quarta-feira, 23 de outubro de 2013

800 anos de Independência

Escrito por Oliveira Salazar







Não foi por acaso que Franco Nogueira atribuíra a Oliveira Salazar uma espécie de instinto divinatório a par de uma capacidade profética relativa a certos e determinados acontecimentos na cena internacional. Assim, o instinto divinatório de Salazar tornou-se particularmente visível no decorrer do acordo concedido à Inglaterra com vista à concessão de facilidades nos Açores (18 de Agosto de 1943). Ou seja: perante as pressões do Estado-Maior e sobretudo de Churchill para tal efeito, Salazar conduziu duramente as negociações para poder salvaguardar os interesses portugueses até ao momento em que, intuindo um ataque anglo-britânico aos Açores, fez finalmente uma concessão para a entrada em vigor do acordo luso-britânico.

O telegrama de Churchill para Campbell, desconhecido por Salazar, fala por si: «Tenho de lhe dizer que esgotei aqui todos os argumentos em favor de um arranjo com os portugueses através de negociações. Se Salazar não aceitar a nossa última oferta, eu receio nada mais poder fazer. Então os acontecimentos seguirão o seu próprio curso. Lamentá-lo-ei profundamente, mas Salazar ter-se-á mostrado incapaz de estar à altura das circunstâncias». Aliás, este telegrama também permite entrever como Churchill estava sob a influência de Roosevelt no que toca à consagração de uma nova ordem internacional no pós-conflito mundial. E se há quem duvide de um tal plano na esfera global, é porque ignora os encontros secretos entre Churchill e Roosevelt em navios de guerra ingleses e americanos ao largo da Nova Escócia. De resto, foi então que Churchill compreendeu que o Império Britânico iria ser substituído por uma nova ordem internacional ditada pelo sistema financeiro de Nova Iorque.

No mais, diz-nos ainda Franco Nogueira: «Dirige-se Salazar aos Congressistas, e acentua que as suas palavras são "tanto para nosso uso como entendimento alheio". Muitas realidades estão sendo reveladas pela guerra, no plano económico e social, e algumas serão confirmadas pela paz. Mas "considero exagero pensar que tudo na vida nacional depende ou há-de depender da ordem internacional futura". No conjunto dos povos, nem todos os problemas são idênticos, nem todas as soluções são uniformes; e nem seria desejável que o fossem. Por isso, e quanto a Portugal, importa o "estudo dos princípios e meios de acção pelos quais nos propomos manter dentro de nós a ordem política e jurídica, a ordem social e económica, a ordem religiosa e moral", e isso porque precisamente todos estes aspectos estão dentro daquela "zona que nos parece irredutível, porque essencial à soberania e inacessível à actuação internacional". Mas outros conceitos são possíveis, e têm sido enunciados: "o da internacionalização dos interesses nacionais ou o da constituição de superestados, dirigentes, guardas e defensores do mundo". Três grandes afinidades - os eslavos, os anglo-latinos, os americanos - poderão emergir desta guerra; mas no fundo o conceito de "nação continuará a aparecer como núcleo primário, vivaz, irredutível e inassimilável"; e ao Estado caberá a sua representação, "sem que possam contra ele valer ou invocar-se os laços de empreendimentos ou organizações, mesmo que supranacionais". Neste particular, na hipótese de a guerra terminar "por inequívoca derrota alemã", estão criadas as condições para três grandes hegemonias, correspondentes ao Império Britânico e Europa, aos Estados Unidos, e à Rússia. E o risco consiste em aqueles países se colocarem "entre a tentação de continuar a guerra na paz e a de buscar a paz como única finalidade para que seria desculpável ter feito a guerra" (...) Parece dever -se considerar luminosa esta síntese de Salazar, e profética. "Continuar a guerra na paz" quer dizer ser a sociedade internacional do após-guerra condicionada e determinada pela continuação da luta entre hegemonias ou impérios que, sem usarem meios militares convencionais, nem por isso deixam de se combater, e de definir por esse combate os seus amigos ou inimigos. Será a guerra fria. E "buscar a paz como única finalidade para que será desculpável ter feito a guerra" quer dizer erigir a paz em valor supremo, acima do direito e da justiça, donde resulta que tem razão quem tiver força para impor a sua paz e a sua justiça, e será agressor o que procurar resistir em legítima defesa» (in Salazar, III, As grandes crises, 1936-1945, Livraria Civilização Editora, 1983, pp. 528-529).


