quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Winston Churchill e Oliveira Salazar

Escrito por Miguel Bruno Duarte





Oliveira Salazar





«I was presented to him once... a most amazing man [Salazar]... one of the greatest Historical enigmas...».

Christopher Lee



«Let us therefore brace ourselves to our duties, and so bear ourselves, that if the British Empire and its Commonwealth last for a thousand years, men will still say, “This was their finest hour”».

Winston Churchill




Mansão de Bletchley Park




Em 1974, o coronel britânico Frederick W. Winterbotham fora autorizado a revelar o sistema de Informações Ultra, de seu nome completo: Top Secret Ultra (1). Esse sistema fora, pois, desenvolvido numa antiga base militar localizada em Bletchley Park, a 80 km a noroeste de Londres. Ora, a base de Bletchley Park consistia numa mansão vitoriana e respectivas dependências onde se reuniam cientistas britânicos, bem como professores e estudantes para decifrarem códigos alemães durante a II Guerra Mundial. Aliás, com a chegada de Churchill a Downing Street, o serviço Ultra, graças ao computador protótipo Colossus, havia já decifrado o principal código da Luftwaffe (2).

Por outro lado, o MI5 e o MI6 (3), especialmente ligados ao Ministério da Guerra, continuavam no activo juntamente com novos serviços criados em 1940, a saber: o MI9, também conhecido por Escape Service (4); o SOE (Special Operations Executive) (5), criado para, mediante pequenas equipas especializadas em sabotagem, destruir na Europa e na Ásia a produção de guerra do inimigo; e o PWE (Political Warfare Executive), por sua vez encarregue da propaganda sob as instruções dos Ministérios dos Estrangeiros e da Informação.

Assim, quando Churchill chegou a Primeiro-Ministro em 1940, ordenou aos chefes de Estado-Maior que procedessem à revisão completa do funcionamento dos Serviços Secretos Britânicos, bem como à repartição de funções e organização dos circuitos de distribuição da informação captada e descodificada. De resto, a principal directiva relativa ao sistema Ultra radicava, por entre relatórios de espiões, o mundo das informações e serviços especiais, num rigoroso secretismo determinado pelos seguintes aspectos:

1. Descodificação, em Bletchley Park, das mensagens inimigas recolhidas e posteriormente transmitidas pelo chefe dos Serviços Secretos Britânicos, o coronel Stewart Menzies;

2. Transmissão dessas mensagens a Downing Street, a que Winston Churchill, à revelia de ministros, secretários e até chefes militares, concedia um papel superior àquele que era habitualmente atribuído ao ouro do Banco de Inglaterra.

É significativo verificar que Churchill sempre viabilizara a acção subterrânea protagonizada por agentes secretos, quando não mesmo por operações de sabotagem em território inimigo. Ora, algo de semelhante se podia vislumbrar no Coronel Lawrence, para quem a melhor estratégia de guerra consistia numa ideia, numa influência ou numa «coisa intangível, invulnerável, sem frente nem retaguarda, pairando como um gás» (6). Desse modo, seria crucial que, no conflito travado com a Alemanha nazi, fosse implementada uma espécie de guerra na sombra, onde, a par da sublevação armada e da subversão política, ideológica e militar, se fizesse pleno uso das novas possibilidades técnicas oferecidas pela rádio e pela aviação.


"Lawrence da Arábia"



Aquando da II Guerra Mundial, Lisboa fora, de facto, a capital europeia da espionagem internacional (7). Além do Serviço de Informações Britânico (MI6), que actuava desligado do Foreign Office, estiveram igualmente presentes, pelo lado americano, o Federal Bureau of Investigation (FBI), dirigido por Edgar Hoover, bem como, a partir de 1942, o Office of Strategic Service (OSS), cuja estrutura, no pós-guerra, transformar-se-ia na Central Intelligence Agency (CIA). Do lado da espionagem soviética destacar-se-ia a Rote Kapelle, ao passo que, do lado alemão, contar-se-iam várias agências de informações, nomeadamente o Alto Comando Militar Alemão, a Abwehr (8), especialmente dirigida, em Portugal, pelo Major Albrecht von Auenrode, também conhecido por «Ludovico von Karshtor».

Aliás, não fora por acaso que o historiador norte-americano, Douglas Wheeler, considerara ter sido Portugal, entre 1939 e 1945, uma «terra de espiões». Daí que muitos deles assentassem praça em vários hotéis da capital e arredores, entre os quais registamos os seguintes:

1. Hotéis Tivoli, Vitória, Suíço-Atlântico, Duas Nações (gerido por um alemão) e o Avenida Palace (9);

2. Hotel Aviz, onde o Duque de Windsor recusara a proposta alemã para o repor no trono inglês, e onde, por um lado, estiveram alojados, durante a guerra, os reis Carol da Roménia, D. Juan de Espanha e Humberto de Itália, e, por outro lado, vivera, desde 1942 até ao fim da vida (1955), Calouste Sarkis Gulbenkian, o magnata arménio do petróleo. De resto, o seu filho, Nubar Gulbenkian, que trabalhava para os Serviços Secretos Britânicos (MI6), em ligação com Donald Darling («Didi»), era também um assíduo frequentador do luxuoso e «pró-britânico» Aviz;

3. Hotéis Metrópole, Inglaterra, Paris e Miramar;

4. Hotel Atlântico, o Grande Hotel do Monte Estoril, o Hotel do Parque, o Grande Hotel da Itália, no Monte Estoril, e o Hotel Palácio (10).

Entretanto, dezenas, senão mesmo centenas de milhar de refugiados viriam para Lisboa com o fito de escapar à perseguição nazi, e, consequentemente, à destruição e aos horrores provenientes da guerra. Aí, muitos deles, entre os quais se contavam aristocratas polacos, checos sem nação, franceses fugidos à ocupação alemã, bem como austríacos e escandinavos escorraçados, ou ainda judeus da Europa Central, esperavam assim a oportunidade de poder embarcar para o Novo Mundo. Desse modo, em virtude do seu estatuto de potência não-beligerante, Portugal, qual porto de abrigo, receberia inúmeros refugiados de variadíssimos países numa altura em que a Europa, constrangida ao racionamento dos bens de primeira necessidade, mergulhara numa situação caótica caracterizada por raides aéreos e permanentes operações de guerra.

De resto, corria o ano de 1942 quando a política externa de Oliveira Salazar causara inusitada perplexidade nalguns políticos e diplomatas britânicos, designadamente em Sir Donald Campbell, embaixador em Lisboa, e até em Anthony Eden, secretário de Estado da Guerra nomeado por Winston Churchill. Eventualmente, ambos teriam considerado que a política portuguesa de Salazar, não obstante o seu estatuto de «neutralidade colaborante», manifestara algumas reservas em facilitar o esforço de guerra levado a cabo pela empresa anglo-americana. Porém, visando mais fundo, fora certamente o estadista português quem, na verdade, antecipara as funestas consequências de uma vitória britânica que, para o efeito, não soubera prescindir de uma aliança com a Rússia de Estaline, dando-se assim largas à expansão do comunismo mediante uma estratégia ocidental perigosamente conduzida.

Anthony Eden


Na qualidade de ilustre biógrafo de Oliveira Salazar, Franco Nogueira conta-nos como o Foreign Office chegara a considerar, na sua correspondência com Donald Campbell, a possibilidade de remover o chefe do governo português para, no lance, implementar um outro governo que melhor correspondesse aos interesses da Inglaterra (11). O que, aliás, se torna compreensível devido ao facto de o Presidente do Conselho ter sempre mantido, em momentos críticos susceptíveis de pôr em risco a independência da Nação portuguesa, uma posição firme e inabalável quanto a eventuais imposições do Império Britânico (12) que, de alguma forma, pusessem em causa interesses portugueses de aquém e além-mar. E tanto assim era que, a coberto da cooperação entre a Embaixada britânica e o governo português, persistiam, no interior de Portugal, agentes do Intelligence Service a trabalhar com maus elementos da oposição interna (13).

