tese da “filosofia portuguesa” remove os preconceitos transmitidos na cultura da filosofia, que só constituem obstáculos impeditivos do autêntico e vivo pensamento filosófico. Ao mesmo tempo, permite saber distinguir a “filosofia portuguesa” dos culturalismos que nos diversos países se institucionalizaram como “culturas oficiais” e são o negócio de universidades e congressos. Utilizando a terminologia filosófica grega adaptada e filtrada pela terminologia germânica, tais culturalismos inspiram-se, mais ou menos, expressamente, nalguma mística do inefável, nalgum indecifrável orientalismo, enredam-se em teologias encerradas na fidelidade a alguma religião, compõem a chamada modernidade e não passam de sucessivas variações sempre conducentes a nenhures de uma sempre mesma e insustentável “teoria do ser”. A filosofia portuguesa, repetimos, é uma “teoria da verdade”.

11. Deve entender-se por teoria o que é visto e cumulativamente pensado. Por isso, José Marinho começa a exposição da TEORIA pela visão a que chama visão unívoca. Unívoca, diz ele, para evitar o termo “universal”, para evitar “o equívoco universal”.

É essa visão a da unidade do ser e da verdade. Aqui, bem como no título dado à exposição da TEORIA, “Teoria do Ser e da Verdade”, estará vendo o iniciando mais apressado alguma incompatibilidade com a tese de que o ser é ilusório. Mas logo a incompatibilidade se desvanece quando se entender, como se deve entender, que o que aqui se diz ser é o que a verdade é.

Forçoso nos é adiantar que a verdade se torna verdade que é, ou se cinde em verdade e verdade que é, para poder saber-se a si mesma. Aqui tem início a “doutrina da cisão” e também desde já adiantamos que a TEORIA se compõe de duas doutrinas complementares: a doutrina da cisão e a doutrina do espírito. Pela cisão tem origem tudo o que há, todo o real. A cisão, porém, separa da verdade e na separação está a origem do erro e do mal. A doutrina do espírito restitui à verdade, em vez de separar une, descrevendo um movimento de retorno, inverso ao da cisão.

O que, por enquanto, importa é fixarmos que em tudo o que há está a verdade e que a visão unívoca é a visão disso mesmo, é portanto a comunicação da verdade. Diz-nos José Marinho que a todos os homens ela é dada, mas raros são aqueles que a não recusam.

Recusam-na, essencialmente, pelo temor de pensar, e de novo temos de referir o amor do saber, ou a filosofia, porque só ela é capaz de vencer o temor de pensar, tão comum aos homens.

12. Se, na ordem de exposição, o ponto de partida da TEORIA é a visão unívoca, na ordem do pensamento é a verdade.

Da verdade em si mesma, da verdade que não é, não há imagem nem representação alguma, não há conceito nem ideia.



José Marinho



Se da verdade não há imagem, não há por conseguinte visão. Foi o que a remota mitologia quis sugerir ou significar ao afirmar, segundo o dito de Eudoro de Sousa, que “quem vê Deus morre”.

Da verdade não há conceito. Porque só há conceito do verdadeiro que é, como já sabemos, o que está contido na verdade. Os que, escolásticos e modernos, se arrogam conceber a verdade, são os mesmos que a reduziram a critério do verdadeiro e, depois, a certeza.

Da verdade não há ideia. Porque só há ideia do género em que se reúnem espécies e indivíduos e do geral em que se geram espécies e indivíduos.

Dizemos que da verdade só temos a noção. O étimo da palavra está presente em conhecimento e gnose, conhecimento do empírico e imanente, gnose do sublime e transcendente. Indefinidamente utilizada, portanto menos deturpada e cousificada, a noção preservou a sua própria referência a nous, ao espírito. E como o espírito paira sobre o real, sobre as águas do real, e “sopra onde quer”, como tão depressa está, ou substá, tão depressa não está, ou se esvai, como é cumulativamente insubstancial e substante, diremos que a noção é a que mais se adequa ao que podemos significar como saber da verdade. Porque tudo é para saber a verdade. Até o mesmo ser da verdade ou Deus.

13. Se assim chegamos aonde, na ordem do pensamento, tem início a TEORIA, convém, no entanto, uma prevenção.

Logo, na abertura da sua exposição da TEORIA, José Marinho nos adverte da inadequação do conhecimento à filosofia. A advertência vale o que vale a refutação que Álvaro Ribeiro faz do método, determinação característica do moderno pensamento científico e sua filosofia. Método, ou caminho, diz-nos Álvaro Ribeiro, é o que vai de um lugar conhecido até outro também conhecido. “Conhecimento, diz-nos José Marinho, supõe diferença entre ser e verdade, implica e significa distância e incoincidência real ou sempre virtual” enquanto na TEORIA, no “mais puro saber”, “não há distância de algum ser para ser, de alguma verdade para a verdade e saber a verdade”.

A alusão a Descartes, implícita na refutação do método, e a Kant, implícita na refutação do conhecimento, equivale à afirmação de nova singularidade da “filosofia portuguesa” perante a “filosofia moderna”. Alusão mais clara àqueles famosos pensadores norte-europeus acrescenta José Marinho: “o conhecimento surge como milenário e vão propósito frustrado ou adiado dos filósofos imprudentes em sua mesma prudência” o qual “sem nunca chegar a ser, queda anulado: anulado tal e tanto como no infindo e insubsistente decorrer que se assemelha infindo”.