11/9/2001: embate de dois aviões nas Torres Gémeas em Nova Iorque.


Mas é caso para perguntar que tipo de internacionalismo se nos depara nos dias que correm. Ora, a nosso ver, trata-se de um internacionalismo que prescinde de hegemonias ou imperialismos nacionais para dar lugar a poderes e organizações empenhadas na destruição de toda e qualquer soberania nacional. E os Estados Unidos, considerados a única superpotência hegemónica com o desaparecimento da União Soviética, estão também em vias de verem completamente destruída a sua independência enquanto país livre e soberano.

Basta, para o efeito, tomar em consideração as mensagens de algumas personalidades americanas sobre o iminente colapso dos Estados Unidos, tais como Edward Griffin, Edwin Vieira, Jr., Aaron Russo, Alex JonesDavid Ray Griffin ou Ron Paul (ver também o britânico David Icke e, a propósito dele, o filme de Chris White). Atente-se igualmente nos avisos e prevenções oriundos da John Birch Society na pessoa de Arthur R. Thompson, no que sobretudo respeita ao governo mundial sob a égide das Nações Unidas. Estamos, portanto, perante uma elite globalista conduzida por dinastias metacapitalistas que controlam as principais indústrias da comunicação social, como o Washington Post, o New York Times, o Wall Street Journal, o Daily News, a National Review, além de grandes redes televisivas dos Estados Unidos como a NBC, a CBS e a ABC, só para dar alguns exemplos no outro lado do Atlântico.

Além disso, existem diversas organizações que procuram absorver e destruir todo e qualquer resquício de soberania nacional, designadamente o Clube Bilderberg, a Comissão Trilateral e o Conselho das Relações Exteriores sediado em Nova Iorque e financiado pelas fundações Ford, Carnegie e Rockefeller, assim como por trusts de relevo internacional: IBM, ITT, Standard Oil of New Jersey (Exxon), etc. E com vista ao processo de subversão interna de povos, culturas e nações, ressalta ainda uma série de objectivos que passam pela repressão da prosperidade (Crescimento Zero), pela criação artificial de crises sucessivas para sujeitar as pessoas a dificuldades contínuas, pelo controlo centralizado da educação segundo directrizes da UNESCO, pelo governo mundial da ONU que se prepara para cobrar um imposto directo aos "cidadãos do mundo", bem como por um único sistema jurídico à escala planetária (o Tribunal Internacional de Justiça) e um Estado de Providência socialista mediante o controlo centralizado das políticas externas e internas de todos os Estados, etc.




Depois, no que mais particularmente respeita à ONU, existem objectivos de longa data para o desmantelamento de todas as forças armadas nacionais a fim de promover o aparelho militar das Nações Unidas em nome da paz, da liberdade e da segurança internacionais. Mais: um tal objectivo está plenamente de acordo com a concretização de um programa de desarmamento global sujeito a controlos internacionais draconianos. E, no final, ninguém poderá mais adquirir ou possuir armas de fogo ou até armas brancas para uso e defesa pessoal, excepto a polícia e os militares.

Há quem acredite que a estrutura política, económica e dos serviços de subversão e de informação da Rússia desapareceu da noite para o dia. Porém, há também quem afirme que um tal sistema jamais deixou de existir a par dos seus respectivos beneficiários: «O antigo coronel do KGB, Viktor Kichikhin, que serviu na primeira Directoria Principal, responsável por coacção ideológica, testemunhou o processo em primeira mão: "Em 1989-1990, a maior parte das empresas conjuntas soviético-ocidentais foi criada pela nossa directoria, à excepção das que foram constituídas directamente pelo Comité Central do PCUS".

O processo estava tão integrado que o antigo general do KGB, Timofeyev, fez o seguinte comentário: "O mercado está ocupado pelo aparelho dirigente e pelo KGB, porque têm a oportunidade de controlar o processo de privatização e a criação de novos empreendimentos. Têm as licenças e a influência. Isto não é tanto para o bem do partido mas antes para a autopreservação", e acrescentou, "há indubitavelmente aqui um elemento de uma retirada organizada... em que as forças em retirada procuram manter um elemento ou ordem e a possibilidade de preservar um núcleo, e depois talvez, a seu tempo, regressarem ao passado» (in Daniel Estulin, Os Senhores da Sombra, Publicações Europa-América, 2010, p. 71).