Neste meio tempo, Winston Churchill, em almoço na Embaixada de Portugal, a 7 de Janeiro de 1943, chegara a declarar a Armindo Monteiro que Salazar era um grande homem notado pela sua inteligência e sabedoria, pelo que prestaria a todos um grande serviço se lograsse prosseguir até ao fim na sua política de contenção da Espanha a favor do Eixo. Contudo, num momento de guerra, tanto Churchill como Roosevelt não descartavam a hipótese de, se necessário fosse, efectuar uma operação de força com vista a estabelecer bases aéreas e outros serviços de segurança no arquipélago dos Açores (14). Mas, em Londres, a prudência de Anthony Eden iria precisamente no sentido de desaconselhar tamanho e inusitado empreendimento, uma vez que a própria violação da neutralidade portuguesa implicaria, por parte da Inglaterra, uma posição moral inferior àquela em que ficaria se, com base num pedido e na invocação da aliança luso-britânica, procurasse alcançar os seus desígnios mediante diligências diplomáticas em Lisboa.

Face à política atlântica de Oliveira Salazar, o dilema de Roosevelt e Churchill consistira, ou em empregar a força, ou em estabelecer uma aproximação diplomática com vista a obter facilidades militares no arquipélago dos Açores, nomeadamente nas ilhas de S. Miguel, Faial e Terceira. Aliás, de acordo com Franco Nogueira, Salazar não estaria propriamente informado do que certamente se passaria nos bastidores dessa conspiração anglo-americana, se bem que, não obstante, tivesse acerca dela uma extraordinária intuição. Logo, aproveitando mais um apelo de Londres para uma solução no caso dos Açores, Salazar finalmente acedera em discutir as condições que fossem sobretudo susceptíveis de garantir a Portugal claras vantagens de ordem política, como a que imediatamente diria respeito à preservação da soberania portuguesa nos territórios ultramarinos (15).

Nesta conjuntura, note-se ainda o pendor pró-britânico de Armindo Monteiro, e sobretudo a sua ingenuidade ao pretender que Portugal tirasse partido de uma cedência quase incondicional na questão dos Açores. No seu entender, a solução passaria, portanto, por uma total colaboração com os aliados, com a mudança de alguns membros do governo português, com o afastamento de Salazar dos Negócios Estrangeiros, enfim, tudo isso e muito mais traduzido num rol de críticas e até de contradições que lhe valeram da parte do chefe do governo um comentário digno de memorável registo:

«O nosso embaixador em Londres continua a escrever para a História. O seu interesse é manifestamente documentar e deixar registados os duros esforços que empregou para conduzir ao bom caminho um presidente do Conselho que aí por 1940-1943 governava em Portugal e cuja política consciente ou inconsciente era quebrar a aliança inglesa, entregar-se nos braços da Alemanha e comprometer a integridade territorial do país, designadamente as colónias, sacrificando tudo ao seu mau-humor e caprichos pessoais. Se, apesar de se deixarem sem resposta, por absoluta falta de tempo, os ofícios e cartas particulares do Embaixador, algum historiador, mais avisado e preparado para ler correctamente os acontecimentos, vem a verificar que, além de se pretender repor a aliança em termos aceitáveis exactamente para lhe dar mais consistência e eficácia, este período é caracterizado pelos mais altos serviços prestados à Inglaterra (e mais poderiam ser se ela estivesse em condições de bem compreender a política portuguesa), deverá ser grande o desapontamento. Porque esse historiador terá feito a distinção entre as directrizes políticas gerais e os mil incidentes diários, mais ou menos vivos e desagradáveis, com uma potência a quem mais de um século (embora entrecortado por períodos sãos) de absoluta subserviência da parte de Portugal quase deu o direito de se julgar em situação de mandar aqui soberanamente. Mas antes desse momento ainda longínquo, com alguns anos mais e mais calma, o Embaixador há-de reler esta e outras cartas de que certamente tem cópia e então as achará injustas, pretensiosas e com um quê de ridículas. Ele corará diante de passagens que roçam pela impertinência; admirar-se-á de ignorar os factos ou de confundi-los com a interpretação do esquerdismo inglês; envergonhar-se-á de tão estranhas manifestações de snobismo: esta carta traduz o grande ar de um grande senhor que vive em Londres, está relacionado com os dirigentes do mundo, e fala de tudo isso superiormente a um pobre homem de Santa Comba, imbuído nos seus escrúpulos e amor ao país de “provincianismo moral”. O Embaixador achará que verdadeiramente se excedeu ao transplantar 400 aviões do campo inglês (aliás abrangido naquele terreno neutro, “de ninguém”) pegado a Gibraltar, para um aeroporto espanhol, onde o governo de Espanha fingindo “que não via” os deixou alinhar em preparação de combate contra os alemães. Mais bem informado das relações anglo-espanholas no actual momento, Sir Samuel Hoare poderia dizer-lhe que nos últimos tempos a única concessão arrancada à Espanha foi a relativa evacuação de nacionais de países ocupados e essa se deveu sobretudo a Portugal. Muitas outras coisas se poderiam e talvez devessem dizer, mas deixo registado só o seguinte. Não tenho deixado penetrar em mim, acerca destas manifestações, nenhuma má ideia que toque a absoluta sinceridade do nosso Embaixador em Londres, e fixei-me apenas em que se trata de um mau estado de espírito que o impossibilita de bem servir neste momento o país no seu posto» (16).









Sobrestada a intervenção anglo-americana nos Açores, Campbell incidiria na questão do volfrâmio que Portugal estaria fornecendo à Alemanha. Neste ponto, convém, pois, relembrar que Portugal vinha sendo, desde 1942, vítima de um bloqueio britânico quanto à provisão de bens e matérias-primas em consequência daquele mesmo fornecimento, também ele larga e vantajosamente concedido à Inglaterra. E, assim sendo, Oliveira Salazar compreendera perfeitamente o intento inglês que procurava, acima de tudo, proteger interesses próprios em detrimento de interesses portugueses, e que podiam ainda pôr em causa a neutralidade de Portugal tal como fora igualmente expressa num acordo comercial de guerra entre Lisboa e Londres, em 1941.

Mas eis, a título de esclarecimento, a sinopse de alguns dos argumentos de Oliveira Salazar relativos à posição de Portugal perante a questão do volfrâmio:

1. Os interesses portugueses estão em primeiro lugar, pelo que deve assim o governo de Lisboa defender o acordo comercial de guerra independentemente da questão do volfrâmio. Por conseguinte, a prioridade consiste nas relações comerciais e financeiras com a Inglaterra, mas sempre no objectivo de salvaguardar os interesses portugueses contra qualquer forma de sujeição arbitrária que sobre eles possa recair (17);

2. A transacção de volfrâmio para a Inglaterra e os Estados Unidos ultrapassam largamente aquela que tem sido feita para a Alemanha. Além disso, esta tem visto as restrições que lhe têm sido impostas como uma quebra da neutralidade portuguesa;

3. Portugal não se encontra predisposto a entrar, directa ou indirectamente, na guerra por causa da questão do volfrâmio;

4. Muitas das minas portuguesas são propriedade da Alemanha, uma vez que resultam de investimento proveniente de capital alemão, tornando assim ilegítima qualquer tentativa de intervenção do governo português nessa matéria. Depois, porque Portugal logra ainda obter, em troca do volfrâmio (18), matérias-primas de origem alemã consideradas essenciais à sua economia, já que os governos britânico e americano não podem fazê-lo.

5. Contudo, com vista à satisfação dos reiterados apelos do governo de Sua Majestade, Portugal compromete-se a reduzir as exportações de volfrâmio para a Alemanha.

No ensejo, Churchill escrevera ainda a Salazar para alegar que a Península Ibérica estaria doravante isolada quanto ao fornecimento de volfrâmio para a Alemanha, e, por isso, estaria supostamente na origem da morte de soldados britânicos. Ora, o objectivo táctico do primeiro-ministro inglês passava, assim, por intimidar o chefe do governo português, pouco se lhe dando se, para o efeito, Portugal cumpria ou não o seu estatuto de potência não-beligerante no conflito mundial em curso. Tudo não obstante, Oliveira Salazar adoptara uma atitude conciliadora, pese embora inteiramente firme no que aos interesses legítimos de Portugal comportava (19).