14. Afastado o valor filosófico do conhecimento, adiantaremos que com ele se afasta o que tem sido, na modernidade, obsessiva preocupação: procurar no conhecimento científico a garantia do pensamento filosófico, referenciar a filosofia, domínio do pensamento e do saber, à ciência, domínio do método e do conhecimento.

É certo que à filosofia nada do que há convém ignorar. A filosofia é sempre, não só sistemática, mas enciclopédica. Mas a sua verdade não a recebe ela de nenhuma referenciação ao que lhe é circunstancial, até complementar, desde a ciência à poesia, desde o direito à política, mesmo quando o utiliza como veículo da sua comunicação. Quando aparece como “filosofia do direito”, por exemplo, não é para receber do direito a sua verdade nem a verdade do direito.


O mesmo se dirá quanto à arte, à poesia, à política, à religião e, sobretudo, à ciência. A obsessiva preocupação dos filósofos modernos com a referenciação da filosofia à ciência só pode resultar, como tem resultado, fatal à filosofia. Na ciência, domínio do conhecimento, repetimos, ou da investigação para adquirir conhecimento e o aplicar com eficácia dominadora e técnica, a filosofia só pode encontrar obstáculos e embrenhar-se em selvas obscuras e ínvias.

De outras referenciações, em especial da arte e, na arte, da poesia, em especial da política, que é o mesmo que direito, poderá ela receber contribuições reais, positivas e até essenciais: da poesia, a metáfora que prepara a passagem à inferência e ao silogismo: do direito, os conceitos que, sendo-lhe próprios como o individualismo e a propriedade, nele encontram sua realização positiva e concreta.

Deve, pois, abandonar-se e combater-se a obsessiva preocupação da filosofia moderna pela ciência moderna e a eficácia que ela arvora em critério de verdade. A eficácia científica pouco ou nenhum valor de verdade possui e apenas resulta, como hoje está bem claro e aterrorizador, não no domínio das forças da natureza mas também na destruição da natureza.

A “filosofia portuguesa”, que é certo ter começado em Leonardo Coimbra, pela perseverante, esgotante e, ao fim, frustrada e decepcionante tentativa de dar a razão da ciência moderna, acabou por se desenvolver despreocupada, senão indiferente, com a certeza científica, remetê-la para o domínio do velho titanismo e procurar a feliz complementaridade noutros domínios; na arte, na poesia, na política, na religião, no direito, até na economia. Da ciência apenas quis reconstituir ou reactualizar o pensamento científico clássico e não deixou de atender àquele racionalismo cartesiano que o vazio cientismo das certezas e eficácias já hoje considera coisa extinta.

15. Havíamos, pois, alcançado os umbrais onde tem início a TEORIA. Havíamos já visto que, ao interrogarmo-nos sobre o que há, em vez de dizermos, como se ensina na escola, que “tudo é ser”, antes diremos que “tudo é verdade”. E já, quanto ao ser, sabemos porquê: porque o ser é ilusório, como expõe José Marinho; porque o que se diz o ser, como expõe Álvaro Ribeiro, é apenas um modo de dizer a receptividade da predicação.

Saberemos quanto à verdade, que ela contém todos os predicados possíveis pois é evidente que não pode haver predicado que não seja verdadeiro. Quando digo “o céu é azul” só o posso dizer porque é, na verdade, azul.

Claro que, levados pela milenária obsessão do “ser enquanto ser”, somos tentados a considerar que o predicado é verdadeiro, não porque se contenha na verdade, mas porque convém ao ser que, no caso será o céu; se, porém, reflectirmos um pouco, logo veremos que entender que “o céu é o ser” é o mesmo que entender que “o céu é o céu” e, dito, é dizer coisa nenhuma se logo não acrescentarmos que o céu é o céu porque é azul, porque recebe este e outros predicados afins. Deste modo o predicado constitui realidade de tudo o que há ou simplesmente a realidade ou simplesmente tudo o que há. E como nenhum predicado pode deixar de ser verdadeiro, até quando entendido como o que convém a esse nada que obsessivamente se diz o ser, temos de concluir que ser ele verdadeiro é estar contido na verdade, é pertencer à verdade. Não pode, pois, entender-se ele como verdadeiro por convir àquilo que predica, uma vez que isso que predica só é quando predicado.


A antiga definição de Miguel Psellius que faz da verdade a “adequação do pensamento à realidade” (adequatio res et intellectu), além de reduzir a verdade a um critério, é insustentável por maior que tenha sido a fortuna que tenha tido e ainda desde a Escolástica até à mais recente modernidade. E é insustentável precisamente pelo que demonstrámos: o pensamento é sempre pensamento da predicação, a realidade no predicado. O pensamento está, portanto, não na adequação à realidade, mas na adunação ou unidade dele próprio e do real, o que inclui aquela adequação.

O predicado está, pois, contido na verdade. E se o predicado é, unitivamente, pensamento e real, tudo é verdade, tudo é, não o ser, mas a verdade.

Da verdade dissemos que temos a noção que pelo pensamento, sua actividade, o espírito nos oferece. Essa noção, dizendo-nos que tudo é verdade, leva-nos a ter de considerar a verdade em si mesma, ou seja, a verdade que, contendo todos os predicados possíveis, é a unidade deles todos antes de se tornarem reais ou transcendendo-os quando e enquanto reais. Este é o ponto de partida da Teoria da Verdade ou da “filosofia portuguesa” (ibidem, pp. 7-9).


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