E mais nos diz Daniel Estulin: «A máfia russa, conhecida como Vorovskoi Mir, ou "Mundo dos Ladrões", uma federação informal de mafiosos soviéticos, percebeu de imediato que a "retirada" do comunismo anunciava um glorioso mundo novo de ordem criminosa que a favorecia» (ibidem, p. 71).

Posto isto, convém relembrar que o internacionalismo foi uma constante ao longo de todo o século XX, de que um dos mais atentos observadores foi, sem dúvida, Oliveira Salazar, a avaliar pelas suas palavras relativas ao conflito internacional travado na Guerra Civil de Espanha (1936-1939):

«Temos reivindicado como atributo indispensável da independência política a nossa independência mental e moral, o nosso poder de revisão e de crítica das ideias feitas, das noções assentes, dos compromissos tomados, dos conluios de interesses, das sombras, dos vaticínios, das tétricas profecias. E contrariamente aos que puderam confundir independência e isolamento ou hostilidade, verificou-se, ao pormos claramente sobre a mesa das conferências os dados da nossa experiência - as nossas razões - que mantínhamos mais firmes as amizades antigas e granjeávamos novas simpatias e o respeito de todos.

Marechal Carmona e Oliveira Salazar


Temos procurado que os princípios políticos e morais que seguimos e a que estamos ligados se distingam por uma vez corajosamente das fórmulas vazias, hipócritas, a ameaçarem converter a vida internacional em fariseísmo intolerável, em sábio processualismo inútil, já sem poder sequer salvar as aparências. A esses altos princípios da vida social, entre os indivíduos e entre os povos, entendemos que tudo o que lhes é inferior se deve sacrificar; mas o que por vezes se sacrifica são realidades tangíveis a concepções abstractas sem alicerces na razão nem vida no espírito dos homens.

Temos em terceiro lugar e semelhantemente ao que praticamos na ordem interna, defendido que a ordem internacional seja de direito e de facto resultante da conciliação de interesses nacionais, fora da abusiva intervenção de grupos ou partidos de uma outra nação, convencidos de que por outro modo só se conseguiriam multiplicar as dificuldades existentes e de que piores que nacionalismos, mesmos agressivos, são alguns internacionalismos da hora presente. Minando-se a segurança interna dos Estados, debilitando-se a coesão nacional, permitindo-se a criação de partidos políticos com acção e influência exterior, não se caminhou para uma Humanidade mais amiga, mais fraterna ou pacífica, mas para a hegemonia de um partido que, parodiando a raça eleita do Senhor, promete sacrilegamente a todos os povos a redenção pelo crime...» («A Guerra de Espanha e a Suspensão de Relações Diplomáticas», in Discursos e Notas Políticas, II, 1935-1937, Coimbra Editora, pp. 223-224).

Oliveira Salazar foi, de facto, na cena interna e internacional, o maior Estadista do século XX ao salvaguardar a existência histórica e espiritual de Portugal sem procurar agredir, minar ou destruir as demais soberanias nacionais no concerto da civilização ocidental. E fê-lo sem vacilar num mundo que mergulhava a pique numa guerra total - política, económica, psicológica, militar - consagrada ao caos, à anarquia e à subversão revolucionária no seio dos Estados e da população mediante o controlo dos meios de comunicação social, do aparelho administrativo e governamental, do sistema educativo, bem como através do incitamento à desordem civil, à chantagem, à difamação, ao assassínio político, à desinformação e ao uso e manipulação de elementos internos de uma nação para servir os interesses de um internacionalismo inimigo dos povos. Aliás, este último aspecto encontra-se perfeitamente descrito por Oliveira Salazar no âmbito das eleições de deputados para a Assembleia Nacional em 1961, numa altura em que já tinha deflagrado, por instigação externa, o terrorismo em Angola:

«... Ao que todos podemos assistir a presente campanha foi na verdade triste e altamente preocupante: os problemas básicos de política internacional e ultramarina foram versados de modo a não servir, antes a prejudicar os interesses da Nação. A argumentação repetida foi a dos inimigos de Portugal; e não pode constituir honra para ninguém que as oposições sejam saudadas pelos que combatem contra Portugal aqui, na ONU ou no Ultramar. Conhecimento mais completo dos motivos da campanha movida contra o País nos meios internacionais e que conduziram e alimentam a guerra contra territórios portugueses, aconselharia as oposições a maior discrição e a não serem cá dentro o joguete de grandes interesses em causa. As oposições tiveram a maior dificuldade em sacar do imbróglio das suas concepções o reconhecimento da integridade da Nação como imperativo dos Portugueses, e do dever de a defender; mas os que não são cegos compreendem que, pelos caminhos entrevistos e mal definidos, não se chegaria a garanti-la efectivamente, como todos disseram desejar.