De resto, outros aspectos afins desta conjuntura se nos revelam dignos de nota, tais como:

1. Os apelos, pressões e diligências americanas, brasileiras e sul-africanas para que Portugal pusesse fim ao envio de volfrâmio para a Alemanha;

2. O derrube de Oliveira Salazar preconizado por Campbell, mas recusado pelo Foreign Office;

3. As propostas de Lisboa com vista a reduzir ainda mais o fornecimento de volfrâmio à Alemanha (20);

4. A divergência de posições entre o Foreign Office e o Departamento de Estado norte-americano quanto à respectiva esfera de influência nos assuntos de Portugal;

5. Por último, o relutante assentimento de Oliveira Salazar, depois de ouvido o Conselho de Ministros, em determinar o embargo total das exportações de volfrâmio (21) para a Alemanha na sequência do apelo britânico em nome da Aliança (22).






No «rescaldo de tudo, Campbell informa o Foreign Office de que vai compilar um relato pormenorizado das negociações. Porque terá interesse para a história. “E além disso”, conclui Campbell, porque esse relato “lançará muita luz sobre a psicologia deste homem extraordinário que dirige os destinos de Portugal, e mostrará que as negociações, se encaradas como uma prova de força entre um país neutro fraco e um beligerante poderoso, deram a esse homem a ocasião de exibir um virtuosismo profissional que seria difícil de igualar”». E «num derradeiro eco da crise, Eden comenta de Londres: “Eu sempre tive consciência de que o carácter de Salazar é tão inusitado, que é capaz de enveredar por um caminho que normalmente nos pareceria fantástico”» (23).

Não há dúvida de que Oliveira Salazar encarava a guerra através dos princípios e valores que estariam na base da futura paz. Daí a sua impressão desfavorável aquando do discurso em que Churchill teria saudado a entrada da Rússia na luta, visto que uma tal solidariedade, ainda que tacticamente compreensível, traria inevitavelmente fatais repercussões para o futuro do Ocidente (24). E, nestes termos, Salazar não podia ainda esquecer o facto de a União Soviética ter igualmente colaborado com a Alemanha na partilha da Polónia – razão, aliás, pela qual a Grã-Bretanha entrara na guerra -, bem como ter invadido a Finlândia e anexado os Estados Bálticos, o Norte da Bucovina e a Bessarábia.

O caso, aqui, a rigor, é que o principal propósito de Winston Churchill estivera sempre na implacável derrota da Alemanha nazi. Para ele, tratava-se essencialmente de uma guerra de extermínio entre povos, e não somente entre exércitos e governos propriamente ditos. Em poucas palavras, a vitória das Forças Aliadas deveria proporcionar uma lição inesquecível para os alemães, e, nessa medida, altamente merecedora de figurar nos anais da história humana.

Terminada a mais brutal, mortífera e devastadora guerra do século XX, Churchill viria finalmente a reconhecer a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial, particularmente causada pelo expansionismo militar da União Soviética. Assim, já depois de Salazar a ter antecipado, o primeiro-ministro britânico, num discurso pronunciado numa universidade americana, chegara à conclusão de que a Europa estava sendo alvo de organizações internacionais comunistas, e, portanto, inteiramente afins à revolução mundial concertada e dirigida por Moscovo. Daí a sua célebre referência à “Cortina de Ferro” que marcaria a linha divisória entre a Europa Ocidental e a Europa de Leste, o que, já de si, implicaria ficarem sob a esfera soviética cidades como Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sófia.

Curiosamente, fora Joseph Goebbels, o ministro da propaganda nazi, quem pela primeira vez usara a expressão “Cortina de Ferro”, para, dessa forma, alertar os alemães contra um eventual avanço do Exército Vermelho na Europa. E, além do mais, fora ainda Winston Churchill quem, de facto, subscrevera a ideia dos Estados Unidos da Europa arreigada em valores cristãos, especialmente patentes no plano cultural, científico e filosófico. Logo, a Europa Ocidental, na ideia do conservador e estadista britânico, deveria tornar-se no centro de toda a civilização, de que a Grã-Bretanha, de alguma forma participando, não faria, contudo, parte integrante.

Note-se, aliás, que esta visão de Winston Churchill afigurava-se-lhe vital para a independência da Inglaterra, por lhe permitir que jamais fosse directa ou profundamente afectada pelos problemas político-económicos do Continente Europeu. No fundo, Churchill sempre obrara em prol da Europa Atlântica e não da Europa Carolíngia dos Shuman, dos Monnet e dos Adenauer. E assim igualmente se explica a sua doutrina dos três círculos, o primeiro dos quais constituído pela Commonwealth e pelo Império Britânico, o segundo pelo mundo anglófono e o terceiro e último pela Europa Unida em torno do desenvolvimento material e espiritual franco-germânico.







Salazar, por seu turno, procurara preservar a missão histórica de Portugal numa base simultaneamente europeia e transoceânica. E, em boa verdade, é mais uma vez Franco Nogueira quem melhor nos oferece, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, uma síntese reveladora das vicissitudes sofridas, dos perigos ocorridos e das dificuldades superadas pelo chefe do governo português:

«Estão cumpridos nove anos de crises, duros, intensos, de pesadelo sem mercê. Por entre a tormenta, Oliveira Salazar tem constante domínio dos nervos: a sua serenidade não sofre abalos, o seu sangue-frio não se perturba, a sua visão não se obscurece, a sua lucidez jamais é embaciada. Em vez da desorientação de colaboradores próximos, de sugestões contraditórias, de perigos iminentes, de catástrofes possíveis, da tibieza de uns, da precipitação de outros, do desespero de muitos, da perplexidade de quase todos, o chefe do governo encontra o rumo da sua política e não se desvia da linha traçada para os seus objectivos. Nas situações dramáticas, parece estar acima dos acontecimentos: tem uma percepção aguda do instante que passa: avalia com rigor os interesses em jogo e as forças em conflito: e se sabe até onde pode chegar, não hesita em ir até ao limite extremo. Coloca-se numa perspectiva histórica: prevê, tira ilações do passado, deduz, prepara-se: não reage perante o imediato, como os demais esperam, mas em função do que pressente serem as realidades do futuro. Apercebe-se à distância do drama espanhol, e toma precauções em Portugal; e intervém na crise europeia, porque não tem dúvidas de que se lhe segue a guerra mundial. Em todos os quadros que se lhe deparam, mantém rigorosa independência de análise, liberdade de julgamento, autonomia de decisão. Jamais esmorece a sua coragem, ou quebra a sua vontade; e à cedência a ameaças ou pressões prefere a destruição total. Fisicamente, tem períodos de fadiga, de quase exaustão: mas não se cansa o seu espírito, nem o seu ânimo. Não ignora as fronteiras dos recursos do país, nem a modéstia das suas armas: e escuda-se por detrás da lei, da razão, da moral. Acima de tudo, enquadra os interesses do povo português no seu destino, da nação no seu caminho histórico. Na defesa desses interesses, é cego: não se determina por afinidades ideológicas, não se decide por aversões ou simpatias. Em todos os momentos, guarda uma alta dignidade moral, um comportamento patrício, uma atitude soberana que se impõe, e os demais acatam. Perante os grandes, não se impressiona: desarma-os pela sua dialéctica, desorienta-os pelo inesperado, entibia-os criando-lhes dúvidas, confunde-os porque não lhes mostra receio. Pesando bem as políticas alheias, perscrutando os seus objectivos, tem uma capacidade inesgotável de enredar as maiores potências em situações de que não sabem sair airosamente. Fiel cumpridor da aliança luso-britânica, leva esta às últimas consequências. Ao afrontar a Rússia, na crise de Espanha, corre o perigo de bloqueio à costa portuguesa; mas baseando-se na aliança com a Inglaterra coloca esta na situação de ter de se opor ao bloqueio, ou de quebrar o tratado. Assegura a vitória de Franco; mas não se precipita em firmar com este qualquer pacto, que vê com relutância (25); e apenas o assina quando chega o momento de se defender de pressões inglesas, invocando as necessidades da política espanhola e de se defender de quaisquer objectivos espanhóis invocando a aliança britânica. Sem rebuço, nem ambiguidades, e apesar de pretender a neutralidade na guerra mundial, confirma logo de início a aliança luso-britânica, com os riscos e consequências inerentes. Evita assim excessivas pressões alemãs ou italianas; mas evita também excessivos pedidos ingleses que poderiam comprometer a neutralidade em desfavor de Portugal, ou destruir a aliança, em desfavor da Inglaterra. Admiram os embaixadores estrangeiros em Lisboa e seus governos a maestria, a perícia, o virtuosismo do chefe do governo: e jamais lhes ocorre aproveitar uma ingenuidade, que Salazar não tem, ou uma candura, para que nunca desliza. No plano da lei e da moral, a sua conduta é sempre linear, coerente, e inatacável: é alta-política. É duro na negociação, e firme, intransigente, difícil, rigoroso, exigente; mas é sempre leal, liso, de cartas na mesa, sem atalhos ínvios, sem sentido oculto. É prudente e reservado, não se deixa arrastar para terreno que não queira pisar: mas não sofisma, não ilude, não promete: se o faz, não recua, e cumpre. Não pratica jogo duplo: a todos os enviados estrangeiros faz sempre as mesmas declarações: se aproveita as contradições de uns e as rivalidades entre outros, não recorre à intriga nem suscita a confusão: tem o cuidado da nitidez meridiana, da clareza de atitudes. E no plano interno está sempre consciente do sentir da opinião pública: conhece os portugueses. Sabe que estes não sofrem, não aguentam uma política difícil, complexa, áspera: tendem para uma política mole, e para resvalar na facilidade, na visão do imediato apenas, no plano a curto prazo, na opção mais simples. Vê os portugueses oscilantes, volúveis, impressionáveis, sem capacidade crítica: acreditam na última verdade que lhes é lançada, dão verosimilhança ao que a não tem, atemorizam-se com o imaginário. Salazar observa com mágoa que nas grandes crises o escol português está dividido, não em torno de interesses portugueses e dos métodos para defender estes, mas em torno de interesses alheios. É pró-inglês ou pró-alemão, antes de ser pró-português. Acima de tudo, deseja uma política que apenas comporte vantagens. Adoptada a neutralidade, com as consequentes restrições, bloqueios, escassez de alguns géneros e produtos, Salazar é criticado por não levar Portugal à beligerância, porque se julga que com esta cessariam aquelas dificuldades: feito o acordo dos Açores, em cumprimento da aliança mas com risco de declaração de guerra alemã, Salazar é acusado de arrastar o país para a luta, e de impelir os portugueses a baterem-se e sujeitar o território a bombardeamentos: desejar-se-iam os benefícios de uma política e ao mesmo tempo os benefícios de outra política contrária àquela: e em nenhum caso se aceitam os sacrifícios de uma ou de outra. Mas Salazar está consciente do que pode, como resistência a pressões estrangeiras, uma sólida unidade nacional. Quando os anglo-americanos pensam num ultimatum a Portugal, o embaixador inglês concorda em que decerto os dois países podem usar da força e dominar o país: mas observa que, a um apelo de Salazar, todo o povo português se uniria: Londres e Washington ficariam perante toda uma nação hostil: e é abandonada a ideia pelos responsáveis britânicos e americanos. E Salazar não se cansa de pregar a unidade nacional, e de procurar defendê-la incessantemente, em torno de ideias e de interesses só portugueses. Se compelido a actuar contra estes, preferia demitir-se, e deixar a outros o encargo de se vergarem. E ao cabo de nove anos Salazar conseguiu que Portugal emergisse da tragédia sem arranhadura de monta: ileso na sua integridade territorial, seguro na sua independência, respeitado na sua posição, prestigiado no seu papel entre as nações. No plano externo, Salazar atingiu dimensão internacional. Do conflito espanhol e da crise provocada por este, emergiu como figura europeia; da guerra emergiu como vulto mundial. É atacado, e admirado; é contestado, e respeitado; nos outros países tem detractores e partidários. É eminente: serve de comparação a outros homens: pondera-se o que diz, analisa-se o que faz. É havido como homem de Estado» (26).










De resto, o que no hemisfério ocidental tornava Oliveira Salazar um caso único propriamente dito, residia na defesa intransigente da soberania portuguesa perante poderes internacionais que, mais directa ou indirectamente, prefiguravam um sistema mundial supranacional. Consequentemente, não fora por acaso que o maior estadista do século XX pudesse ainda, no fim da sua vida, assistir ao ataque desencadeado contra o Ultramar português por forças, organizações e movimentos terroristas financeira e militarmente auxiliados por potências estrangeiras. Entre elas incluía-se os Estados Unidos durante a Administração Kennedy, por ter discretamente promovido na guerra de Angola uma política que ora passava pelo financiamento da UPA pela CIA (27), ora pela crítica pública da política portuguesa em África.

Consequência do messianismo da Casa Branca, fora certamente o objectivo de levar para os Estados Unidos estudantes africanos com o propósito de lhes ministrar uma educação universitária, consoante, a respeito, nos descreve José Freire Antunes:

«O general Taylor responde a Kennedy, em 21 de Julho, que o Departamento de Estado se opunha à ideia de subsidiar publicamente esses estudantes, porque seria “imprudente para os Estados Unidos ficarem associados à educação como adultos” (28). Em alternativa usou-se um “método indirecto”, ou seja, a assistência clandestina da CIA aos estudantes angolanos na Europa (29). Um elemento do Departamento de Estado, Robert Stephens, foi a França e à Suíça entrevistar refugiados angolanos. As embaixadas americanas em Léopoldville e em Acra e o African-American Institute de Dar es Salaam, financiado pela CIA, ofereceram bolsas de estudo a estudantes refugiados da África portuguesa. O adido cultural em Acra, William B. Davis, conseguiu “subtrair” 12 angolanos ao Instituto Ideológico Kwame Nkrumah, em Winneba, e mandou-os para os Estados Unidos. O rumor de que na União Soviética havia já 400 estudantes angolanos fez com que os africanistas de Washington acelerassem as operações de aliciamento (30). Ao mesmo tempo, a United States Information Agency (USIA) traduzia 550 livros americanos para divulgar gratuitamente entre os estudantes angolanos (31). Outras iniciativas do género foram tomadas ao longo de 1961-1963.

Mennen Williams era o principal impulsionador deste programa secreto de conquista das mentes para a perspectiva americana. De Lourenço Marques, o cônsul William H. Taft III alertou Dean Rusk, em 8 de Agosto, para as desvantagens do método: “Uma palavra final de aviso: a nossa ajuda clandestina a líderes africanos e à educação de jovens africanos não pode permanecer clandestina por muito tempo. Devemos preparar-nos para as consequências de qualquer revelação a esse respeito. No caso da educação, talvez fosse melhor obter a aprovação do Governo português para os nossos planos de ajuda” (32). Assim se fez. Elbrick comunicou a Franco Nogueira em 16 de Agosto, quando o programa estava já em curso, que os Estados Unidos iam dar assistência a estudantes africanos expatriados. O embaixador sugeriu que Portugal cooperasse, seleccionando um número adequado de candidatos entre os estudantes sob jurisdição portuguesa. Franco Nogueira reagiu mal. Contrapôs que esse programa só serviria para encorajar estudantes da África portuguesa a irem para os Estados Unidos e que uma tal migração, nas suas implicações culturais e políticas, criaria “as mesmas dificuldades ao Ocidente que Nkrumah, Presidente do Gana, criou” (33). Mennen Williams e o African Bureau, em articulação com a CIA, promoveram de forma sistemática a angariação de bolseiros ao longo de 1961-1963. Dean Rusk, fazendo-se eco do European Bureau, e o embaixador Elbrick, receptivo aos protestos do governo de Salazar, tentaram refrear a aplicação do ponto 9 do NSAM 60» (34).

Note-se ainda que, a 25 de Setembro de 1961, Kennedy aproveitara a XVI Assembleia-Geral das Nações Unidas para, na qualidade de líder do Ocidente, condicionar a agenda política mundial. Ora, aí afirmara a sua crença no futuro das Nações Unidas, propusera o desarmamento (35) e o fim dos testes nucleares, como ainda reconhecera a ameaça comunista sobre Berlim e a Indochina. No lance, concluíra dramaticamente: «Juntos salvaremos o nosso planeta ou juntos pereceremos nas suas chamas».

Deste modo, eis como a Administração Kennedy estaria preparando, passo a passo, a entrega da soberania dos Estados Unidos para a Organização das Nações Unidas. Nessa medida, o desarmamento americano, particularmente considerado, teria, por contrapartida, a consolidação das forças militares da ONU até ao ponto em que nenhuma nação do planeta pudesse contrariar o respectivo monopólio militar. E a comprová-lo, encontra-se igualmente o discurso do Presidente Kennedy na ONU, a 20 de Setembro de 1963, no qual «insistiu na criação de uma força militar das Nações Unidas» (36).