Entretanto a nossa gente bate-se e morre em Angola, como já se bateu e morreu noutras partes do território ultramarino. Bate-se e morre pelo Governo actual? Que ideia! Vai bater-se amanhã pela democracia? Que engano! Bate-se e bater-se-á com este ou outro Governo pela Nação que é uma realidade tangível, e que o povo sente bem na pureza do seu instinto patriótico e à margem da torcida filosofia dos doutores.

Diante de coisas tão sérias como sermos ou não sermos, cumprirmos ou não cumprirmos a nossa missão no Mundo, eu sou o primeiro a não estranhar que o Chefe de Estado não tenha entregue o Governo aos oradores da oposição.

Temos pois de concluir que foi cometido grave erro por alguns condutores do povo, e que tem de ser o mesmo povo, cerne da Nação, a corrigir agora tal erro no acto eleitoral. Ele tem de corroborar por votações maciças uma política de salvação nacional; ele tem de destruir a ideia que pudesse ficar deste debate de um país dividido que não conheceria o seu norte. O que se passou há-de entender-se apenas como a infelicidade de alguns pastores se haverem perdido nos caminhos da serra, sem terem conseguido extraviar o rebanho.

O povo português compreende a minha linguagem. Sabe que nada me interessa senão servir o melhor possível o interesse comum. E se eu lhe digo que a retaguarda é para ser defendida tal como a frente em África ou na Índia, é porque sei que isso é condição da vitória e esta tem de ser ganha por todos» (in «Apelo ao Povo», palavras proferidas por Sua Excelência o Presidente do Conselho, Prof. Oliveira Salazar, ao Microfone da Emissora Nacional, em 9 de Novembro de 1961, SNI).

Não há dúvida: Oliveira Salazar agiganta-se cada vez mais perante a horda de pigmeus da política criminosa que nos últimos quarenta anos entregaram Portugal aos poderes e organizações do globalismo invasor. Foi, além do mais, o último grande Estadista português que ficará na memória de futuras gerações - caso as haja! -, e que assim procurem estudá-lo e compreendê-lo à revelia de uma engenharia universitária que tudo distorce, corrompe e falsifica. Quanto aos pretensos e nominais democratas de ontem e de hoje, ninguém se lembrará deles senão pelas piores razões, ou tão-só pelo que se poderá sintetizar da seguinte forma: TRAIDORES de LESA-PÁTRIA.

Miguel Bruno Duarte




800 anos de Independência


Castelo de Guimarães












Sala de Armas - Paço dos Duques de Bragança (Guimarães).








Serei muito breve, pois toda a palavra a sinto inferior ao momento e todo o discurso se me afigura profanar o recolhimento das almas e a comunhão espiritual desta hora. Por todo o Portugal do continente, das ilhas, do ultramar, e em terras hospitaleiras de todas as partes do mundo, milhões de portugueses se recolhem, de alma ajoelhada diante deste castelo, e comungam connosco nos mesmos sentimentos de devoção, de exaltação, de fé.

Nem eu sei o que havia de dizer. Em vão procuro, no tropel de ideias e de emoções, focar pensamento ou imagem, facto ou anseio, nome ou sentimento que aos outros sobreleve e me prenda. Passam pelo espírito séculos em revoada - oito séculos da vida de Portugal - com seus reis e seus cavaleiros, seus descobridores e seus legistas, seus capitães e seus nautas, seus heróis e seus santos, sofrimentos e glórias, esperanças e desilusões. Passam séculos, e o português a expulsar o mouro, a firmar a fronteira, a cultivar a terra, a alargar os domínios, a descobrir a Índia, a apostolizar o Oriente, a colonizar a África, a fazer o Brasil - glória da sua energia e do seu génio político. Para tanto discutiu nas Cúrias e nos Concílios, ensinou em escolas e Universidades de fama, fez uma língua e uma cultura, pintou obras primas antes dos maiores mestres, prodigalizou-se em maravilhas de pedra, cantou em versos imortais a sua própria epopeia - ainda hoje tão simples e tão modesto que é pobre em face dos opulentos e fraco junto dos poderosos. Abisma-se a inteligência a perscrutar o mistério, confunde-se com a desproporção dos meios e dos resultados, extasia-se ante a permanência do milagre, e não se sabe que homem, ideia, rasgo ou sacrifício há-de pôr acima dos mais - a não ser exactamente o facto fundamental e primeiro de haver a raça portuguesa estabelecido o seu lar independente e cristão nesta faixa atlântica da Península. Quis o povo ser independente, livre no seu próprio território, e quiseram os reis que ele fosse, conquistando-lhe e mantendo-lhe a independência; e porque mandava em seus destinos, a Nação definiu um pensamento de vida colectiva, um ideal de expansão e de civilização a que tem sido secularmente fiel.