A par disso, intensificava-se um ataque selectivo à presença multissecular de Portugal em África, onde, aliás, a política americana (37) não era de todo estranha ao jogo dos russos. Vários eram, pois, os objectivos de uma tal política, nomeadamente o aumento da dependência dos portugueses relativamente ao exterior, a montagem de uma rede de informações sob a capa do Peace Corps, quando não mesmo a possibilidade de grupos e movimentos terroristas poderem solicitar a intervenção das forças da ONU. Senão, veja-se:

«Conquistar “os corações e as mentes” do Terceiro Mundo era uma prioridade de Kennedy. O Presidente transpôs para a luta personalizada com Khruschev o ardor competitivo da sua educação familiar e a sua obsessão de “ser o primeiro” (38). Perante a multiplicidade de crises em África e na Ásia, e face à popularidade do comunismo, tratava-se de vencer os soviéticos no próprio jogo em que eram mestres: a subversão de países estrangeiros. Na primeira reunião do Conselho de Segurança Nacional, em 1 de Fevereiro, Kennedy ordenou a MacNamara que desse relevo às doutrinas de contra-subversão no programa do Pentágono. Formou-se um Special Group para as questões de insurgency, que incluía Robert Kennedy e Maxwell Taylor, Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, e surgiram os Green Barets, uma força de elite que atingiu rapidamente 12 000 membros. A mobilização foi geral: mais de 100 000 diplomatas americanos e mais de 7000 estrangeiros receberam cursos de contra-subversão durante a Administração Kennedy (39). Este novo espírito traduziu-se também na criação do Peace Corps, uma espécie de liga de missionários do idealismo americano, onde se alistaram muitos jovens para acções de humanitarismo em países do Terceiro Mundo» (40).

Por aqui se pode, de alguma forma, entrever como Washington, a par de Moscovo, Praga e Pequim, ajudara a implementar o terrorismo na África portuguesa por acção e intermédio do comunismo. Além disso, os Estados Unidos entendiam limitar o problema português a uma mera questão de lucros e perdas, pelo que assim mostravam não compreender que Angola, Moçambique e outras partes constitutivas da Nação Portuguesa, estavam essencialmente ligadas por laços de solidariedade histórica e espiritual. Daí que Oliveira Salazar, que tivera sempre presente que as independências se regem pelas leis da evolução histórica condicionadas pelo desenvolvimento económico, social e político dos territórios e respectivas populações, procurasse acentuar, perante o inferno das Nações Unidas, no que consistia o ideal português da interpenetração de culturas, simultaneamente caracterizada pelo princípio da não-discriminação racial e pela igualdade do homem perante Deus e a lei.

Por consequência, Salazar operava na base da unidade da Nação portuguesa, tida à época como princípio constitucional, o que desde logo implicava a independência do todo na interdependência dos componentes ou partes constitutivas dessa mesma Nação. Depois, não deixa de ser paradoxal o facto de, já numa época em que se procuravam estabelecer grandes blocos políticos e económicos, ter preponderado, no Ocidente, uma atitude crítica e, muitas vezes, condenatória com vista à destruição do bloco português. E, portanto, tudo isso numa época em que o comunismo internacional estava táctica e estrategicamente apostado em destruir os valores ocidentais em África, designadamente em Angola.

É certo que o multirracialismo português não havia ainda alcançado uma considerável extensão na distribuição de responsabilidades nas províncias ultramarinas, nem tivesse alcançado uma meta satisfatória no âmbito das realizações conquistadas. Contudo, o caminho já percorrido para o progresso dos territórios era não só o mais seguro para a evolução e a prosperidade desejadas, como também aquele que melhor correspondia à independência real dos povos mediante o funcionamento dos serviços públicos e das instituições comprometidas na preparação profissional, por vezes morosa, de engenheiros, agrónomos, veterinários, economistas, chefes de empresa, técnicos, operários especializados e outros elementos afins às aspirações dos povos luso-africanos. Aliás, desmentindo os designados «ventos da história», assim como todos os críticos que recusavam a ideia de um estudo objectivo sobre o progresso dos territórios ultramarinos por individualidades de relevo internacional, e até sob a égide da Organização das Nações Unidas, estava, sem dúvida, o testemunho de Roswell Gilpatric, tal qual nos relata Franco Nogueira:

«Lisboa, 12 de Setembro [1964] – Regressou de Moçambique e de Angola Gilpatric. Resumo do que afirmou: sentia-se altamente impressionado; Portugal estava a construir sociedades civilizadas; era elevado o calibre da administração; era elevado o moral das tropas; verificou a grande competência dos técnicos; eram esplêndidos os oficiais da “intelligence”; excelente sistema de educação; boa rede de aeroportos; tremendo potencial económico de Angola, enquanto Moçambique é mais um território de trânsito; ordem pública era evidente; sentimento geral de contentamento, não obstante as críticas ao governo; sociedades abertas, apesar de cercadas de perigos; não teve a menor sensação de que estivesse numa sociedade policial; os cônsules americanos relatavam o que sabiam agradar ao Departamento de Estado, conforme comprovou pela leitura dos seus despachos; ficou muito impressionado com os dois cardeais portugueses, sendo Cerejeira mais filosófico e Costa Nunes mais missionário; há que estabelecer um cordão sanitário para defender toda a África meridional; e o general Andrade e Silva, comandante-chefe em Angola, havia-lhe dado a impressão de ser uma “tower of strength” e tinha-lhe afirmado que, se Salazar não seguisse a actual política ultramarina, a opinião pública impor-lha-ia» (41).









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Entretanto, nada disto tem sido objecto de digna consideração pela intelligensia instalada na comunicação social e no meio universitário em Portugal. Numa palavra, quase tudo se limita à rudeza duma austera, apagada e vil tristeza, para a qual também concorrem algumas das mais pomposas figuras do show business. Basta, aliás, relembrarmos aqui o caso do cómico alemão Herman José (42), por altura de um talk-show onde, efectivamente, contara com a ilustre presença do actor britânico Christopher Lee.

Ora, acontece que, discorrendo sobre Francisco Sacaramanga, o vilão do filme The Man with the Golden Gun (1974) - o nono da série James Bond e o segundo com Roger Moore no papel do agente 007 -, Christopher Lee, subitamente interrompido pelo cómico alemão que lhe apontara o facto de, a propósito de vilões, ter ele, Christopher Lee, conhecido Salazar, solenemente declarara, após alguma surpresa perante tão ligeira e descabida interpelação, que, sim, lhe tinha sido apresentado uma vez e que, além do mais, se tratava de um homem extraordinário e, inclusive, um dos maiores enigmas da História. De resto, num sentido igualmente afim, não fora por acaso que George Ball, uma figura representativa do governo americano, pudera reconhecer no estadista português «um homem com encanto e urbanidade, muito rápido mentalmente e lúcido, extremamente conservador, profundamente absorvido por uma dimensão do tempo muito diversa da nossa, transmitindo uma forte impressão de que ele e todo o seu país estão vivendo em mais de um século, como se o Príncipe Henrique o Navegador, Vasco da Gama e Magalhães fossem ainda agentes activos na formulação da política portuguesa» (43). Em suma: para Oliveira Salazar, tratava-se de reintegrar Portugal na melhor tradição histórica politicamente independente.


Notas:

(1) Cf. Frederick W. Winterbotham, The Ultra Secret, London, Weidenfeld and Nicolson, 1974. Na verdade, foram positivos os resultados obtidos pelo sistema Ultra na Segunda Guerra Mundial, especialmente no contexto da batalha do Atlântico contra os submarinos alemães (1942-43), bem como no âmbito da resposta britânica frente ao Africakorps, em El-Alamein, no Verão de 1942, ou até mesmo aquando da quebra da contra-ofensiva germânica em Mortain, na Normandia, em Agosto de 1944.

(2) Em 1941, as equipas de Bletchley Park decifraram o código da Marinha de Guerra Alemã (Kriegsmarine), e na Primavera de 1942 decifraram o código das Forças Armadas do Terceiro Reich (Wehrmacht). Por seu turno, já em 1940, os alemães tinham decifrado, por via do serviço de informação do Exército Alemão (Abwehr), o código da Royal Navy, além do da Marinha Mercante Inglesa que seria lido, pelos serviços de Berlim, até 1943.

(3) É sabido que o MI5, ou Military Intelligence 5, vocacionado para a contra-espionagem, operava em território britânico, ao passo que o MI6, ou Military Intelligence 6, também conhecido por Secret Intelligence Service (SIS), operava no estrangeiro. Demais, o MI6 criara o double cross system para facilitar a captura de agentes secretos alemães, na base do qual se destacara, entre 1940 e 1944, o operacional jugoslavo Dusko Popov (“Triciclo”), posto que transmitira aos ingleses informações sobre o ataque japonês a Pearl Harbor (1941), além do projectado rapto, pela Gestapo, do Duque de Windsor em Portugal. “Operation Willi” fora, pois, o nome de código alemão de um plano que não chegou a concretizar-se, uma vez que Edward se opusera ao plano nazi que preconizava um acordo de paz com a Grã-Bretanha, assim como a subsequente restauração do trono inglês após completa vitória germânica. Porém, ainda antes de partir para as Bahamas na qualidade de governador, Edward permaneceria, entre Junho e Outubro de 1940, no Estoril, mais particularmente na casa do banqueiro Ricardo Espírito Santo.

(4) Enquanto operava em Portugal com a ajuda do Consulado da Grã-Bretanha, o MI9, ou Military Intelligence 9, organizou fugas de prisioneiros e militares aliados dos países ocupados pelo Eixo, mantendo linhas de entrada e de saída clandestina, por via de Gibraltar e de Lisboa, a caminho de Londres.





(5) O SOE, criado por Neville Chamberlain, era dirigido, em Portugal, por Jack Grosvenor Beevor, adido militar da Embaixada Britânica em Lisboa. Em 1941, este serviço de informação, especializado em acções de propaganda nos países do Eixo e de sabotagem na Europa ocupada, chegou a organizar, com o apoio de elementos portugueses, «um movimento de resistência contra uma eventual invasão alemã de Portugal, através da rede “Shell”, assim chamada, por ser dirigida por Cecil Rogerson, vice-cônsul britânico e delegado dessa empresa petrolífera no Porto, bem como constituída por outros empregados nessa firma holandesa. Avisada pela polícia espanhola, que, por seu turno, soubera da existência da rede através dos serviços secretos alemães, a PVDE [Polícia de Vigilância e Defesa do Estado] desmantelou e prendeu, entre Setembro de 1941 e Maio de 1942, cerca de setenta e cinco pessoas» (cf. Irene Flunser Pimentel, «Lisboa, Capital Europeia da Espionagem» in Os Anos de Salazar, Centro Editor PDA, 2008, Vol. 6, p. 29).

(6) T. E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria, Publicações Europa-América, 3.ª edição, p. 199.

(7) «Ponto neutral de encontro, posição geográfica aberta a todos os beligerantes e porta para todos os continentes, Lisboa transforma-se em centro de informações para ingleses, italianos, alemães e americanos, e todos procuram seguir as actividades dos demais, além de tentarem infiltrar círculos portugueses, e influenciá-los. E intensifica-se em Portugal a propaganda das facções em luta. São subsidiados jornais com dinheiro estrangeiro, publicadas revistas para defender um bloco de beligerantes contra o outro, editados livros de defesa deste e de ataque àquele; e através da radiofonia, em emissões em língua portuguesa, os postos de Berlim, de Roma ou de Londres conduzem entre si uma guerra sem mercê para cativar os ouvintes portugueses» (in Franco Nogueira, Salazar, As grandes crises -1936-1945 -, Livraria Civilização Editora, 1983, pp. 332-333).

(8) «A secção III de contra-espionagem da Abwehr era, por seu turno, dirigida pelo capitão Fritz Kramer, nome que constou de uma lista de alemães suspeitos de espionagem, elaborada pela PVDE em 30 de Abril de 1945, onde ele era apresentado como “chefe da contra-espionagem alemã” em Portugal desde 27 de Novembro de 1940. Outro elemento suspeito incluído nessa mesma lista era Erich Emil Schroeder, oficial de ligação da Polícia Alemã (OLPA, Polizei Verbindungsführer), que terá provavelmente sido o elemento da Gestapo-Sicherheitsdienst (SD), em Portugal, sucedendo, em 1941, a Walter Schellenberg» (cf. Irene Flunser Pimentel, op. cit, p. 32).

(9) «Este Hotel de luxo, situado na Praça dos Restauradores, tinha mesmo no 4.º andar, um corredor que ligava directamente ao cais dos comboios da estação do Rossio para possibilitar a chegada incógnita (...) de personalidades importantes e espiões» (Flunser Pimentel, op. cit., p. 34).

(10) Neste ponto, é sabido que os três primeiros hotéis eram frequentados por alemães, ao passo que os dois últimos eram os preferidos dos Aliados. Aliás, é também certo que alguns refugiados gastaram as suas fortunas no Casino do Estoril antes de partirem para o exílio no outro lado do Atlântico. E não esqueçamos igualmente o caso de Ian Lancaster Fleming por ter passado pelos hotéis da Costa do Sol, assim como pelo Casino do Estoril enquanto operava para o Naval Intelligence Department. Daí, ademais, a inspiração subjacente ao título do seu primeiro livro sobre o agente secreto britânico James Bond, Casino Royale, publicado em 1953.

(11) Cf. Franco Nogueira, op. cit., pp. 398-400.

(12) De sua banda, sublinha Franco Nogueira: «(...) no final daquele ano [1941] Salazar sente-se céptico, desiludido. Desabafa com Monteiro: “Os factos da vida ensinaram-me a descrer dos ricos, dos poderosos e dos grandes”. Não descrê, todavia, do país e do imperativo de o transformar. Todos os portugueses, comenta Salazar, foram educados na tese de que a independência e integridade de Portugal são dádiva gratuita da Inglaterra, porque o país não teria condições de vida livre. “Ainda que esta doutrina fosse tese histórica inegável, deveríamos considerá-la politicamente errada. A verdade política deve reivindicar para a Nação a base suficiente de independência efectiva”. Mais: “sei que a doutrina que defendo não conquistou ainda toda a massa de Portugal. Parte importante confunde ainda consciência nacional e interesse nacional com servilismo pró-britânico”» (op. cit., p. 368).






(13) Convém recordar, na esteira de Franco Nogueira, parte da entrevista em que Salazar recebe Campbell a 4 de Março de 1942: «(...) Salazar alude a um aspecto do plano de evacuação: o das destruições a fazer no continente, no caso de invasão por forças hostis. Ora a polícia portuguesa, diz Salazar a Campbell, descobrira uma organização secreta, dirigida e financiada por ingleses, que se propunha também fazer aquelas destruições, mas em bases mais extensas do que as do plano oficial. “Era inútil sublinhar que o governo português não estava disposto a trabalhar em tais termos; era preciso que o governo inglês acabasse por escolher entre o governo português e a actividade secreta conduzida por ingleses conchavados com alguns portugueses”. E acentua o chefe do governo: “no caso de o governo inglês preferir a actividade dos seus organismos secretos, o governo português recusa-se a mais negociações do género com o governo britânico; e este apenas contará com as suas forças ocultas, é evidente, só enquanto a polícia não conseguir desmanchar as suas maquinações”. Campbell reconhece a existência da organização secreta; mas afirma que já dissera para Londres dever a mesma ser desmantelada. Salazar não comenta» (Franco Nogueira, op. cit., p. 378).

(14) É também curioso verificar que, após a Conferência de Casablanca (1943), no decorrer da qual Churchill e Roosevelt discutiram o uso dos Açores, teria sido sugerido a Getúlio Vargas, por parte do presidente norte-americano, a ocupação do arquipélago dos Açores por tropas brasileiras.