Torre de Belém


Mosteiro dos Jerónimos (Belém).


Nas nações, como nas famílias e nos indivíduos, viver, verdadeiramente viver é sobretudo possuir um pensamento superior que domine ou guie a actividade espiritual e as relações com os outros homens e povos. E é da vitalidade desse pensamento, da potência desse ideal, do seu alcance restrito ou universal e humano que provém a grandeza da nação, o valor da sua projecção na terra. Ser escasso em território, reduzido em população ou em força ou em meios materiais não limita de per si a capacidade civilizadora: um povo pode gerar em seu seio princípios norteadores de acção universal, irradiar fachos de luz que iluminem o mundo.

Para isso nos serviu a liberdade; de nós se não pode afirmar que não soubemos que fazer da nossa independência: trabalhando e recebendo em nossa carne duros golpes, descobrimos, civilizámos, colonizámos. Através de séculos e gerações mantivemos sempre vivo o mesmo espírito e, coexistindo com a identidade territorial e a unidade nacional mais perfeita da Europa, uma das maiores vocações de universalismo cristão.

Eis porque esta solenidade é ao mesmo tempo acto de devoção patriótica, acto de exaltação, acto de fé.

Primeiro: acto de devoção. Cobrimos de flores, trazidas dos quatro cantos do mundo, as pedras mortificadas sobre que se ergue este castelo, como se piedosamente se beijassem as feridas de um herói ou se alindasse o berço de um santo. Vimos de longe, alguns de muito longe visitar a velha casa de seus velhos pais, a cidade augusta onde primeiro bateu, com o coração do primeiro rei, o coração de Portugal. Sabemos dever-lhe o que fomos, e o que somos dele vem ainda - vivermos livres na nossa terra e honrados na terra alheia.






Acto de exaltação. A Pátria Portuguesa não foi o fruto de ajustes políticos, criação artificial mantida no tempo pela acção de interesses rivais. Foi feita na dureza das batalhas, na febre esgotante das descobertas e conquistas, com a força do braço e do génio. Com trabalho intenso e ingrato, esforços sobre-humanos na terra e no mar, ausências dilatadas, a dor e o luto, a miséria e a fome, almas de heróis amalgamaram, fizeram e refizeram a História de Portugal. Não puderam erguê-la com egoísmos e comodidades, medo da morte e da vida, mas lutando, rezando e sofrendo. Cada um deu, na modéstia ou grandeza dos seus préstimos, tudo quanto pôde, e por esse tudo lhe somos gratos. Do fundo porém dos nossos corações não podem deixar de erguer-se, ao comemorarem-se oito séculos de História, hinos de louvor aos homens mais que todos ilustres que os encheram com os seus feitos. Acto de exaltação.

Mas nós realizamos hoje também acto magnífico de fé: fé na nossa vitalidade e na capacidade realizadora dos portugueses, fé no futuro de Portugal e na continuidade da sua História. Não somos só porque fomos, nem vivemos só por termos vivido; vivemos para bem desempenhar a nossa missão e perante o mundo afirmamos o direito de cumpri-la. Com a solidez das raízes seculares ligados à História Universal, que sem nós seria ao menos diferente, sentimos com a glória desta herança as responsabilidades e o dever de aumentá-la. Estamos aqui precisamente por confiarmos nos valores eternos da Pátria; e quando dentro de pouco - e nenhum de nós pode mais reviver este momento - subir no alto do castelo a bandeira sob a qual se fundou a nacionalidade, veremos, como penhor que conforma a nossa fé, a cruz a abraçar, como no primeiro dia, a terra portuguesa (in Discursos e Notas Políticas, III, 1938-1943, do Castelo de Guimarães, no dia 4 de Junho de 1940, começo das festas centenárias, na cerimónia comemorativa da fundação da nacionalidade, Coimbra Editora, pp. 255-259).



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