(15) No que concerne ao apelo de Londres, Franco Nogueira sintetiza aqui o essencial: «Salazar compreende desde logo que a decisão é da mais alta gravidade para os destinos portugueses. É singelo o dilema: negar o pedido ou anuir. Negar o pedido significa o choque com a Grã-Bretanha e, dada a situação de guerra e de aliança, com os Estados Unidos também. Esse choque é inevitavelmente de natureza militar. Dada a evolução favorável que a luta está tendo para o Reino Unido, os meios acrescidos de que este dispõe, e o complexo de vitória que Londres sente, um ataque inglês aos Açores tinha de ser havido como certo. Poderiam as forças portuguesas oferecer resistência: mas esta seria necessariamente limitada. Para mais, dada a ambição americana sobre os Açores, e deixando a Inglaterra de poder ser utilizada para deter aquela, seria provável que o arquipélago, além de atacado por forças britânicas, o fosse igualmente por forças americanas. Era a tomada de todas as ilhas. Criado assim um verdadeiro estado de guerra, caíam todas as inibições morais ou legais de parte de outros aliados da Grã-Bretanha: os Estados Unidos considerar-se-iam livres de ocupar Cabo Verde; o Brasil, agora na guerra também, ter-se-ia por hostilizado e alguns círculos brasileiros mal escondiam ambições sobre Cabo Verde igualmente; a União da África do Sul, sempre sôfrega do Sul de Moçambique, encontraria pretexto para uma ocupação que a vitória final consagraria; em favor da Austrália ou dos Estados Unidos, seria a perda definitiva de Timor. Recusar o pedido inglês, neste momento da guerra, e resistir militarmente, significaria portanto a destruição da aliança, implicaria o desaparecimento do império português. Para se opor a todos estes riscos, não poderia confiar no auxílio alemão: nem este se encontrava na linha da história portuguesa, nem a Alemanha está actualmente em posição de socorrer Portugal ainda que o desejasse, nem tão-pouco essa ajuda evitaria no futuro o ajuste de contas que resultaria da vitória aliada. Impunha-se por consequência outra alternativa. Deferir o pedido inglês era, antes de mais, cumprir os termos da aliança: esta encontra-se em vigor, fora solenemente reafirmada por ambas as partes desde o início da guerra. Tratava-se assim de cumprir um instrumento jurídico, de respeitar e honrar a palavra de um país e de um governo. E no plano político e militar, pela própria anuência do pedido, limitava a amplitude deste, e ao restringir as cedências que houvessem de ser feitas poderia noutros terrenos obter contrapartidas. Pela negociação em si mesma, circunscrevia-se a zona de utilização aliada; e feito isso estava automaticamente garantida a segurança dos demais territórios, uma vez que os Estados Unidos, a União da África do Sul, o Brasil, não possuíam já o pretexto para intervir em outras posições portuguesas, além de que se tornava politicamente impossível agredir quem acabava de prestar à causa aliada um serviço e um favor reputados, por aqueles mesmos que os solicitavam, como excepcionais. Mas Salazar vê mais: vê na satisfação do pedido britânico a solução do caso de Timor. Dado o interesse premente que Londres liga ao uso dos Açores, haveria de procurar um quadro político que o facilitasse, e neste era essencial sustar as ambições australianas sobre Timor e assim dissipar qualquer preocupação: deveria ser possível obter do governo da Austrália uma garantia semelhante à que fora conseguida da União da África do Sul. Dois outros pontos, todavia, eram importantes, e haviam sido abordados na conversa com Campbell: a reacção espanhola, a reacção alemã. Madrid sempre se mostrara muito sensível a qualquer intervenção inglesa em Portugal, e simples rumores nesse sentido, nos inícios da guerra, e quando eram poderosas as forças germânicas nos Pirenéus, quase haviam levado à mobilização geral espanhola; mas a situação é outra neste momento; além do tratado luso-espanhol, existe um clima de confiança; e, com o tacto conveniente, parecia improvável qualquer reacção espanhola. Pelo que respeita à Alemanha, dada a situação militar difícil que enfrentava, não era de esperar que declarasse guerra a Portugal; poderia lançar ataques contra posições portuguesas; mas esse era um risco inerente que o auxílio aliado, em contrapartida do uso dos Açores, poderia minimizar. Nestas bases, Salazar toma a sua decisão. Discute o problema, no entanto, com Santos Costa, Ortins de Bettencourt, e avista-se com Carmona; e debate com Teixeira de Sampaio o curso possível das negociações.






Em 23 de Junho de 1943, Sampaio convoca o embaixador inglês, e transmite-lhe a resposta do governo de Lisboa: este dá a sua “anuência de princípio” ao pedido britânico. E Sampaio entrega a Campbell uma nota assinada por Salazar. Depois de aludir à diligência feita cinco dias antes, Salazar enquadra esta na revisão do plano de emergência anglo-lusa, que sugerira na sua conversa do dia 8 com o enviado britânico, e considera que o pedido agora feito “é um novo e importantíssimo elemento a acrescentar ao exame em conjunto da posição de Portugal em determinadas eventualidades, como aliado da Inglaterra”. No começo da guerra declara-se neutral o governo português, por ser essa a atitude consentânea com os interesses da nação; mas sempre condicionara aquela a eventuais necessidades da aliança luso-britânica. “Sem discutir no momento se o auxílio solicitado, nas condições presentes, se contém precisamente entre as obrigações da aliança, o governo Português, ponderando o estado de necessidade invocado pelo governo de Sua Majestade e consciente do alto serviço que pode por essa forma prestar-lhe, vem declarar a sua anuência de princípio, para o efeito de se poderem examinar e assentar por mútuo acordo, nas aludidas negociações gerais, as condições em que tais facilidades serão concedidas e de modo especial as providências a tomar para fazer face às consequências eventualmente delas resultantes”. Podendo essas consequências ser da maior gravidade “para Portugal e a vida do seu povo”, o uso efectivo das facilidades concedidas fica naturalmente subordinado, como será aliás pensamento de Londres, ao exame prévio dos aspectos políticos, militares e económicos que a questão comporta. Desde já ressalva o governo português as obrigações emergentes do Tratado e do Protocolo assinados com a Espanha em 1939 e 1940: e tomando nota das garantias oferecidas quanto à soberania portuguesa, em nome dos governos de Londres e de Pretória, e à retirada das forças britânicas, logo que findas as hostilidades, estimaria receber igual segurança por parte dos governos dos Estados Unidos, já anunciada, e da Austrália também. E ao entregar esta nota Sampaio afirma a Campbell, com tom severo, que prevê grandes dificuldades nas negociações que vão principiar» (Franco Nogueira, op. cit., pp. 439-442).

(16) Cf. Franco Nogueira, op. cit, pp. 448-449.

(17) Neste contexto, convém notar que o bloqueio inglês, a fim de pressionar o governo de Lisboa na questão do volfrâmio, contribuíra, de facto, para o desequilíbrio da economia portuguesa da época, mormente no que toca à escassez dos bens de consumo, e, como tal, na subida dos preços e no consequente declínio do nível de vida. Porém, o chefe do governo português lá ia abrindo prudentemente o seu próprio caminho, pois dispunha do facto de o governo de Sua Majestade ter necessidade de adquirir em Portugal vastas quantidades de abastecimentos vitais, o que estivera, aliás, na origem de uma dívida que chegara a ultrapassar os vinte milhões de libras. Demais, era igualmente o chefe do governo português que dispensava à Inglaterra o uso vantajoso de portos portugueses por navios mercantes e militares britânicos.

(18) «Eram com efeito muitos milhares os portugueses empregados nas minas, e que seriam lançados ao desemprego se aquelas cessassem a sua exploração. A compra de toda a produção pela Inglaterra não resolveria o problema, porque as aquisições desta eram feitas a crédito» (Franco Nogueira, op. cit., p. 517).

(19) Aliás, na fórmula encontrada por Salazar para ir ao encontro dos interesses britânicos, pesava, a seu ver, «um argumento técnico e factual: os ingleses haviam dito que as necessidades alemãs em volfrâmio oscilavam entre 6000 a 10 000 toneladas; Portugal fornecera àquele país, em 1942-43, 37% do volfrâmio extraído nas minas portuguesas, e em 1943-44 apenas 25%. Estes 25% representam portanto a quarta parte do que os peritos ingleses consideram ser as necessidades germânicas» (cf. Franco Nogueira, op. cit., p. 509). No mais, interessa ainda registar os seguintes números que Palmela dá a Anthony Eden: «em 1942-43, os aliados receberam 3 184 toneladas de volfrâmio e a Alemanha 1 900: em 1943-44, os aliados receberam 4 660 contra 1 555 para a Alemanha» (Franco Nogueira, op. cit, p. 511).

(20) Oliveira Salazar propusera, pois, «uma de três soluções: encerramento das minas portuguesas, e portanto livres, ficando somente abertas à exploração as que sejam propriedade inglesa, alemã ou americana; manutenção das minas livres apenas, e atribuir toda a sua produção à Inglaterra e aos Estados Unidos; continuar com a exploração de todas as minas, mas armazenar em Portugal o produto das minas livres, e vendê-lo depois da guerra ao Reino Unido e à América. Qualquer das três soluções teria por consequência reduzir de 1550 para 900 ou mesmo 700 toneladas os fornecimentos de volfrâmio à Alemanha» (Cf. Franco Nogueira, op. cit., p. 521).

(21) «Como curiosidade pitoresca: no auge da crise, um departamento inglês repara que algumas partidas de sardinhas portuguesas seguem para a Alemanha. Dentro da rotina, subalternos do Foreign Office levantam o problema para a embaixada em Lisboa. Campbell protesta, telegrafa: “Por amor de Deus, não misturem sardinhas com volfrâmio!”» (in Franco Nogueira, op. cit., p. 539).


(22) Contudo, neste caso particular, Salazar, profundamente agastado com a posição de força do governo britânico, formulara a Campbell as suas reservas quanto à propriedade da invocação da Aliança. Além disso, o embargo total seria não só aplicado à Alemanha mas também a todos os beligerantes, para assim não haver quebra da neutralidade portuguesa.

(23) Cf. Franco Nogueira, op. cit., pp. 538-539.

(24) É ainda significativo verificar, quanto ao perigo comunista no Ocidente: «Confrontado com a propaganda comunista, o Ocidente deu durante muito tempo provas de uma cegueira excepcional, mantida simultaneamente pela ingenuidade face a um sistema particularmente retorcido, pelo receio do poder soviético e pelo cinismo dos políticos e dos grandes “homens de negócios”. A cegueira esteve presente no encontro de Ialta, quando Roosevelt entregou a Europa Oriental a Estaline contra a promessa, redigida em boa e devida forma, de que este organizaria o mais rapidamente possível eleições livres. O realismo e a resignação estavam presentes no encontro de Moscovo, quando, em Dezembro de 1944, o general de Gaulle trocou o abandono da infeliz Polónia a Moloch pela garantia de paz social e política, dada por um Maurice Thorez de regresso a Paris» (in O Livro Negro do Comunismo, Quetzal Editores, 1998, p. 37).

(25) Criou-se posteriormente a ideia de que o Pacto Peninsular resultara de afinidade ideológica entre os regimes de Portugal e Espanha, e representaria como que um conluio pessoal entre Franco e Salazar. Nada há de menor fundamento. A iniciativa pertenceu a Franco, e da parte de Salazar foi um frio acto político, que praticou quando julgou conveniente para os interesses portugueses.

(26) Franco Nogueira, op. cit., pp. 586-589.

(27) «Nada irritou mais Salazar do que a protecção americana à UPA, embora Holden Roberto recebesse também ajuda financeira de países africanos. (...) O Departamento de Estado, respondendo em 23 de Maio a uma pergunta do embaixador americano em Paris, negou a existência de ajuda americana à UPA, admitindo embora que organizações privadas dos Estados Unidos “talvez tenham contribuído”. A ajuda logística e financeira da CIA era canalizada sobretudo através da embaixada americana em Léopoldville. Segundo Franco Nogueira, o Governo conseguiu obter dois documentos: a acta de um protocolo entre o encarregado de negócios em Léopoldville e Holden Roberto, onde se discriminavam subsídios e fornecimento de armas; e um passaporte emitido pelo Ministério do Interior da Tunísia a favor de Joe Gilmore, criptónimo de Holden Roberto. Salazar ficou radiante com o achado: “Guardamo-los como se de nada soubéssemos, para os usarmos na altura própria. Que bela coisa!”» (in José Freire Antunes, Kennedy e Salazar. O leão e a raposa, Difusão Cultural, 1991, pp. 238-239).

(28) Memorandum for the President, July 21, 1961. From Maxwell D. Taylor. Subject: “Angolese Students in France and Switzerland”. National Security Files. SECRET. John F. Kennedy Library (Columbia Point, Boston, Massachusetts).

(29) Memorandum for the President from Maxwell D. Taylor.

(30) Operations Center NSAM 60; Mahoney, JFK, p. 205.

(31) Department of State Memorandum NSAM 60.








(32) Lourenço Marques 22. From American Consul to Department of State. August 8, 1961. Subject: “Mozambique Policy Consideration in Light of Lagos Conference”. SECRET. National Archives (Washington DC).

(33) Lisbon 67. Kwame Nkrumah (1909-1972) estudou nos Estados Unidos (Lincoln College). Presidente da República do Gana de 1960 até 1966, foi então deposto por um golpe militar. Morreu em Bucareste.

(34) José Freire Antunes, op. cit., pp. 264-265.

(35) Esta proposta de desarmamento fora delineada sob o título Freedom From War: The United States Program for General and Complete Disarmament in a Peaceful World (Department of State Publication 7277). Em 1962, seria ainda descrita com mais detalhe num documento intitulado Blueprint for the Peace Race.

(36) Cf. Franco Nogueira, Um Político Confessa-se (Diário: 1960-1968), Civilização Editora, 1986, p. 78.

(37) A 18 de Outubro de 1962, já Franco Nogueira, em Nova Iorque, pudera deparar com um diagnóstico muito acertado acerca da política americana: «À noite, grande jantar no Waldorf Astoria, para duas mil e quinhentas pessoas, oferecido pela Câmara do Comércio de Nova Iorque. Estava a alta-roda da cidade e da ONU. Gostei de falar com o velho Bernard Baruch. Com o seu metro e oitenta ou noventa, e do alto dos seus noventa e um anos, mantém toda a vivacidade de espírito. A política portuguesa? Está certa, está correcta, e deve ser mantida para bem de Portugal e do Ocidente; e Portugal não está sendo tratado com “fair deal”. Política americana? Bem: “trata-se hoje de um caso em que os doidos se apoderaram da administração do hospital”» (in Um Político Confessa-se, Diário: 1960-1968, p. 43).

(38) William Manchester, One Brief Shining Moment (London, Michael Joseph, 1983), p. 39. Manchester foi durante muitos anos um amigo de Kennedy.

(39) Schlesinger, Robert Kennedy and His Times, pp. 500-501.

(40) Cf. José Freire Antunes, op. cit., p. 169.

(41) Franco Nogueira, Um Político Confessa-se (Diário: 1960-1968), pp. 98-99.

(42) Sem embargo de ter nascido e vivido em Portugal durante toda a sua vida, Herman José, de seu nome artístico Hermann Joseph Krippahl, sempre acabou por, uma vez chegado à “maioridade”, optar pela nacionalidade alemã para fugir à Guerra do Ultramar. É, pelo menos em parte, o que ele implicitamente nos sugere numa entrevista publicada no Jornal das Autarquias:

«(...) J.A. - Sei que nasceu na Alemanha. O nascimento nesse país teve influências positivas quer a nível pessoal quer a nível profissional? 

H.J. - Lamento desmentir-vos mais uma vez... Nasci em Lisboa, na já extinta Clínica Bensaúde, às 21 horas do dia 19 de Março de 1954. Optei em 1972 pela nacionalidade alemã, já que sou filho de um cidadão alemão. Tinha projectos de pedir a minha nacionalidade portuguesa quando apagasse as cinquenta velas, mas, é justamente nesse ano, que descubro com espanto que vivia numa democracia disfuncional, onde, um estado dentro do Estado, dispõe a seu bel-prazer dos cidadãos de discurso mais "incómodo" que o critique e o ponha em causa. O orgulho no meu passaporte alemão consolidou-se, e só considero pedir a nacionalidade portuguesa, quando tiver provas de que Portugal é um Estado de Direito pleno. O governo Sócrates tem feito algum esforço nesse sentido, mas há um longo caminho pela frente. Salazar deixou uma herança muito bem estruturada e difícil de desmontar».

(43) Franco Nogueira, Salazar, V, A Resistência (1958-1964), pp. 516-517.







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